“As cooperativas financeiras estão crescendo porque oferecem o mesmo que os bancos e com mais vantagens”

Enquanto os bancos fecham as portas a clientes, as cooperativas abrem as portas aos associados. Essa é a diferença, diz presidente do Sicoob

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Clidenor Gomes Filho, presidente da Sicoob | Foto: Renan Accioly / Jornal Opção

O cooperado é um sócio nos lucros e não apenas um cliente. Participa das decisões da cooperativa e tem voto e voz ativa. Possui uma taxa de juros mais acessível, justamente porque, ao contrário dos bancos, não há acionistas para receber dividendos. Essas são algumas das vantagens do sistema de cooperativa financeira listadas por Clidenor Gomes Filho, presidente da Sicoob Unicred Centro Brasileira, em entrevista ao Jornal Opção.

Em uma hora de esclarecimentos importantes sobre o sistema, ele discorreu sob pontos que desmistificam a cooperativa aos olhos dos leigos. Antes restritas por lei a entidades e classes de trabalhadores, hoje existe a chamada livre admissão. A diferença é que o eventual sócio precisa preencher uma proposta e aguardar sua aprovação pelo coletivo da entidade.

Enquanto o Brasil passou por um rebuliço no mundo financeiro no ano passado, as cooperativas se deram bem. Justamente pelo modelo em que são constituídas. Clidenor explica: “Os bancos tradicionais começaram a fechar linhas de crédito para pessoas e empresas, que então passaram a ter o sistema cooperativo como uma via saudável.”

Acompanhado do médico Hélio Moreira, integrante do conselho de administração do Sicoob – e que também participou da entrevista –, ele avaliou também a economia brasileira, pôs esperança em Henrique Meirelles, o novo ministro da Fazenda, e disse que o governo de Dilma Rousseff deu passos que foram desastrosos para o mercado.

Euler de França Belém – O presidente interino Michel Temer (PMDB) nomeou Henrique Meirelles ministro da Fazenda, com autonomia para nomear a equipe que vai comandar a política econômica, como o presidente do Banco Central (BC). Antes não havia essa integração e surgiam conflitos na equipe. É positivo?
Vejo como uma volta à normalidade, à racionalidade. Sempre haverá diferentes visões na equipe, mas o retorno da racionalidade na política econômica é muito positivo. Parece que o time novo da economia está no mesmo nível de preparo daquilo que acompanhamos desde a época que estávamos na universidade, de amadurecimento institucional e econômico do País. É, repito, a volta da racionalidade.

Euler de França Belém – Como o sr. avalia Henrique Meirelles?
Não posso ir além do senso comum, do que sei dele como homem público que prestou relevantes serviços ao País como presidente do BC. Henrique Meirelles é dono de uma carreira brilhante, um goiano que honra nosso Estado com sua carreira. Eu o vejo com admiração.
Euler de França Belém – Como uma pessoa que trabalha com o ramo financeiro, como o sr. vê a questão dos juros no Brasil? É melhor juro mais alto, juro mais baixo?
Juro é o resultado de uma racionalidade econômica, ninguém inventa juro. Não há como alguém dizer que vai trabalhar com juro “x” ou “y”, porque o que vai levar ao estabelecimento do juro é a realidade da demanda do dinheiro. O dinheiro pertence aos poupadores, que vão requerer um pagamento pelo risco que eles assumem ao emprestar esse dinheiro. Do outro lado, está a demanda de recursos pelos investidores, que vão pagar um preço para utilizar esse dinheiro, que não é deles. A taxa de juros é o equilíbrio entre o apetite de quem demanda o recurso e a necessidade de segurança para cobrir o risco de quem aplica. Juro não é algo voluntário, é consequência do ambiente econômico.

Nós, do conselho de administração da Sicoob, discutimos muito isso: como trabalhar com essa intermediação financeira que é o juro. Ocorre que as pessoas que estão poupando, pessoas comuns que em algum momento da vida estão produzindo mais do que o que gastam, vão depositar esse dinheiro em algum lugar, de preferência em algum lugar que dê algum retorno. Na outra ponta, está o investidor que tem projeto que demanda mais capital do que ele dispõe. Bancos, cooperativas e demais instituições financeiras são essencialmente intermediários entre tomadores e aplicadores. Quem aplica quer o melhor retorno e quem toma quer pagar a menor taxa possível. O intermediário, as instituições financeiras, sejam bancos ou cooperativas, e o regulador do mercado, o BC, tem de encontrar o justo equilíbrio entre essas duas pontas. No caso dos bancos, tem mais uma ponta, que são os acionistas, os donos dos bancos, que precisam ser remunerados pela instituição financeira. No caso das cooperativas, não existe essa terceira ponta, porque os cooperados são os aplicadores e outros cooperados também são os tomadores. Não tem uma terceira ponta, é o equilíbrio entre dois pratos da balança. En­contrar o justo equilíbrio entre esses diferentes atores é estabelecer essa taxa de juro com uma pequena margem discricionária, de acordo com o que a autoridade quer, se é estimular ou frear a atividade econômica.

