“Área de economia criativa é o futuro e o Sebrae Goiás está na frente”

Superintendente defende que o fortalecimento do ensino do empreendedorismo em todos os níveis de educação é fator de dinamização do País

Igor Montenegro, diretor presidente do Sebrae | Renan Accioly/Jornal Opção

Igor Montenegro, diretor presidente do Sebrae | Renan Accioly/Jornal Opção

Mais de 40 mil alunos dos ensinos fundamental e mé­dio em Goiás re­ce­bem cursos de empreendedorismo do Sebrae Goiás. O número é impressionante, mas o diretor-superintendente da entidade, Igor Montenegro, quer mais e informa que, para isso, as parcerias com o Estado e as prefeituras estão sendo ampliadas. Reafir­mando a vitalidade da micro e pequena empresa no Brasil, ele lembra que os pequenos negócios representam 95% de todas as empresas abertas no País. “Os pequenos negócios geram 52% dos empregos formais no País, ou mais de 17 milhões.”

Ele fala das ações e dos programas que serão lançados, como o Começar Bem, para preparar os jovens antes mesmo que eles iniciem o próprio negócio. Entu­sias­mado, o executivo cita exemplos de empreendedores que começaram pequenos e hoje são vencedores, graças ao esforço próprio e aos ensinamentos do Sebrae Goiás.

Igor Montenegro Celestino Otto assumiu a função de diretor-superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Goiás no início deste ano — com ele, Pe­dro Alves de Oliveira (Con­selho Deliberativo), Wanderson Portu­gal (diretor técnico) e Luciana Alber­naz (diretora de administração e finanças). Tem 44 anos, com mais de 20 de experiência na área executiva. É formado em Direito e tem MBA em Finanças, Gestão de Projetos e Gestão Empresarial.

É dono de um vasto currículo na iniciativa privada e no setor público estadual, onde foi secretário de Cidades, presidente da Goiás Parcerias e da Agência Goiana de Comu-nicação (Agecom), entre ou-tras funções. Na iniciativa privada dirigiu uma grande usina de álcool. Ele gosta e sabe fazer política — foi o principal articulador do plano de governo de Marconi Perillo na vitoriosa campanha à reeleição no ano passado.

Adepto da desburocratização e da simplificação dos processos e da legislação, Igor Mon­tenegro defende todos os mecanismo que deem força ao empreendedorismo e à livre iniciativa.

Marcos Nunes Carreiro – Micro e pequenas empresas são esteios da economia. O Sebrae tem trabalho importante para os pequenos negócios e, na crise, como está o desenvolvimento desse segmento?
Os pequenos negócios (PNs) representam 95% de todas as em­presas abertas no Brasil. E o MEI, microempreendedor individual, que estava na informalidade, hoje já é mais da metade do número de pequenos negócios, que realmente são o motor da economia. Os PNs geram 52% dos empregos formais no País, ou mais de 17 milhões. Como são 10 milhões de empresas, já são 27 milhões de pessoas que vivem dos pequenos negócios. Somam-se aí mais 6 milhões de pequenos produtores rurais. Grande parte da economia brasileira é impulsionada pelos PNs.
Mas observo: apesar de representar 95% dos negócios, os PNs são apenas 27% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Nos países europeus, acima de 40% do PIB advém dos pequenos; na Itália, 60%; na Alemanha, 45%. Lá eles têm uma projeção de comércio externo maior que aqui. No Brasil, temos crescido na balança comercial ao longo do tempo, mas proporcionalmente em relação ao comércio internacional, quase não crescemos. Os PNs aqui ficam entre 1% a 1,5% das exportações, continuamos nesse patamar mesmo tendo crescido, porque nos especializamos muito em commodities. Lá fora, principalmente nos Estados Unidos, eles trabalham muito com produtos industrializados, com exportações de plataformas na área de TI (Tecnologia da Informação), softwares, etc. Então, presos às commodities, dos cerca de 2% de comércio internacional do Brasil, os PNS ficam com 1%. Precisamos aumentar a penetração dos PNs no comércio internacional, talvez esse seja o maior desafio do Brasil. A partir disso, teremos uma base de negócios mais bem estruturada e competitiva internacionalmente. Essa competitividade de classe internacional nós ainda não temos, exceto no caso das commodities.

