“A administração de Evandro Magal em Caldas Novas é puro marketing”

Sargento da PM e comunicador, pré-candidato a prefeito faz críticas à gestão municipal de sua cidade e diz ser um “militar vítima da ditadura” imposta pela atual administração

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Um sargento que é sucesso de comunicação e está envolvido com as questões sociais para além do mote da segurança. Essa é uma frase que pode resumir o perfil de Alison Maia, que conseguiu mais de 1,3 milhão de seguidores para seu blog “Plantão Policial”, mesmo atuando em uma cidade do interior, Caldas Novas. Ele tem ainda um programa em uma rádio local, também voltado à questão da segurança, no qual a população da cidade faz denúncias.

É exatamente em Caldas que, a despeito do que ele considera uma “ditadura” do poder local, Alison agora parece rumar para outro desafio: a política, uma área da vida em sociedade que ele considera hoje “totalmente marginalizada”. Ainda sem partido definido — os militares têm a prerrogativa de poder fazer sua filiação já na época das convenções —, é pré-candidato à prefeitura de Caldas.

Como quem entra na luta do lado da oposição, ele não poupa críticas à administração do prefeito Evandro Magal (PP). Para o sargento, é uma gestão baseada apenas em “puro marketing”. “Eles [a administração atual] são perfeitos em marketing. As redes sociais funcionam bem, a página do prefeito é sensacional, tudo é lindo. Parece que lá é Shangri-la”, ironiza. Nesta entrevista ao Jornal Opção, Alison Maia fala dos problemas do município, aponta soluções e explica como se tornou um fenômeno de comunicação.

Euler de França Belém — O sr. tem um blog com mais de 1,3 milhão de seguidores, sendo 716 mil em Goiás. Isso é muito difícil, é um fenômeno. Há quanto tempo o blog existe? Como é esse trabalho?

O blog existe há quase três anos. Realmente é um fenômeno. E fenômeno a gente não consegue explicar. Ele se mantém e continua crescendo, a cada hora são 2 mil seguidores no Brasil inteiro. Acredito que a onda de violência que assola o País contribuiu demais para isso. Em meu programa de rádio, o “Plantão Policial”, comecei a mostrar uma realidade que ninguém mostrava.

Cezar Santos — É um programa sensacionalista?

Dizem que é sensacionalista, mas não, eu mostro a realidade. O teatro da ocorrência policial, as pessoas envolvidas, o momento em que acontece o crime, quem se envolveu no crime, aquelas coisas que só a polícia tinha acesso, tudo isso eu passei a levar para a sociedade. E com isso a sociedade passou a ver como é o trabalho da polícia, polícia técnico-científica, suas dificuldades, como é o envolvimento das pessoas na ocorrência, sejam vítimas ou autores etc. Eu levei isso para a internet de uma forma sóbria, não como aqueles sites sangrentos e assustadores, sem história.

Euler de França Belém — Quantas pessoas trabalham no site?

Sou eu sozinho. Aliás, tenho somente um redator. Eu faço a matéria em vídeo, há uma produção, eu que edito, eu que entrevisto, eu que apresento, eu que escrevo. Eu bato o escanteio e faço o gol (risos).

Euler de França Belém — O sucesso do site não é só em Caldas Novas e no Estado. Mas, em Caldas, o sucesso não seria devido ao fato de a imprensa local ser muito governista?

Nós quebramos alguns paradigmas. Eu sou de Brasília, onde existia um jornalismo policial muito forte, que vem da época de Mário Eugê­nio, de Sílvio Linhares, do “Polícia nas Ruas”, que mostravam a cena po­­licial de forma muito forte. Eu vivi um pouco disso e levei o for­ma­­to para o rádio em Caldas Novas. O jornalista tem de ser imparcial, dar a notícia do jeito que ela é sem parcialidade, mas eu comecei a tomar partido pela sociedade, que é a vítima. Acho que isso cativou o público.

Cezar Santos — Ao tomar partido pela sociedade, como diz, o sr. já vislumbrava um objetivo político?

Tomei partido pela sociedade sem nenhum objetivo político. Nunca pensei nisso. Pelo contrário, muitas e muitas vezes eu disse que não seria candidato a nada. Só que as ideias mudam. Malcolm [líder negro humanista dos Estados Unidos, que foi assassinado] tem uma frase: “Para que o mal vença basta que os bons fiquem calados”. Eu não queria mais ficar calado. A gente acaba se envolvendo, a sociedade acaba inserindo você nisso. E o “Plantão Policial” começou a mudar um pouco, saindo da questão policial e entrando na questão social.

