Uma reflexão para além de Bolsonaro, Olavo de Carvalho e guerras ideológicas

Ensaio do filósofo inglês John Gray sugere, de maneira indireta, que militares representam a faceta realista do governo de Jair Bolsonaro

Bolsonaro sênior, bolsonaros-boys, militares, imprensa e o filósofo Olavo de Carvalho estão envolvidos numa guerra que mescla o secular e o fundamentalismo. Parte da imprensa tenta ridicularizar o autor do livro “O Jardim das Aflições: De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio Sobre o Materialismo e a Religião Civil” (Vide Editorial, 464 páginas). A revista “IstoÉ” posta-o na capa com um chapéu de bobo da corte, deixando de perceber que não se trata, no caso específico, de um tolo, e sim de uma figura realmente influente — capaz de puxar a bel-prazer o governo para um lado ou para o outro. A revista “Veja”, aproveitando-se da linguagem de “combate” (chula) do morador da Virginia, nos Estados Unidos, tenta refletir o que supostamente é, na capa, o que não contribui para entender o que permeia realmente o pensamento do autor e o que o une ao presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. No campo da esquerda, poucos estudam os livros de Olavo de Carvalho, preferindo tachá-lo de “astrólogo”. Como um astrólogo tem tanto poder, num governo racionalista — o Estado é muito mais do que os provisórios Bolsonaro e bolsonaros-boys —, ninguém explica. Por quê? Porque há uma guerra ideológica, campo em que se julga vencedor não o que examina o pensamento alheio com moderação e tolerância, e sim o que “grita” mais alto e expõe os impropérios mais desabonadores. No campo da esquerda, o filósofo Ruy Fausto, da Universidade de São Paulo e da Universidade de Paris, é um dos poucos a examiná-lo com alguma atenção. Já os militares, com o general Sérgio Villas Bôas à frente — e vale lembrar que o presidente Franklin Delano Roosevelt governou os Estados Unidos, de 1933 a 1945 (foi eleito quatro vezes seguidas), sentado numa cadeira de rodas (teve poliomielite aos 39 anos) —, demonstram uma moderação rara no espectro político atual. Eles dizem que, para além dos debates ideológicos, há um país real — com problemas concretos, como o desemprego e a violência ampliada pelo crime organizado — para ser governado.

O Jornal Opção, neste Editorial, poderia ser mais um a discutir Olavo de Carvalho, Bolsonaro, bolsonaros-boys, militares e gracejos da imprensa. Mas a opção será outra. Por trás do debate que se trava, tanto no governo — às claras e nos bastidores — e na imprensa, há discussões que merecem reflexão, para além do xingamento e da execração pública. O que se pretende, na perspectiva de vários contendores, é usar o governo, seu poder, para reformar a sociedade e os homens. Os militares, de um realismo sem fronteiras, dão provas de que governar para indivíduos reais, melhorando o presente deles — e deixando que discutam seus próprios futuros —, é o caminho mais saudável. As “reformas” do ser humano — a Reforma da Previdência é frango de granja perto das reformas de comportamento — resultaram em batalhas terríveis ao longo da história. Ao cabo, resultaram, no geral, pífias. Veja-se o caso do socialismo na União Soviética, que se tornou, em 70 anos, o grande Titanic da história. Na China, numa ação inversa, deu origem a um capitalismo tão ou mais predatório do que o clássico.

John Gray: filósofo britânico duvida da visão de que se terá uma sociedade perfeita |Foto: Reprodução

Realismo como antídoto ao irracionalismo

Convidamos o leitor a pensar com o filósofo britânico John Gray, de 71 anos, ex-professor da Universidade de Oxford e professor da London School of Economics. “Missa Negra — Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias” (Record, 350 páginas, tradução de Clóvis Marques), livro de 2007 e tão atual quanto Aristóteles (e Hegel, que, do túmulo, virou Marx de cabeça para baixo), é uma reflexão (e não um guia) para ajudar a entender parte do que está acontecendo no mundo e, claro, no Brasil.

