“Chegaremos ao ano eleitoral com o quadro totalmente indefinido”

Cientista político da UFG vê Lula e Bolsonaro como nomes mais viáveis no momento, mas a condenação do petista e um nome mais moderado à direita podem mudar completamente o cenário

A agenda de esquerda, progressista, funciona em termos retóricos e Lula é muito habilidoso nisso. mas, na prática, em um eventual novo governo dele, podemos esperar algo muito parecido com seus mandatos anteriores” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Lula (PT), à frente, e Bolsonaro (PSC) são os pré-candidatos com maior viabilidade eleitoral no momento, segundo todas as pesquisas de intenção de voto, mas ambos contam com fatores que podem deixá-los longe do objetivo: o petista será julgado em grau de recurso em janeiro e, se condenado, fica inelegível; Jair Bolsonaro se constrói com um público de direita que é maior do que o número de reais adeptos de seu extremismo. Nessas brechas podem se construir outros nomes. É o que pensa o professor Robert Bonifácio, da Faculdade de Ciências Sociais (FCS) da Universidade Federal de Goiás (UFG), que considera, por exemplo, Geraldo Alckmin como destino de grande parte do eleitorado de Bolsonaro, ainda no primeiro turno.

Cientista social formado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também fez mestrado em Ciência Política, o professor Robert Bonifácio fez doutorado e pós-doutorado na mesma área, mas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tornou-se professor da UFG no ano passado e atualmente é coordenador do curso de Bacharelado em Políticas Públicas, na FCS. Especializou-se em comportamento político, comportamento eleitoral, legitimidade democrática e corrupção, estudando os efeitos desta no comportamento político dos cidadãos.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, o professor e pesquisador fala ainda sobre o projeto Politizar, uma extensão da UFG em parceria com a Assembleia Legislativa e que leva alunos da universidade e de outras instituições de ensino a simularem uma casa parlamentar, com partidos, debates em plenário e apresentação de propostas de lei. Outros temas são o surgimento de movimentos políticos com o protagonismo jovem – casos do MBL e do Acredito –, o voto facultativo (“sou contra”, diz ele) e o uso das redes sociais nas campanhas.

Elder Dias – A conjuntura nacional mostra um cenário muito instável atingindo os três Poderes. O Brasil não está caminhando em um terreno muito perigoso, pelo que temos visto nos últimos quatro anos?

É uma pergunta difícil. Por um lado, há motivos para ter uma visão extremamente negativa do quadro atual, com um presidente do qual se pode, pelo menos, duvidar da legitimidade em sua ascensão ao poder. Esse mesmo presidente tem apenas 3% de avaliação “boa” ou “ótima” de seu governo, o menor patamar de todos os tempos para o cargo em uma pesquisa assim. Ou seja, não tem qualquer base popular, assim como não têm apoio popular as reformas que ele busca implementar. A maioria da população é contra as reformas e as pesquisas de opinião mostram isso. Além disso, está cercado por políticos investigados em muitos processos, por corrupção.

Já o Judiciário, seja tomando decisões populares ou impopulares, tem um protagonismo exacerbado e está estendendo seus tentáculos para atribuições que são do Legislativo – é verdade que mais por conta de uma inação deste Poder do que necessariamente por um desejo de poder desenfreado dos magistrados. De qualquer forma, chegamos a um ano eleitoral com um quadro totalmente indefinido.

Cezar Santos – Diz-se que as instituições estão funcionando. Estão mesmo funcionando, e funcionando a contento?

As instituições funcionam. Se tomar o que ocorreu na transição desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT) até o momento atual, no governo de Michel Temer (PMDB), se verá as mesmas caras e não se verá nenhum órgão máximo criado ou modificado radicalmente. Ou seja, em termos estruturais, considero que se manteve a mesma coisa. Tivemos, sim, uma paralisia decisória no segundo mandato de Dilma, o que não temos agora. Ou seja, se temos um presidente extremamente impopular, há também um presidente extremamente eficaz em aprovar o que deseja – sem entrar no mérito do que está aprovando e de como está aprovando.

