“Biden foi covarde ao depositar a culpa do fracasso da missão nos afegãos”

Professor e especialista em Oriente Médio avalia as razões da retomada do poder no Afeganistão pelo Talibã e os reflexos dessa movimentação na geopolítica

Há uma semana o grupo Talibã cercou Cabul, capital do Afeganistão, no Oriente Médio, e assumiu o controle do palácio presidencial, retomando o poder após 20 anos. O então presidente, Ashraf Ghani, abandonou o país, a população se desesperou em meio a tentativas de também encontrar abrigo em territórios vizinhos, e escancarou a derrota dos Estados Unidos após duas décadas de guerra.

Entender essa guerra movida por grupos fundamentalistas em uma região de históricos conflitos exige uma atenção redobrada. O professor de Relações Internacionais Danilo Alarcon, em entrevista ao Jornal Opção, tratou dos principais pontos dessa guerra que durou vinte anos, a retomada do poder pelos Talibãs e os reflexos que isso trará. Danilo é estudioso do assunto, fez seu mestrado na UnB e doutorado na UFG, sempre se aprofundando em temas que envolvem o Oriente Médio, e principalmente sobre a presença dos EUA no Afeganistão. 

O que é, exatamente, o Talibã em termos religiosos e políticos? Os novos governantes tendem a ficar nos marcos do capitalismo, como o Paquistão?
O grupo Talibã não é uma novidade dentro dos movimentos islamistas, que são aqueles movimentos que utilizam da mensagem do Islã como forma de angariar apoio político e utilizando, na maior parte das vezes, de insurgência e outras táticas militares para conquistar o poder. Na verdade, o Talibã é parte de um movimento de resposta do Islã à modernidade e atualização ruropeia, advinda ainda do século XIX, e que se desenvolveu ao longo do XX em países que se tornaram laicos. Essa resposta do Islã vinculada à política se desenvolveu tanto em países que buscaram o caminho da secularização, quanto em países que buscaram uma aproximação maior com a religião. No geral esses grupos vão defender que a corrupção nos países e nos governos deixados dentro da tradição do imperialismo e que esses governos precisam ser derrubados para que se instaure a verdadeira ordem islâmica.

Essa interpretação sobre o que é a verdadeira ordem islâmica varia de grupo para grupo. Temos a situação no Irã, a partir de 1979, onde se instaurou uma república islâmica com funcionamento de instituições democráticas, inclusive de eleições, mas que há, do ponto de vista internacional, sérias restrições de participação de mulheres dentro de algumas instituições. Não é que não haja participação efetiva das mulheres na sociedade. Inclusive as universidades iranianas têm como maior parte dos estudantes as mulheres. Em contrapartida, em países como Arábia Saudita, se mantém uma ditadura desde sua formação oficial ou como país que conhecemos formado nos anos de 1930, que tem também uma visão islâmica bastante radical — mais radical do que o próprio Irã. A Arábia Saudita, por exemplo, impõe sérias limitações à participação das mulheres na sociedade no geral. A limitação vem sendo questionada.  

“Talvez a única vantagem tenha sido eles (EUA) capturarem o Osama bin Laden”

O Talibã é um grupo que vem deste caldo de movimentação do pensamento mulçumano de resposta à modernidade e especificamente no contexto do Afeganistão, da disputa que aconteceu nos anos 80 no grupo Mujahidin — guerrilheiros contra a invasão soviética e o governo comunista que existia no país na época. Todos esses grupos eram bastantes conservadores e divididos nas linhas étnicas que compõem o Afeganistão. O Talibã se desenvolveu dentro da etnia majoritária do Afeganistão, que são os Pashtuns. Foram artificialmente divididos dentro do processo de colonização da Índia e do Paquistão. Então parte da população Pashtuns é componente hoje do que chamamos como Paquistão e outra parte dessa etnia vive no Afeganistão. É a etnia numericamente maior no Afeganistão atualmente. 

