Vitória de Marconi Perillo reabre política de Goiás para a renovação

A única vitória que efetivamente cria espaço para a renovação política é a de Marconi Perillo, que, se eleito em 2014, não poderá disputar o governo em 2018. Se derrotar Iris, o tucano liberta peemedebistas jovens como Daniel Vilela e Júnior Friboi e promove governistas como Giuseppe Vecci, José Eliton e Thiago Peixoto

“É mais fácil inventar
o futuro do que prevê-lo.”
Alan Key

A bola de cristal de jornalistas, marqueteiros e pesquisadores é a razão. Mas especular sobre possibilidades políticas é uma virtude do analista, não defeito. Há um consenso: na hipótese de segundo turno em Goiás, dados o peso das estruturas partidárias e das histórias dos candidatos, os contendores deverão ser o governador Marconi Perillo, do PSDB, e Iris Rezende, do PMDB. Se as pesquisas de intenção de voto estiverem certas — frise-se que registram circunstâncias e que circunstâncias, em períodos eleitorais, podem ser modificadas, às ve­zes demoradamente, e às vezes ra­pi­damente —, não há mesmo espaço para um candidato da terceira via.

É provável que, no lugar de se postar como terceira via, e sim co­mo um aspirante à segunda via, Van­derlan Cardoso teria crescido um pouco mais e, quem sabe, poderia ir para o segundo turno. Mas o can­didato do PSB partiu de um pressuposto errado. Concentrou sua artilharia no candidato eleitoralmente mais sólido, Marconi — e aí, quem sabe, tentando aparecer como segunda via, como alternativa ao tucano —, mas se esqueceu do segundo colocado. Para chegar a Marconi era preciso, antes, retirar Iris do páreo. No entanto, pensando numa aliança com o peemedebista no segundo turno, Vanderlan esqueceu Iris, “deixando-o”, impávido e incólume, em segundo lugar. Quando Vanderlan “acordou” era um pouco tarde — Iris estava (e está) consolidado, mas sem crescer porque não é visto como renovação, como o político que, apesar do discurso mudancista, não tende a levar Goiás muito adiante. É provável que, se tivesse confrontado Iris duramente — o que não quer dizer achincalhe —, Vanderlan teria crescido um pouco mais. Perdeu tempo, ao preservar Iris, e isto pode lhe custar caro. Ele está tentando criar uma “onda” nas redes sociais, mas, a oito dias das eleições, possivelmente não terá tempo para arrancar Iris do segundo lugar. O socialista é, portanto, “vítima” de um marketing equivocado.

Apesar de termos discutido brevemente o caso Vanderlan — que, posteriormente, deve ser estudado como o marketing perde a oportunidade de alavancar um candidato com potencial —, o foco do Editorial é outro: o significado de uma possível vitória do tucano-chefe Marconi Perillo, no primeiro ou no segundo turno.

É provável que Marconi seja reeleito para seu quarto mandato. Um dos principais motivos, parece aceitar a sociedade, é que se trata de um político que sabe se reinventar, que se mexe e busca inserir Goiás na modernidade globalizada. Enquanto se tem políticos provincianos, falando de Goiás — que é maior, geograficamente, do que Portugal, Cuba e Israel juntos — como se fosse um município, e não um Estado e, pelo tamanho, quase uma região (e até país), o tucano-chefe comporta-se de maneira cosmopolita. O resultado é que é visto como muito mais novo do que Iris, mais novo do que Vanderlan e tão novo quanto Antônio Gomide, o candidato do PT. Curiosamente, ao ser tão novo quanto Marconi, mas faltando-se estrutura partidária e recursos financeiros, parece que Gomide está sendo percebido pelo eleitor como uma reserva para o futuro.

Ronaldo Caiado, Vanderlan Cardoso, Daniel Vilela, Júnior Friboi e Antônio Gomide: os cinco políticos deverão ser as principais apostas das oposições para as eleições de 2018 | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Ronaldo Caiado, Vanderlan Cardoso, Daniel Vilela, Júnior Friboi e Antônio Gomide: os cinco políticos deverão ser as principais apostas das oposições para as eleições de 2018 | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Em suma, Marconi está nas graças dos eleitores porque mantém-se “novo” e não é contaminado ou controlado pelo “velho” (a presidente Dilma Rousseff, embora íntegra, parece submeter-se ao arcaico, como se nota no caso da corrupção na Petrobrás, processo conhecido como Petrolão, uma espécie de mensalão bilionário). Os goianos entendem que o tucano não faz feio próximo de Aécio Neves, Marina Silva, Dilma Rousseff, Geraldo Alckmin, José Serra. É um par dos políticos nacionais. Iris, que já teve estatura nacional, hoje não é convocado pelos líderes do PMDB (aquele episódio no qual Lula da Silva pede a Iris que se comporte como garçom e sirva água para ele indica como o peemedebista está sendo avaliado pelos políticos nacionais). Vander­lan não está na campanha de Marina Silva. Gomide, em termos nacionais, está fora da campanha da presidente Dilma Rousseff.