Cezar Santos – Reclama-se da dificuldade para abrir empresa, excesso de burocracia, etc. Isso dificulta a adesão das pessoas ao pequeno empreendimento formal, principalmente daquelas pessoas de baixa instrução, que normalmente têm mais dificuldade?
Isso é uma realidade ainda, mas o Brasil já passou por uma reforma tributária dos pequenos negócios. Quando se fala na necessidade de u­ma reforma tributária, isso se refere aos 5% dos médios e dos grandes, porque dos pequenos já chegou em 2006, com a criação do Estatuto da Micro e Pequena Em­presa (EMPE), que resumiu todos os impostos numa ú­nica guia, o Simples. Além disso, ele também reduziu os impostos, dos micros e pequenos, em média, em 40%.
O que se espera hoje do Simples é que haja uma ampliação da base para mais empresas, hoje limitada a R$ 3,6 milhões de faturamento/ano. Estava putada para ser votada ontem (terça-feira, 25), na Câmara dos Deputados, a ampliação desse limite, para R$ 7,2 milhões em comércio e serviços, e R$ 14 milhões para exportadoras e indústrias. Isso seria importante para o Brasil. O Ministério da Fazenda é contra, porque acha que vai perder arrecadação. Nós do Sebrae entendemos que vai ampliar a base tributária, colocar mais empresas para contribuir.
Voltando à questão da burocracia, quando Bill Clinton assumiu o governo dos EUA, na década de 90, ela esta­va encantado com as ideias de um livro, “Reinventando o governo” (de David Osborne), que fala exatamente de simplificação e desburocratização do serviço público, estabelecendo base para uma nova gestão pública, mais moderna. Muitas dessas ideias foram implantadas lá e em outros países, inclusive no Brasil. Fernando Henrique Cardoso ajudou a disseminar essas ideias, ainda quando ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).
Nos EUA, eliminaram muita legislação, simplificaram a linguagem da legislação, reduziram o processo de abertura de empresas, de embaraços e licenciamentos, etc. E reduziram também a força de trabalho do governo federal durante os dois mandatos de Clinton. A ponto de eles terem no final da década de 90 apenas 310 mil servidores federais, o mesmo nível de 1930, veja só! Não por acaso o governo de Bill Clinton é considerado um dos melhores na história dos Estados Unidos. Ele enfrentou e combateu a burocracia e estabeleceu um padrão de simplificação. Ele mexeu nos padrões de atendimento, o servidor público passou a enxergar o cidadão como cliente mesmo. E essas ideias acabaram vindo para o Brasil. Por exemplo, o nosso Vapt Vupt é uma ação nesse sentido: simplificar e facilitar a vida do cidadão. As Organiza­ções Sociais (OS), uma nova forma de gerenciar um serviço público essencial, mais contemporânea, moderna.

Yago Rodrigues Alvin — Mas há muito ainda a fazer?
Sim, ainda há muito a fazer no Brasil para reduzir a burocracia e simplificar a vida do cidadão. Nesse sentido, o Sebrae tem trabalhado com um projeto chamado Redesim [Rede Nacional para a Simpli­ficação do Registro e Lega­lização de Empresas e Negócios]. Hoje, para abrir uma empresa demora uns quatro meses — e costumam brincar dizendo que para fechar é eterno (risos), pelo tanto que é difícil. O Redesim preconiza que em vez de o empresário abrir seu cadastro em vários órgãos diferentes — Receita Federal, INSS, Secretaria da Fazenda, Secretaria do Meio Ambiente, Vi­gi­lância Sanitária, Corpo de Bombeiros —, por isso que demora 150, 180 dias para abrir uma empresa, ele o fará um único cadastro e esses órgãos é que buscarão essas informações, que estarão unificadas. E lembro que na Nova Zelândia se abre uma empresa em minutos, nos EUA em dois dias.
Há dois anos começou-se a integrar o sistema no governo federal, na Receita e no INSS, e agora estamos integrando nos governos estaduais. O governo de Goiás está trabalhando hoje a Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria da Fazenda, Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária. E começamos a trabalhar com os prefeitos simultaneamente, mais de 30 prefeituras já aderiram. Já é uma ação forte de redução de burocracia pra abertura de empresas. Dentro de um ou dois anos grandes municípios estarão funcionando com o Estado nesse sistema. Aí, abrindo empresa em um ou dois dias, estaremos em outro patamar no mundo. Da mesma forma funcionará o Redesim com relação ao fechamento de empresas. O cidadão poderá fechar sua empresa sem precisar de autorização de nenhum órgão. Depois, se a Receita ou INSS tiver que cobrar algo o fará no futuro, não precisa impedir o fechamento. Débito tributário não pode impedir a pessoa de abrir empresa. Aí, tem outro problema, se a pessoa não fechasse a empresa ela não poderia abrir outra; isso é uma prisão, não estamos na China (risos), estamos no Brasil, país democrático. O Redesim veio para simplificar tudo isso.
Há muito que fazer e percebemos essa ansiedade nos próprios gestores das áreas ambiental, sanitária, etc. Eles também querem simplificar. É um processo de quebrar paradigma, e estamos caminhando.

Marcos Nunes Carreiro – Se­cre­taria da Micro e Pequena Empresa, que tem peso de ministério, com Guilherme Afif Domingos funciona a contento?
Gosto muito da gestão do ministro Afif. Ele é um empresário do segmento de seguros, foi presidente da Associação Comercial e Industrial de São Paulo, da Federação das Associa­ções Comerciais de São Paulo, e depois da entidade nacional, ou seja, teve uma militância muito grande, o que alavancou a candidatura dele à Presidência [em 1989, pelo PL, ficando em sexto lugar]. Conhece muito o setor privado, passou a conhecer o setor público, por ter exercido funções relevantes no governo de São Paulo e governo federal. Ele fala uma coisa muito interessante quando diz que não tem ansiedade em relação a verbas para exercer seu trabalho, porque seu ministério é do verbo, e não da verba. Ele precisa produzir são políticas públicas para desburocratizar, simplificar, reduzir tributação, ampliar a penetração dos micros e pequenos no comércio internacional. As ações são executadas pelas outras áreas, outros ministérios, pelo Sebrae, pelos Estados. Afif está fazendo um grande trabalho. O Redesim, mesmo, devemos muito a ele e sua equipe.
Agora, Afif Domingos fez um tra­balho no Congresso, contrapôs o Ministério da Fazenda, que está contra a ampliação do regime do Simples. Ele defendeu a posição no governo e no Congresso. Ele tem um papel relevante. Até pela atitude política corajosa de deixar a vice-governadoria de São Paulo para assumir a Secretaria de Micro e Pequena Empresa. Ele nos disse que fez isso por paixão pela causa.