No momento, fica-se com a impressão de que o homem precisa ser “salvo”, que a “salvação” é possível e há caminhos precisos de como encaminhá-la. Neste ponto, esquerda e direita assemelham-se, pois acreditam num caminho único de redenção social e política — o delas. A ministra Damares Alves parece saber de coisas — sobre como corrigir o incorrigível homem — que Maquiavel, Hobbes e Spinoza tão-somente intuíram? (John Gray faz uma leitura original do pensamento de Hobbes e Spinoza, portanto vale uma leitura do livro, e não apenas deste Editorial.)

O capítulo do livro de John Gray examinado neste editorial é o último, “Pós-Apocalipse”. Não é possível sintetizá-lo integralmente em poucas linhas, por isso fica a sugestão de que se trata de uma leitura seminal àqueles que queiram escapar ao debate do tipo Fla x Flu tão em voga e empobrecedor.

Sergio Moro e Damares Alves, ministros da Justiça e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: os dois parecem acreditar na construção de um homem redentor

“A fé na Utopia está morta”, afirma John Gray. Isto num sentido mais amplo, sistêmico. Porque governantes e militantes políticos, aqui e ali, certamente continuarão propondo um caminho “único” para resolver, de maneira totalizante, os problemas do mundo, dos indivíduos. “Como sabia Spinoza, não há motivos para supor que o ciclo da ordem e da anarquia algum dia chegue ao fim”, anota o pensador inglês.

Se a utopia morreu — Isaiah Berlin sugere que as utopias são “reacionárias” e, por isso, nada “progressistas”  —, o que se pode fazer? “A busca da Utopia deve ser substituída por uma tentativa de enfrentar a realidade”, postula John Gray. “O realismo é a única maneira de pensar as questões da tirania e da liberdade, da guerra e da paz”, pontua. (Trata-se do que disse o general Sérgio Villas Bôas: “Temos tantas questões importantes que precisamos dar prioridade, e a gente fica dispersando energia com questões que absolutamente não contribuem para a solução dos problemas”.)

Para John Gray, “foi o realismo, e não a fé secular, que permitiu às democracias liberais derrotar o nazismo e conter o comunismo. George Kennan, num telegrama de 1946, sugeriu bom senso nas relações internacionais (hoje, sob Bolsonaro, seria possível fazer uma pergunta que contém sua resposta: capital de Israel em Jerusalém, por uma identificação ideológica, ou comércio azeitado com árabes?). O diplomata americano, decisivo para a formatação da política externa dos Estados Unidos, “não estava preocupado em desencadear um frenesi de retidão. Exortava a que o sistema soviético fosse estudado ‘com a mesma coragem, distanciamento, objetividade e a mesma determinação de não se deixar provocar ou desestabilizar emocionalmente’”. O realismo de George Kennan, um dos intelectuais pragmáticos mais brilhantes do século 20, absorvido pelos sucessivos americanos — há no país do presidente Donald Trump um irracionalismo que, na prática, é mais verbal —, levou os Estados Unidos, uma democracia, a se tornar o grande vencedor político e econômico dos últimos 100 anos.

Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho: num país sem militância de direita, o filósofo criou um exército de militantes direitistas que apoiam o presidente | Fotos: Reproduções

“Em tempos de perigo” (como a onda terrorista, o crime organizado), aponta John Gray, “a determinação estoica e o distanciamento intelectual são qualidades mais úteis, e em seus melhores momentos o realismo lhes servia de veículo. (…) O realismo é uma navalha de Occam que serve para minimizar as alternativas radicais entre os diferentes males. Mas não pode eximir-nos de enfrentar essas alternativas, pois elas são inerentes ao ser humano”.