A violência é uma consequência da falta de educação. Aquelas coisas que perdemos — família, educação, lar etc. — deram lugar a essa violência gratuita que sofremos. O social também entra nisso e eu me envolvi nessas questões. No quadro da violência, o filho não estuda, a mãe passa fome, a família está em caos social. Então, o “Plantão Policial”, com todos sesses seguidores, acabou fazendo campanhas. Uma mãe me dizia: “Meus filhos não têm o que comer, Alison. Um está ali morto, que você está vendo, e em casa tenho mais dois pequenos que não têm o que comer.” Isso quebra o coração. A gente entra nas casas e também começa a entrar na questão social.

Euler de França Belém — Há quanto tempo o sr. mora em Caldas Novas?

Vai fazer 13 anos.

Euler de França Belém — Por que o sr. quer entrar na política?

Política é uma coisa grande demais para ficar sendo algo ligado a fraudes em licitações. Mas a política hoje está marginalizada. Tanto que, quando cogitei entrar em uma pré-campanha, fui totalmente marginalizado na cidade.

Euler de França Belém — Sua intenção é ir para o PV?

Independentemente da sigla, o que importa é o projeto político para a cidade.

Cezar Santos — Mas o sr. tem uma tendência para o PPS ou PSB?

Não, não existe ainda uma tendência. As portas estão abertas e estamos con­versando com todas as lideranças.

Cezar Santos — Quem são os outros pré-candidatos, além de Magal?

Está todo mundo querendo jogar o nome. Nessa hora todo mundo quer ser pré-candidato, alguns para ver se se elege vereador de novo. Outros fazem isso para ver se conseguem negociar; outros ainda, para ver se se torna vice. Existem nomes bons. Alguns vêm de campanhas que não venceram. Todos os que estão no processo têm nomes bons. Na ala da oposição, o melhor nas pesquisas é o que vai para o embate.

Euler de França Belém — Por que há tanta droga em Caldas Novas? É uma cidade turística, mas parece que lá o problema é mais grave do que em outras.

A questão da droga hoje é de âmbito estadual, nacional e internacional.

Euler de França Belém — Em Rio Verde e Caldas Novas parece que as estatísticas das drogas são extrapoladas.

Acredito que seja por falta de apoio no combate às drogas. Não falo de apoio policial, porque não é polícia que combate drogas, isso vai muito além. Por sinal, há uma ação muito interessante da polícia, o Programa de Erradicação das Dro­gas (Proerd), que funciona nos colégios, mas ele é pouca coisa para tanto. É preciso que haja mais ações. Por exemplo, não há clínicas de recuperação em Caldas Novas, o Credeq [Centro de Reabilitação de Dependentes Químicos] está parado, não funciona lá, o que já é questão do governo estadual.

Também não há incentivo para o esporte na cidade, não tem nada para o jovem fazer. O que esse jovem vai fazer no contraturno do colégio? Então, a maioria acaba se envolvendo com droga. É um fenômeno de todo o Brasil e em Caldas Novas não é diferente. É a questão do pequeno traficante, que vende para sustentar o próprio vício. Aí começam a abrir boca de fumo para tudo que é lado. Falta também envolvimento do município.

Cezar Santos — Como policial, o sr. não percebe que falta fiscalização nas fronteiras, para evitar que drogas e armamentos entrem no País?

Falta, sim, demais. Estamos muito próximos de Minas Gerais e em Caldas Novas há um grande fluxo de armas, que é combatido pelas operações da polícia. O cara busca armas no Entorno de Brasília, em Minas, em todo lugar.

Euler de França Belém — Que tipo de armas?

Não é arma pesada, como fuzil; é arma pequena, calibre 38, que o cara põe na cintura e sai cometendo assalto. A grande maioria assalta para sustentar o vício na droga, no crack.

Euler de França Belém — Em Nova York, a prefeitura combateu a droga, o pequeno traficante, e isso deu resultado. A prefeitura não tem de colaborar na segurança pública, como colocando câmaras de segurança nas ruas e logradouros públicos?

