Yuval Harari diz que resolução da crise climática custa 3% do PIB mundial

A crise climática tem solução ou a Terra é um caso perdido? O historiador israelense postula que a solução está nas mãos dos estadistas globais

A Terra superlotada | Foto: Reprodução

Com seus 7,7 bilhões de habitantes, a Terra está, por assim dizer, congestionada. Para alimentá-los, são criados bilhões de animais — como vacas, porcos e frangos —, o que torna o planeta ainda mais superlotado. Com essa quantidade de gente, o que “exige” novos desmatamentos, como se dará a sobrevivência das espécies? Há quem postule que é premente o controle da população, porque, se isto não for feito, outras medidas, como a resolução da crise climática, poderão não ser suficientes para evitar uma catástrofe (que, por sinal, já começa a ocorrer em alguns países).

É possível “salvar” a Terra, quer dizer, os seres que a habitam — e os humanos são os únicos que se consideram “privilegiados” (as figuras centrais a serem protegidas, enquanto as demais vão perecendo, inclusive por escassez de espaço e alimentos)? O filósofo britânico John Gray frisa, num de seus ensaios, que é preciso controlar o crescimento da população (sua expansão seria, em si, já uma catástrofe, inclusive para outras espécies, que estão sendo dizimadas para o homem prevalecer). Entretanto, há aqueles, inclusive cientistas, que avaliam que o debate sobre a questão climática, por exemplo, está altamente “contaminado” por ideias catastrofistas. Ainda assim, é difícil encontrar cientistas de alto gabarito, com estudos abalizados, que neguem a gravidade da situação.

Porém, se são imensos, os danos podem ser contidos, reduzidos? O que fazer? “Não” dá para reduzir a população de seres humanos, mas é possível conter o crescimento desmedido. Não dá para países terem mais de 1 bilhão de habitantes, como a China e a Índia. A população brasileira, assim como a dos Estados Unidos, tem sido contida, pelas próprias famílias, independentemente de quaisquer políticas públicas. Com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil poderia ter uma população similar à da China. O Japão, com uma área pouco maior do que a de Goiás, tem 126,4 milhões de habitantes. O Estado do Centro-Oeste brasileiro conta com 7,2 milhões de habitantes.

Se há os catastrofistas, os realistas e os céticos, há estudiosos moderados que acreditam que a crise climática pode ser “resolvida”. Entre eles figura o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor de best-sellers internacionais, como “Sapiens — Uma Breve História da Humanidade”, “Homo Deus — Uma Breve História do Amanhã”, “21 Lições Para o Século 21” e “Notas Sobre a Pandemia — E Breves Lições Para o Mundo Pós-Coronavírus”.

Yuval Harari é um historiador com formação ampla, por vezes é filósofo e, outras, cientista. O que faz, com excelência, é processar pesquisas de qualidade e transformá-las em conhecimento acessível para os leitores, notadamente os leigos. Neste sentido, lembra os filósofos da Grécia Antiga, como Aristóteles, que tinham um conhecimento amplo não apenas de Filosofia, mas também de Ciência, até por não apreciarem a compartimentação do saber, hoje tão em voga.

Mas, afinal, é possível evitar o colapso climático? Predomina a tese de que estamos caminhando para o fim — iminente ou não. O fim, diga, dos humanos e das outras espécies (insistindo, enquanto a população de homens cresce, a maioria das espécies decresce. Muitas foram extintas e várias outras estão à beira da extinção). Mas Yuval Harari avalia, num artigo recém-publicado pela “Time”, revista americana, que há, sim, “salvação”.

Contenção da poluição é crucial | Foto: Reprodução

No ensaio, o pesquisador israelense sublinha que o custo para evitar o cataclisma climático pode ser menor do que costumam sugerir. “A maioria dos pesquisadores acredita que zerar as emissões custam entre 2 e 3% do PIB global.” Portanto, se quiserem, e gastando menos do que se imagina, os homens podem conter a crise climática. Naturalmente, trata-se de um esforço global, e não de países isolados. Mas obviamente determinados países, como Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Brasil e Rússia, por sua importância estratégica e peso político mundial, são mais decisivos. Sobretudo, porque têm recursos financeiros, digamos, “sobrando” para investir naquilo que, aparentemente, é a fundo perdido, mas, na prática, estará garantindo a sobrevivência das espécies — entre elas os homens, que, embora no geral religiosos, se tornaram “deuses” da vida e da morte das demais espécies.