Yago Rodrigues Alvim – O Sebrae tem o programa Jovens Empre­endedores Primeiros Passos (JEPP), que ensina em escolas primárias e secundárias noções de empreender, o que também abre portas para o futuro. Como o Sebrae atua na área da Educação?
Hoje capacitamos professores e fornecemos material na ministração de cursos de empreendedorismo a mais de 40 mil alunos dos ensinos médio e fundamental em Goiás. Desse universo de mais de 500 mil alunos, alcançamos menos de 10%. Gostaríamos de levar o empreendedorismo a cada aluno do ensino público e privado, mas precisaríamos ampliar as parcerias, porque isso é muito caro para o Sebrae, que arca com todo o custo, por exemplo, das cartilhas, da capacitação dos professores. Buscamos ampliar as parcerias com o Estado e as prefeituras. Simultaneamente, vamos implementar, a partir de 2016, o programa Começar Bem, para preparar os jovens, mas não só, antes de eles começarem um negócio. É para que eles comecem com o pé direito. Além da capacitação, damos todo o apoio de consultoria para fazer um bom plano de negócio, estabelecer boas bases de captação de recursos para que ele não se endivide indevidamente na abertura da empresa e poder crescer com segurança. Então, com o Jovens Primeiros Passos, com 40 mil alunos, e o Começar Bem, queremos estabelecer as bases para um empreendedorismo cada vez mais saudável, com longevidade.

Cezar Santos — E quanto à morte precoce das empresas?
Já chegamos a um patamar diferenciado, porque mais de 75% dos ne­gócios abertos no Brasil sobrevivem ao segundo ano. Fala-se que no País os negócios fechavam muito rápido, que há uma mortalidade infantil das empresas. Mas isso acontecia há 20 anos, quando a longevidade das em­presas era de 40%. Com o trabalho do Sebrae ao longo dos anos, chegamos a 75% de longevidade após dois anos, o que é muito significativo, porque ajudamos o empresário a investir por oportunidade, e não por necessidade. Quan­do o pequeno vai abrir um negócio só pela necessidade de ter renda, a chance de fechar as portas mais cedo é grande, diferente de quando ele identifica uma oportunidade de mercado e trabalha nela, a chance de vencer aumenta muito. A educação empreendedora é fundamental.
Queremos também fortalecer a participação do Sebrae no ensino superior. Temos trabalho aí, com vários produtos e soluções. Quere­mos estender isso. Por exemplo, milhares de TCC [trabalho de conclusão de curso] são feitos todos os anos e imagina-se que a maioria é apenas para fazer uma obrigação, mas 2 ou 3% devem ser boas pérolas, consistentes. Temos conversado com as universidades, vamos estimular o aluno a fazer TCCs voltados para a realidade, para que eles possam contribuir com os empresários na vida real. Por que não uni-los, para achar soluções de problemas reais dos empresários?
A partir de um TCC, o estudante pode estar se capacitando melhor para o mercado de trabalho, encontrando uma solução real, e também ajudando o empreendedorismo no Brasil. Pode ser na área da engenharia, da economia e porque não na comunicação? As empresas vivem um problema sério de comunicação interna. É uma perspectiva que os países mais desenvolvidos têm. Fazer com que a educação seja mais voltada para a prática. Os estudos mostram que apenas 10% do conhecimento é absorvido pelo processo tradicional de ensino, que é um sistema criado no século 19. Os professores são formados no século 20 para alunos do século 21. É preciso avançar muito nisso.
Acreditamos que é preciso criar um sistema educacional voltado para o aluno do século 21. Já existe a iniciativa, por exemplo, de ensinar os alunos com games. Há metodologias em que o aluno não tem mais professores com aula expositiva. É uma mesa em forma de hexágono, para não ter ponta, cada um tem seu laptop, que fica na escola e não leva para casa. Assim vai aprendendo de acordo com o ritmo dele. As salas de aula são misturadas, ou seja, sétima série, oitavo ano, está todo mundo ali. A metodologia é um game que vai mudando de fase, se o conhecimento em matemática ou em língua portuguesa é satisfatório ele pula de fase igual a um jogo. Esta tecnologia de ensino mais ligada ao século 21 é a que acreditamos para o futuro. No caso do empreendedorismo não é diferente. Nós do Sebrae temos também que avançar mais em questão de tecnologia. Acreditamos que o futuro da educação seja voltado para a base tecnológica.

Marcos Nunes Carreiro — As micro e pequenas empresas goianas atuam mais em que área?
Comércio e serviço são os carros chefes. Acredito que comércio acima de 40% e serviços acima de 30%.

Marcos Nunes Carreiro — Elas geram muitos empregos?
As estatísticas aqui são muito parecidas com a nacional: 52% dos empregos são gerados nos micro e pequenos negócios. Nós achamos que pode crescer mais, mas de qualquer forma já é uma base grande.

Marcos Nunes Carreiro — Há muitos casos em Goiás de empresas que começaram médias e se tornaram grandes, como a Arisco que virou Unilever?
Há muitos casos, tanto na área do comércio quanto na de serviços. Alguns até franquearam sua marca, como o QG Pastéis. O Bapi é outro exemplo, começou como um pequeno negócio de sucos e hoje está franqueando. A Creme Mel Sorvetes começou como uma pequena indústria e hoje está grande, comprou recentemente a Zeca’s Sorvetes, a maior de seu ramo na região Nordeste. Na área de serviço, há várias empresas de software. Boas oportunidades continuarão surgindo. Ao empresário que nos lê, digo que ele precisa procurar a tendência e oportunidades de mercados. As tendências de mercado e de oportunidade estão ligadas as mudanças comportamentais da sociedade. Na medida em que se muda o comportamento, os hábitos de consumo também vão mudando. De acordo com essas mudanças, o Sebrae realizou um estudo de principais tendências e oportunidades. Identificamos 18 grandes tendências de oportunidade. Vão desde o agronegócio, segurança, trabalho e educação.