Com certeza. Em Caldas Novas, hoje, as câmaras de segurança não funcionam. A cidade tem mais de 80 mil habitantes e com a população flutuante isso chega a 300 mil. Com o que a prefeitura arrecada, quase R$ 20 milhões por mês, acho que já passou da hora de Caldas ter uma guarda municipal atuante de verdade. Sem contar o envolvimento na educação, no esporte, no lazer. Só pela questão repressiva, seria necessário ter uma guarda municipal. Hoje, 90% dos atendimentos da Polícia Militar pelo telefone 190 são por perturbação do sossego, o tal “som alto”. Isso seria um serviço para guarda municipal, to­mando conta dos logradouros, dos espaços públicos municipais, e com isso desafogaria a PM, que poderia ir para os bairros. Teria de ser uma guarda equipada, treinada.

Há dinheiro para isso na Pre­fei­tura de Caldas Novas, além de que recursos podem ser buscados até no Ministério da Justiça. Faz falta a figura do guarda mu­ni­cipal, ainda mais numa cidade tu­rística daquela. Um guarda mu­nicipal em uma cidade turística como Caldas Novas — bem trei­nado, que fale até outras línguas, identificado como um guarda turístico e andando pelo centro, pelas praças, expulsando usuários e pequenos traficantes — devolveria a segurança para a po­pulação. Já a Polícia Militar fi­ca­ria nos bairros, contendo a vio­lência e fazendo seu trabalho essencial.

Nos Estados Unidos, a polícia é municipalizada. Existe, além dela, a polícia estadual e a polícia federal, que é o FBI. Se tivermos uma guarda municipal bem preparada e humanizada, que não espanque nem humilhe, mas garanta a segurança, a cidade será devolvida para o povo. O que houve, nos últimos anos, foi somente promessas vazias.

Euler de França Belém — O sr. é militar e pode se filiar no dia da convenção. Por que decidiu ser pré-candidato?

Na verdade, coloquei meu nome à disposição justamente porque, no Brasil de hoje, experiência já não conta mais. Vejo que conta muito mais a honestidade. Isso quer dizer que estou dizendo que sou honesto? Bem, quem conhece meu coração somos só Deus e eu. O que quero é levar algo que seja do anseio da sociedade, sem desvios, sem corrupção. Dá para fazer as coisas assim, dá para garantir uma saúde, senão de primeiro mundo, pelo menos digna, se não houver desvios. Veja esses desvios que ocorrem — imaginem, desviar remédios, desviar material de cirurgia.

Cezar Santos — Mas isso está ocorrendo em Caldas Novas?

Não digo que isso esteja ocorrendo lá, mas o maior anseio da população, algo apontado em pesquisas, é por saúde. São 47% de pessoas que dizem que a saúde é a maior deficiência do município.

Euler de França Belém — Mas por que isso acontece? O prefeito não está investindo o que deveria? Ou está investindo mal?

Há casos que estão chamando atenção da imprensa, até em nível nacional. Houve uma sequência de mortes de crianças que nasceram em um determinado hospital e um médico chegou a ser indiciado por homicídio doloso e afastado, voltando depois às suas atividades. Nos dias atuais, há uma criança internada com sequelas gravíssimas por ter passado do tempo de gestação, sem que tenha sido feito o parto. Isso sem contar as muitas que morreram.

Um caso que gerou repercussão nacional foi o da jovem Ortenísia da Costa Dias, que foi enterrada com uma criança na barriga. Isso em Caldas Novas.

Euler de França Belém — Como foi esse caso?

Ortenísia estava grávida e pronta para ter sua criança. Mas houve um problema e ela acabou falecendo. O bebê poderia ter sido retirado vivo do útero, mas não foi, e acabou sendo enterrado com ela. Isso não poderia ter acontecido jamais, pelo próprio protocolo, já era uma vida gerada. Houve a exumação do corpo e o laudo acabou sendo falsificado. O médico responsável, depois, foi indiciado por falsidade ideológica, por ter mudado os documentos e dizer que ela, salvo engano, havia tido uma parada cardíaca, enquanto o que houve foi uma complicação do parto. Este foi o primeiro dos casos que chamou a atenção sobre a saúde precária na cidade.

“Não há política de saúde em Caldas Novas. há problemas com fornecimento de remédios, com marcação de exames, com consultas com especialistas”

Euler de França Belém — Falta, então, política de saúde?

Com certeza, lá o que temos é uma gambiarra, algo totalmente im­provisado. Temos problemas com fornecimento de remédios, com marcação de exames, com consultas com especialistas. Hoje há uma política de parceria público-privada que, inclusive, foi rechaçada pelo Ministério Público, depois de haver uma propaganda dizendo que era algo feito pela Prefeitura. Tam­bém não temos leito de UTI na cidade.

Euler de França Belém — Isso é confirmado? Não há leito de UTI em Caldas Novas?