Até o momento, estima-se que o custo para evitar a perda do cargo de presidente por duas vezes e para aprovar as reformas chegou a R$ 30 bilhões. É muito alto, mas não se pode negar, sem entrar no mérito, repito, que seja eficaz para chegar ao objetivo: é um governo que aprova suas pautas mais do que é rechaçado pelo Congresso.

Ou seja, em seu aspecto formal, estrutural, as instituições funcionam. Mas tem também o aspecto substantivo: as políticas públicas estão sendo feitas? O que deu certo nos governos anteriores está sendo mantido ou até ampliado? O que está sendo construído para acabar com a desigualdade social, que é o maior problema do País? As reformas beneficiam a quem, a grande parte da população, aos mais abastados ou os que mais necessitam? Para essas questões, eu vejo respostas negativas. Mas, enfim, não vejo nenhuma crise institucional; o que há, apenas, é esse entrave entre Judiciário e Legislativo. No mais, não acho que tenha um déficit estrutural ou institucional no Brasil

Marcelo Mariano – O sr. acredita que haja, em 2018, algum candidato com a cara do governo Temer que tenha potencial para ser eleito presidente, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD)?

Eu duvidaria muito. O governo Temer é muito impopular. Eu poderia afirmar que, se houvesse um candidato do governo, ele não seria eleito hoje. Entretanto, se a economia melhorar – o que não acredito que vá acontecer…

Cezar Santos – Mas já não está melhorando?

Em algumas questões, sim. A inflação está controlada; o índice de desemprego parou de crescer; o PIB teve uma reação muito tímida. Não são reações que possam entusiasmar a população a votar no candidato governista, ao contrário do que houve em 1994 com Fernando Henrique Cardoso (PSDB), com o Plano Real. Ali, sim, tivemos uma mudança estrutural na economia, para melhor, o que o fez, como candidato do governo, ser eleito facilmente.
Duvido que tenhamos uma pujança econômica até meados de 2018. É um curto espaço de tempo. Por isso, duvido que haja um candidato do governo Temer. Porém, alguns partidos e pessoas terão de responder politicamente como seus representantes, como o PSDB, que é base do governo. Então, se houver um candidato a presidente do PSDB, ele terá de responder pelo fato de ter sido, durante mais de um ano e meio, base de um governo aprovado apenas por 3% da população.

Marcelo Mariano – O presidenciável Ciro Gomes (PDT) diz que, se eleito, será a primeira vez na história do Brasil que o PMDB será oposição. Mas é possível governar sem o PMDB?

É possível na base formal de governo, ou seja, sem ter o PMDB na coalizão, desde que se tenha o apoio pontual de boa parte do partido para suas propostas. É até uma estratégia interessante: ao invés de criar uma coalizão muito ampla, como fez Lula (PT) – campeão tanto em quantidade de partidos como em pluralidade ideológica e programática –, ter uma aliança mais enxuta e negociar pontualmente nas propostas principais no Congresso, seja liberando emendas ou cargos no segundo e no terceiro escalão. Ou seja, dá para dispensar o PMDB da coalizão formal, mas não do voto.

Cezar Santos – Modificando um pouco a pergunta: é possível ao PMDB deixar um governo governar sem ele?

() É difícil, o PMDB tem muito apetite. Desde a redemocratização, o PMDB dá um jeito de ficar com todos os partidos que vencem. Se fosse para personificar o partido, eu miraria o senador Romero Jucá (PMDB-RR): líder dos governos de Fernando Henrique, Lula e Dilma, virou também ministro [do Planejamento] do governo Temer, ainda que por pouco tempo. Aconteça o que acontecer, após 2018 o PMDB vai continuar sendo um dos três principais partidos do Brasil. Como eu disse, se não tiver pelo menos de boa parte de seus parlamentares, é impossível governar.

Marcelo Mariano – Até por ter tantos parlamentares e governadores, é difícil imaginar algum candidato excluindo o PMDB da chapa. O sr. disse que o PMDB não terá força para ter o candidato eleito dentro de seu partido, mas um candidato como Ge­ral­do Alckmin (PSDB) conseguiria recusar conceder o lugar do vice ao PMDB numa composição?

