‘Vitória’ de Iris Rezende pode devastar o projeto eleitoral de Daniel e Maguito Vilela para 2018

O prefeito de Aparecida e o deputado federal terceirizam seus conflitos políticos e talvez até torçam para que Vanderlan Cardoso retire Iris Rezende de vez do caminho político do PMDB

Maguito Vilela e Daniel Vilela: pai e filho, prefeito de Aparecida de Goiânia e deputado federal, dependem de uma derrota eleitoral de Iris Rezende para obterem sucesso político nos próximos anos

Maguito Vilela e Daniel Vilela: pai e filho, prefeito de Aparecida de Goiânia e deputado federal, dependem de uma derrota eleitoral de Iris Rezende para obterem sucesso político nos próximos anos | Foto: Alexandre Parrode

Na política, por estranho que possa parecer, o adversário às vezes mora ao lado, e não do outro lado, entre os adversários tradicionais. Percebe-se, em Goiânia, a presença reativa do prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, e do presidente do PMDB regional, o deputado federal Daniel Vilela. Os líderes do vilelismo participam da campanha de Iris Rezende para prefeito da capital, pois não querem, adiante, serem acusados de “traidores” e apontados como “culpados” por uma possível derrota do político de 82 anos. O vilelismo hoje é mais forte, até muito mais forte, do que o irismo, pois mantém dois deputados federais em Brasília, Daniel Vilela e Pedro Chaves — o irismo não enviou nenhum representante para a capital do país —, e elegeu no primeiro turno o prefeito de Aparecida, Gustavo Mendanha, um jovem de pouco mais de 30 anos. A força da renovação no PMDB advém do vilelismo.

Porém, por receio ou, quem sabe, síndrome de Estocolmo, o vilelismo subordina-se ao irismo há muitos anos. Fica-se com a impressão de que, mais do que temor, há uma reverência quase religiosa — como se Maguito Vilela, mais (supostamente por astúcia), e Daniel Vilela, menos, percebessem Iris Rezende como um guia espiritual, alguém que, simulacro de um messias, não pode ser contestado.

Recentemente, Daniel Vilela impôs uma derrota ao irismo, ao vencer candidato de Iris Rezende, Nailton “Rezendinho” Oliveira, na disputa pela presidência do regional PMDB. Entretanto, depois da vitória acachapante, o deputado federal comporta-se, por vezes, como se fosse liderado pelo decano do partido. Maguito Vilela volta e meia rende homenagens ao seu suposto “criador” político.

De fato, Maguito Vilela foi eleito governador, em 1994 — derrotando Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado —, graças, em larga medida, ao prestígio de Iris Rezende. É inegável. Mas pagou um preço alto, em 1998, quanto tentou disputar a reeleição. Na época, senhor absoluto do PMDB, o então senador mandou um recado curto, grosso e humilhante para Maguito Vilela: seria o candidato a governador. Não era um pedido, e sim uma decisão, uma ordem.

Mesmo com índices de popularidade acima de 90%, Maguito Vilela recuou, a contragosto, tirou o time de campo, contrariando todos os seus aliados, e bancou Iris Rezende para o governo. Como não puderam eleger Maguito Vilela, então com 49 anos, os eleitores bancaram um jovem de 35 anos, Marconi Perillo, do PSDB, para derrotar o velho cacique (que, possessivo, dizia: “O meu Goiás”).

Maguito Vilela subordinou-se a Iris Rezende, mas os eleitores, não. Eles se rebelaram e escolheram o “tempo novo”.

Desde 1998, os eleitores vêm derrotando Iris Rezende e tentando renovar o PMDB, ao emplacar o grupo político que se renovou, o PSDB, mas os peemedebistas, mesmo o perspicaz Maguito Vilela, não entendem o severo recado das urnas.

Na eleição de 2016, o PMDB comemorou alguns resultados eleitorais, como o de Rio Verde e de Catalão, mas esquece de rememorar que, dos 17 deputados federais, tem apenas dois; dos 41 deputados estaduais, têm apenas seis, e não tem nenhum senador. Apesar de sua história meritória — aliás, a própria história de Iris Rezende não é negativa, exceto por não abrir espaço à renovação, sacrificando o partido e seus líderes jovens —, o peemedebismo apequenou-se, nos últimos 18 anos. Por quê?