Não diremos, a seguir, que o quadro está definido. Porque, como dissemos inicialmente, nossa bola de cristal é a razão. E a razão, como sabem os filósofos, sugere que uma gota de dúvida é sempre vital para quem interpreta fatos, sobretudo fatos não cristalizados. Mas voltemos ao foco central deste Editorial: a vitória do governador Marconi “reabre” a política de Goiás para a renovação.

Se eleito este ano, Marconi, ao fim de 2018, terá governado Goiás por dezesseis anos. Sobretudo, se reeleito, não poderá disputar a eleição de 2018 — consequentemente, a política de Goiás estará aberta para novos políticos. Acrescente-se que, naquele ano, Iris também estará fora da disputa, depois de três derrotas para governador e, também, porque, com 85 anos, estará curtindo sua aposentadoria, ao lado dos filhos e netos. Os dois principais políticos de Goiás em atividade estarão fora da disputa para o governo. A isto se pode chamar, na falta de terminologia mais adequada, de “reabertura” política de Goiás. A vitória de Marconi e a derrota de Iris criam um novo ciclo na política estadual.

Talvez seja possível sugerir que, ao derrotar Iris três vezes — se a derrota deste ano se confirmar —, Marconi terá contribuído, de maneira decisiva, para renovar e “abrir” a política de Goiás. A rigor, se derrotar Iris este ano, estará libertando sobretudo os peemedebistas mais jovens, que, se têm vontade, não têm coragem e estrutura para enfrentar o peemedebista-chefe. Apesar de certo exagero, é possível sublinhar que o tucano-chefe poderá ser chamado de “a princesa Isabel” do peemedebismo e, também, das outras correntes políticas da oposição. Porque Iris travou a renovação geral em 2014 — com a estrutura partidária do PMDB e com sua história pessoal — ao bloquear a ascensão de Vanderlan e Gomide.

Daniel, Friboi e Gomide
Em 2018, se o deputado Daniel Vilela ou o empresário Júnior Friboi, ou outro peemedebista, disputar o governo de Goiás isto ocorrerá, em larga medida, porque Marconi derrotou e enfraqueceu Iris. Digamos que Iris seja eleito agora. Ele não abriria espaço para a candidatura de Daniel Vilela ou Júnior Friboi, dois políticos pelos quais não tem o mínimo apreço; ao contrário, abomina-os (aliados da deputada Iris Araújo chamam o pai de Daniel, o prefeito de Aparecida de Goiânia, o peemedebista Maguito Vilela, de neomarconista). Iris não é político de “abrir” espaços; antes, é um especialista em “fechá-los”. Se Vanderlan for eleito, hipótese remota, fatalmente disputará a reeleição — “travando” o espaço para outros políticos. Com Gomide aconteceria o mesmo.

Assim, a única vitória que “reabre” a política de Goiás — tanto para a situação quanto para as oposições — é a de Marconi.

O PMDB, como se disse acima, poderá lançar Daniel Vilela ou Friboi para o governo e, em 2018, o partido finalmente poderá dizer ao eleitor que está se renovando. Vilela e Friboi, além de jovens, são efetivamente mais modernos do que Iris. Não são provincianos, nem rancosos, nem avessos à ciência (Iris, pelo contrário, é messiânico).

O PT poderá bancar, pela segunda vez, Antônio Gomide. Com mais experiência, e tendo se tornado mais conhecido no Estado, e com sua imagem de administrador eficiente, numa eleição em que, para uma linguagem até inapropriada, todos os candidatos serão mais ou menos “japoneses” — senão iguais, ao menos parecidos —, Gomide poderá se apresentar como o “novo” com experiência e consistência. Uma possível derrota em 2014 lhe será mais instrutiva do que perniciosa. Perceberá, para apontar uma questão, que terá de trabalhar, com mais eficiência, uma aliança mais ampla para que possa ser “estadualizado”.