Frederico Vitor — As mulheres são um nicho especial?
Registro o poder delas, que atualmente têm 52% do mercado. Elas têm cada vez mais renda e poder. E elas vão ter um padrão de consumo diferente que tinham no passado. Há também o envelhecimento da população, com as técnicas modernas da medicina, a população está vivendo mais e isso é uma nova tendência que vai criar um novo nicho de consumo. Há o mercado de saúde e beleza. A cada dia as pessoas estão valorizando mais a imagem e o corpo. Franquias. A longevidade das empresas franqueada é maior, porque é um negócio que já tem uma tecnologia dominada e uma marca estabelecida. O consumo da classe emergente. Atualmente 55% dos negócios são da classe C. Há o mercado single, de solteiros que não querem se casar, eles consomem diferente.

Marco Nunes Carreiro — Crianças também determinam consumo?
Sim, consumo precoce, as crianças cada vez mais estão ditando o consumo de suas casas, portanto isso também é uma tendência. Já se fala em abrir salão de beleza apenas para crianças. Praticidade, hoje em dia ninguém não tem tempo parta nada, como se atende esse mercado? Consumo consciente e sustentabilidade é outra tendência forte. Morar bem. Cada dia que passa, mesmo morando em pequenos espaços as pessoas querem morar melhor. Busca pela espiritualidade. Merca­do editorial de livros religiosos, espíritas, evangélicos, católicos, mercado de música gospel. Engraçado que este é um fenômeno que cresce na América Latina, mas é decrescente na Europa e nos Estados Unidos, onde a espiritualidade está decrescendo. Casal sem filhos é outra tendência, pois as pessoas estão demorando mais para ter filho ou estão decidindo não tê-los.
Pessoas mais gordas formam um nicho de mercado. Tem o mercado pet, ou seja, as pessoas estão deixando de ter filho e criando mais cachorro e gatos. Por fim a internet e a conectividade, com prestação de serviços. Para cada uma dessas tendências temos uma análise de oportunidade de negócios e uma análise com ideias de negócios. Fizemos um estudo e disponibilizamos aos pequenos empresários. Na área de internet e conectividade, por exemplo, desenvolvemos estudos em startups, ideias para o e-commerce, desenvolvimento de aplicativos e novas profissões ligadas à internet. Colocamos várias oportunidades de negócios que não são exaustivas. É importante antes de empreender, saber no que empreender. Ao em­preender é essa a visão que ele deve ter, ou seja, ao investir deve olhar para o futuro não para o presente. Tudo isso está no hot site que criamos e disponibilizamos ao pequeno empreendedor. Nós atualizamos sempre esse hotsite, com dados socioeconômicos de empreendedorismo, diagnósticos setoriais, outros estudos e pesquisas e informação de captação de recursos.

“As pequenas empresas podem exportar mais”

Yago Rodrigues Alvim – Sobre a economia criativa, e como vocês veem o empreendedorismo digital, que tem crescido bastante?
Nós criamos no Sebrae de Goiás uma área exclusiva para economia criativa, é um dos poucos Sebraes do Brasil que tem. O mundo moderno exige participação cada vez maior desta economia. Chamamos um profissional da casa, muito respeitado, o Décio Coutinho, para dirigir essa área, e estamos desenvolvendo uma série de projetos. Tenho certeza que no final desta gestão, o Sebrae Goiás será um modelo de economia criativa para todo o País. Os outros estão ainda lá atrás, mas se está caminhando para este sentido. Todos os negócios do mundo digital são negócios de muito futuro.
Não tem outro caminho a não ser aprofundar a questão da revolução digital. Isso é bom e ruim sobre diversos aspectos. A automação a cada dia que passa vai tomando os empregos, por isso é preciso gerar alternativas de trabalho para as pessoas. Mas onde estão estas alternativas? O mundo desenvolvido ainda não sabe responder. O grande desafio é como gerar novos postos de tra­balho. A automação está crescendo e das exporta até postos de trabalho. O call center lá dos Estados Unidos é feito por pessoas na Índia. Os americanos consultam médicos europeus que custam mais barato. A área da internet é um grande desafio para geração de emprego. A Nike, por exemplo, é uma marca e tem indústria em todo mundo, ela trabalha o marketing para a comercialização de seu produto. Isso nós chamamos de outsource, ou seja, criar emprego em outro lugar. Há também o robosource, que é automação. O futuro da economia está no em­preendedorismo. O emprego de carteira assinada tem os dias contados. Cada um de nós no futuro será um empresário. O trabalho não vai acabar. Vai diminuir, mas não vai acabar.

