“Brasileiro nunca deu bola para a política, por isso só tem ladrão”

Defensor de uma chapa ilesa a nada que a desabone na honestidade e retidão, o militar da reserva e candidato a governador do Distrito Federal diz que a velha política tem de ser desafiada

“Não posso me coligar com partidos que não condizem com as minhas ideias”, afirma o general da reserva do Exército, Paulo Chagas (PRP)

Rafael Oliveira

No rastro do fenômeno eleitoral do capitão do Exér­cito Jair Messias Bolso­naro (PSL-RJ), outros quatro generais do Exército devem concorrer nas eleições deste ano. Todos da reserva, eles aproveitam um momento de desgaste da classe política e a aceitação dos militares por parte da opinião pública para alcançar sucesso nas urnas. Desde a última grande manifestação popular em 2013 na porta do Congresso Nacional, em Brasília, parte da sociedade brasileira pede intervenção militar no Brasil. Na greve dos caminhoneiros em junho passado, grupos ligados ao movimento intervencionista usaram a vitrine da greve para influenciar a opinião pública, mais uma vez, sobre a volta dos militares ao poder.

O general da reserva, Paulo Chagas, filiou-se ao Partido Re­publicano Brasileiro (PRP) em Brasília para disputar o cargo de governador com um único intuito: servir ao País. Chagas deseja organizar a estrutura da máquina pública, que segundo ele, é o grande problema do Brasil: a gestão. A salvação para os males sociais virá do “comando de atitude” dos militares.

O que te motivou a disputar o Palácio do Buriti?
A disputa ao governo foi minha primeira decisão de fazer uma incursão na política para participar desse momento em que há indícios de que a sociedade brasileira pretende fazer uma mudança de rumos, no sentido de atitude. O povo nunca deu bola para a política, por isso tem aí muito ladrão na política brasileira. Considerando que o Brasil quebrou economicamente, se desmoralizou politicamente, eticamente e moralmente, a sociedade se deu conta que a política tem que estar nas mãos da sociedade, para o interesse da população. E eu me incluo no sentimento de que a política não pode ficar nas mãos dos mesmos que lá estão. Já que eu fui um protagonista nessa mudança de atitude, me senti na obrigação de participar dela também como candidato a alguma coisa. Em uma segunda instância, chegamos à conclusão de que eu seria mais útil como candidato ao governo do Distrito Federal. Mas, não tenho nenhuma ambição política nem ambição de poder. Quero apenas fazer o que eu fiz a minha vida inteira: servir ao meu País. Não me preocupo em ficar rico. Até porque quem fica rico em serviço público é ladrão. Essa é a minha motivação. Da mesma forma que decidi servir ao meu País quando, aos 12 anos, quis me tornar oficial do Exército Brasileiro.