Cezar Santos – A discussão nessa área é de que o governo de Dilma Rousseff (PT) mexeu de forma errada na questão dos juros, aumentando a taxa Selic quando deveria diminuir, diminuindo quando deveria aumentar e coisas assim. Como o sr. analisa isso?
É óbvio que houve uma barbeiragem muito grande do governo Dilma nessa área. Estabelecer taxa de juro é um jogo racional, tem um certo grau de manobra, mas não se pode ir além da racionalidade. No Brasil e em qualquer lugar do mundo, as autoridades monetárias podem calibrar um pouco mais de juro, um pouco menos de juro, mas esse juro não pode ser irreal. Ficou óbvio que aquela redução dramática dos juros feita de forma voluntariosa no governo Dilma foi uma irracionalidade e só podia dar no que deu [em 2012, o governo, de forma artificial, determinou que a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil reduzissem os juros, forçando os bancos privados a seguirem a medida]. E digo isso sem nada a ver com ideologia. Ali faltou racionalidade econômica.

Cezar Santos – Apesar da mística de que os governo petistas distribuíam renda, o próprio ex-presidente Lula (PT) falava que os bancos nunca ganharam tanto como nos governos dele. Analistas dizem que, hoje, o sistema financeiro drena a maior parte do capital que deveria estar empregado em investimentos e contribuindo para o desenvolvimento do País. Isso confere?
Sem dúvida, o mercado financeiro nunca ganhou tanto dinheiro como ganhou na época de Lula. Isso porque havia um ambiente que estava equilibrado e com grande estímulo do governo para que o crédito crescesse. Fatalmente as instituições financeiras iriam ganhar mais dinheiro com isso. As políticas implantadas durante certo período do governo Lula, ainda com a racionalidade imperando no Minis­tério da Fazenda e no BC, foram um estímulo saudável. Mas o governo errou a mão, e o que era saudável tornou-se patológico. Deu no que deu.

Marcos Nunes Carreiro – A cooperativa que o sr. preside, a Unicred Centro Brasileira, cresceu 26% em 2015, em meio a uma crise acirrada no País. A crise foi boa para o Sicoob?
Quando o mercado financeiro tem uma maior percepção de risco – e todas as instituições financeiras trabalham no dia a dia medindo riscos –, ele faz normalmente dois movimentos: um é aumentar o juro, aumentar o preço do dinheiro, e o outro é selecionar clientes. Nessas últimas crises, como em outras, bancos que estavam de portas abertas para pessoas e empresas passaram a dificultar esse acesso. Os bancos tradicionais começaram a fechar linhas de crédito para pessoas e empresas, que então passaram a ter o sistema cooperativo como uma via saudável. O sistema cooperativo trabalha normalmente entre sócios poupadores e sócios investidores. Eventualmente, um sócio da cooperativa é cliente do banco, quando as portas daquele banco se fecham, sobra para ele a cooperativa. Aí, cria-se a oportunidade para as cooperativas fazerem mais negócios. Ou seja, o represamento dos negócios no mercado tradicional acaba criando um ambiente favorável, uma demanda maior para as cooperativas. E a cooperativa pode agir de duas formas, passando a selecionar, como fazem os bancos, ou manter sua política. Como trabalhamos com um nicho que conhecemos melhor, que são nossos associados, não há por que fazermos esse fechamento, essa seleção mais rigorosa. Continuamos emprestando. O resultado é aumento dos negócios da cooperativa.

Seja um médico, um empresário de hospital, se ele vê que as portas dos bancos ficam mais fechadas, ele vem para a cooperativa, o que aumenta nossos negócios, sem que tenhamos feito nenhuma “mágica” para isso. A cooperativa simplesmente se beneficia do fechamento do mercado tradicional. Foi o que aconteceu em 2015. Em 2009 isso aconteceu de forma ainda mais evidente, após a crise do ano anterior.

Se puxarmos pela história, foi o que aconteceu em Mondragón, na Espanha [Mondragón Corpo­ración Cooperativa, o MCC, grupo de produção industrial e de empresas de distribuição sediadas no País Basco, é considerada a maior cooperativa de trabalhadores do mundo], no Canadá com as cooperativas Desjardins, nas cooperativas alemãs depois da Segun­da Guerra. Em todos esses lugares o cooperativismo se beneficiou da crise, não por ser ator da crise, mas por reagir de forma mais positiva em tempos de escassez. Explico isso para contextualizar a resposta.