Sim, não há. Quando isso se faz necessário, é preciso esperar abrir vaga em Goiânia e a pessoa é trazida para cá. Isso também causou várias mortes, por não ter dado tempo de fazer a remoção para a capital. Nosso programa também recebeu várias denúncias, muitas e muitas, para estar em um local, porque o pai ou a filha da pessoa estava morrendo, por falta de vaga de UTI. As pessoas ficam desesperadas, é lamentável.

Euler de França Belém — E qual é a justificativa da gestão municipal?

Dizem que não tem dinheiro. Outro detalhe: em frente à UPA [unidade de pronto atendimento] havia uma área que pertencia à Secretaria de Transportes, que poderia ter sido transformada em um complexo hospitalar, porque há também um outro hospital nas proximidades. Mas o atual prefeito, juntamente com sua base aliada, vendeu aquela área, por R$ 3 milhões, para algo que valia entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões. E acabamos perdendo um terreno que poderia servir até mesmo para um hospital regional, o que, ressalte-se, foi uma promessa do atual prefeito.

Euler de França Belém — Houve alguma investigação sobre essa venda da área?

A Câmara tentou investigar. Existe a denúncia, por parte de alguns vereadores, mas a base aliada autorizou a venda.

Euler de França Belém — E o Ministério Público?

Ainda não se manifestou.

Euler de França Belém — E qual é seu posicionamento?

Se eu for confirmado como candidato e vier a vencer a eleição, a primeira coisa que eu faria seria desapropriar aquela área e devolvê-la para a população.

Cezar Santos — O sr. confirma que as unidades de saúde estão sucateadas?

Na verdade, quem aponta isso é a própria população. Basta ver qualquer pesquisa que é feita em Caldas. Tivemos uma matéria veiculada na TV Globo sobre as UBSs [unidades básicas de saúde]. A maioria delas teve dinheiro repassado integralmente, mas não foram construídas. Em muitos bairros, as obras estão totalmente paradas, servindo até como ponto de tráfico de drogas. Uma delas, posso citar, é no Terezinha Palmerston. Dizem que o prefeito está concluindo algumas obras, pode ser que sim, mas creio que será sem nenhuma condição de funcionamento.

Cezar Santos — As pessoas reclamam de falta de médicos?

O tempo inteiro.

Euler de França Belém — A impressão que se tem, de quem vê de fora, é que Caldas Novas é quase uma Shangri-la, um sonho de cidade. Essa impressão é falsa, então?

Não é nada disso, não tem nada de sonho. Além da saúde, a infraestrutura é muito problemática. Têm bairros que não têm asfalto e com pessoas ilhadas em casa, porque a chuva abre verdadeiras crateras. As operações tapa-buracos são malfeitas. Com outro detalhe: em 90% das vias de Caldas Novas não há captação de águas pluviais. Isso faz com que haja pontos de alagamento em quase toda a cidade; com vários locais intransitáveis, a água não tem como escapar.

Cezar Santos — Isso afeta o lençol freático.

Além desse fator, a água se mistura ao esgoto e afeta a saúde pública. Os casos de infecção aumentam e doenças como a dengue, a chikungunya e a zika se alastram. Não existe infraestrutura em uma cidade com mais de cem anos. Infeliz­mente, fazem obras eleitoreiras em fim de mandato, com asfalto de farinha. Isso tem de acabar.

Euler de França Belém — Está sendo feito “asfalto de farinha”, o chamado “sonrisal”?

Nem esse está sendo feito. O que há são operações tapa-buracos, e muito malfeitas. Uma enxurrada apenas abre novamente as crateras no asfalto. O prefeito comprou uma usina de asfalto, avaliada em R$ 600 mil, se não me engano, que nunca foi usada. O equipamento está sucateando dentro da Secretaria de Transportes. Da mesma forma, os caminhões de lixo. Havia cinco caminhões, hoje só há dois. Os outros três estão sendo desmontados para servir os dois restantes com peças, para que continuem funcionando. Eu postei nas redes sociais esse sucateamento. Os garis se desdobram para fazer o recolhimento do lixo e até conseguem, mas há uma deficiência, um patrimônio sendo destruído.

Euler de França Belém — A cidade tem 100% de esgoto sanitário?