Inclusive tem uma relação muito próxima do Afeganistão com o Paquistão por conta da proximidade étnica e o Paquistão foi bastante responsável por financiar o desenvolvimento de atividades como as do próprio Talibã. 

O Talibã surge neste contexto de refugiados da guerra civil do Afeganistão, que se desenrola nos anos 80 e 90, em escolas islâmicas no Paquistão, e daí cruzam a fronteira e dominam pouco a pouco o cenário político daquele país. É um movimento que tem uma visão ideológica bastante conservadora e bastante fechada sobre o papel da mulher na sociedade, sobre o papel das minorias. Foi um movimento que perseguiu as minorias xiitas enquanto esteve no poder. Por esse motivo o Irã e o governo do Talibã  — naquele momento em que esteve no poder, de 1996, domina Cabul pela primeira vez, até 2001 — não mantiveram bom relacionamento, apesar do número alto de refugiados afegãos no Irã. A relação com a Al- Qaeda, de Osama bin Laden, é de uma dependência financeira muito grande, o que impacta bastante a relação e nas medidas mais desumanas e radicais do Talibã. 

O Talibã não é xiita, mas por que a ligação forte com o Irã?
O Talibã é um movimento majoritariamente sunita e quando esteve no poder pela primeira vez, de 1996 a 2001, perseguiu as minorias xiitas. O Talibã é muito diversificado na sua formação. Há diferenças nas províncias afegãs. É um Estado com problemas tradicionais de centralização do poder. Foi um problema perpetuado depois da invasão em 2001, na forma como a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) resolveu lidar com cada uma das províncias. Ou seja, essa dificuldade em centralizar o poder em um poder nacional é algo que perpetua. Alguns grupos do Talibã são mais radicais, em algumas províncias são mais conservadoras e isso gerou problema nos anos 1990 com as minorias, principalmente com os Hazaras — uma etnia numericamente importante dentro do Afeganistão, mas que é xiita. Então, para o Irã, um governo radical, fundamentalista e sunita em sua fronteira, não é o cenário mais interessante. 

É um cenário interessante neste contexto de hoje para o Paquistão. Porque o Paquistão e o Talibã sempre tiveram uma relação de proximidade maior. Inclusive nos anos 90 só três países reconheceram o governo do Talibã: a Arábia Saudita — de longe, o governo muçulmano mais radical —, o governo dos Emirados Árabes Unidos e o Paquistão, que é o vizinho imediato e tem uma fronteira gigantesca com o Talibã

Como o senhor analisa a situação da Arábia Saudita, que é sunita, em relação ao Talibã no poder?
A gente pode pensar, em linhas gerais, que haverá uma aproximação e boas relações entre os dois grupos. A Arábia Saudita, por si própria, vem passando por algumas mudanças nos últimos anos. A proposta do príncipe herdeiro é de abrir, e tem aberto o país, para o turismo internacional. Isso pressupõe uma abertura para o mundo. Até repensando o papel da mulher na sociedade saudita. Mudanças tímidas para aquilo que seria o ideal, mas mudanças vêm acontecendo. De qualquer maneira, o Talibã continua sendo um movimento fundamentalista e sunita. Então, está mais próximo ideologicamente com aquilo que a Arábia Saudita acredita ser papel da mulher na sociedade do que aquilo que o Irã propõe. 

Como existe um conflito entre o Irã e a Arábia Saudita pela hegemonia no Oriente Médio, o Afeganistão pode, automaticamente, entrar nesta disputa com essa proximidade em relação a Arábia Saudita. 

Os outros países do Golfo, os outros países árabes de maioria sunita, controlados por monarquias sunitas, tendem a apoiar de alguma forma o governo do Talibã. Não há um apoio aberto ou explícito, porque hoje há uma fiscalização maior e há um avanço maior na região como um todo. A grande questão é em relação aos direitos das mulheres. Isso foi algo muito enfatizado durante os 20 anos da ocupação dos Estados Unidos e das tropas da Otan — de que estavam ali para construir uma sociedade em que as mulheres pudessem ter participação. 