Cezar Santos – Olhando pelo ponto de vista do cliente, da pessoa física, qual a vantagem de deixar de ter conta em um banco tradicional, um Bradesco, um Itaú, por exemplo, para ter conta num banco de cooperativa?
Dou duas respostas. Do ponto de vista exclusivamente econômico, o poupador consegue na cooperativa uma taxa um pouquinho melhor do que nos bancos tradicionais. Não na poupança normal, que é um produto do governo e remunera exatamente a mesma coisa em qualquer instituição financeira, seja banco ou cooperativa. Nos demais produtos de aplicação financeira as cooperativas conseguem pagar um pouquinho melhor que os bancos tradicionais.

Para o tomador – por exemplo, se a pessoa quer financiar um carro –, as cooperativas conseguem cobrar um juro mais baixo do que o do mercado tradicional. Por quê? Porque estamos entre sócios. Os aplicadores são pessoas conhecidas e os tomadores a gente também conhece melhor. Assim, o risco é menor. Se o risco é menor, pode-se trabalhar com juros melhores. Essa é uma das vantagens econômicas.

Uma outra vantagem econômica é a inexistência do terceiro polo. Como eu já lhes disse, as instituições financeiras, além de atender ao tomador e ao aplicador, precisa atender aos acionistas, têm de dar lucro à empresa. Na cooperativa, nós só temos dois polos. Ao fim do ano, a cooperativa vai fazer um balanço e vai dar seu resultado, se lucro ou prejuízo. No nosso caso, o lucro – a que chamamos de “sobra” em nosso jargão – vai para os sócios da cooperativa, dividido da seguinte forma: uma parte vai para quem aplicou dinheiro na cooperativa, ou seja, além do juro que foi contratado ele ganha um adicional da sobra; e é retornado também para quem pagou o juro. Ou seja, se você contratou um empréstimo a 1,49% para pagar o financiamento do carro, torna-se como se você tivesse pago 1,39% ou 1,29% quando se recebe a sobra de volta. Ou seja, do ponto de vista estritamente econômico, temos aí uma vantagem financeira.

Cezar Santos – E qual seria uma vantagem além da econômica?
As cooperativas, além do papel econômico, que é vital, tem outro, muito relevante, que é o do relacionamento: a questão da responsabilidade social, a solidariedade recíproca, da mutualidade, da gestão democrática. Nesse ponto, ao falar de gestão democrática, se um associado tiver R$ 500, ele tem um voto; se tem R$ 500 mil, também é um voto; se tiver R$ 50, continua contando com um voto. Essas pessoas vão votar para eleger sua administração. Então, “gestão democrática” não são apenas belas palavras, mas um fato, ao ponto de os associados definirem o ordenado de seus dirigentes.
No Sicoob, priorizamos a transparência. Em um país como o nosso, isso infelizmente ainda é algo de se admirar, porque é ainda raro. Fazemos questão de todos os anos, na assembleia geral, ter como um dos tópicos a serem deliberados, a remuneração dos dirigentes. O salário a ser adotado é discutido e votado.

Euler de França Belém – O que significam ativos de R$ 1 bilhão?
Todo o volume de dinheiro que passa pela cooperativa. Ativos, do ponto de vista contábil, são a soma de todos os depósitos – à vista, na conta corrente, ou em aplicações financeiras – e a cota capital. A soma do capital mais os depósitos e o imobilizado – dinheiro que há para comprar mobiliário, eventualmente algo para a sede – tudo isso compõe o ativo total. Isso significa que a instituição, ao administrar mais de R$ 1 bilhão, acaba por se tornar a maior instituição financeira do Estado de Goiás.

Euler de França Belém – É verdade que chega a ser a sexta do Brasil?
No conjunto das cooperativas Sicoob, mais de 400 no Brasil, dependendo da “régua” a ser utilizada, nós estamos entre o quarto e o sexto lugares.

Euler de França Belém – Como as pessoas podem saber se o Sicoob é “saudável”?
Uma coisa importante é que, como a gestão é coletiva – é uma empresa de propriedade coletiva –, a cooperativa não fica na mão de uma pessoa apenas. Temos um conselho de administração, que não é consultivo, mas um órgão deliberativo, composto de 12 pessoas. Temos também um conselho fiscal de 6 pessoas, que acompanham essas contas e que devem manifestar aos associados, de uma forma geral, como está agindo o pessoal da direção. São, portanto, formas de controle um pouco mais amplas do que ocorre nas empresas em geral.
Outra questão é que a lei diz que o associado comum só perde a cota de capital que tem. Já o dirigente tem seus bens solidários ao resultado da empresa até cinco anos depois de sair do cargo. Isso torna a gestão bem mais responsabilizada.

