Ninguém discute que o conjunto de fake news mais perverso entre criados no Brasil nos últimos anos foi o que prejudicou o combate à pandemia de Covid-19. Desde a defesa da cloroquina e outros medicamentos comprovadamente ineficazes contra a doença – divulgados sempre por meio de estudos enviesados cheios de meias verdades – até o desprezo e o ataque à vacina – que levaram milhões de pessoas a sem motivo duvidarem de sua eficácia e se recusarem a se imunizar –, as mentiras serviram ao aumento do número de mortes na tragédia sanitária. Em um cenário muitíssimo otimista, pelo menos algumas dezenas de milhares de brasileiros perderam a vida por causa da desinformação. É uma dívida criminosa da qual um dia a história e, quem sabe, a justiça vão exigir prestação de contas de seus responsáveis.

Porém, outra maligna força-tarefa de notícias falsas, embora menos letal à integridade física das pessoas, tem se constituído na principal forma de corrosão e degradação da democracia brasileira: é aquela que ataca o sistema eleitoral, principalmente a partir dos questionamentos incabíveis sobre as urnas eletrônicas.

O advento da votação digital em lugar da impressa, ainda nos anos 90, se tornou um orgulho nacional tão portentoso mundo afora como são o samba, a bossa nova, o futebol e a exuberância das belezas naturais. Nas eleições presidenciais, a agilidade da apuração chega a causar espanto em observadores internacionais. Já mal-acostumadas e ansiosas, torcidas dos candidatos costumam reclamar do “atraso” na totalização dos resultados em algumas horas por conta dos fusos horários. A contagem retardatária dos votos do Acre, que tem duas horas de diferença para o que marca o relógio na maior parte do País, faz a internet se encher de memes no início das noites dos domingos de ida às urnas. É que quase todo o País tem seus resultados já bem adiantados quando a apuração por lá apenas começa.

Enquanto isso, países no topo da cadeia econômica mundial sofrem com esse que é o mais fundamental dos afazeres democráticos. Demoram dias, semanas, às vezes mais de um mês, até. Nas eleições de 2000 nos Estados Unidos, o republicano George W. Bush somente foi declarado vencedor contra o democrata Al Gore 37 dias após a votação. Foi quando saiu o resultado oficial, depois de uma confusão na Flórida em que houve sumiço de urna – com votos de uma localidade predominantemente de eleitores do Partido Democrata. Gore até cumprimento ao vencedor antes da hora, para depois saber da inconsistência no Estado, em que a diferença foi ínfima. Nunca se saberá se a anulação de algumas seções teria mudado o ocupante da cadeira principal da Casa Branca nos quatro anos que se seguiram – na verdade, oito, porque Bush acabou sendo reeleito.

Os Estados Unidos tem o melhor dos aparatos de última geração, um Vale do Silício inteiro de grandes corporações tecnológicas, universidades legendárias, mas continuam tendo dificuldades com seu sistema eleitoral ao mesmo tempo complexo e obsoleto, que facilita críticas e acusações – ainda que mentirosas e frágeis, como as Donald Trump fez durante o transcorrer da corrida presidencial e, mais ainda, ao perder a reeleição.

O episódio da invasão do Capitólio teve, como alimento para as conspirações dos apoiadores do hoje ex-presidente dos EUA, quatro dias de apuração e lentidão em Estados que definiriam o quadro. A tomada de assalto da principal Casa legislativa da maior democracia do planeta foi um trauma institucional e uma tragédia humana – cinco pessoas perderam a vida.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro (PL), em uma circunstância inédita, chamou embaixadores de dezenas de países para usar o arsenal de mentiras construídas ao longo dos anos sobre o sistema eleitoral brasileiro, seus agentes públicos e a instituição nacional que se tornou a urna eletrônica. Embora tenha prometido trazer provas de fraudes, nada fez a não ser requentar antigas teorias da conspiração e, no máximo, dizer meias verdades sobre a atuação de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por quem julga ser perseguido.

Um chefe de Estado desfiando para representantes de nações do mundo inteiro uma série de críticas ao sistema eleitoral que o fez chegar ao poder foi certamente um dos episódios mais embaraçosos da história da diplomacia mundial. Bolsonaro tornou-se também um caso único de candidato que, ao mesmo tempo em que aponta risco de fraude nas eleições, despreza a vigilância do processo por observadores internacionais.

É uma situação distópica, como distópico tem sido todo o governo Bolsonaro. Por isso, é importante atentar para como as nações reagiram aos ataques às eleições presidenciais. E nenhum país seria mais apropriado do que os Estados Unidos – depois da invasão do Capitólio e de toda a experiência ruim das últimas eleições por que passaram, além de sua importância geopolítica no planeta e hegemonia no continente – para referendar o crédito que o sistema eleitoral brasileiro tem em nível mundial.

Foi o que fizeram na terça-feira, 19, menos de 24 horas após o encontro insólito de Bolsonaro e da cúpula do governo federal com os diplomatas, a embaixada dos Estados Unidos divulgou comunicado em que diz que as eleições no Brasil “conduzidas e testadas ao longo do tempo pelo sistema eleitoral e instituições democráticas, servem como modelo para as nações do hemisfério e do mundo”. A soberania da população também foi enfatizada: “Como já declaramos anteriormente, as eleições no Brasil são para os brasileiros decidirem (…) O país tem um forte histórico de eleições livres e justas, com transparência e altos níveis de participação dos eleitores”.

O texto é concluído com um reforço no posicionamento em favor de nosso sistema eleitoral. “Estamos confiantes de que as eleições brasileiras de 2022 vão refletir a vontade do eleitorado. Os cidadãos e as instituições brasileiras continuam a demonstrar seu profundo compromisso com a democracia. À medida que os brasileiros confiam em seu sistema eleitoral, o Brasil mostrará ao mundo, mais uma vez, a força duradoura de sua democracia.”. No dia seguinte, o Departamento de Estado dos EUA – equivalente ao Ministério de Relações Exteriores – também externou a mesma expectativa.

O recado é bem claro, e acompanhado por comunicados de outros países: as eleições no Brasil são o que há de mais seguro para uma democracia e devem ocorrer de forma tranquila e justa, como tem sido desde o fim da ditadura militar. Ainda que cada vez mais trazidas por Bolsonaro para seu lado, as Forças Armadas sabem “ler” o que foi dito e o quanto seria acintoso se envolverem em um processo de descrédito do sistema eleitoral que elas próprias ajudaram a criar, em meados da década de 1990, colocando seus quadros técnicos para ajudar o TSE. O planeta inteiro, mais do que nunca, estará de olho nas eleições brasileiras deste ano. Da mesma forma como vai ser difícil escapar alguma fraude diante disso, a vigilância atenta se voltará também para observar os que porventura tentarem ataques às instituições que constituem nossa jovem democracia.