Porque seu principal líder, Iris Rezende, trava a renovação partidária e os líderes jovens, que nem são líderes, não ousam desafiá-lo. Pelo contrário, o colocam num pedestal para adorá-lo. Daí, enquanto Iris Rezende permanece no palco político, o PMDB definha. O sucesso do cacique-coronelizado exige a decadência do partido. Iris Rezende é Dorian Gray e o PMDB é o retrato de Dorian Gray. Dariam, “ambos”, personagens perfeitos para a prosa sardônica do irlandês Oscar Wilde.

Vanderlan Cardoso: o candidato do PSB a prefeito de Goiânia pode fazer aquilo que o vilelismo não ousa fazer — aposentar, de vez, o decano peemedebista Iris Rezende; e, se o fizer, fortalece os dois Vilelas

Vanderlan Cardoso: o candidato do PSB a prefeito de Goiânia pode fazer aquilo que o vilelismo não ousa fazer — aposentar, de vez, o decano peemedebista Iris Rezende; e, se o fizer, fortalece os dois Vilelas

Pacto faustiano
Os escritores alemães Goethe, no “Fausto”, e Thomas Mann, em “Doutor Fausto”, trabalharam a história do pacto do homem com o diabo para obter determinadas conquistas — físicas e artísticas. Pois os peemedebistas goianos fizeram, ao longo do tempo, um pacto faustiano com Iris Rezende, que, ressalve-se, não estamos chamando de Lúcifer, porque seria de extrema grosseria (o peemedebista merece todo o nosso respeito, como homem, político e evangélico).

O que se está dizendo, com a referência à história vulgarizada pela literatura alemã — e não só —, é que o pacto faustiano em Goiás serve a Iris Rezende e não ao PMDB. Todos os que enfrentaram — ou apenas o criticaram, ainda que levemente — Iris Rezende, nos últimos 34 anos, tiveram que optar por dois caminhos.

Primeiro, deixar o partido — casos de Henrique Santillo, Nion Albernaz, Irapuan Costa Junior, Lúcia Vânia, Fernando Cunha e Marconi Perillo. Segundo, submeter-se ao líder máximo e comportar-se como figuras subordinadas. Talvez seja o caso de Maguito Vilela, que, por sinal, tem sido puxado para a “rebelião” por seu filho, o jovem Daniel Vilela, de pouco mais de 30 anos.

A rã e o escorpião
Ante a força do imponderável e a violência da história, que obriga à tomada de decisões — Na­poleão e Hitler invadiram a Rússia, em 1812 e em 1941, e dançaram a valsa do adeus —, como analisar a dubiedade (que tem um quê de trágica, diriam os gregos) dos vilelistas Maguito Vilela e Daniel Vilela, que estão em Goiânia pedindo votos para o político que, se eleito, será o algoz de ambos, dinamitando seu projeto político para 2018, daqui a dois anos?

Políticos apreciam mencionar a história da rã e do escorpião. Conta-se que o escorpião disse para a rã: “Ajude-me a atravessar para o outro lado do rio”. Astuta, a rã disse: “De jeito nenhum. Você pode me picar e eu morrerei envenenada”. O escorpião apresentou uma lógica irretorquível: “De jeito nenhum. Ora, se eu picá-la, nós dois, e não apenas você, morreremos”. A rã aceitou a lógica precisa e ajeitou o escorpião nas suas costas. No meio do rio, depois de uma travessia tranquila, o escorpião picou a rã. Mortalmente ferida, a rã perguntou: “Por que me picou se você também vai morrer?” Quase afogado, o escorpião disse: “É a minha natureza”.