Recusar o PMDB seria recusar também um tempo valiosíssimo de TV e rádio na propaganda eleitoral, além de atração de recursos por meio de suas lideranças – a gente viu o montante, lícito ou ilícito, que conseguem amealhar. Por tudo isso, é muito difícil recusar o apoio do PMDB. Porém, tudo depende também de estratégia eleitoral. Para Ciro Gomes, faz sentido, neste momento e se ele se tornar de fato candidato, recusar qualquer o apoio de caciques ou qualquer apoio formal do PMDB, porque a moeda política dele é de oposição ao atual governo. Ciro se coloca como uma tentativa de se lançar um candidato de centro-esquerda, talvez já vislumbrando a impossibilidade de Lula ser candidato. Para Ciro, é válido; mas para quem está no stablishment é muito difícil dispensar o PMDB.

Elder Dias – Uma crítica procedente que se faz a Lula, tanto pela esquerda como pela direita, é de que ele se vendeu para conseguir essa base ampla, incluindo o PMDB. A ideia é de que, com tanta popularidade, ele poderia abrir mão da “banda podre” do partido, isolando os coronéis e caciques. Mas o que ele fez foi justamente o contrário: buscou trazer para bem perto de si figuras como José Sarney, Renan Calheiros e outros. Mais do que isso, como pré-candidato agora, ele mostra que quer ser reincidente, buscando novamente figuras desse tipo para conversar. Não é um tiro no pé na atual conjuntura?

Interessante, a pergunta, porque um dos cabeças do movimento que culminou com o impeachment de Dilma foi Eduardo Cunha [então deputado do PMDB e presidente da Câmara, hoje preso em Curitiba], fato que é tratado pelo PT como golpe. E, ao mesmo tempo, se vê conversas do próprio Lula em busca de alianças com o PMDB, seja em nível estadual ou nacional.

Cezar Santos – Ou seja, o golpe deixou de ser golpe.

Seria se aliar ao partido responsável pelo golpe que o partido denuncia contra si. Porém, é preciso fazer uma reflexão sobre quanto, de fato, Lula e o PT representam uma agenda esquerdista no Brasil. O filósofo Wladimir Safatle, da USP [Universidade de São Paulo] – cuja família é de Catalão, inclusive –, escreveu um texto chamado em que fala sobre a “estação das cerejas vermelhas [“Esquerda Sazonal”, publicado na “Folha de S. Paulo” em 16/09/2014”], sobre o comportamento do PT nas campanhas e no governo. A “estação das cerejas vermelhas” seria o período de campanha, com o discurso de igualdade e justiça social; quando entra no governo, aí aparecem Sarney, Calheiros e outros como principais aliados. Ao longo dos anos, vejo um movimento de Lula e PT muito para o centro e a aliança com o PMDB é uma ilustração disso. A agenda de esquerda, progressista, funciona em termos retóricos e Lula é muito habilidoso nisso, mas, na prática, em um eventual novo governo dele, podemos esperar algo muito parecido com seus mandatos anteriores: certamente uma preocupação maior do que Temer tem com políticas sociais, mas ao mesmo tempo beijando a mão das oligarquias. Ele não dá qualquer sinal contrário a isso.

Cezar Santos – Uma de suas especialidades é o comportamento político. O sr. teria como fazer uma análise assim sobre Jair Bolsonaro [PSC-RJ, pré-candidato à Presidência]?

Bolsonaro se coloca como salvador da pátria, tal qual Lula. Ambos têm bandeiras diferentes: um é candidato da extrema-direita, com valores conservadores, fundamentalista e preconceituosos; outro é carismático, com viés esquerdista, bom de discurso e retórica. O interessante é que as duas opções são as mais viáveis eleitoralmente no momento.
Em algumas pesquisas, tentei entender a base eleitoral de Bolsonaro. Identifiquei os mais jovens; as poucas pessoas que avaliam positivamente o governo Temer, os que confiam em instituições militarizadas; e pessoas que não gostam de partidos ou não gostam de partidos de esquerda. Há de se ver quem vai apoiar sua candidatura. Tendo a apostar que, com uma candidatura de direita conservadora mais moderada, como Geraldo Alckmin, boa parte dos votos de Bolsonaro migraram para ela.

Elder Dias – Ainda no primeiro turno?