Untitled-1Frederico Vitor – O sr. disse que as pequenas e microempresas são a maioria em Goiás e no Brasil, mas não exportam tanto quanto as médias e grandes empresas. Essa assimetria tem alguma correlação com a crise econômica atual?
Não e sim. Sim porque a crise econômica dificulta os negócios no mundo inteiro. Desde que a China começou a diminuir seu ritmo isso afeta o Brasil. Primeiro nós privilegiamos o Mercosul como parceiro comercial e falamos para o mundo todo que iríamos fazer relação comercial em bloco. Enquanto isso nossos vizinhos, como Chile, Peru e Colômbia, não participam de nenhum bloco e fazem negociações bilaterais. Com isso tiveram trocas comerciais facilitadas e conseguiram manter o ritmo. Tanto que todos estão crescendo e mantendo o dinamismo de suas economias. Nós decidimos não fazer negociações bilaterais, apenas de blocos, então já entramos perdendo. Não tem como compatibilizar os interesses de Argentina, Uruguai, Venezuela e Paraguai com os do Brasil. Às vezes, os interesses deles são diferentes dos nossos. Para falar que não fizemos nenhum acordo bilateral, fizemos com Israel, que tem uma participação ínfima na balança comercial; com o Egito e não me recordo de outro. Estamos patinando um acordo com a Europa há mais de dez anos. A mesma coisa com os Es­ta­dos Unidos e a Ásia, com quem tam­­bém não temos acordos significativos.
E isso faz com que não tenhamos competitividade nas exportações. Estamos em uma camisa de força, que acaba nos unindo a países que também não têm competitividade no mercado internacional, caso da Argentina. É incrível como um país com tanto potencial como a Argentina vive com problemas, o que tem a ver com a política. De qualquer forma, essa é uma das raízes dos problemas de exportação brasileira. A falta de bons acordos bilaterais dificulta a entrada de nossos produtos no mercado internacional, principalmente das micro e pequenas empresas. Logicamente, as médias e grandes têm outros meios de competir.
Mas a crise não é o único motivo. Tem alguma influência, afinal em tempos de crise, temos um mercado mais restrito, mas o que todo país faz é melhorar sua balança comercial, ou seja, aumentando a produção interna e importando menos, além de trabalhar as alternativas de exportação. Portugal tem feito isso muito bem. Agora, é claro que precisamos de duas soluções: a primeira é sair dessa crise, que não deve ser rápida; e a outra é resolver essa questão dos acordos comerciais.

Frederico Vitor – Os empresários reclamam que a legislação trabalhista brasileira é atrasada. Há alguma possibilidade de a lei ser modernizada no médio ou no longo prazo?
A legislação trabalhista brasileira foi originalmente inspirada na legislação criada por Mussolini [um dos fundadores do fascismo italiano]. Então, será que o Brasil precisa de uma legislação que foi criada no auge da Segunda Guerra Mundial e inspirada em um modelo nazifascista? Precisamos evoluir. A Itália enfrenta o mesmo problema do Brasil, porque a raiz da legislação deles é a mesma. Inclusive, o nosso modelo de Justiça do Trabalho foi inspirado lá, assim como as juntas trabalhistas. O formato sindical brasileiro também: os sindicatos patronais, os sindicatos trabalhistas e as federações e a própria distribuição de recursos nesse sistema sindical.

Cezar Santos – Isso foi feito justamente para atrelar o aparelho sindical ao Estado.
Justamente, e isso é moderno? Não pode ser. Então, o Brasil precisa modernizar muito essa questão.

Frederico Vitor – E como o sr. vê a questão da terceirização?
Como disse anteriormente, a tendência é que nós sejamos as nossas próprias empresas. Agora, o importante é que qualquer mudança não prejudique as relações de trabalho. Mesmo com um modelo mais flexível para contratação de terceiros, é preciso haver garantias de que a relação de trabalho não será precarizada, porque a terceirização pode fazer isso. Se houver garantias na legislação para que isso não aconteça, sou 100% favorável à expansão das terceirizações, pois o trabalhador não será empregado, mas trabalhador. Acho que o termo empreendedor-trabalhador seria mais adequado. E ele precisa ser respeitado.

Cezar Santos – O sr. falou sobre a dificuldade do brasileiro para exportar, mas em contrapartida há uma grande facilidade para importar. Pode-se comprar praticamente tudo em sites da China, como o AliExpress, e receber a mercadoria em casa sem problema. Isso significa que não estamos sabendo exportar?
Temos uma questão de custo da moeda. Como o Brasil tem uma moeda mais forte, fica mais fácil importar. Quando a moeda enfraquece, se torna mais simples exportar. É o que acontece atualmente. Com a desvalorização da moeda neste ano, é melhor exportar do que importar. Isso muitas vezes dita o fluxo de comércio. A China utilizou isso muito bem, usando uma moeda mais fraca para expandir suas exportações. Porém, se isso for feito de maneira superficial, o sistema acaba sendo prejudicado no longo prazo.

Cezar Santos – Um problema sério de competitividade é a baixa produtividade do trabalhador brasileiro.
Acredito que nós precisamos ser mais produtivos. A produtividade do trabalhador brasileiro é muito baixa, em relação aos dos países mais desenvolvidos como Estados Unidos, Itália, Alemanha e França. Além disso, a qualidade e o preço dos nossos produtos precisam ficar mais competitivos. Isso acontece a partir da gestão. Às vezes, o empresário tem um bom produto, mas não consegue fazer uma boa gestão de sua empresa. E é isso que o Sebrae faz: investe pesado no aprimoramento das empresas.

Marcos Nunes Carreiro – Está no Congresso a lei que modifica o teto do Simples. Essa ação é benéfica?
A lei propõe passar o teto de R$ 3,6 milhões para R$ 7,4 milhões. Pa­ra as empresas exportadoras e as in­dús­trias, esse limite iria para R$ 14 mi­lhões. Ou seja, ampliaria bastante a ba­se das empresas atendidas pelo Simples. Então, essa é uma expectativa.

Euler de França Belém – Tende a ser aprovada?
O Congresso tem nos dado tantas surpresas ultimamente. Mas a verdade é que há uma disputa interna dentro do governo. O Ministério da Fazenda é contra e outras áreas de desenvolvimento, como a Se­cre­taria da Pequena Empresa, que está ligada ao Ministério do De­senvolvimento, são a favor por entenderem que ela é importante para dar mais competitividade ao mercado brasileiro. Então, no próprio governo não há consenso.

