Baixo desempenho do Brasil no Pisa acende alerta e especialistas cobram políticas de longo prazo
08 setembro 2026 às 14h10

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A divulgação dos dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 reforçou, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Jornal Opção, a necessidade de políticas públicas de longo prazo para enfrentar as dificuldades de aprendizagem dos estudantes brasileiros. Alfabetização na idade adequada, formação de professores, recomposição da aprendizagem e uso consciente das novas tecnologias aparecem entre os principais desafios apontados.
O levantamento, divulgado nesta terça-feira, 8, mostrou que o Brasil permaneceu abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) nas três áreas avaliadas. O país registrou 377 pontos em Matemática, ante média de 463 da OCDE; 409 em Ciências, diante de 482; e 408 em Leitura, contra 463. Entre os 89 países e economias participantes, o Brasil ficou em 71º lugar em Matemática, 67º em Ciências e 52º em Leitura.
Para o presidente do Conselho Estadual de Educação de Goiás (CEE-GO), Jaime Ricardo, entretanto, o levantamento não deve ser interpretado como uma tabela de campeonato esportivo. Mais importante do que a posição ocupada pelo país, segundo ele, é observar o nível de aprendizagem demonstrado pelos estudantes.
“Mais do que uma posição ocupada pelo país em um ranking internacional, o dado que deve preocupar os gestores, educadores e a sociedade é o nível efetivo de aprendizagem demonstrado pelos estudantes”, afirmou. Ao comentar a apresentação do Brasil em posições específicas no ranking, ele acrescentou: “Eu não acho correto atribuir uma posição exata como se fosse uma tabela de campeonato.”
O maior desafio aparece em Matemática. Apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência, considerado básico pela avaliação. Na média da OCDE, o percentual chegou a 65%. Isso significa que aproximadamente sete em cada dez jovens brasileiros de 15 anos apresentam dificuldades para interpretar e reconhecer como situações simples podem ser representadas matematicamente.
Para Jaime, entretanto, o desempenho apresentado aos 15 anos não começa a ser construído na adolescência. As dificuldades encontradas pelo Pisa podem refletir lacunas acumuladas ao longo de praticamente toda a trajetória escolar.
O Pisa é uma fotografia de uma trajetória educacional. Então, as dificuldades que aparecem nessa idade podem ser consequência de lacunas que foram acumuladas desde os primeiros anos do ensino fundamental. Da mesma forma, avanços consistentes que são obtidos na alfabetização hoje podem produzir efeitos positivos na trajetória desses estudantes lá no futuro”, explicou.
Nesse sentido, ele defende que as políticas educacionais acompanhem o estudante para além da alfabetização. Para o presidente do CEE-GO, não basta garantir que a criança aprenda a ler nos primeiros anos: é necessário impedir que ela perca competências e acumule novas defasagens à medida que avança pelo ensino fundamental. “É importante alfabetizar bem no segundo ano. Mas também é necessário garantir que essas crianças continuem avançando no terceiro, no quarto, no quinto, no sexto, ou seja, em todo o ensino fundamental, sem perder aquilo que conquistaram. Essas políticas educacionais eficazes precisam acompanhar o estudante ao longo de toda a sua trajetória”, disse.
Matemática precisa ser prioridade
O desempenho brasileiro em Matemática é apontado por Jaime Ricardo como um dos principais sinais de alerta do levantamento. Segundo ele, o ensino da disciplina não pode ficar restrito à memorização de fórmulas ou à realização mecânica de operações.
“O resultado do Pisa mostra que o Brasil precisa tratar o letramento matemático como prioridade nacional. E a matemática não pode ser compreendida apenas como execução de operações ou memorização de fórmulas. Letramento matemático significa desenvolver a capacidade de raciocinar, interpretar informações, resolver problemas, tomar decisões e utilizar conhecimentos matemáticos em situações da vida real”, afirmou.
A leitura também funciona como base para o avanço nas demais disciplinas. Na avaliação do especialista, uma criança que compreende adequadamente um texto tem melhores condições de interpretar um problema matemático ou um enunciado de Ciências.
“Uma criança que lê com compreensão terá melhores condições de interpretar um problema matemático, de compreender o enunciado de Ciências e avançar nas demais áreas do conhecimento. A alfabetização não é uma política isolada. Ela é a base sobre a qual as aprendizagens posteriores serão construídas”, destacou.
Por isso, Jaime Ricardo defende uma combinação de formação continuada dos professores, materiais adequados, avaliações diagnósticas e intervenções voltadas à recomposição das aprendizagens. Para ele, os resultados não devem provocar apenas preocupação imediata, mas orientar o planejamento educacional dos próximos anos. “Eu vejo que o Pisa não deve produzir apenas uma preocupação nesses resultados. Ele deve produzir planejamento”, afirmou. Segundo ele, os efeitos de mudanças estruturais na educação demoram a aparecer. “A criança alfabetizada hoje é quem será o adolescente avaliado daqui a alguns anos. Então, é por isso que a educação exige continuidade, visão de longo prazo e políticas de Estado.”
Telas, distração e inteligência artificial
Além dos resultados de aprendizagem, o Pisa 2025 chamou atenção para mudanças relacionadas à leitura em um cenário de expansão das ferramentas digitais e da inteligência artificial. Segundo os dados divulgados, houve declínio em habilidades como avaliação de informações, conexão entre diferentes fontes e pensamento crítico, enquanto a chamada leitura apressada quase dobrou desde 2018.