Não, não chega a 30% de esgoto. Algumas partes estão sendo feitas hoje, mas não sei a qualidade. Não sei se os canos vão suportar uma cidade daquele porte, porque, quando o turista chega e aumenta o fluxo na cidade geralmente falta água. No centro da cidade tem esgoto a céu aberto; até na porta da prefeitura tem esgoto de vez em quando, que estoura e fica ali na frente. Então, em vários pontos a cidade mostra que não tem saneamento.

Euler de França Belém — Dizem que abriram poços artesianos demais em Caldas Novas. Como está a questão da água quente na cidade?

A água quente foi monopolizada e está restrita a alguns grupos. Existem guetos. A água é canalizada e direcionada para esses grupos, então não temos muito acesso a isso. Não deixam. Não sabemos como é administrada a água quente de Caldas Novas. A fiscalização deve ser federal, mas nem sei se ela existe. Nem eu nem a população.

Euler de França Belém — Qual o problema do aeroporto de Caldas Novas?

Na verdade, quem toma conta do aeroporto hoje é uma em­presa, antes era a prefeitura. É uma parceria público-privada (PPP). O aeroporto era bem administrado, mas então colocaram outras pessoas, por meio de uma licitação, que é questionável. Hoje, existem denúncias de que o aeroporto está mal cuidado e não tem suporte para receber grande parte dos turistas que chegam a Caldas Novas de avião. Ele está operando, mas tem deficiências, com problemas estruturais.

“O turismo não pode ser apenas para grupos”

Euler de França Belém — Há uma série de reclamações de que apenas um grupo de turismo é beneficiado pela prefeitura. Isso procede?

Eu defendo um turismo para todos. O setor não pode ser apenas para grupos, tem de ser para a cidade. O carnaval em Salvador envolve toda a cidade; o turismo em Pernambuco também é assim. Caldas Novas precisa ter um turismo que envolva a cidade e não apenas o grupo A ou B. O médio e o pequeno comerciante também precisam se beneficiar. Existem formas de trabalhar para unir toda a cidade nos grandes eventos. Por exemplo, há pontos turísticos que não são aproveitados, como a Serra de Caldas, que está totalmente abandonada. Em qualquer cidade que você vai por turismo, os hotéis falam os pontos para fazer visitação. E Caldas Novas tem muito mais do que água quente; lá existem cachoeiras, trilhas para caminhadas ecológicas, uma zona rural que pode ser explorada. O que acontece hoje é que o turista chega e só fica na água quente, no máximo vai à feira e ao centro da cidade. Ora, isso enjoa. Muitas vezes, o turista que ficaria sete ou oito dias cancela parte da viagem porque se cansou. Agora, se o turista tem um pacote de envolvimento turístico, usando a Serra de Caldas e outros pontos, até para prestigiar o pequeno comerciante, aí o cenário muda.

É preciso reformar a rodoviária da cidade. Eu não vejo ônibus indo para a Serra de Caldas, por exemplo. Não vejo empresas, como a CVC [agência de turismo], levando turistas para lá. Acabam ficando apenas naquele miolo, onde estão os grupos que dominam a cidade.

Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Cezar Santos — Não há trabalhos para fomentar a diversificação do turismo?

A prefeitura trabalha para os grupos hoteleiros da cidade, não tem um trabalho que envolva a cidade em torno do turismo. Existem alguns pontos que estão abandonados, que não recebem investimento e que não tem esta aquisição, e que são muito lindos. A cachoeira da Serra de Caldas é um lugar maravilhoso. Tem de ter turismo ecológico. Por que não o fomentam? Por que tem de ter fomento apenas para um clube A ou B? As pessoas se cansam de concreto. Pode-se envolver tudo, dinamizar, distribuir a economia. Isso porque a maior indústria, a maior “fábrica” de Caldas Novas é o turismo, sem dúvida alguma.

Euler de França Belém — E o centro de convenções? Foi construído?

Existe próximo à rodoviária, mas é bem fraco, aquém do que precisaríamos.

Euler de França Belém — Se o sr. for candidato e eleito prefeito, isso seria uma preocupação?

Claro. O turismo de negócios é uma das principais alavancas e dá para ver, por exemplo, aqui em Goiânia. Quando tem uma feira de negócios, um evento que acontece no Centro de Convenções, os hotéis lotam. Imagine isso em Caldas Novas, uma cidade turística como aquela. Ninguém segura um centro de convenções criado para o povo, cuja renda vá para o povo, público, bem arquitetado, onde possam acontecer encontros de médicos, religiosos, empresariais e tudo o mais. O que não pode haver é um centro dentro de um clube A ou B.