Da mesma forma que a Arábia Saudita sofreu uma pressão muito grande para repensar a forma como a mulher pode participar na sua sociedade, essa pressão tende a exercer alguma influência no Talibã. 

Por que o Paquistão mantém o Talibã como aliado? É um possível aliado contra a Índia?
Esse é um dos elementos importantes. A Índia investiu bastante no Afeganistão nos últimos anos. Essa perspectiva da construção de um Afeganistão democrático e que necessariamente diminuísse um pouco a hegemonia dos Pashtuns, que é a etnia vive entre o Afeganistão e Paquistão, é de muito interesse da Índia. Os canais midiáticos indianos, que acompanhei nos últimos meses — o avanço do Talibã chamou muita atenção no último fim de semana porque dominaram a capital mas o avanço que o grupo já vinha fazendo nos últimos meses era considerável. Algumas regiões do país estão sob controle efetivo do Talibã desde sempre, nunca deixaram de ter uma presença em algumas partes do país. Mas para a Índia é um problema geoestratégico.

A boa vontade do governo chinês de escutar qual é a proposta de governo do Talibã, dentro de uma política chinesa que já é de aproximação com o Paquistão, também é uma preocupação para os interesses geoestratégicos da Índia no Oceano Índico.

Por que os Estados Unidos decidiram sair do Afeganistão sabendo que, assim, o país passaria a ser controlado imediatamente pelo Taliban? Os serviços de Inteligência do país, considerados dos mais eficientes do mundo, devem ter repassado detalhes da situação para o presidente Joe Biden. O sr. avalia que a saída do Afeganistão pode ser o primeiro grande erro do governo de Biden? O cientista político Seth Jones diz que sim.
Acredito que há, na verdade, a dificuldade da tomada de decisão nos Estados Unidos, por características próprias. Estamos falando de um período de 20 anos em que se tinha o [George Walker] Bush no poder e havia dois grupos. Uma achava que se devia ir ao Afeganistão, fazer a construção de instituições estatais, e o outro achava que era só desmembrar a Al-Qaeda e depois partir para o Iraque. O segundo grupo, de alguma forma, prevaleceu. O governo do [Barack Hussein] Obama propugnou que era preciso acabar com os conflitos, mas a insurgência já estava muito forte para simplesmente tirar as tropas naquele momento. O governo do (Donald John) Trump representou uma virada fundamental.

Em fevereiro de 2020 o Talibã e o governo de Trump assinam um acordo pelo qual os Estados Unidos retirariam suas tropas se o Talibã concordasse em fazer negociações com o governo do Afeganistão e se eximisse de dar guarida para grupos terroristas. Esse acordo foi feito meio que a despeito do próprio governo do Afeganistão, que foi formado e apoiado pelos Estados Unidos. Então, quando Trump fez o acordo com o Talibã em 2020, de alguma forma a tentativa de negociação do Talibã com o governo do Afeganistão já vinha sendo tentada havia alguns anos. Mas, ao fazer essa proposta, Trump forneceu ao Talibã aquilo que ele esperava. O governo americano deu legitimidade ao Talibã e contribuiu para desmoralizar, de certa forma, o poder do governo afegão — que sempre foi fraco em algumas províncias. E há os problemas de corrupção e o fato de que, num Estado multiétnico, o governo central nunca conseguiu impor controle maior sobre todas as regiões. 

O que Joe Biden fez de muito errado foi não ter prestado atenção aos sinais da Inteligência americana. Acredito que haverá algum tipo de processo nos EUA para tentar investigar essa retirada apressada e o fracasso evidente que foi a retirada. Há um certo desconforto, inclusive em parceiros dos EUA, em relação à forma como o presidente Biden justificou a retirada. Biden foi covarde ao colocar a culpa do fracasso da missão nos afegãos. Os EUA perderam alguns milhares de soldados na guerra, e uma guerra que iniciaram. O Afeganistão pagou com a vida de civis. O Talibã também pagou — cerca de 50 mil soldados e policiais do governo afegão são das forças regulares. E quase 50 mil homens são do Talibã. Então falar que a culpa por completo é dos afegãos foi covarde por parte do Biden. 