Vanderlan, se derrotado em 2014, terá duas derrotas no currículo. Em 2018 poderia tentar o Senado ou um mandato de deputado federal para, se eleito, se tornar um político “estadual”, e não meramente municipal ou da Grande Goiânia. Como Gomide, terá de se preocupar com a estruturação de uma aliança política mais sólida e espraiada. Há políticos que se especializam em perder eleições e fica-se com a impressão de que — como o piloto Felipe Massa, sempre o primeiro a chegar atrasado nas provas de Fórmula 1 — Vanderlan é um deles. Talvez não seja. Talvez seja só impressão. Porém, se perder mais uma vez em 2018, estará descartado do processo político em nível estadual, por isso a inteligência política indica que deveria disputar mandato de senador, deputado ou ser vice de Gomide, de Friboi ou de Daniel Vilela. Seria uma forma de se inserir nos grupos políticos dominantes. No momento, Vanderlan, empresário respeitado e eficiente, é uma espécie de estranho no ninho na política de Goiás. Falta-lhe um “padrinho” que possa avalizá-lo? É possível.

Se eleito senador, Ronaldo Cai­ado, do DEM, poderá ser candidato a governador. Estará cacifado para a disputa. Pode até não ganhar, mas é um candidato duro de se enfrentar numa campanha, dadas a combatividade, a eficiência verbal e a identidade com os goianos. O único problema é que, em 2018, terá 69 anos, quase 70 anos, e terá de enfrentar candidatos bem mais jovens. Pode ser ví­tima da renovação que, em 2014, está “abatendo” o decano Iris.

José Eliton, Giuseppe Vecci, Alexandre Baldy, Jayme Rincon e Thiago Peixoto: os cinco jovens deverão ser as principais apostas do PP, do PSDB e do PSD para a disputa de 2018 | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

José Eliton, Giuseppe Vecci, Alexandre Baldy, Jayme Rincon e Thiago Peixoto: os cinco jovens deverão ser as principais apostas do PP, do PSDB e do PSD para a disputa de 2018 | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Vecci, Rincon e Peixoto
No campo da aliança do governador Marconi há vários nomes. Se deixar o governo, em 2018, para disputar mandato de senador, o vice José Eliton (PP) assume e poderá se tornar o candidato praticamente natural. Mas a tendência é o governador bancar um candidato do PSDB, possivelmente o economista Giuseppe Vecci, que deve ser eleito deputado federal em 5 de outubro deste ano. Vecci, além de pertencer ao círculo de Marconi, é um político altamente qualificado, com visão de estadista. A modernidade dos governos de Marconi deve muito ao seu pensamento como economista e político. Trata-se de um dos raros técnicos que tem uma visão política elástica, mas não politiqueira. Era político antes mesmo de disputar mandato eletivo.

O PSDB tem outros nomes que planeja projetar para o governo de Goiás. Como tem pouco mais de 30 anos, Ale­xan­dre Baldy pode aguardar um pou­co, sobretudo pode ser deslocado para disputar a Prefeitura de Anápolis em 2016. Porque, para chegar mais fortalecido em 2018, o governador Marconi vai operar, de maneira planejada e dedicada, para eleger tanto o prefeito de Goiânia quanto o de Anápolis, em 2016 (assim as oposições perderiam duas estruturas formidáveis). Se eleito para deputado federal, e em especial se for muito bem votado, Baldy pode “saltar” Anápolis e disputar o governo do Estado.

O presidente da Agetop, Jayme Rincon, do PSDB, é o trunfo do governador Marconi para a Prefeitura de Goiânia. Com­pe­tente, dotado de uma energia que im­pressiona o próprio tucano-che­fe — os dois são workaholics —, Rincon é o principal responsável, ao lado do governador, pela recuperação e ampliação das rodovias goianas. Por isso, se não disputar a prefeitura, pode ser candidato a governador. E, como os demais citados, simboliza o novo.
Entretanto, a “abertura” gerada por Marconi não beneficiará apenas tucanos. O PSD tem uma estrela, o deputado federal e economista Thiago Peixoto. Che­garam a dizer que, como secretário da Educação, Peixoto fracassaria e enterraria sua carreira política. Muitos apostaram nisso e todos erraram. Na Educação, uma das pastas mais complexas, dadas as dificuldades naturais e ao forte corporativismo da categoria, Peixoto saiu vitorioso. Goiás obteve a nota mais alta no último Ideb. O grau de satisfação com sua ação na Educação é alto, exceto para sindicalistas ideologizados e políticos que mal sabem o que significam Ideb e ensino médio. Peixoto é uma forte aposta para 2018, embora tenha dito que José Eliton é o primeiro da “fila”. Inteligentemente, está sugerindo que não “atropela” aliados.

