*Salatiel Soares Correia

Para explicar essa crise, mais que anunciada, da baixa qualidade de energia, volto há uns 15 anos. Nessa época, este escriba que lhes fala e seu colega Paulo dedicavam-se, em tempo integral, a escrever suas teses de mestrado.

 No meu trabalho de pesquisa, propus-me a analisar o comportamento dos consumidores industriais da região de Campinas, ante a uma nova modalidade de tarifa, que incentivava os grandes e médios consumidores industriais, comerciais e rurais a consumir energia nos períodos fora da hora de maior congestionamento (das 18h às 21 h).

 O trabalho do Paulo tinha o mesmo propósito que o meu, diferindo quando ao foco: Paulo pesquisava os comportamentos do setor residencial da cidade de São Paulo.

Durante a pesquisa de campo, meu amigo visitou a mansão de um milionário no Morumbi. Após a visita de mais de duas horas, ele telefonou-me. Coincidentemente, eu estava, em São Paulo, participando de um congresso de energia, promovido pelo, então, reitor da USP, José Goldemberg. Marcamos um encontro de almoço, num restaurante localizado na badalada rua Haddock Lobo. Após um breve papo, meu colega entrou no assunto da mansão do milionário, que ele acabara de visitar.

– Salatiel, você não vai acreditar! O homem e a família dele são verdadeiros glutões de eletricidade. Quatro piscinas climatizadas, uns 12 freezers, ar-condicionado até na casa dos cachorros, um enorme complexo de refrigeração com o fim de manter constante uma adega para umas 30.000 garrafas de vinhos. Ele tem à disposição dele uma demanda de eletricidade suficiente para alimentar uma cidade de 5.000 habitantes!

Posto isso, creio ser oportuno discutirmos a atual crise energética envolvendo a Equatorial e a Enel.

Creiam, por essa a ENEL não esperava:  as constantes quedas de energia elétrica atingiram a classe de elevado poder aquisitivo, os grandes consumidores residenciais de energia elétrica do mais importante centro econômico da América Latina. Como esses se enquadram no chamado mercado cativo, ficam impossibilitados de escolher outra concessionária de energia elétrica.

Imagino quantas adegas e quantos alimentos, colocados nos freezers, ficaram completamente inutilizados. O mesmo, certamente, ocorreu com o aquecimento de piscinas. Enfim, a falta de energia irritou consumidores de elevado poder aquisitivo com capacidade de mobilização. Essa insatisfação estende-se para as classes médias e para a população de uma maneira geral. Diante desse quadro, que atitude tomarão os políticos? Resposta: o que fez o prefeito de São Paulo? Ele pediu a cassação da licença de concessão da ENEL.

Tanto em São Paulo quanto em Goiás e em outros estados, onde essa empresa italiana atua, a crise de energia continuará, pelo fato dessas companhias focarem em apagar incêndios no curto prazo, desconsiderando, por completo, o longo prazo. A razão da baixa queda de energia reside aí. Essa situação é absolutamente paradoxal, pois a baixa qualidade de energia e lucros estupendos nos balanços não se justificam.  Como é possível uma concessionária ser lucrativa fornecendo um produto de má qualidade?  Como a economia é um jogo de soma zero, existem ganhadores e perdedores. Os perdedores, certamente, são os consumidores. Quanto aos ganhadores é oportuno uma CPI investigar. A Enel vive hoje o inferno astral bem mais intenso do que os tempos em que ela chegou a Goiás prestando um serviço de péssima qualidade.

A entrada da Equatorial, em terras goianas, mudou de estatal para privada, mas manteve tudo igual como era antes. Prevalece a lógica do investir para apagar incêndio, desconsiderando, por completo, as sinalizações do longo prazo. Quem age assim, sinaliza que não veio para ficar. Que venham as CPIs! Seremos todos cidadãos quando formos uma nação de profetas, isto é, os profetas não se deixam enganar por agentes não compromissados com o nosso desenvolvimento.

Salatiel Pedrosa Soares Correia é Engenheiro, Bacharel em Administração de Empresas, mestre em energia pela Unicamp, Autor de oito livros relacionados aos temas: energia, economia, política e desenvolvimento regional.