Euler de França Belém – No Brasil, bem como no mundo, há um processo de monopolização do setor financeiro. Praticamente so há cinco ou seis bancos movimentando quase todo o mercado brasileiro. As cooperativas atuam em um polo oposto. Por que há essa contradição?
Não é só no mercado financeiro que há essa concentração. As corporações em geral – indústrias de automóveis, de cerveja, de alimentos, de remédios etc. Considero isso um movimento inexorável, é a racionalidade econômica que conduz a isso. Do outro lado, estão as instituições cujos sócios guardam uma responsabilidade de vigilância mais próxima. As cooperativas florescem nesse ambiente de concentração, porque uma parte dos agentes econômicos prefere trabalhar com instituições menores, mas que eles possam controlar de forma mais fácil. Qualquer um de nós, como agente econômico, pode ser cliente de um grande banco, mas será apenas isso: cliente, sem nenhum controle da gestão. Já como membro de uma cooperativa, essa pessoa será mais que um cliente – se torna um sócio e, embora não seja o caso de qualquer um chegar e abrir a porta da sala do presidente para determinar como será, os canais são muito mais acessíveis. As cooperativas, portanto, resistem a essa concentração.

Euler de França Belém – Como são as auditorias internas e externas?
Além desses mecanismos de controle institucionais, como conselhos fiscal e de administração, o BC, que é a autoridade reguladora, audita as cooperativas da mesma forma como faz com os bancos. Todo mês, é preciso encaminhar um balancete para o BC, de forma eletrônica. Hoje, com o refinamento da informática, o BC consegue identificar rapidamente onde há indícios de problemas. Caso isso ocorra em uma cooperativa ‘y’, manda, então, uma equipe para a verificação in loco.
Além disso, há as inspeções aleatórias. Mesmo que tudo esteja aparentemente bem, são sorteadas, a cada ano, um determinado número de cooperativas para que sejam vistoriadas. Nós acabamos de receber, no mês passado, um grupo de auditores que ficou durante várias semanas fazendo uma auditoria aleatória.

Euler de França Belém – Então, o Sicoob está certificado como “saudável”?
Sem dúvida. Como sistema, o Sicoob – já que possui mais de 400 cooperativas – tem uma grande diversidade com respeito ao direcionamento com respeito às diversas políticas. Certamente, a cooperativa dos engenheiros, ou a dos médicos, possui um direcionamento para certas políticas, em áreas que lhes interessam. Portanto, há um ambiente muito plural. Nesse tipo de ambiente, os mecanismos de controle têm de ser bastante estritos. Então, há muita liberdade para a cooperativa, em alguns aspectos, mas tem uma enorme responsabilidade em relação às margens de segurança. A confederação Sicoob é muito rígida com respeito a todos os parâmetros de controle e de segurança do sistema. Portanto, é muito sólido.
O sistema, quando surgiu, há cerca de 20 anos, já veio como sistema nacional. O Sicoob é muito forte em São Paulo, em Minas Gerais, em Goiás, no Espírito Santo, em Rondônia. Está espalhado pelo Brasil inteiro, mas os Estados que citei são onde há uma presença de mercado mais concreta.

Cezar Santos – Como é o procedimento do cidadão para, por exemplo, abrir uma conta ao se dirigir à cooperativa? Ele passa imediatamente a ser associado?
É uma pergunta importante. Há uma diferença: você não vai à cooperativa para ser cliente, mas para ser sócio. Assim como você pode escolher de quem quer ser sócio, os sócios já existentes também têm o direito de escolher da mesma forma se o querem, querem saber quem está “entrando”. Então, não é simplesmente chegar ao balcão e entrar. É preciso preencher uma proposta de admissão, que é analisada rapidamente, em cerca de uma semana. A partir de sua aprovação, a pessoa tem acesso a conta corrente, a cheque especial e a todos os demais produtos.

Cezar Santos – Ele tem acesso a que tipo de benefícios, em relação ao que encontraria em um banco?
Na prática, o associado de uma cooperativa tem acesso a todos os produtos que um banco ofereça, com exceção de câmbio e aplicação em bolsa. Com esses itens as cooperativas não trabalham.