O fato é que, em 2018, todos os partidos chegarão com candidatos “novos”. Porque, naquela eleição, depois de prováveis dezesseis anos de Marconi no poder e com Iris fora do páreo, será finalmente a vez do “novo total”, que pode ser Vecci, Baldy, Daniel, Friboi, Peixoto, Gomide ou, até mesmo, Vanderlan. Naquela disputa, o novo que se apresentar de maneira mais consistente e, assim, convencer o eleitor de que será o mais adequado para melhorar sua vida, seu dia a dia, tende a ser eleito. Como todos serão novos, o diferencial vai a ser a agenda positiva, a credibilidade e a capacidade de convencer os eleitores de que se tem os projetos mais avançados e que é possível colocá-los em prática.

Em 2018, os candidatos não perderão tempo “julgando” a gestão de Marconi. Quem fizer isto possivelmente não se elegerá. Os candidatos mais fortes serão aqueles que disserem que vão ampliar a modernização do que foi feito pelo tucano e que se apresentarem como um passo adiante. Em 2014, paradoxalmente, quem está mostrando o passo adiante é o próprio Marconi, com seu marketing atilado, ousado e atento àquilo que os indivíduos realmente pensam e querem. O tucano, ao contrário de Iris, não subestima a inteligência do eleitor. Iris fala para um eleitor que só existe na sua imaginação de ficcionista do segundo time.

Na eleição seguinte, portanto, o novo terá de se diferençar dos outros novos e explicitar porque é, de fato, melhor. Será uma campanha muito difícil para todos. Com um detalhe: o governador Marconi terá peso decisivo, dada sua capacidade de modernizar-se, mas o candidato terá de contribuir, especialmente indicando como será ir além de Marconi, como vai renovar ainda mais. Não basta ter o apoio do tucano, é preciso dizer ao eleitor que se tem autonomia e que se tem capacidade de gestão, de gerenciamento. O eleitor só vota em apadrinhado quando o apadrinhado não parece apadrinhado, quando percebe que, se eleito, governará de maneira independente, sem controles e, especialmente, se terá criatividade para manter o processo de modernização do Estado. O eleitor não quer um “recuo”, uma volta ao passado. Quer ir para frente e, sobretudo, quer um gestor que puxe o Estado e ele próprio para fronts novos e construtivos. A decadência de Iris em 2014 talvez possa ser explicada porque perdeu o timing e a conexão com o eleitor goiano. Iris está falando de si e para si — porque é avesso a planejamento e pesquisa; enfim, à ciência —, não para pessoas reais. Marconi fala ao coração e ao cérebro dos goianos, porque está sintonizado com a contemporaneidade, tem conexões com a sociedade real. Por isso, em 2018, se quiser continuar no poder, o marconismo terá de criar o novo Marconi (o pós-Marconi), o, insistamos, passo adiante.

À guisa da conclusão, para usar uma expressão cara à linguagem passadista de Iris, talvez seja possível sugerir que, em 2018, daqui a quatro anos — principalmente com o peemedebista-chefe fora do páreo, aposentado —, o PSDB e o PMDB poderão estar unidos. Quem viver, se quiser, verá. Mas o futuro, admitamos, nem a Deus pertence. Pertence aos homens, religiosos ou não, mas ninguém sabe como será. É uma incógnita. Só que é possível plantar sementes para garantir um futuro melhor ou, às vezes, pior. A história, assinala o filósofo britânico John Gray, às vezes recua. O progresso, afinal, pode não ser contínuo. Os eleitores, portanto, têm um papel decisivo na escolha de um futuro “m” ou “i”.

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Amadense Alharta

As mudanças que realmente esperamos irão demorar a acontecer, o atual governador quer se perpetuar no poder e faz isso com muita propriedade…la se vao longos 16 anos de muita propaganda, nepotismo e corrupção…se Goias não acordar nesse 05 de outubro próximo iremos assistir isso ainda por muitos anos..ACORDA GOIAS!