Jaime Ricardo pondera, porém, que não é possível estabelecer uma relação automática de causa e efeito entre tecnologia e pior desempenho escolar. Segundo ele, o problema está principalmente no uso excessivo ou inadequado das ferramentas digitais. “A OCDE não afirma na pesquisa que telas e inteligências artificiais sejam isoladamente a causa do baixo desempenho. Mostra que há uma associação importante entre o uso excessivo ou inadequado das tecnologias digitais, a distração e os piores resultados”, afirmou.
O especialista considera que as ferramentas digitais podem contribuir com a aprendizagem, desde que utilizadas de forma intencional. O desafio, portanto, não seria simplesmente retirar a tecnologia das escolas.
“Não seria tirar a tecnologia da escola. A gente restringe o uso do celular, mas o celular pode ser um aliado da aprendizagem, pode fortalecer a aprendizagem. O que eu vejo é que tem que regular a distração e, ao mesmo tempo, ensinar o uso inteligente da tecnologia e da inteligência artificial”, explicou.
Segundo Jaime Ricardo, o controle também precisa ultrapassar os limites da escola e envolver as famílias. Notificações, redes sociais e conteúdos recreativos competem diretamente pela atenção dos estudantes durante momentos destinados ao estudo. Para ele, tecnologia e inteligência artificial podem fortalecer a aprendizagem, mas não devem substituir “atenção, esforço, leitura e raciocínio”.
Alfabetização e formação dos professores
A ex-secretária estadual de Educação Fátima Gavioli também considera a alfabetização uma das principais chaves para uma melhora estrutural do desempenho brasileiro.
Para ela, o problema antecede a pandemia de Covid-19, embora os efeitos do período de fechamento das escolas ainda estejam presentes na trajetória dos estudantes. “Antes da pandemia, nós também não estávamos bem. O Brasil não tem tido um bom indicador nos eixos de conhecimento em que o nosso país é avaliado”, afirmou. Na avaliação da ex-secretária, as consequências educacionais da pandemia ainda deverão acompanhar diferentes turmas nos próximos anos.
Fátima Gavioli defende que a alfabetização em Língua Portuguesa e em Matemática seja tratada como política prioritária e de longo prazo. Segundo ela, os efeitos de uma mudança dessa dimensão não seriam imediatos. “Não se pode falar em melhoria da educação brasileira enquanto todas as crianças não estiverem alfabetizadas na idade certa. E estou falando de uma alfabetização em Língua Portuguesa e em Matemática. O dia que esse país conseguir olhar para a alfabetização com a seriedade que ela merece, ao longo dos anos, isso vai mudando. É um processo que deve envolver 12, 15 anos de trabalho”, afirmou.
Na Matemática, a ex-secretária avalia que dificuldades não solucionadas nos primeiros anos tendem a acompanhar o estudante até etapas posteriores da educação básica. “Ou ele aprende lá nos primeiros anos de vida, ou essa dificuldade vai se arrastar até ele ter ensino médio”, disse.
Outro ponto levantado por Gavioli é a formação dos professores. Ela critica modelos de licenciatura exclusivamente a distância quando não acompanhados de experiências presenciais e estágios considerados adequados para preparar o futuro docente para a realidade da sala de aula.
“Eu não estou dizendo que a EAD é ruim. Eu estou dizendo que a EAD, sem a parte presencial e sem um bom estágio, é impossível você querer melhorar a educação”, afirmou. Para ela, “a má formação na licenciatura e a falta de um estágio eficiente” também repercutem na qualidade da alfabetização matemática.
Fátima Gavioli também defende uma formação continuada permanente após o ingresso do profissional na rede de ensino e maior valorização dos docentes responsáveis pela alfabetização.
A primeira coisa que o governo precisa fazer é mudar o jeito que os professores estão sendo formados. Tratar com seriedade a formação dos professores na universidade e nas faculdades. Depois disso, com o professor bem formado, garantir que a formação continuada em serviço vai ser permanente”, disse.
Para a ex-secretária, a valorização financeira também deveria privilegiar os profissionais que trabalham diretamente com as primeiras etapas da aprendizagem. “Quais são os professores que menos ganham hoje? Os alfabetizadores. Então, nós temos que inverter isso. Quem mais deve ganhar um bom salário hoje é o professor responsável pela alfabetização”, defendeu.
Continuidade como política de Estado
Apesar de partirem de perspectivas diferentes, Jaime Ricardo e Fátima Gavioli convergem em um ponto: mudanças consistentes nos indicadores educacionais exigem políticas que sobrevivam às trocas de governo.
Fátima Gavioli considera a descontinuidade um dos principais entraves para que projetos educacionais produzam resultados de longo prazo. Segundo ela, a substituição frequente de programas e diretrizes impede o acompanhamento contínuo do estudante. “Quanto mais você tem trocas, quanto mais você tem pessoas chegando com suas ideias, seus propósitos, mais dificuldade você tem de fazer com que políticas públicas sérias, responsáveis, que podem realmente promover melhoria da qualidade da aprendizagem sejam efetivas”, afirmou.
Ela reforça que a trajetória do aluno deveria ser acompanhada de forma contínua, independentemente de mudanças administrativas. “Não tem um mapa, não tem uma diretriz. O aluno está aqui no segundo e no próximo ano é terceiro, é quarto, é quinto, até que ele chegue ao décimo. Não tem esse acompanhamento. Cada um que vem dá seu tom, apresenta seu desejo, sua vontade”, avaliou.
Jaime Ricardo segue linha semelhante ao defender que as políticas educacionais sejam pensadas como políticas de Estado, e não apenas de governo. Para ele, a melhora nos próximos ciclos do Pisa depende menos de uma resposta imediata ao ranking divulgado agora e mais do trabalho realizado durante toda a trajetória escolar dos estudantes.
O que eu quero deixar bem firme é que o Pisa de amanhã começa a ser construído na sala de aula hoje”, resumiu.