Marcos Nunes Carreiro – A maioria dos associados em Goiânia é de médicos?
Sim. Essa cooperativa nasceu primeiramente apenas para médicos de Goiânia. Na época, em 1992, a legislação era muito mais restritiva do que é hoje. Havia três condições para se formar uma cooperativa: cooperativa de uma única profissão; cooperativa de empregados de uma mesma empresa; ou, por último, cooperativa de um mesmo município, desde que este tivesse um número limitado de habitantes.
Essa era a regra para a década de 90. Ao longo do tempo, a legislação foi se tornando mais flexível. Então, aquela cooperativa que era para apenas uma profissão, passou a ser para um grupo de profissões da área de saúde. Assim que foi possível, deixamos de atuar somente em Goiânia e passamos a atuar em outros municípios – como Itumbiara, Caldas Novas, Morrinhos – e fomos para o Distrito Federal e para o Tocan­tins. Ou seja, a cooperativa foi se adaptando ao ambiente normativo à medida em que este foi se modificando.
Mais recentemente, há dois ou três anos, a cooperativa de livre admissão. Não estamos mais normativamente restritos a trabalhar somente na área de saúde. Podemos agora receber um posto de gasolina, uma fábrica de colchões, ou qualquer outro tipo de atividade. Porém, mantemos nosso DNA, trabalhamos basicamente com nosso público original, que conhecemos bem. Porém, são bem-vindas outras atividades, desde que tenhamos algum tipo de interação com aquela empresa ou aquela pessoa.

“Economicamente, o povo brasileiro é muito pragmático”

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Euler de França Belém – A Sicoob sofre resistência do setor bancário?
Sofre forte concorrência. Toda possibilidade que eles têm de jogar uma casca de banana para a gente pisar eles jogam, e todas as barreiras que são possíveis de criar eles criam; os bancos privados e, sobretudo, os públicos. Eles nos enxergam como atores secundários dentro do mercado financeiro, mas que podem incomodar. Então, sempre criaram muitas dificuldades.

Euler de França Belém – Vocês também trabalham com financiamento rural?
Começamos a trabalhar com financiamento rural já há alguns meses e temos muita segurança de que essa será uma linha de muito futuro, pois nossa região é a do agronegócio. Somos muito prudentes. Estamos atuando há quatro meses, mas as ambições são grandes.

Euler de França Belém – A inadimplência é alta?
Não. Há um senso comum de que o produtor rural não é bom pagador, mas não é verdade. Houve, no passado, muito problema no crédito rural, mas hoje, depois que foram estabelecidos esses mecanismos de controle, o produtor rural precisa ser um bom pagador, senão ele não consegue, no ano seguinte, novo financiamento.

Cezar Santos – E as taxas são melhores para eles.
São. Como parte dos juros vem de dinheiro público, os controles são muito grandes. Então, o produtor sabe que, se ficar inadimplente no banco “x”, no ano seguinte, ele não vai conseguir tomar crédito rural em nenhuma outra instituição financeira. Então, a inadimplência é baixíssima no crédito rural.

Euler de França Belém – A inadimplência da indústria é maior?
Menor que a de pessoas físicas e maior que no crédito rural. Nos bancos, a pessoa física tem a maior inadimplência; nas cooperativas, não.

Hélio Moreira – A livre admissão foi uma exigência do Banco Central (BC) devido ao número de associados?
Não. A livre admissão foi uma estratégia nossa para abrir novos mercados, onde o público alvo já havia se esgotado. Nós temos algumas praças, como Caldas Novas, Morrinhos, Itumbiara e Luziânia, onde nosso nicho, que era de profissionais de saúde, já estava praticamente todo na cooperativa. Se ficássemos dentro do nicho, a cooperativa ficaria estagnada a essas praças. Então, tornar-nos de livre admissão nos permitiu a expansão de mercado. Porém, é importante ressaltar que a cooperativa continua mantendo o seu DNA e, aqui nas praças onde nosso nicho ainda é amplo, trabalhamos preponderantemente dentro dele.

Outra explicação sobre isso é que a língua portuguesa é muito rica. Fazemos livre admissão e não livre adesão. A cooperativa pode admitir livremente, mas não significa que qualquer um pode aderir. A pessoa vai apresentar uma proposta e seus pares vão aprová-la ou não. A livre admissão tem uma importância vital para a vida da cooperativa, que é permitir a expansão onde o nicho já se esgotou.

Euler de França Belém – Esses fundos não interessam à cooperativa?
Nós trabalhamos de uma forma muito conservadora. O que aconteceu em 2008 é que os fundos, sobretudo os derivativos, tinham uma diversidade enorme de negócios que não eram muito transparentes. Nova­mente digo: deu no que deu. As cooperativas só fazem negócio com sócios, seja para trazer dinheiro ou para aplicar. Não vamos aplicar o dinheiro do cooperado em dólar ou em fundos que não conhecemos. Por isso, não houve quebra de cooperativa em 2008 ou 2009 – porque as cooperativas não tinham aplicações em ativos de risco.