Quando Trump faz o acordo em fevereiro de 2020 e legitima o Talibã — grupo que jamais teve sua existência reconhecida oficialmente —, havia um governo democrático no Afeganistão. Frise-se que o Talibã não tem nenhuma pretensão de fazer um governo democrático. Isso não existe. Essa noção de governos democraticamente eleitos não existe no pensamento fundamentalista. Nem islâmico e nem em outro governo fundamentalista religioso. Eles acreditam que toda autoridade emana de Deus. E eles, obviamente com essa mentalidade fundamentalista, são responsáveis por colocar essa vontade de Deus em prática. 

“O mundo inteiro está em uma posição de acompanhar aquilo que o Talibã vai fazer”

O governo americano contribuiu para desmoralizar o governo afegão e, portanto, ampliar o poder do Talibã. Primeiro, o acordo de Trump. E, segundo, a retirada apressada articulada por Biden. O republicano e o democrata demonstram que a política externa dos Estados Unidos está errada. Os EUA invadem o Afeganistão, dão apoio a um governo que sinaliza pela democratização do país, mas, logo depois, fazem acordo com o Talibã e, no lugar de protegeram os afegãos, e não apenas o governo, caem fora.

Comenta-se que, além das vidas perdidas por todos os lados nessa guerra, houve investimento de bilhões de dólares. Afinal, o que lucraram os Estados Unidos, uma nação capitalista, com sua presença no Afeganistão do ponto de vista político e econômico?
Talvez a única vantagem tenha sido os Estados Unidos capturarem Osama bin Laden. Isso em um contexto muito diferente. Bin Laden tinha uma proximidade com o Paquistão, desde que o Talibã foi chutado do poder com a invasão em 2001. Biden justificou que o governo não enviou americanos ao Afeganistão para construir instituições ou democracia. Eles foram para lá para desmantelar a rede terrorista. Só que os objetivos da missão foram redesenhados nos primeiros meses, as Nações Unidas deram apoio para uma missão internacional que ajudasse o País a fazer uma reconstrução ampla da política e da infraestrutura — o país vinha de décadas de uma guerra civil muito violenta. Pretendia-se construir uma sociedade na qual se prezasse minimamente por direitos humanos. O governo de Bush entra de cabeça nessa empreitada, depois a Otan entra também. 

A única vantagem evidente foi essa. Veja-se o caso do Paquistão. Para não ajudar o Talibã, em 2001, o país recebeu recursos financeiros do Estados Unidos e hoje é aliado da China. A dinâmica regional hoje envolve vários países fortes, como a China e a Rússia — ou seja, há um jogo global. Não envolve apenas as potências locais, como Irã, Arábia Saudita e Paquistão (uma potência nuclear).

Essa invasão não trouxe vantagem evidente para os EUA. Até porque, quando  invadem e começam a caçar os terroristas, os Estados Unidos perdem o rumo de onde esses grupos foram parar. Eles se dispersaram. Os EUA começam a auxiliar na reconstrução do Afeganistão. Em 2002 aquela sanha de invasão dos EUA muda de foco e vai pro Iraque. Um dos maiores erros cometidos na política externa dos EUA nos últimos anos foi associar automaticamente Saddam Hussein e a Al-Qaeda. Isso só fomentou grupos guerrilheiros e fundamentalistas no Iraque — pós Saddam. Isso leva, por exemplo, à criação do Estado Islâmico (Isis), com consequências humanitárias perversas e prolongadas. Esses conflitos se expandiram. O terrorismo islâmico está muito vivo em vários países do continente africano e em vários países do mundo muçulmano também. Essas disputas só evidenciaram o relativo fracasso dos EUA em lidar com a questão do terrorismo. 