Precisamos atrair empresários para Caldas. Saindo um pouco da questão do turismo, um dos maiores anseios da cidade é de fábricas e indústrias dentro da cidade. Acredito que a cidade merece, sim, fábricas ecologicamente corretas, que não agredissem o meio ambiente.

Euler de França Belém — Por exemplo, uma Hering [indústria da área têxtil], que foi para Anápolis, poderia ter ido para lá.

Não dá para colocar na cidade uma fábrica de açúcar. Mas sim uma Hering, ou até mesmo a Heineken, que chegou a ir para Itumbiara e não foi para Caldas. Ou, então, a Mitsubishi que passou por lá e foi para Catalão, onde hoje a renda per capita é de quase de R$ 2 mil. Já em Caldas temos uma renda per capita de R$ 800. O que são R$ 800 para uma cidade como aquela? Não dá para comprar nada dos comerciantes. O capital não gira na cidade; gira somente em torno de grupos que tornam a sociedade escrava.

Euler de França Belém — E o turismo acaba encarecendo a cidade para suas próprias pessoas.

Na verdade, o turismo para as pessoas da cidade não existe. Geralmente, elas quase não se envolvem. Elas trabalham para o turismo, mas não usufruem dele.

Euler de França Belém — Em Porangatu, no norte de Goiás, o ex-prefeito Júlio da Retífica [hoje deputado estadual pelo PSDB] construiu um teatro — na verdade, mais do que um teatro, um centro cultural. Lá, vivem 40 mil habitantes. Já Caldas Novas tem 80 mil habitantes e, em alguns momentos, até 300 mil, com os turistas. Existe um centro cultural ou algo assim?

Não, não existe isso em Caldas Novas. Centro cultural, teatro e cinema precisam ser valorizados na cidade. Mas não tem. É um problema que remete ao centro de convenções, onde poderiam ser realizados eventos que envolvam os artistas da terra. Muitos ali cantam bem, são bons valores, há bons artistas sertanejos. Se existisse um festival envolvendo artistas da cidade isso seria diferente. Artistas plásticos, por exemplo, há muitos que saíram da cidade, pois lá não existiam oportunidades.

O que se vai fazer em Caldas Novas? Não tem nem lugar para se mostrar isso, não existe nenhum centro de exposições, nada disso. Se quiser mostrar, é preciso pagar para fazer isso, levar para o Di Roma [clube], por exemplo, e pagar. Seria preciso algo como o Canto da Primavera, o festival que acontece em Pirenópolis. Temos artistas de mesmo nível em Caldas Novas, temos grandes músicos, artistas plásticos, escultores, gente com talento, mas que não têm onde mostrar, a não ser nas ruas. Até por isso são rechaçados e tem de sair; se quiserem ficar na cidade, tem de pagar. A cultura em Caldas Novas, infelizmente, não existe. Ela não tem uma identidade sua porque não deixaram que isso fosse criado. Existe na cidade o Casarão, mas que é apenas um centro de idosos e não um centro de referência cultural. Mas poderia atrair pessoas do país inteiro.

Euler de França Belém — A água em Caldas Novas é municipalizada. Isso funciona?

Poderia funcionar melhor, porque a arrecadação é alta, é quase uma receita à parte para a Prefeitura. Os hidrômetros da cidade são muitos, embora eu não tenha o número certo deles, fornecendo essa alta arrecadação. Caldas jamais poderia ser uma cidade que não tivesse 100% de esgoto e de água canalizada. Mas está longe disso e até têm bairros em que não tem água, apesar do porte da cidade e do quanto recebe, uma cidade rica financeiramente. O turismo é valioso, mas é muito maltratado na cidade. Se fosse expandido, como eu disse, seria incrível. Então, hoje, o departamento municipal de água da cidade poderia produzir mais, fazer muito mais do que tem feito.

Euler de França Belém — O sr. é sargento, portanto, sabe que iluminação pública é muito importante, não só para o conforto e a tranquilidade das pessoas, mas também para a segurança. Em Caldas Novas, o prefeito tem essa preocupação?

Quanto à iluminação pública, ainda existem algumas ruas que são totalmente escuras, alguns bairros cuja luz não é adequada, que é muito fraca. Aquela luz amarelada e não uma incandescente, do porte de uma cidade grande. Temos uma iluminação pública ainda bem aquém em termos de qualidade. Recen­temente, por conta de uma tempestade, alguns setores ficaram quatro dias sem energia, caíram postes, enfim. Isso entra muito no âmbito estadual, mas é algo de que o poder municipal participa, também.