Estamos a dizer que Iris Rezende é o escorpião e Maguito Vilela e Daniel Vilela, juntos, são a rã? Não, porque seria deselegante. Estamos usando a fábula como metáfora para sugerir que, bancando Iris Rezende em 2016, se ele for eleito prefeito de Goiânia — passando a controlar uma estrutura financeira (mais de 400 milhões de reais por mês) e uma máquina partidária poderosa (com centenas de cargos para cabos eleitorais; note-se que a prefeitura recentemente abrigou Adib Elias, sua mulher, Adriete Elias, José Nelto e outros políticos do PMDB que haviam sido colocados no ostracismo pelos eleitores) —, não bancará nem Maguito Vilela nem Daniel Vilela para o governo do Estado em 2018. Por quê?

Na política cobra-se que se tenham adversários — porque uma sociedade aberta não é e não pode ser unidimensional, inteiramente convergente —, e não inimigos. Iris Rezende, porém, trata alguns políticos como “inimigos”. É como percebe o governador de Goiás, Marconi Perillo, que o derrotou três vezes, praticamente sepultando seu projeto político em nível estadual. O veterano peemedebista não quer apenas derrotar o tucano-chefe — planeja, há anos, destruí-lo, missão cada vez mais impossível.

Como não tem mais condições de confrontar Marconi Perillo, por ter se tornado um político de Goiânia e não mais um político de Goiás, Iris Rezende pensa num preposto com o objetivo de derrotá-lo.

Agora, voltam ao proscênio Maguito Vilela e Daniel Vilela. O decano peemedebista não confia em nenhum dos dois para um enfrentamento, quiçá sanguinário, com o tucano-chefe. Os dois são considerados políticos suaves e quase marconistas. Mas o senador Ronaldo Caiado, embora filiado ao DEM e adversário histórico do PMDB — entre os que apoiaram a cassação do mandato de Iris Rezende, quando este era prefeito de Goiânia, no fim da década de 1960, estavam parentes do líder do partido Democratas —, se posiciona como o veterano peemedebista, quer dizer, considera Marconi Perillo, não como adversário, e sim como inimigo. Ao adversário se quer derrotar; ao inimigo se quer destruir. É uma política cangaceira da República Velha, do tempo dos coronéis cruentos. Não é uma visão democrática e plural da política.

Assim, ainda que o vilelismo finja que está tudo bem, o que se sabe é que o sucesso eleitoral de Iris Rezende, em 2016, pode resultar no insucesso político de Maguito Vilela e Daniel Vilela em 2018. Isto é, uma vitória de Iris Rezende pode encaminhar o vilelismo para duas rotas.

Primeira, à da subordinação, que tem sido a praxe. Aí, nenhum dos Vilelas disputaria o governo do Estado, abrindo espaço para o preposto de Iris Rezende — não exatamente do PMDB —, Ronaldo Caiado.

Segunda, o vilelismo teria de retardar seu projeto político de conquistar o governo de Goiás para, quem sabe, 2022.

Há uma terceira rota, é claro. Maguito Vilela e Daniel Vilela poderiam deixar o PMDB, ou disputar seu comando, com o objetivo de desafiar o irismo e, deste modo, bancar um candidato a governador.

O problema é a extrema racionalidade de Maguito Vilela, que só disputaria o governo, ou só deixaria seu filho disputar, se secundado por uma ampla frente política. Porque sabe que, isolados, serão, mais uma vez, “alimentos” para o grupo de Mar­coni Perillo, que, frise-se, em 2018, terá completado 20 anos de poder, quebrando a teoria dos ciclos, ao se renovar e ao contar com a não-renovação do PMDB.

O vilelismo é uma corrente sólida do PMDB, mas tem o defeito de não formular uma teoria para sua prática política, talvez até por esperteza, para que não se perceba a extensão de seu pensamento e de suas ações. Mas a organização de uma ideia, sua matização pelo debate entre os pares, poderia contribuir para fortalecer Maguito Vilela e Daniel Vilela. Uma ideia que pede formulação ampliada: por que fortalecer aquele que quer nos destruir? Por que o vilelismo está agindo, em Goiânia, para fortalecer o agente, o irismo, que quer destruí-lo, ou pelo menos continuar mantendo-o como uma força subordinada?