Euler de França Belém – Ações as­sim fazem com que o País perca no curto prazo, mas ganhe no longo.
Acho que o Brasil não perderia nem no curto. Eu acredito que, ampliando a base, a arrecadação será ampliada. O que tem de diferente nesse projeto é o seguinte: se o projeto envolvesse os projetos federais e estaduais, ele encontraria certa resistência nos Estados, que estão em muita dificuldade no País inteiro para equilibrar as contas. O que eles fizeram: até R$ 3,6 milhões, vale a regra atual para os tributos federais, estaduais e municipais; desse valor acima, só vale para os tributos federais e cada Estado passa a legislar sobre os tributos estaduais. Assim, fica bom, pois o Estado tem liberdade. Pode tanto manter quanto fazer uma política tributária mais agressiva. E esse modelo é bastante interessante para aplacar a resistência dos Estados. Inclusive, o ministro Afif disse que o Ministério da Fazenda criticou o projeto sem lê-lo, pois disseram que a lei vai prejudicar a arrecadação da União, dos Estados e dos municípios, mas o projeto já define essa questão. Logo, pode acontecer de tudo na votação, se isso voltar a ser pautado.

Yago Rodrigues Alvim – Como está a implementação da Lei Geral?
A Lei Geral da Micro e Pequena Empresa cria condições para dar competitividade aos pequenos negócios nos municípios. O objetivo é fortalecer a economia local, que é onde as pessoas moram. Ela é muito importante para capitalizar a política de desenvolvimento. Em Goiás, a Lei Geral está implementada em mais da metade dos municípios. Dos 246, 211 criaram as leis municipais. Agora, criar a lei não significa implantá-la. Dessas 211 cidades, 123 implantaram de fato. Como fazer isso? Criar um agente de desenvolvimento para impulsionar o desenvolvimento local; criar a sala do empreendedor para trabalhar a capacitação desses empresários; criar o sistema de compras governamentais da prefeitura, o que beneficia os pequenos negócios nas compras até R$ 80 mil. Mas ainda há muito se fazer, pois, mesmo nos municípios em que a lei foi implantada, as ações podem acabar não acontecendo por uma mudança de governo, por exemplo. Então, é preciso ficar muito atento a tudo isso. No Sebrae, temos uma área que cuida de políticas públicas e ações com o governo e estamos acompanhando, pois, se não há ações adequadas, prejudica-se o empreendedorismo no município.

Yago Rodrigues Alvim – Como o sr. vê a questão da informalidade? É algo que precisa de atenção?
Eliminar a informalidade seria um sonho. É difícil. Então, trabalhamos para diminuí-la. Como? Reduzindo a burocracia, os impostos, entre outras questões. As­sim, o MEI [Micro Empreen­dedor Individual] foi algo importante, pois com R$ 44,40 a pessoa paga seus impostos e sua previdência privada, com cobertura de aposentadoria, pensão por morte e acidentes de trabalho. Por isso, nos últimos anos, conseguimos sair de 4 milhões ou 5 milhões de empresários para 10 milhões. Desses 10 milhões, 6 milhões eram informais que foram legalizados. E isso é importante para o empresário. Se a pessoa é informal, ela já chega derrotada para vender seu produto. Legalizada, a pessoa tem autoestima, pois tem cidadania empresarial. Agora, é um trabalho que não acaba.

"No Brasil, 52% dos empreendedores são mulheres. no centro-oeste é ainda mais, 57%. elas já adquiriram protagonismo no empreendedorismo brasileiro” | Foto: Domingos Elias

“No Brasil, 52% dos empreendedores são mulheres. no centro-oeste é ainda mais, 57%. elas já adquiriram protagonismo no empreendedorismo brasileiro” | Foto: Domingos Elias

Euler de França Belém – Há muitas mulheres nos pequenos negócios atualmente?
As mulheres são maioria no mercado de trabalho, mas sofrem com questões de igualdade. No empreendedorismo, não. Elas têm conseguido, nos últimos anos, bastante protagonismo. A última estatística da Revista GEM [Glo­bal Entrepreneurship Mo­nitor, Monitoramento Global de Empreendedorismo em inglês], que pesquisa a situação em 67 países do mundo, mostrou que no Brasil 52% dos empreendedores são mulheres. Ou seja, elas já adquiriram protagonismo no empreendedorismo brasileiro. Isso é muito relevante, pois o Brasil é o país onde as mulheres têm mais força. Essa pesquisa, surpreendentemente, mostra ainda que, no Centro Oeste, o índice é de 57%. Os porcentuais significam que o mercado empreendedor tem, assim, um olhar mais feminino, mais atento ao cliente. A mulher tem uma abordagem diferente do homem, em relação ao negócio. É uma diferença muito importante, pois traz uma diversidade para gestão, para o empreendedorismo, traz um empreendedorismo mais atento ao consumidor, à prestação de serviço e sua qualidade. A mulher tem traços de empreendedorismo diferenciado do homem; o que não quer dizer que ele seja pior, são apenas diferentes. Esse olhar da mulher para administração já está modificando o perfil do empreendedorismo brasileiro, o que é muito positivo e é, também, um traço de democratização das oportunidades. Isso é valiosíssimo em um país em que tem uma democracia jovem. Nós precisamos democratizar as oportunidades de trabalho no empreendedorismo, e valorizar, cada vez mais, as mulheres. Elas são, sempre foram, a maior parte da população. A democratização das oportunidades para elas, portanto, é fundamental para o desenvolvimento do Brasil.