Hélio Moreira – O que o sr. pode falar sobre o fundo garantidor?
Até alguns anos, os bancos eram obrigados a participar de um fundo garantidor de crédito, que é uma instituição privada mantida com a contribuição dos bancos. A função desse fundo é que, em caso de quebra de algum banco, os depositantes desse banco teriam um seguro de R$ 250 mil para cada CPF. Então, se o banco quebrar, o investidor tem a garantia de que, até R$ 250 mil, ele vai receber. As cooperativas não tinham fundo garantidor até algum tempo atrás. Foi uma evolução do sistema e o BC permitiu que as cooperativas também constituíssem um fundo garantidor com as mesmas regras dos bancos, de forma que uma pessoa que é sócia de uma cooperativa tem a mesma segurança do cliente de um banco, no caso de um mal resultado.

Euler de França Belém – Devido à crise, os bancos estão deixando alguns municípios. Vocês têm 13 mil cooperados. Qual a estrutura física da instituição no Estado?
O sistema Sicoob, de uma forma geral, está presente na maioria dos municípios, inclusive, nos pequenos. Existe, em Goiás, uma quantidade grande de municípios que tem como única instituição financeira uma agência de cooperativa. Existem ainda municípios que não têm nem agência de cooperativa nem banco, mas nosso esforço é de universalizar nossa presença em todos os municípios. A força rumo à capilaridade é o que move o cooperativismo. Os bancos, ao contrário, se movem no sentido da concentração. Então, não é estranho para ninguém saber que numa pequena cidade onde havia uma agência bancária, hoje já não existe. Os bancos tendem a trabalhar com grandes volumes e, o que é pior, eles tendem a utilizar suas redes como captadoras de recursos. Depois, levam esses recursos para as praças que eles julgam prioritárias. As cooperativas fazem exatamente o contrário: todo o dinheiro que é captado em um município fica aplicado lá.

Então, a capacidade indutora da atividade econômica das cooperativas é incomparavelmente mais positiva que a dos bancos. Um banco que tem sede em São Paulo capta recursos no País inteiro e vai investir nos grandes projetos que interessam a ele financiar. Provavelmente, nos grandes bancos, você não encontrará recursos significativos investidos nos pequenos municípios. Essa é uma diferença vital.

Euler de França Belém – Os habitantes de São João do Arraial, cidade do interior do Piauí, criaram uma moeda própria com autorização do BC. Isso porque a cidade não tem banco. O sr. conhece essa iniciativa?
Conheço essas experiências que existem não apenas no Piauí, mas também em Alagoas e na Bahia. Existe o famoso Banco Palmas, em Fortaleza, cuja moeda é a palma. São radicalizações de comunidades ou regiões que são tão abandonadas pelo modelo tradicional que é preciso que a inventividade humana crie situações para atender às necessidades da população. Existem várias iniciativas dessas no Brasil e que são quase folclóricas, mas que evidenciam essa capacidade que o sistema tradicional tem de se distanciar das pequenas necessidades.

Euler de França Belém – Qual é a finalidade do Sicoob?
As cooperativas são empresas de propriedade comum para apoiar economicamente seus sócios. Ou seja, a primeira finalidade é agregar renda a seus sócios. Segunda: fortalecer o relacionamento. Então, diferentemente de um banco, que é uma instituição exclusivamente financeira, nós temos um pilar financeiro e um pilar social.

Euler de França Belém – Os produtores rurais falam que o mais importante em outros países, como os Estados Unidos, é o seguro agrícola. O que sr. acha do seguro agrícola?
É muito importante e está se desenvolvendo fortemente. O seguro só é possível dentro de um ambiente econômico saudável. Então, nós que participamos de uma geração que passou por tantas dificuldades e que viu o País ser amadurecido, percebemos que já existe um ambiente suficientemente estável, em que pese os últimos acontecimentos, para que haja menos sustos para os produtores rurais. Isso vai crescer muito nos próximos anos.

Euler de França Belém – As cooperativas têm condições de bancar o seguro agrícola?
Têm e fazem. Nós nos reunimos, outro dia, com os nossos colegas do Sicoob de Rio Verde, que é uma cidade em que o ambiente do agronegócio é muito forte. E lá eles já fazem o seguro rural. Por exemplo, o seguro de um maquinário agrícola é diferente do seguro de um automóvel, pois os riscos são diferentes.