Cezar Santos — O sr. falou que a Praça Monteiro Lobato é chamada de “praça da vergonha”. Por que esse rótulo?

A Praça Monteiro Lobato é um dos pontos da verba que veio do Ministério do Turismo de quase R$ 1 milhão, a fim de investir em acessibilidade, iluminação e revitalização de algumas praças. Ela já foi conhecida como “praça da maconha”, no início; era uma reunião de “malas”. Arrancaram os pisos sem ter necessidade para fazer uma revitalização que não vemos. Hoje faz mais de dez dias que tudo está parado. O material, com a chuva, ficou espalhado no asfalto. Ou seja, o dinheiro público ficou espalhado. Então, é mais uma obra nitidamente parada. O dinheiro todo que foi para lá foi muito mal usado. Outro exemplo são os campos de futebol. Tem campo que custou R$ 300 mil e, se alguém olhar, vê que não vale R$ 10 mil. Tem uma arquibancada que desabou, uma coisa ridícula que fica a olho nu. E tem causado indignação.

Euler de França Belém — Mas isso é investigado?

Isso chega a ser denunciado, mas a gente não sabe se é investigado.

Euler de França Belém — Qual o motivo de Evandro Magal ter 90% de aprovação?

Noventa por cento? Não existe isso não. (enfático)

Euler de França Belém — Isto é ficção, então?

Sim, ficção científica pura. Hoje tem muita rejeição do governo municipal. Temos todos esses problemas que citei: na saúde, na infraestrutura, bairros a que foram prometidos o asfalto — nenhum entre sete bairros foi asfaltado, só a rua de um —, a venda suspeita dessa área que citei anteriormente. Existe uma indignação.

Euler de França Belém — É possível dizer que o governo é muito marketing e pouca realização?

Eles são perfeitos em marketing. As redes sociais funcionam bem, a página do prefeito é sensacional, tudo é lindo. Parece que lá é Shangri-la, tudo perfeito e maravilhoso, parece que não existe nenhum problema, que é só intriga da oposição. Têm problemas que são históricos, entra governo e sai governo, eles continuam. E é bom lembrar que Evandro Magal está em seu terceiro mandato, mas não tem uma obra que ele possa dizer que levou para a cidade, que mudou Caldas Novas. Ele tem marketing e faz muita festa na cidade. A festa tem de acontecer, Caldas é uma cidade turística, só que isso não pode substituir saúde, educação e segurança.

Euler de França Belém — Mas a educação também está ruim?

A educação precisa de incentivo. Os professores precisam receber o que é preciso receber. Lá tem um problema, que é reclamado pelos funcionários, de falta de pagamento de férias. Não sei se o prefeito regularizou, mas houve muita reclamação. Coloquei no “Plantão Policial”, inclusive, uma funcionária colocou a cara e denunciou. Há dinheiro dos empréstimos consignados, aqueles que os funcionários fazem, e que não estavam sendo repassados aos bancos. Não sei se isso foi regularizado, mas causou muito transtorno. Algumas pessoas foram negativadas e receberam cartas em casa. Imagine, então, descontar do contracheque e não repassar aos bancos. Isso, então, foi alvo de muita reclamação no setor público no início do ano.

O setor público precisa de valorização. Eu sou servidor público e sei disso. O dinheiro do Fundeb [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica] precisa ser bem aplicado, o salário precisa ser respeitado, a data base precisa ser paga. Aí sim, a educação vai funcionar bem. Se não houver ingerência nos recursos, dá para, inclusive, valorizar os servidores.

Em Caldas, nós deveríamos ter um colégio padrão século 21, que é um grande problema. Está em um bairro, que é o Caldas do Oeste, um bairro importante, mas está abandonado há mais de dez anos, com 15% apenas para sua conclusão. Virou um antro de bandidos. O colégio tem uma grande estrutura, com ginásio coberto, galerias etc., mas foi abandonado. E o prefeito atual prometeu entregar a obra até o fim do mandato.

Euler de França Belém — Lá tem colégio militar?

Ainda não.

Euler de França Belém — O que o sr. pensa sobre isso?

Levar uma escola militar seria uma das minhas propostas de campanha. Eu transformaria aquele colégio padrão século 21 no primeiro colégio militar da região. Um colégio assim, hoje, traria decência, moralismo, resgataria valores, uma educação de qualidade, mudaria a cara daquele setor. Não é algo a ver com ser repressivo, mas com plantar uma semente de combate à violência, que é a educação. É uma unidade estadual, mas tentaria transformá-lo em municipal.