Euler de França Belém – E quanto aos negros e pardos?
Bom, quanto a eles, outra coisa importante que vimos na pesquisa é que já são 44% dos empreendedores. Um crescimento importante, na pesquisa anterior eram cerca de 30%. Isso aconteceu simultaneamente ao crescimento da participação das classes C, D e E. Entendemos que, cada vez mais, os negros e pardos terão mais protagonismo na economia brasileira e adentrarão, também cada vez, mais nas classes A e B. Este foi outro aspecto muito importante que a pesquisa nos trouxe, que as oportunidades de empreendedorismo não estão restritas nem a gênero nem a raça. Portanto, há cada vez mais uma democratização das oportunidades no país, o que é muito importante para economia brasileira.

Marcos Nunes Carreiro – Há casos recentes de sucessos dentre os microempreendedores?
Nós atendemos, anualmente, mais de 80 mil empresários. Alguns, mais de uma vez. Com o programa Negócio a Negócio atendemos de porta em porta. São três atendimentos que fazemos com 35 mil empresários. São mais de 100 mil atendimentos, só com esse programa. Temos uma fidelização de mais de 50% dos nossos clientes. Portanto, há milhares de casos. Alguns são emblemáticos, como o do Adison de Freitas, da empresa Preparo Alimentos, de Campos Belos, a última cidade do Estado, na região Nordeste. Fica na divisa de Tocantins e da Bahia. É uma cidade que tem uma vitalidade econômica, pois é polo comercial e de serviços na região. A família dele tinha o negócio de tempero há décadas, ele era missionário católico e foi para São Paulo a fim de cuidar de moradores de rua. A família dele ligou e disse que se ele não voltasse para cuidar dos negócios, iria fechá-lo, os pais idosos já estavam sem forças. Ele trocou o sonho de ser missionário pela realidade de ser empresário. Procurou o Sebrae, pois nunca tinha sido empresário. Fez um curso conosco, mas achou que faltava algo mais. Uma consultora do Sebrae indicou a ele que procurasse o Sebraetec, para inovação de empresas. Ele foi atrás do programa. A empresa tinha um produto, uma mistura de alho e sal, de muita boa qualidade, o Tempero Completo –– um nome sem muita criatividade. A marca com um azul estridente. Fizemos, então, um trabalho de inovação. A primeira coisa foi mudar o nome para Preparo Alimentos, sugerimos, ele aceitou e, assim, já passou a ser uma indústria de alimentos. Estendemos a linha de produtos. Em vez de ser apenas alho e sal, tinha alho, sal e pimenta ou, então, alho, sal e cominho. Mudamos o layout da marca, a cor. Fizemos o design gráfico, um portfólio de produtos para ele entregar em supermercados, além de um cartão estilizado. Também trocamos o formulário de pedido de compras e criamos um site. Tudo feito com o Sebraetec, que é uma consultoria de inovação em que o Sebrae paga 80% da consultoria e o empresário paga apenas 20% e pode ainda parcelar em até cinco vezes. Ele nos disse que suou para pagar o Sebraetec, pois a empresa não estava dando lucro. Mas ele saiu de um faturamento de R$ 10 mil ao mês e está faturando mais de R$ 40 mil. Por ano, eram R$ 120 mil e, agora, são quase R$ 500 mil. Ele, antes, vendia em dez municípios. Hoje, já são mais de 30 municípios, na região. Interessante é que o pai dele nunca recebeu proposta para vender a empresa, mas com ele já tem gente querendo comprá-la. O produto dele é muito bom, de alta qualidade. Minha esposa mesmo experimentou e disse que é muito bom. Ainda que um pouquinho mais caro que os industrializados, é um tempero mais caseiro com um “q” a mais. Hoje, o Adison fala que, se não fosse o Sebrae, a empresa não seria o que é. Esse trabalho que transformou a vida dele custou R$ 10 mil, sendo que o Sebrae pagou R$ 8 mil e ele R$ 2 mil. Portanto, os R$ 2 mil que ele suou para pagar em cinco parcelas, já gerou um faturamento de R$ 300 mil a mais por ano. O negócio dele só tem a crescer.

Superintendente do Sebrae Goiás, Igor Montenegro: “Estimulamos as pessoas a comprar dos pequenos, uma forma de fazer o dinheiro recircular aqui mesmo” | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Superintendente do Sebrae Goiás, Igor Montenegro: “Estimulamos as pessoas a comprar dos pequenos, uma forma de fazer o dinheiro recircular aqui mesmo” | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Yago Rodrigues Alvim — Há uma indústria goiana de cosmético…
É outro caso que gosto de contar, ­a Blant Colors, de uma empreendedora goiana que vendia esmaltes. Ela, um dia, pensou que poderia fazer a marca própria de esmaltes, ao contrário de vender a de outros. Criou, então, a Blant. A fábrica fica em Aparecida. Só que, primeiro, ela terceirizava a produção em uma fábrica goiana e também de outros Estados. Quando ela terceirizava e dizia as cores que queria ou, então, um brilho diferente, qualquer ideia, os fabricantes viam que a ideia era boa e faziam igual. Assim, vendiam e concorriam com ela, que ficava “p” da vida: “O que adianta eu ter várias ideias se me copiam?” Ela era dependente do fabricante. Só tinha a marca Blant, porque participou de programas do Sebrae e despertou para o empreendedorismo. Ela participou de uma missão do Sebrae, em que levamos empreendedores goianos do segmento para a Itália, numa feira de beleza em Milão. O Sebrae pagou 50% da viagem. Em Milão ela viu uma máquina de fabricar esmaltes. Ela ficou louca: “Eu tenho que ter essa máquina, vai ser minha independência.” Voltou para o Brasil com a cabeça virada. Vendeu a casa, carros, pegou dinheiro emprestado com a família, pois não queria pegar dinheiro com o banco, para não ficar endividada. Com isso tudo, ela apurou R$ 1 milhão e comprou a máquina de fabricar esmalte. Antes, ela era uma vendedora de esmalte. Hoje, ela é industrial. Ela participou dos programas de capacitação do Sebrae e das ações de acesso ao mercado, como as missões comerciais e feiras, que realizamos e apoiamos. Ela fala que não seria industrial, que não teria a Blant como hoje ela é, se não fosse o Sebrae. Agora, ela não depende mais de uma empresa que vai copiar seu produto na linha de fábrica. Ela até estendeu a linha de esmalte e outros produtos, também. Ela é toda inventiva e entende o perfil da mulher. Ela é, hoje, uma empresária de sucesso e está aqui, pertinho, em Aparecida de Goiânia. Aliás, lá tem mais de cem indústrias de cosmético goianos, virou um polo de produção de cosméticos. São várias empresas e muitos nem ouvem falar, muitas vendem de porta em porta. Portan­to, o Sebrae é uma entidade que transforma a vida dos empresários, das empresas, com várias soluções e nós também procuramos incentivar a democratização de oportunidades, para os jovens, estudantes, para a mulher, para todas as pessoas.