Um ponto interessante é que, logo após o 11 de Setembro, houve uma comoção muito grande e o mundo inteiro se aliou aos EUA no sentido de apoio. De fato, o Talibã dava guarida para o grupo terrorista que assumiu os atentados de 11 de Setembro. Então, pela lógica estatal, fazia sentido as lideranças políticas globais darem apoio aos EUA. Quando os Estados Unidos começam a propor a resolução ao problema do terrorismo com guerras, aí parte do mundo debandou desse encaminhamento. Inclusive, na época, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, que discordava dessa postura, disse: não se resolve terrorismo com bombas. Isso só fomenta os rancores e a busca por independência e autodeterminação — um valor arraigado na sociedade contemporânea. 

Num momento como o atual, qual é o papel da Organização das Nações Unidas? Por que a ONU não é mais efetiva? A União Europeia e a Inglaterra não poderiam ter papel mais efetivo ante a ausência dos Estados Unidos?
Como um todo e os países participantes da Otan, a União Europeia representa parte do fracasso no Afeganistão. O país, a partir de 2003 ou 2004, foi dividido em províncias para reconstrução. E cada país da União Europeia ficava responsável por alguma dessas províncias. Então quase todos os países da União Europeia tiveram tropas no Afeganistão em determinado momento.

O que a União Europeia ou a ONU podem fazer neste exato momento?

Acompanhar como o governo do Talibã vai reagir em relação às promessas que fez. O governo do Talibã prometeu um governo com a participação de grupos diferentes. Em tese, a ideia é criar um governo participativo, que gere representatividade na sociedade. Mas não vejo a organização de possíveis eleições. Mas o Talibã prometeu que não fara um governo focado em uma etnia ou em um grupo. É algo que se precisa acompanhar. 

O Talibã indicou que não perseguiria adversários. O grupo disse também não impediria as mulheres de estudar e participar em determinados setores da sociedade. Mas isso não quer dizer que vão respeitar as mulheres de igual para igual. Nenhuma ideologia fundamentalista religiosa monoteísta o faz. Todas entendem que a mulher tem um papel secundário na sociedade. Não adianta se pensar que o controle do Talibã vai garantir, por exemplo, participação política às mulheres — o que era garantido no Afeganistão durante os últimos 20 anos.

Outra questão a se acompanhar é em relação às minorias religiosas. Como o Talibã vai lidar com as minorias xiitas e com outras minorias — várias pessoas acabaram fugindo do país quando o Talibã esteve no poder — e especialmente com as divisões multiétnicas do país? O mundo inteiro está em uma posição de acompanhar aquilo que o Talibã vai fazer.

As promessas são de que o regime seja mais moderado do que aquilo que dez 1996 a 2001. E o contexto internacional é muito distinto. Mesmo o contexto do ponto de vista das possibilidades de transmissão das informações de 1996 a 2001. O país era isolado. Hoje todo mundo tem acesso a um celular, às redes sociais, à internet. Por mais que se queira impor limitações ao acesso a essas redes, se sabe que isso é quase impossível. Eles estão em um contexto diferente, inclusive um contexto regional muito diferente, e pode ser que exista uma vontade deles de fazer um governo mais moderado.

A partir do momento que se fizer um governo moderado haverá uma tentativa de conciliação entre governos. E estou fazendo uma análise bem seca e realista da perspectiva. Se o Talibã não fizer um governo que persiga ou enclausure as mulheres dentro de casa novamente, é muito provável que o mundo ocidental o aceite como aceita a Arábia Saudita, que é um dos principais parceiros dos EUA no Oriente Médio, e é um país que tem sérios problemas de inserção da mulher na sociedade. Vem promovendo mudanças? Vem promovendo. Mas é um país que tem inúmeras dificuldades neste sentido.

Há um ponto sobre o qual quero chamar atenção. Falei bastante da questão das mulheres, mas não se deve surfar em uma onda de islamofobia, neste momento, e pensar que todas as mulheres muçulmanas são oprimidas pelo véu, pelo governo e seus maridos. A questão não é essa. É a questão de governos baseados em ideologias fundamentalistas que colocam a mulher em um papel secundário na sociedade. É a característica de uma sociedade extremamente patriarcal e que se baseia no armamento e naquela coisa de mostrar o poder masculino com armas o tempo todo — e não necessariamente algo relacionado ao Islã. O uso dos símbolos religiosos para muitas pessoas é um elemento de libertação. Para muitas mulheres palestinas, o véu é um elemento identitário — o mesmo para as mulheres muçulmanas na Europa. O que se está falando é que, sob governos que impõem uma postura rígida de religião, há de fato um controle que envolve política, religião e controle militar. 