Radialista Alison Maia: “Caldas Novas parece Shangri-la na propaganda do prefeito. Mas há problemas históricos lá” | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Radialista Alison Maia: “Caldas Novas parece Shangri-la na propaganda do prefeito. Mas há problemas históricos lá” | Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Euler de França Belém — E o ensino superior na cidade?

O prefeito iria inaugurar duas faculdades, chegou a anunciar vestibulares. Mas isso nunca aconteceu. Hoje temos uma única unidade de ensino superior, a Unicaldas. Poderia ter mais abertura por parte da prefeitura para atrair faculdades, o que seria positivo, atrair pessoas, tornar Caldas Novas uma cidade também universitária. Há dois anos, o prefeito lançou um vestibular de odontologia e isso virou motivo de chacota na internet. As pessoas cobram isso até hoje. Mas nunca se levantou um pé de tijolo.

Euler de França Belém — Nunca tentaram te transferir de lá por causa de suas críticas?

Fui transferido para Piracan­juba, a 70 quilômetros de Caldas Novas. Eu fico na área do batalhão. Instituíram uma ditadura que não me deixa ficar em Caldas.

Euler de França Belém — A democracia não chegou a Caldas Novas?

Democracia lá não existe. Fui transferido e acabou que isso me lançou politicamente, porque a população tomou as dores.

Cezar Santos — A rádio fica onde?

A rádio fica na cidade, no meu horário de folga eu estou lá. Não podem me proibir de morar em Caldas Novas. Mas, vejam só, eu sou um militar vítima de uma ditadura. Sou militar há 20 anos, sem punição na ficha e tenho quase todas as medalhas da Polícia Militar. Tenho 41 anos, quatro filhos, sou avô de uma netinha especial, com síndrome de Down, e sempre conduzi meu trabalho com muita seriedade.

Euler de França Belém — Houve a história de um sequestro de alguém que trabalhava para o sr. e que depois se constatou que essa pessoa teria forjado esse sequestro. O que aconteceu exatamente?

Essa história foi investigada pela polícia e pelo Ministério Público. A moça era minha estagiária. Eu estava trabalhando fora, já transferido de Caldas Novas, quando me ligaram por volta das 7 horas da manhã, me informando que a menina tinha desaparecido. Todos entramos em desespero, afinal ela é muito jovem, tem apenas 18 anos. Quando chegamos ao local onde ela supostamente foi vista pela primeira vez após o desaparecimento, a polícia já estava lá, bem como o Corpo de Bombeiros. Era um local de difícil acesso e começamos a procurá-la até a encontrarmos. Ela contou uma história, dizendo que tinha sido sequestrada e que fora conduzida àquele local por um mototaxista, com uma pessoa no encalce que a havia abordado. Ela estava totalmente transtornada, apesar de não estar machucada. Todos foram convencidos pela história dela e a moça foi levada ao hospital. Então, a titular da Delegacia da Mulher, dra. Sabrina Lelis, tomou conta do caso e fez os primeiros levantamentos.

Eu sou policial e queria saber o que tinha acontecido, saber se tinha havido mesmo um sequestro. Então eu mesmo comecei a colher imagens de câmaras de segurança desde a hora em que ela saiu do colégio até o ponto em que ela tomou o mototáxi. Entreguei esse material à dra. Sabrina, que me agradeceu, porque contribuiria bastante para as investigações. E contribuí mesmo, pois não tinha nada a ver com o caso. Foi feito o inquérito, ouviram muita gente, levaram um especialista até Caldas Novas, gente que deu até aulas para delegados, para estudar a mente da menina. O inquérito chegou à conclusão de que ela havia forjado o próprio sequestro e que não tinha havido participação de terceiros.

Cezar Santos — O sr. foi investigado também?

Sim, fui investigado também, não sei como, por quais métodos, se ouviram escutas telefônicas. Mas eles concluíram que não houve participação de terceiros no caso.

Euler de França Belém — Houve uso político contra o sr. nesse episódio?

Totalmente, totalmente (enfático). O tempo todo tentaram me atribuir culpa nesse caso. Até hoje fazem isso. Mas seria ridículo eu fazer uma coisa dessa. Sou policial militar, com 20 anos de carreira, sei o que é um sequestro. Se eu fosse forjar um sequestro, não faria tão malfeito como ocorreu (risos). E, como policial, ajudei nas investigações, até porque já fui do serviço de inteligência e fiz esse levantamento. l

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