Yago Rodrigues Alvim – O sr. comentou sobre as diversas iniciativas de capacitação de empresários. No próximo dia 5 de outubro, o Sebrae realiza uma ação para que as pessoas reconheçam e comprem dos pequenos empresários. Qual objetivo dessa iniciativa?
Nós entendemos que comprar dos pequenos é um ato de cidadania. Por isso, estamos incentivando as pessoas –– o que na verdade não é uma campanha de publicidade ou marketing do Sebrae ––, estimulando-as a um movimento delas próprias, da própria sociedade. Inspiramo-nos em movimentos que já existem na sociedade, em que muitas categorias profissionais apoiaram e tomaram. Por exemplo, o movimento de combate ao câncer de mama. Foram os médicos especialistas que tiveram a ideia, mas isso tomou conta da sociedade. Atualmente, todas as pessoas aprovam o combate ao câncer de mama, o que salvou milhões de vidas. E nós estamos estimulando um movimento social no mesmo sentido, mas voltado à sociedade de consumo consciente e sustentável. Por isso, toda a vez que for tomar uma decisão de compra, por que não comprar de forma consciente ao invés de uma forma mecânica? Por que, em vez de ir numa unidade de uma grande rede de supermercados para fazer sua compra, você não toma a iniciativa de parar em frente a um pequeno negócio? Ao invés de comprar sua carne e verduras em um grande hipermercado, por que você não compra em um verdurão ou açougue perto da sua casa? O dinheiro que você gasta em um hipermercado é depositado naquele mesmo dia em uma conta em São Paulo e, no final do ano, acontece uma distribuição de lucros e esse dinheiro vai para o exterior. Por que não o verdurão, o açougue, a loja de roupas, prestador de serviços do seu bairro? Aí esse dinheiro vai recircular na sua própria cidade. Ou seja, a riqueza que nós geramos vai recircular junto da gente e não se perderá no exterior. Produzimos a riqueza no Brasil e ela fica aqui, em Goiânia, em Campos Belos, Itumbiara, Rio Verde. Portanto, é valorizar o ato de compra como um ato de cidadania, um ato de sustentabilidade –– e não tem nada mais moderno que isso. Nós estabelecemos o dia 5 de outubro, que é o dia da criação do Estatuto da Micro e Pequena Empresa, como o dia do Pequeno Negócio. Por isso, estamos estimulando para que todas as pessoas comprem apenas do pequeno empresário no dia 5 de outubro. Assim, a partir de um ato simbólico, passem a fazer isso todos os dias. Agora, em setembro, faremos uma capacitação dos pequenos empresários para que estejam preparados para o dia 5. Investiremos em oficinas tecnológicas, consultorias, cursos.

Frederico Vitor – Mas às vezes isso é dificultado. Muitas vezes, você quer comprar em um pequeno negócio, mas ele não passa cartão (crédito/débito).
Nós estamos trabalhando nisso. Na capacitação. Alguém me disse esses dias que já está comprando dos pequenos negócios, que compra perto de sua casa, é bem atendido, o preço é compatível, é conhecido pelo nome e ainda toma um cafezinho. Portanto, é isso. E você ainda ganha tempo, pois não tem aquelas filas de supermercado, o estacionamento é mais fácil. Você tem a proximidade, sem contar que, hoje, os pequenos negócios se transformaram em grandes canais de distribuições das indústrias. Hoje, você compra com valor competitivo em açougues, verdurões, nos minimercados em geral, e a qualidade é sempre muito boa. Queremos mostrar para o consumidor que, também, vale a qualidade do atendimento, do serviço. Agora, precisamos sim melhorar certos aspectos dos pequenos empresários, o que é trabalho do Sebrae. Por isso, os nossos cursos, programas de capacitação, consultorias, o negócio a negócio. Muitos empresários melhoram a gestão deles a partir das nossas ações e esse é um trabalho que não acaba. O desenvolvimento dos negócios é eterno. E o importante é que os ajudemos a chegar lá. É a lei do consumo, quando consumimos do pequeno negócio, os tornamos mais capazes de avançar.

Cezar Santos – Como virou moda falar, o consumidor pode “empoderar” o pequeno negócio?
Exatamente.­

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.