Se criarem uma intelligentsia, uma agenda formuladora, o vilelismo vai entender, de maneira precisa e com uma clareza ímpar, que seu sucesso eleitoral tende a derivar do insucesso eleitoral de Iris Rezende — que também será o insucesso eleitoral de Ronaldo Caiado. O vilelismo tenderá a perceber, se reforçar sua teoria da política, que sua força só será maior e avassaladora se fragilizar o irismo e, daí, o caiadismo. Digamos que Ronaldo Caiado seja eleito em 2018, o que restará do vilelismo? Nada. Vai virar pó. Porque o espaço da oposição será ocupado pelo tucanato.

O que se descreveu acima, com o máximo de objetividade (que é mais importante do que a farsa da imparcialidade), é o que está acontecendo e o que poderá acontecer. Quem viver, se quiser, verá.

Iris Rezende (PMDB) e Ronaldo Caiado (DEM): o ex-prefeito de Goiânia e o senador estão usando um e outro como balões de oxigênio — um alimenta o outro, sempre pensando em vingança política e pessoal

Iris Rezende (PMDB) e Ronaldo Caiado (DEM): o ex-prefeito de Goiânia e o senador estão usando um e outro como balões de oxigênio — um alimenta o outro, sempre pensando em vingança política e pessoal

Perguntas
Deixamos duas perguntas, que no fundo são uma só, para o final — Iris Rezende tem condições de dizer, com todas as letras: “Meu candidato a governador em 2018 será Maguito Vilela” ou “Meu candidato a governador em 2018 será Daniel Vilela”? E, se disser, será crível, considerando que sua principal aposta é mesmo Ronaldo Caiado, única e exclusivamente porque é percebido como “anti-marconista”?

Os líderes vilelistas não são ingênuos, são hábeis politicamente, mas, por vezes, parecem não perceber a “fúria” da dialética, diriam Heráclito e Marx. Ou eles aproveitam a onda, para enfraquecer o irismo de vez — cujo projeto é pessoal, não é partidário (se fosse partidário, Iris Rezende aceitaria a renovação do PMDB) —, ou vão demorar a ter possibilidade de chegar ao poder.

Há uma expressão popular que diz mais ou menos assim: “O cavalo está arriado, à porta, à espera do cavalheiro”, do tipo arturiano, que decidirá a parada. Maguito Vilela e Daniel Vilela têm chances de chegar ao poder em 2018? Pode ser que sim, mas pode ser que não (o grupo de Marconi Perillo é forte e sabe se renovar). Porém, se permanecer como vassalo do irismo, por medo ou seja lá o que for — há políticos que são eternamente indecisos (são os piores políticos, diziam Winston Churchill e Tancredo Neves) —, o vilelismo pode perder sua chance histórica.

Fica-se com a impressão de que, no fundo, o vilelismo torce para que Vanderlan Cardoso, candidato do PSB, destrua Iris Re­zende politicamente, derrotando-o em Goiânia, para que não precise fazer seu próprio trabalho. O vilelismo, ao terceirizar a resolução de seus conflitos, pode continuar fora do poder por mais tempo, aliás, pode nem mesmo chegar a governar Goiás pela segunda vez, com Daniel Vilela ou Ma­guito Vilela. O governador Mar­coni Perillo, pelo contrário, não terceiriza seus conflitos. O resultado é que já foi eleito governador de Goiás quatro vezes. A história registra-o como um fenômeno político-eleitoral.

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Adalberto De Queiroz

O editorialista entende a História e sabe ler nas entrelinhas dos embates da província de Goyaz – como nenhum outro órgão de imprensa defensor da “farsa da imparcialidade”. Destaco no texto a compreensão de um ponto decisivo para entendimento do jogo político – coisa que outro jornal não permitiria ser escrito em Editorial: >>O vilelismo é uma corrente sólida do PMDB, mas tem o defeito de não formular uma teoria para sua prática política, talvez até por esperteza, para que não se perceba a extensão de seu pensamento e de suas ações. Mas a organização de uma ideia, sua matização… Leia mais