Sim. Estamos vivendo uma onda conservadora desde 2014, isso é fato. Algumas pessoas estão se aproveitando eleitoralmente disso. Em Goiás, talvez o político que mais se aproveitou disso foi Ronaldo Caiado (DEM). Bolso­naro é o grande representante nacionalista radical dessa onda.

Elder Dias – E do outro lado, na esquerda, vai ter disputa de votos?

É uma incógnita. Lula é fortíssimo. Se for candidato não consigo vislumbrar segundo turno sem ele, quando seriam todos contra Lula. Se não conseguir ser candidato, Ciro Gomes aparece, está tentando construir sua candidatura. O PSOL também deve lançar candidato, mas sem chances de ser eleito.

Cezar Santos – Pelo que o sr. diz, fica parecendo que Lula não sofreu nenhum problema com a derrota político-eleitoral do PT em 2016. O capital político dele está incólume assim?

É preciso separar quem gosta de Lula e quem gosta do PT. Lula é um fenômeno eleitoral maior que o PT.

Elder Dias – Em uma hipótese maluca, se Lula saísse do PT e se candidatasse pelo DEM, teria votos para ser eleito?

Tem de relativizar isso, porque Lula tem muito voto e, eleitoralmente, é maior do que o PT. Mas o PT é o partido com que pessoas têm maior identificação no País. A quantidade de simpatizantes caiu nos últimos anos, mas está sendo retomada. O que não havia antes era a grande rejeição ao PT, o que explica muito a não reeleição de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Mas Lula saiu da Presidência quase como um semideus na opinião pública. Hoje está longe disso, mas tem um capital político muito relevante, o maior do Brasil no momento, sem dúvida.

Elder Dias – E o segundo maior capital político é o de Bolsonaro?

No momento, eleitoralmente falando, é o de Bolsonaro.

Marcelo Mariano – Entre Bolsonaro e Alckmin, o favorito é o segundo, em sua opinião?

Alckmin tem um perfil conservador moderado, já é governador de São Paulo há muito tempo e se se lançar candidato já tem uma estrutura muito forte apenas com seu partido. Tendo a acreditar que, se ele é o candidato do partido – e só consigo ver ele no PSDB –, vai disputar o mesmo perfil de eleitorado com Bolsonaro, moralista, conservador.

Cezar Santos – Como o sr. avalia o nome de Marina Silva (Rede), uma personagem que parece e some do cenário, como um espasmo?

Marina é uma alternativa viável. Em que pesem críticas a seu ativismo político e seus atributos pessoais, é preciso analisar que em 2010 e 2014, com pouca estrutura partidária e de campanha, teve 20% dos votos válidos. É um capital político relevante, ainda mais se contar que ela não aparece na mídia e está em 3º lugar nas pesquisas. Seu nome ganhará força especialmente se conseguir abocanhar um setor que goza de muito prestígio hoje na sociedade, que são atores do Judiciário. Se trouxer algum nome de peso desse Poder para sua chapa, ela tem força. Eu diria que há cinco nomes viáveis: Lula, Bolsonaro, Marina, Alckmin e Ciro.

Marcelo Mariano – O sr. é de Minas. Como está a situação do senador Aécio Neves (PSDB), que precisa manter o foro privilegiado para não ser preso?

As pesquisas de opinião o põem como candidato ao Senado. Ele está em 3º lugar – Dilma Rousseff lidera e Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José Alencar [vice nos dois mandatos de Lula]. Rodrigo Janot [ex-procurador-geral da República] é especulado também e aparece em 4º. O fato é que Aécio terá muita dificuldade para cargos executivos, como o Senado e o governo de Minas – o projeto de Presidência acabou. Para deputado federal certamente será eleito, já que tem o partido, a família, a base no interior.

Elder Dias – Nas pesquisas para o governo de Goiás, o nome de Ronaldo Caiado aparece na liderança. Isso pode indicar mesmo um favoritismo para a eleição?

Não vislumbro nada de novo para Goiás. No momento, há três opções possíveis para a eleição aqui: pelo DEM, Caiado; pelo PMDB, Daniel Vilela [deputado federal] ou seu pai, Maguito Vilela [ex-governador]; e o vice-governador José Eliton (PSDB), que tem pouca intenção de voto agora por um motivo básico, é pouco conhecido. O governo pode não gozar de muito prestígio no momento, mas, começando o período eleitoral, qualquer que seja o candidato da base, ele vai ter um acréscimo de votos. O que é preciso investigar é o quanto de votos Marconi Perillo consegue transferir de votação.