Tão popular quanto sofisticado, Yuval Harari se reuniu com uma equipe de pesquisadores gabaritados para examinar relatórios de emissão de gases, além de pesquisas acadêmicas e análises de economistas. Os estudiosos concluíram que “o custo de descarbonização da economia mundial” ficaria “abaixo de 5% do PIB global”, segundo síntese publicada pela revista “Veja”. No momento, os países investem cerca de 1% do PIB transnacional em energias limpas. É um avanço, e gigante. Entretanto, postulam Yuval Harari e os pesquisadores que agregou, insuficiente. “Precisamos de apenas mais 2% dessa fatia da torta”, sugere o scholar judeu.

Yuval Harari: historiador israelense | Foto: Reprodução

Yuval Harari não usa o palavreado exposto a seguir, mas a aplicação dos recursos é equivalente — ou melhor, superior — àquele que se aplicou na recuperação da economia internacional depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Trata-se de outra guerra, só que mais grave e que afeta todo o mundo (recentemente, um tsunami em Tonga provocou a elevação do nível do mar no Brasil 17 horas após a erupção, de acordo com o IBGE).

Para conter o “desastre”, Yuval Harari frisa que será preciso aportar recursos “principalmente na transformação de grandes setores da economia, como transporte e geração de energia, que exigem investimentos maiores. Outras fontes de emissão, como a agricultura, podem ter seu impacto reduzido por meio de mudanças comportamentais, como redução no consumo de carne” (o trecho entre aspas é da revista “Veja”, sintetizando a análise do historiador).

É preciso focar nos investimentos. “Não estamos falando de queimar pilhas de dinheiro em um grande sacrifício aos espíritos da Terra”, enfatiza Yuval Harari. “Estamos falando de investir em novas tecnologias e infraestrutura.”

As novas tecnologias, postula o estudioso, terão de criar empregos e oportunidades econômicas. Yuval Harari avalia que serão rentáveis, ao menos no longo prazo, “especialmente ao reduzir os custos da população com saúde”.

O debate, propõe o pesquisador, deve ser levado para “as principais esferas públicas, tanto como forma de dar esperança sobre as reais possibilidades da humanidade de reverter a crise quanto como uma ferramenta para fazer pressão sobre o poder público”. Yuval Harari assinala que, “quando a COP 27 acontecer, em 22 de novembro de 2022, no Egito, devemos dizer aos líderes reunidos que não adianta fazer promessas futuras vagas de manter o aquecimento abaixo de 1,5ºC. Queremos que eles peguem suas canetas e assinem um cheque de 2% do PIB global anual”, sugere o historiador.

A proposta de Yuval Harari é realista, sobretudo porque está em jogo a sobrevivência de todos — dos países ricos aos emergentes e aos pobres. Porém, se é realista, portanto factível, não é fácil de colocar em prática. Ainda que esteja em jogo a sobrevivência de todos na Terra, há forte competição entre países. A proposta do pesquisador é pra já, mas países que estão em processo de crescimento, como a China e a Índia, para citar apenas dois, concordarão com as medidas de “contenção” (como uma política de reduzir a poluição de maneira mais acelerada) propostas? Poderão aceitar, no longo prazo, uma certa desaceleração de suas economias “poluentes” com o objetivo de salvar a vida de todos? Muito difícil. O objetivo da China, nos próximos anos, é acelerar ainda mais sua economia — tão poderosa que mexe com toda a economia mundial (o Brasil produz, em larga medida, para os chineses) — com o objetivo de superar a economia dos Estados Unidos e se tornar, do ponto de vista econômico, a potência global número um. De qualquer maneira, a China, assim como os Estados Unidos, as duas principais potências do planeta, está disposta a conversar. Há uma abertura.

Relevante mesmo é que Yuval Harari está sugerindo que, embora não seja fácil, a crise climática, que é universal, tem solução. Não se trata de uma quimera nem de proposta de ecologistas xiitas e de radicais de adega.

Uma resposta para “Yuval Harari diz que resolução da crise climática custa 3% do PIB mundial”

  1. Avatar Lablache luiz de Queiroz disse:

    Por uma questão de lógica o que vai acontecer
    e como construir uma sociedade com um nível de equivalência diante da nova ordem mundial se a ética do consumo esta em um consumo exagerado em todo o planeta ?

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