Euler de França Belém – O brasileiro gasta mal? Fica muito endividado?
A resposta fácil é dizer que sim, mas o brasileiro é muito pragmático. Basta pensarmos, por exemplo, em como as pessoas foram melhorando de vida. Como vivíamos há 20 anos? Se analisarmos, perceberemos que melhoramos de vida. As pessoas moram melhor, comem melhor e viajam melhor. E isso é resultado de uma racionalidade econômica.
É claro que, em cada família, terá sempre alguém mais atirado, perdulário ou pródigo. Mas, como agentes econômicos, não estamos em pior situação do que povo nenhum do mundo.

Clidenor Gomes Filho: "É preciso estimular um ambiente sadio para que as pessoas, além de suas finanças equilibradas, tenham capacidade de se relacionar de forma saudável e sustentável" | Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Clidenor Gomes Filho: “É preciso estimular um ambiente sadio para que as pessoas, além de suas finanças equilibradas, tenham capacidade de se relacionar de forma saudável e sustentável” | Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Euler de França Belém – No Japão, o governou incentivou muito a poupança. E aconteceu que se poupou demais; agora, tem incentivado a gastar. No Brasil, o Lula incentivou o consumo; as pessoas, então, gastaram muito e ficaram inadimplentes — a inadimplência brasileira é considerada uma das maiores do mundo – supera, quase, a dos americanos. Lá, nos EUA, porém, se alguém é inadimplente em um Estado, pode não ser em outro. Como o sr. analisa esta questão sobre o brasileiro? Ele realmente poupa pouco?
Sim, até porque não havia excedentes e as pessoas já poupavam pouco. À medida que se sobra algum dinheiro, as pessoas passam a poupar. Mas ainda é um volume insuficiente. Aqui, existe folga para criarmos, seja em nossas famílias ou no ambiente de trabalho, uma cultura de poupança, de pensar um pouco mais no futuro.

Cezar Santos – Já se propôs na Assembleia Legislativa uma lei para introduzir a disciplina de educação financeira no currículo escolar [a matéria foi vetada]. O sr. acha que seria positivo?
Seria muito interessante. O sistema cooperativo propôs, há alguns anos, que se criasse, em Goiás, um ambiente nas escolas para a educação cooperativista. A lei foi aprovada e existe uma diretriz — não uma disciplina aprovada — para que as escolas criem uma disciplina de educação cooperativista e financeira como matérias opcionais — eletivas, não obrigatórias. Seria o melhor dos mundos se conseguíssemos disseminar isso.

Hélio Moreira – Há na cooperativa uma comissão, com alguns membros, ligados a essa educação financeira.
Dentro do próprio cooperativismo, a educação financeira é uma preocupação muito grande. Mas nós fazemos isso dentro da força que nos cabe, que temos. Não é algo tão organizado como uma iniciativa legal.

Cezar Santos – Qual seria a missão do cooperativismo, em sua visão, no cenário atual?
Eu gostaria de falar que enxergamos que, por mais desfavorável que seja o ambiente econômico, há sempre espaço para o trabalho, empreendedorismo e para as pessoas fazerem o que é correto. O que o cooperativismo tem contribuído, em nossa sociedade, é para não nos afastarmos disso, seja em um ambiente inóspito quanto em um ambiente mais favorecido. Precisa­mos fazer a coisa correta, estimular quem trabalha, estimular o retorno de quem trabalha para o próprio produtor da riqueza — que é o que se faz no cooperativismo — de forma responsável, serena, sem se deixar levar por ondas de pessimismo ou otimismo exagerado; isso, do ponto de vista econômico.

Já do ponto de vista mais amplo, é preciso estimular um ambiente sadio para as pessoas; estimular que, além de suas finanças equilibradas, elas tenham capacidade de se relacionar de forma saudável, solidária, com responsabilidades sociocultural e ambiental. A atividade das cooperativas vai bem além de ter finanças equilibradas. Somos muito seguros de que isso tem funcionado muito bem e que continuará funcionando, cada vez melhor.

Hélio Moreira – O que dizer sobre nossa educação continuada, nossos funcionários? Há a possibilidade de as pessoas terem um curso superior, financiado pela cooperativa?
Nessa linha, que vai além das finanças, as cooperativas – e a nossa de um modo especial – investem muito no empregado, no funcionário. Quase todos têm curso superior, mas os que não têm nós os ajudamos financeiramente no pagamento da faculdade. Para todos os que fazem uma especialização, nós também contribuímos com uma parcela dos custos de sua pós-graduação e, dentro da cooperativa, oferecemos uma série de curso das mais variadas áreas, de finanças a cursos de português e redação até automaquiagem — este, por exemplo, em um mercado em que a mulher está tão inserida, estimulamos a saber se cuidar, se cuidar bem e sem gastar tanto. Temos também cursos de culinária. Nós procuramos, então, desenvolver nas pessoas as suas mais diversas potencialidades. Nisso entra o aspecto da responsabilidade não financeira da cooperativa, que é a responsabilidade com o aspecto cultural. Nós criamos, nesse ano, um instituto cultural que será financiado com recursos exclusivos da cooperativa; ele estimulará algumas atividades culturais no Estado. Começaremos, especificamente, com a literatura, criando um ambiente favorável à expansão do movimento literário em Goiás, com resultado do esforço dos produtores de cultura desta área. E, ao longo dos anos, o instituto apoiará outras atividades culturais, como música, artes plásticas e outras.