Caiado é certamente o candidato mais conhecido e é natural que tenha maior intenção de voto agora. O problema será conseguir ter estrutura de campanha.

Elder Dias – Estrutura de campanha é algo que o PMDB tem. Uma aliança do partido com Caiado – nem dá para falar em aliança PMDB-DEM, porque o DEM em Goiás é basicamente Ronaldo Caiado – é muito forte, não? O sr. vê chance de ocorrer de fato essa união, levando em conta que o PMDB nunca deixou de lançar candidato ao governo?

É uma aliança de peso e que traz uma polarização à eleição estadual. O problema é que Daniel Vilela é o 2º colocado nas pesquisas e com um lastro político considerável: o PMDB tem as prefeituras de Goiânia e de Aparecida, além das raízes dos Vilela em Jataí. A pergunta passa a ser: vale a pena dividir o osso ou tentar ficar com ele só para nós? Agora é difícil saber as motivações dos atores e difícil saber, dentro do PMDB, como está a configuração, se pró-Vilela ou pró-Caiado. Na capital, temos um prefeito, Iris Rezende (PMDB), que foi apoiado por Caiado em 2016 e tem a filha dele em um cargo de destaque [Anna Vitória Gomes Caiado, na Procuradoria-Geral do Muni­cípio]. Não dá para saber que força tem o grupo de Iris dentro do PMDB para, se for o caso, vencer o grupo dos Vilela e forçar o apoio a Caiado. O fato é que há espaço para os três principais candidatos ao governo.

Marcelo Mariano – E o vereador Jorge Kajuru (PRP), tem chance ao Senado?

Ele foi um dos vereadores bem mais votados proporcionalmente no Brasil, senão o mais. Nas pesquisas ao Senado está em 3º lugar, atrás de Marconi e Lúcia Vânia (PSB), com distância de margem de erro. O problema é a falta de estrutura partidária. A internet será importante para uma eventual candidatura para ele. Porém, politicamente, é uma opção interessante, porque, ao tentar a vaga de senador ele não perde o mandato na Câmara de Goiânia e se tornará muito mais conhecido dentro do Estado. Certamente, teria uma eleição tranquila para deputado federal, mas vejo mais fatores positivos que negativos em uma tentativa dele ao Senado.

Marcelo Mariano – Qual será a relevância das redes sociais em 2018? Algum candidato poderá ser eleito apenas dessa forma?

Para a eleição proporcional, creio que será possível. Mas minha visão é de que há uma supervalorização da internet. Basta dizer que apenas metade da população tem acesso à internet. É pouco, haja vista que 98,5% das pessoas veem televisão. Os spots de 30 segundos de propaganda eleitoral são o dia todo, na TV e no rádio, durante toda campanha. Mesmo se a pessoa estiver almoçando, escovando os dentes, à toa em casa, está sendo atingida por eles. Os estudos sobre os efeitos da internet no comportamento do eleitor ainda são prematuros, mas o que já se tem mostrado é que a rede serve mais para encastelar posições do que conquistar eleitores. A tônica em 2018 na internet será o fake news, que foi sucesso na campanha de Donald Trump nos Estados Unidos e virá com força para o Brasil.

Elder Dias – O “big data”, a quantidade de informação disponível que poucos podem comprar, serve para uma série de coisas, inclusive para “fake news”. No Brasil haverá alguém utilizando esse recurso nesse porte para o próximo ano eleitoral?

É algo que não se explicita, mas houve uma matéria da BBC recentemente, citando uma empresa, chamada Facemidia, indicando que ela faria esse tipo de campanha para alguns candidatos. Obviamente será um recurso utilizado. Aliás, o MBL [Movimento Brasil Livre] já faz isso. Sabemos que o movimento apoia João Doria [PSDB, prefeito de São Paulo] e ideologicamente está próximo de Bolsonaro. O MBL já faz deturpação de informações e transforma questões complexas em algo simplista. Ou seja, isso já é feito por uma agenda política específica.