Qual é o interesse estratégico da Rússia no Afeganistão? O chanceler do país, Sergei Lavrov, disse: “Vimos sinais encorajadores do Talibã, indicando que o grupo [que assumiu o poder no país] gostaria de ter um governo que incluísse outras forças políticas”. Não é uma esperança vã ou provisória?
É o tipo de recado em política internacional que pode surtir efeito. Porque quando falam “se vocês agirem assim nós podemos reconhecê-los”, a China e a Rússia estão dando um recado para o Talibã, para seu público doméstico e para o público internacional — leia-se as cinco potências com veto no Conselho de Segurança. Duas dessas potências, a Rússia e a China, estão falando que têm algumas condições e reservas, mas, se forem cumpridas, vão reconhecer o governo do Talibã. É o tipo de mensagem que, provavelmente, os talibãs estão sabendo ler muito bem, porque também adotam um discurso mais moderado.

É preciso falar também a respeito do contexto próprio de atuação do Talibã. Quando chega ao poder em 1996, o Talibã tinha apoio financeiro e de armamentos para as dinâmicas logísticas para os conflitos no Afeganistão de Osama bin Laden — um bilionário saudita. Então Bin Laden financiava suas ações. E a leitura do grupo de Bin Laden — a Al-Qaeda — é infinitamente mais radical do que a do Talibã. Naquele momento o Talibã também tinha que responder aos anseios do próprio Bin Laden. Agora este elemento desvaneceu, ele não existe. Se encontrarem outras fontes financeiras para a manutenção do Estado, é provável que o Afeganistão e o Talibã cumpram essas promessas e respondam a esses anseios da Rússia e da China. Claro que quem tem dinheiro efetivamente para incentivar o Talibã a manter uma linha mais branda é a China. E tanto a China quanto a Rússia têm problemas domésticos com minorias muçulmanas radicais. No caso da China este não é necessariamente o discurso que o governo passa. Os chineses falam que estão lidando com a “reeducação” dos uigures — que são uma etnia majoritariamente muçulmana. É importante  notar que há uma comoção nacional a respeito do que a China vem fazendo.

Há também uma dificuldade ao acesso pleno às informações. Estamos falando de um Estado que não vai simplesmente abrir as informações sobre aquilo que faz internamente. Mas, de qualquer maneira, o Talibã está muito contente em, mesmo sendo um grupo fundamentalista Islâmico, se aproximar da China — se houver essa facilidade de negociação.

Na região da Chechênia, a Rússia tem, historicamente, grupos separatistas radicais islâmicos Tem uma população muçulmana gigantesca na Rússia, mas essa população integra e participa da vida da república autônoma do País. Não é das maiorias que se está está falando. 

“Quando se fala do radicalismo dentro de uma religião, a gente nunca está falando da maioria”

Deve-se enfatizar: quando se menciona o radicalismo numa religião nunca se está falando da maioria. Graças a Deus é assim. Caso contrário o mundo já teria implodido. O radicalismo existe no judaísmo, existe no cristianismo, está cada vez mais presente no hinduísmo, até no conflito de Mianmar com os budistas. Então não se está falando das maiorias. Está se discutindo um grupo que, inclusive, pode mudar o discurso, e talvez mudar a prática. Não estou falando que o Islã oprime ou que é uma religião ruim. Muito pelo contrário. Mais de um bilhão de pessoas convive pacificamente e tranquilamente com suas escolhas religiosas e seus vizinhos. Então a gente está falando de uma minoria mesmo. 