Marcos Nunes Carreiro – Esse projeto tem nome?
Chama-se Instituto Cultural Sicoob Uni Brasileira, que ainda é um nome muito institucional. Com o tempo, encontraremos uma marca ideal.

Marcos Nunes Carreiro – O sr. já sabe como funcionará esse incentivo à literatura?
O Instituto está sendo estruturado e seu presidente é o dr. Hélio Moreira, aqui presente, até por tudo que ele significa na área cultural – ex-presidente da Academia Goiana de Letras, membro do Instituto Histórico Geográfico, presidente do nosso conselho de Adminis­tração. Portanto, tem uma inserção natural nesse meio. O que a cooperativa fará? Destinará, anualmente, uma verba para o Instituto. As atividades ainda estão sendo elaboradas, em desenvolvimento. Esta é uma área muito rica, não daria para se utilizar de uma receita de bolo. Nos próximos meses, o dr. Hélio Morei­ra construirá um modo de operar o Instituto, nos próximos meses. Essencialmente, nós pretendemos ser uma agência de fomento à cultura. Não pretendemos que o Instituto execute atividades culturais, mas que encontre, dentro do ambiente da cultura, atividades que sejam valiosas e que estejam carentes de recursos, para que o Instituto as apoie, em seu desenvolvimento.

Hélio Moreira [fazendo uma intervenção na fala] – Quanto à inserção na área cultural, estamos planejando o Instituto já há algum tempo; não estamos fazendo nada afobados, tudo é bem discutido e feito com calma. Felizmente, tenho uma boa inserção neste meio. Como o sr. disse, fui presidente da Academia Goiana de Letras, vice-presidente do Instituto Histórico Geográfico — tenho, portanto, um bom relacionamento no meio cultural. Nós nos aproximaremos o máximo dessas entidades. Nossa ideia inicial é de fazer convênios com as academias para que nós forneçamos, para a Secretaria da Educação, conferências temáticas. Nossa cooperativa financiará essas conferências. Com a internet, descobrimos no Canadá um interessante aparelho, que funciona como um totem, que ficava no centro da cidade e a pessoa o acessava e tinha ali uma crônica; nós faremos isso. Temos um protótipo e faremos isso. Enquanto, por exemplo, uma pessoa espera em uma fila de caixa, ela acessa e pode ler uma crônica. Nós já constituímos uma grande biblioteca e conseguimos boas doações das entidades acima, mais o diretório acadêmico. Já temos um acervo considerável, que abriremos aos associados, funcionários para que levem para casa, para que leiam. Então, temos muitas ideias pululando na cabeça.

Marcos Nunes Carreiro – E quanto à área social da cooperativa?
Quanto a nossa responsabilidade social, tirando da grande vertente que é a financeira, a cooperativa tem inúmeras atividades de apoio. Por exemplo, em cada comunidade onde a cooperativa tem uma agência, os próprios funcionários e cooperados da região escolhem uma organização social ou mais para apoiar – seja uma creche, um asilo de idosos, ou uma atividade. O recurso que é gerado naquela unidade, o resultado positivo, é dirigido para essas entidades. Em Goiânia, apoiamos uma meia dúzia de instituições como essas e não fazemos divulgação, pois não é para fortalecer a marca. São entidades filantrópicas. É exatamente para fortalecer, entre nós cooperativistas, a responsabilidade com o que acontece com os que não são membros, pessoas que eventualmente estejam marginalizadas e que precisam desse apoio. É interessante a força que existe dentro das pessoas em apoio a esse tipo de iniciativa. Nós fazemos, todos os anos, uma coleta de cestas básicas e temos uma quantidade incrível de mantimentos; sobretudo no mês de dezembro, com aquele espírito natalino, o número de doações é enorme. E nós temos o hábito de oferecer, por exemplo, o mesmo quantitativo “x” do que foi doado. Portanto, é um volume de doações diretas e de recursos financeiros bastantes significativos — e isso não é propagandístico, não é para fortalecer marca. l

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