Elder Dias – Como o sr. tem visto o surgimento de novos movimentos políticos, liderados por jovens, que buscam influenciar nas decisões nacionais e apoiar e lançar candidatos, como o Acredito e o Agora?

O advento desses movimentos vai em direção do que a teoria de comportamento político já falava: o crescente descontentamento com instituições representativas tradicionais e seus atores levaria a desconsiderar os partidos como referência na política, mas a ser mais ativo na política, de forma mais voluntária e menos convencional. Nessa seara surgem os movimentos, trazendo seus valores. MBL e Acredito estão em espectros diferentes em ideologia, mas nascem da mesma ideia de insatisfação. Até agora nenhum deles decidiram criar um partido – a base da própria crítica –, mas devem lançar seus candidatos, como o MBL já fez.

Marcelo Mariano – Que análise o sr. faz de ambos, MBL e Acredito?

O MBL nasceu com um discurso de direita liberal, mas foi se tornando conservador. Seus candidatos estão circunscritos à centro-direita e à direita; o Acredito é um movimento não tão grande em magnitude e com um caráter mais suprapartidário, com possíveis candidatos por siglas de ideologias diversas, como o Novo e a Rede, com um leque maior. Tem buscado se posicionar em grandes temas, além da rotulação de esquerda/direita. Já o MBL é um movimento político claramente de direita.

Marcelo Mariano – E o que tem visto dessa mudança de nome por vários partidos?

É uma tentativa de fazer esquecer o aspecto negativo do nome anterior e de se mostrar distante da política tradicional, mesmo que isso não reflita a verdade. Não acredito que tenha resultado prático.

Marcelo Mariano – O sr. acha que, se o voto no Brasil não fosse obrigatório, o cenário mudaria?

Sou contra essa possibilidade. A meu ver, é uma brecha a mais para a compra de votos, porque quem são os menos interessados são os mais carentes e menos escolarizados. Essas pessoas, se não estiverem obrigadas a votar, podem cair facilmente na mão de candidatos endinheirados. Outro problema é suprimir bandeiras em relação a essa população, como a causa dos moradores de rua. Esse público já se vê fora, naturalmente, é difícil que encampem causas em seu próprio favor. Não vejo com bons olhos o voto facultativo. Democracia são direitos e deveres: o cidadão tem o dever de escolher quem vai governá-lo.

Elder Dias – O que o sr. tem pesquisa em termos de políticas públicas no cenário local, em Goiás?

Além de lecionar, tenho investigado o quanto as políticas públicas formuladas têm atendido às expectativas e os objetivos inicialmente propostos. Ainda estou em um estágio muito inicial, formando meu grupo de pesquisa, mas a ideia é fazer o monitoramento e a avaliação de políticas públicas, analisando quantitativamente e qualitativamente se os seus objetivos são atingidos ou não e, possivelmente, os efeitos disso para o bem-estar da população.

Cezar Santos – Teria alguma coisa que já lhe chamou sua atenção, a partir desse olhar?

Em Goiás, ainda não muito. Trabalhei muito tempo com consultoria para os governos de Minas e São Paulo na área educacional. Aqui, o que posso destacar de interessante é o Índice de Desenvolvimento dos Mu­nicípios de Goiás (IDHM), que é feito pelo Instituto Mauro Borges (IMB). Tive acesso ao índice e conheço quem o elabora e posso dizer que mede, de forma eficiente, dimensões como economia, educação, saúde e segurança pública, além de fazer um mapeamento por regiões e o ranqueamento das cidades. Uma política pública específica que tem tido muitas avaliações é o Bolsa Família, que geralmente é bem avaliado.

Marcelo Mariano – Uma expressão que tem ganhado corpo ultimamente é “cidades inteligentes”. Tem algum município em Goiás que tenha potencial para se tornar uma cidade inteligente em curto prazo?

No pouco tempo que tenho no Estado, vejo poucas cidades com boa estrutura: Goiânia, obviamente, é uma delas, mas poderia citar Anápolis, Aparecida, Catalão, Jataí, Rio Verde. Já o Norte do Estado, apesar de ter muitas belezas, é muito pobre.