O Afeganistão poderá se tornar uma espécie de valhacouto (local para se esconder e treinar) de organizações terroristas?
Existe o temor e existe a possibilidade de fato. Tanto que, quando Trump fez o acordo com o Talibã em 2020, esse era um dos pontos principais. Era tipo: não deixe nenhum tipo de organização como a Al-Qaeda voltar a treinar no país de vocês. Se isso voltar a acontecer, os EUA vão voltar com uma campanha de ataques aéreos a alvos estratégicos no território. E o Talibã sabe disso. Os EUA fizeram isso durante o governo de Bill Clinton, nos anos 1990 ainda. Claro que sabemos que não surtiu efeito. Muito pelo contrário, esse tipo de missão costuma gerar mais rancor do que resolver os problemas. Nos ataques de drones, nos últimos dez anos, morreram várias pessoas — o que potencializa o ressentimento.

O que a comunidade internacional vai fazer agora é vigiar. Por isso a fala do presidente Biden foi estranha. O líder americano meio que lavou as mãos, sem entender qual é o papel que os EUA continuam tendo — que é de pressionar o Talibã: “Se uma nova Al-Qaeda começar a ter abrigo, no Afeganistão, nós faremos alguma coisa”. A Rússia, a China, a Índia e nenhum dos países da região têm interesse que isso volte acontecer. O Talibã está ciente disso. 

O senhor avalia que o Ocidente, com Estados Unidos, Inglaterra e França à frente, vai demorar quanto tempo para voltar os olhos de novo para o Afeganistão, inclusive com uma possível nova invasão e destituição do Talibã? O sr. admite que, se controlar o terrorismo em suas fronteiras, portanto sem criar problemas para os Estados Unidos e países fronteiriços, o Talibã tende a continuar no poder?
Acredito que o Talibã continuará no poder. Há indícios de que alguma insurgência possa surgir nestes próximos dias e teremos que acompanhar isso. Um dos vice-presidentes do Afeganistão, que disse que ainda está no País — não fez como o presidente, que saiu —,  afirmou que vai lutar, pleiteando o cargo de presidente interino. Dentro do governo então instalado, na ausência do presidente, esse vice se tornaria o mandatário. Então há possibilidade de alguma insurgência. 

O Talibã vem com força já há muito tempo, e aumentando seu poder. Se terá notícias agora é sobre o tanto de material bélico que tinha o exército do Afeganistão e que vai ficar na mão do Talibã. Esse é um problema que já aconteceu nos anos 1990 e os EUA foram muito inconsequentes, no sentido deste tipo de ação acontecer novamente. Então parte dos mísseis que tinha ido para os guerrilheiros lutarem contra a União Soviética depois entrou para o arsenal dos grupos que passaram a lutar contra a presença dos EUA. Inclusive saiu há alguns dias sobre caças da Embraer, que foram adquiridos por meio das forças armadas dos EUA que estavam no Afeganistão. Então vamos ver um pouco disso aí. 

Acredito que eles se manterão no poder. O que é o grande X da questão para uma possível invasão do Afeganistão no futuro? É se eles vão ter apoio de uma das potências globais que são da região. Se eles conseguirem o apoio da China e se mantiverem em uma linha aceitável para os padrões chineses e para os padrões regionais, acabou. Nenhum tipo de ação assim vai ser aceitável mais. 

É por isso que aposto na moderação. Não estou falando que eles vão moderar a ponto de manter uma perspectiva de um sistema democrático ou de um sistema que minimamente respeite a ampla vontade, por exemplo das minorias e das mulheres afegãs. Não se espera isso de um governo de radicais e de fundamentalistas religiosos. Eles não acreditam nisso e não vão ficar se aproximando desse tipo de ideal. Isso é profundamente problemático. Não estou minimizando esse aspecto, muito pelo contrário. Esse é o aspecto mais importante. Mas se tratando do jogo e das relações entre os Estados, se os talibãs se mantiverem com boas relações com a China, e a China vier a reconhecer de fato o governo Talibã como um governo legítimo no Afeganistão, aí eles se perpetuam no poder.

Assista a entrevista completa:

https://youtu.be/luR-qeixtSI

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