Quais propostas o senhor vai apresentar ao Distrito Federal?
Assim como o Brasil de forma geral, o Distrito Federal está todo desorganizado. E nessa desorganização, todos os sistemas funcionam mal. Esses sistemas estão assim por conta da má gestão e da corrupção. Eu entendo que a atitude de qualquer gestor, nesse momento, precisa reorganizar a casa. O sistema único de saúde, teoricamente deveria atender a população, mas não faz isso porque está desorganizado. As UPAs que deveriam atender ao cidadão não funcionam. A maioria delas está mal localizada. Elas deveriam ser mais que meia dúzia e hoje são apenas meia dúzia. E os 80% dos pacientes que deveriam ser atendidos pelas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) acabam indo para os hospitais e eles não tem condições de atender também, além de estarem mal administrados. Muito mal administrados na área de equipamentos, de pessoal e de estrutura. É um problema de gestão, tanto na saúde como na educação e segurança pública. Na segurança não há integração e dessa parte eu entendo bem porque sou militar. Segurança pública são homens armados que estão aí para dar segurança à população. Não há integração entre os órgãos da Polícia Militar, Civil, Corpo de Bombeiros, Detran e outros órgãos em planejamento estratégico de inteligência e operação. Pelo contrário, eles acham que são capazes de tudo fazer. O somatório de competências desses órgãos deve ser multiplicado pela integração. A Secretaria de Segurança Pública não tem condições de promover essa integração, então cabe ao governador fazer esse meio de campo para dar efetivamente segurança pública ao cidadão. E no mínimo, uma segurança muito melhor do que tem sido oferecido. Esses três pontos são básicos. Outros dois pontos que considero importantes, e que ninguém poderá fazer nos próximos quatro anos de mandato, são grandes obras públicas. Um viaduto caiu no Plano Piloto e o Plano é patrimônio cultural da humanidade. Aí entra a outra prioridade que é a organização da cidade. Ela está suja e envelhecida com apenas 58 anos. Tem de dar prioridade ao Distrito Federal. Eu estive em Planaltina e não tem coleta de lixo. O pessoal coloca o lixo para fora e ninguém recolhe. É um absurdo isso. Não dá para pensar em fazer obras faraônicas na cidade para mostrar serviço ao cidadão, enquanto o restante está desgastado. Nada pode ser feito enquanto a cidade não for recuperada. É um escárnio à sociedade começar fazer outras obras enquanto não se recupera o que está caindo hoje. Outro assunto ligado às obras é a mobilidade urbana. Todo mundo trabalha no Plano Piloto. Essa parte da cidade foi projetada para 500 mil carros e atualmente ela abriga um milhão. Entendo que esse problema do trânsito é sazonal: de manhã na hora de ir trabalhar e a tarde na hora de ir embora. Existem muitos projetos para resolver isso. Agora resta saber quais projetos o governo será capaz de aplicar.

Há muitos anos se fala em obras para expansão do metrô e a construção do Veículo Leve sobre Trilhos e nada foi feito.
Tem de fazer uma mudança de hábitos também. Cerca de 49% das pessoas querem ir de carro ao trabalho. Nós temos que inverter isso oferecendo transporte público de qualidade. Mas, isso precisa ser bem equacionado porque de manhã precisa de muito ônibus e a tarde também. Nesse intervalo tem centenas de ônibus parados. Por isso a conversa tem de ser feita com honestidade e transparência para não ficar colocando ilusões na cabeça das pessoas. Eu não sou ilusionista.

O pré-candidato Jair Bolsonaro, apesar da expressão eleitoral, não consegue fazer coligações com outros partidos. Isso também pode se reproduzir em Brasília com sua campanha?
Já está se repetindo. Não porque outros partidos não querem se coligar comigo. Mas por causa da minha seleção. Eu me propus a fazer essa incursão na política com uma proposta nova. Não posso me coligar com partidos que não condizem com as minhas ideias. Prefiro entrar nessa campanha completamente sozinho e com três segundos de televisão. Mas, quero colocar a minha cabeça no travesseiro e não dormir com a preocupação que as responsabilidades de um governador trazem, do que perder o sono por causa da minha consciência me acusando de coisas contrárias aos meus princípios. Então eu aceito tudo, menos estar coligado com qualquer partido ou pessoa que não esteja com seu passado limpo. Os partidos que queiram coligar comigo podem me trazer pessoas, sem problemas. Eu vou revirar a vida dessa pessoa e se tiver uma mancha, eu devolvo.

O Bolsonaro vai conseguir transferir votos para os candidatos majoritários nos Estados?
Com certeza. Bolsonaro é uma atitude. As pessoas olham para ele e o consideram com uma atitude coerente. É o que os militares têm: atitude de comando. Quando digo atitude de comando, é ser responsável por tudo que acontece ou deixa de acontecer. Ele tem que ser responsável pelo que faz e pelo que deixou de fazer. É que faz o perfil dos militares algo necessário ao Brasil. Eu estive no comando do Depar­tamento de Pessoal do Exército e lá, como eu gosto de escrever minhas opiniões no exercício do meu direito de me manifestar, eu fiz uma crítica ao ministro da Defesa e ele determinou que eu fosse exonerado, o que muito me honra.

A eleição de militares poderia ser uma intervenção militar sem golpe militar?
Pode até ser uma intervenção militar se a sociedade toda votar só em militares. Aí teremos só militares no poder. Mas, intervenção militar significa rasgar a Constituição Federal. Se a população quiser eleger só militares, não há nada de inconstitucional nisso.

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