Cezar Santos – Fica claro que o fator econômico pesa muito?

Sim, muito. Não é só questão de tamanho das cidades. Por exemplo, no Sul e no Sudoeste goiano, temos cidades médias, como Rio Verde e Jataí, mas, no IDHM, elas estão muito à frente do Norte, porque é lá no Sudoeste que estão as grandes produções agrícolas, ainda que pese a desigualdade imposta por toda grande propriedade rural.

“O Politizar mostra como a universidade pode ser útil à sociedade”

Professor Robert Bonifácio, da UFG, com a equipe do Jornal Opção: “Acredito no potencial do projeto Politizar”

Elder Dias – Uma experiência interessante nascida por iniciativa dos próprios alunos da UFG é o Po­li­tizar, um projeto de extensão que simula um Parlamento e que a universidade retomou este ano, em par­ceria com a Assembleia Legislativa.

O Politizar mostra como a universidade pode ser útil para a sociedade. É um projeto de extensão da UFG em parceria com a Assembleia, que se iniciou em 2011, quando eu nem aqui estava, por iniciativa não de professores, mas dos próprios estudantes do curso de Ciências Sociais, na habilitação de Políticas Públicas. Foi inspirado no Poli teia, um projeto que já existia na UnB [Universidade de Brasília], promovido pela Câmara dos Deputados, e trouxeram o formato para cá, com algumas adaptações.

Trata-se de uma simulação de sessões legislativas. Quando eu assumi a coordenação do curso, em 2016, quis retomar esse projeto, porque tive boas informações sobre seu sucesso e porque acredito no potencial de conhecimento que pode ser obtido por meio dele. Fizemos em parceria com a Assembleia, dividindo-o em três partes: inscrição e seleção de pessoas; treinamento; e execução.

Tivemos, para essa edição, um número recorde de inscritos: 130 para 87 vagas: 41 deputados, 41 assessores – um por deputado – e ainda 5 jornalistas. Após a fase de seleção veio o treinamento, que durou duas noites e um dia inteiro, para que os participantes entendessem o que era um projeto de lei, como funcionam os ritos, o que era atribuição das casas legislativas. Depois, fizemos a posse simbólica na UFG, com um representante da Assembleia e o reitor eleito da UFG [Edward Madureira], seguida de quatro dias de simulações.

Marcelo Mariano – Quanto tempo dura todo o processo, da inscrição às simulações?

Começamos em agosto, com as inscrições, que foram estendidas até o fim de setembro, quando houve o treinamento da UFG; outubro foi o mês de os alunos elaborarem seus projetos de lei; já a posse simbólica e os dias de simulação foram em novembro. Ao todo, três meses e meio de trabalho.

Marcelo Mariano – Na Assembleia, então, foram quatro dias?

Sim, com simulações em plenário e nas comissões selecionadas, além de palestras. Inte­ressante ver, por exemplo, uma deputada simulanda que ficou descontente com o fato de seu projeto não ter sido aprovado. É, no fim, o ensinamento de que democracia é maioria e não é todo projeto de lei que será aprovado.

Marcelo Mariano – Como foi o saldo?

Muito positivo. Os alunos foram muito preparados e gostei da qualidade dos debates. Ao fim, foram aprovados 20 projetos de lei fictícios, tratando de diversas questões, desde o desenvolvimento econômico do Estado até políticas públicas para pessoas de rua. Um, muito interessante, versava sobre desconto no IPVA para quem contribuísse com aplicativos de carona. Por iniciativa dos próprios deputados simulandos, ficou acertado de elaborar uma carta a ser entregue para o governador, com princípios e propostas para o Estado, a partir das experiências do Politizar.

Marcelo Mariano – Quer dizer que algum desses projetos pode se tornar realidade?

Sim, são projetos que podem se concretizar.

Cezar Santos – Alguns deputados se comprometeram a dar forma a essas propostas dentro da Casa.

Exatamente, isso foi muito positivo.

Marcelo Mariano – Houve algum caso de projeto proposto nas edições anteriores que recebeu algum destaque posterior na Assembleia?

Não sei, mas um simulando, da edição de 2013, hoje é vereador em Goiânia – Lucas Kitão (PSL). Creio que o Politizar aflorou ainda mais sua veia política e ele se candidatou e conquistou uma vaga na Câmara. Ele esteve conosco na posse simbólica e também conversamos na Assembleia.

Elder Dias – A tendência de quem simula algo é se apropriar do estereotipo. O simulacro de um deputado, em tese, não é muito positivo. Os alunos também repetiram esse senso comum e as práticas, digamos, pouco republicanas?

Sim, de alguma forma. Mas, pensando positivamente, as pessoas que participaram – e faço questão de ressaltar que não foram apenas alunos da UFG, mas de outras faculdades particulares e também ensino médio – passaram a ter noção do que é possível ser feito pela política representativa, porque muitas das críticas que, por exemplo, faz o movimento estudantil não encontram ressonância na realidade, simplesmente porque não é da alçada de um deputado fazer alguma coisa, nem em termos legais nem em termos políticos, por não conseguir aglutinar interesses em torno daquela pauta. Isso foi interessante, como também foi saber a atribuição do deputado federal, do estadual e do vereador.

Outra questão marcante foi o posicionamento, as diferenças ideológicas: a bancada do PT teve um apreço maior por questões de gênero e de igualdade; já a bancada do PR teve um deputado que defendeu o porte de arma e uma política rigorosa contra bandidos. Nos debates retóricos, houve um entre um deputado do PMDB e outro do PSDB, este enaltecendo os feitos do governador Marconi Perillo (PSDB) e destacando o programa Goiás na Frente e o peemedebista o questionando sobre em que Estado ele vivia, para lhe passar o endereço, porque não via esse desenvolvimento que o colega tinha ressaltado. Algo bem próximo do que é na realidade ().

Marcelo Mariano – São os próprios deputados simulandos que escolhem seus partidos?

Sim, já no ato da inscrição.

Elder Dias – E como são distribuídas as bancadas?

Nós predefinimos seis partidos por quantidade de parlamentares na atual legislatura e distribuição no espectro ideológico. Então ficaram definidos que haveria PSDB, PMDB, PSB, PR, PT e PCdoB.

Elder Dias – Mas quem defendia o porte de arma como deputado simulando, no exemplo citado, também pensa assim na vida real?

Esse, particularmente, sim. Foi o que mais se destacou no PR e acredita em ideias como a Escola Sem Partido. Mas um correligionário não é alguém afeto a esse programa, mas, nos debates, o defendeu porque era a linha do partido. Um exercício interessante que incentivamos, durante a campanha para a inscrição, juntamente com a equipe organizadora do Politizar, era a de convencer quem era, por exemplo, de esquerda a ser um deputado do PSDB, para entender o outro lado.

Elder Dias – Como foi composta a equipe organizadora?

Fui o coordenador-geral e dividi administrativamente o projeto de extensão com discentes que já tinham experiência com o Politizar. Criei três coordenações: coordenação acadêmica, que ficou a cargo de uma das fundadoras do Politizar, Crislâini Nunes, mestranda em Ciência Política na UFG; coordenação administrativa, com Adriane Vinhal, também fundadora do projeto e mestranda em Sociologia na UFG; e coordenação de comunicação, que ficou por conta de uma graduanda em Comunicação, Janaí­na Oliveira. É um projeto gigantesco, que envolve diversas questões, desde o treinamento até a divulgação, algo que gostaria que continuasse, porque quem participa termina muito agradecido pelo que pôde aprender e ampliar de sua rede social.

Elder Dias – Há uma previsão para a próxima edição do Politizar?

A edição deste ano terminou em novembro e ainda não conversamos novamente com a Assembleia, por questões de agenda. Espero que nos sentemos no começo do ano que vem para discutir isso. Estou à disposição para continuar o projeto, sou servidor da UFG e é minha obrigação fazer isso. Só que só faço se for até julho, porque depois começa a campanha e todo o viés positivo do Politizar pode ser manchado pela questão eleitoreira. Não é nossa intenção. De qualquer forma, o reitor eleito, Edward Madureira, garantiu, no evento da posse simbólica, o apoio ao projeto pelos próximos quatro anos. Creio que o pessoal da Assembleia também ficou satisfeito com os resultados.

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