É crucial, aos realistas, não aceitarem os enfoques teleológicos da história. “A suposição de que a humanidade caminha para uma condição na qual não haverá conflito quanto à natureza do governo é não só ilusória, como perigosa. Basear as políticas públicas na pressuposição de que um misterioso processo evolutivo conduz a humanidade à terra prometida acaba levando a um estado de espírito de despreparo frente aos conflitos mais intratáveis. (…) Não existe, no processo de modernização, nada que aponte na direção de uma época futura em que todos ou quase todos os Estados venham a ser variantes de um mesmo tipo. (…) O mundo não fica mais uniforme à medida que vai se tornando mais moderno.” O Brasil não vai se tornar os Estados Unidos da América do Sul, apesar da afinidade ideológica entre Donald Trump e Jair Bolsonaro. Tampouco determinadas reformas, como a da Previdência e as privatizações, vão criar uma terra mágica nos trópicos. Governos e sociedades sem problemas são uma impossibilidade. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é bem-intencionado e preparado (tem o rosto “angustiado” dos “religiosos” que julgam ter solução para tudo) — sobretudo para gerir forças do mercado —, mas não é mágico. O país não vai crescer, de imediato, por causa de suas ideias, ainda que transformadas em realidade. Primeiro, porque o planejamento é uma maneira de tentar enquadrar a realidade, mas nem sempre consegue, porque a vida (e as ações dos indivíduos) é “escorregadia”. Segundo, o Brasil não é uma ilha, não está isolado do mundo, e seu crescimento econômico depende, em larga medida, de outros países — como a China. Políticos e economistas que julgam “controlar” a história e as “regras” do funcionamento da sociedade se tornam náufragos no mar de suas próprias ideias.

Paulo Guedes: rosto angustiado dos religiosos que têm projetos para resolver os problemas do Brasil | Foto: arquivo/Agência Brasil

Impossibilidade de harmonia global

Com suas feições que parecem talhadas por Rodin, o ministro da Justiça, Sergio Fernando Moro, parece acreditar num mundo de prevalência da ética. Ele não está errado. É preciso mesmo construir um mundo — o possível — em que a retidão se torne regra, não exceção. Mas há drummonds no caminho — o de todos nós. “Se os realistas rejeitam a crença numa convergência final na história, um dos motivos é que resistem à tentação da harmonia na ética. Os conflitos morais, às vezes de tal natureza que não podem ser totalmente resolvidos, são uma característica constante nas relações entre Estados.” A crença na harmonia moral, afiança Isaiah Berlin, citado por John Gray, “não é corroborada pela experiência”.

Liberais criticam a ideia teleológica comunista, de que se terá um dia a sociedade perfeita — exatamente o paraíso comunista, sucedâneo do socialismo —, mas às vezes repetem seu principal oponente. O liberal Francis Fukuyama identificou a vitória “final” do liberalismo como “fim da história” — uma ideia hegeliana da qual se apropriaram tanto marxistas quanto liberais. “O liberalismo se tem mostrado tão utópico quanto outras filosofias na postulação de uma forma de harmonia final como meta atingível”, critica John Gray. O que se depreende é que formuladores do governo Bolsonaro parecem acreditar numa redenção — uma sociedade purificada — construída em quatro anos. Se isto for verdadeiro, amadorismo maior, isento de realismo, não há.

Há dilemas morais “para os quais não existe solução”. O que fazer, então? O que for melhor, é certo. Mas “não existe”, pontifica John Gray, “uma só maneira certa de resolver os conflitos entre os valores universais”. Porém é preciso enfrentar os conflitos, e não negá-los. O debate meramente ideológico — sobre qual “solução final” é superior — ignora que as pessoas de carne e ossos vivem no presente e não querem nem podem esperar um futuro radioso. Em nome de um futuro benigno, e incerto, várias pessoas foram assassinadas — inclusive por políticas de Estado. “A crença ocidental na salvação através da história se tem renovado sempre e sempre. A migração do utopismo da esquerda para a direita dá testemunho dessa vitalidade. Está inscrita na vida contemporânea uma fé irracional no futuro, e a mudança para o realismo pode ser um ideal utópico.”

Rousseau sugeriu que o homem nasce “bom” e a sociedade, por vezes, pode corrompê-lo. Portanto, há governantes que planejam fazer uma “limpeza” e criar um homem, se não perfeito, “melhor”. Sociedades democráticas moldam os indivíduos por meio de suas instituições. Criam, por assim dizer, “homens institucionais”. Mas por que não se consegue “construir” os homens bons pregados pelas utopias? O Thomas More patropi, Sergio Moro, parece acreditar que uma legislação duríssima vai enquadrar os homens — o que possibilitará a edificação de uma sociedade acima da média. John Gray, que não trata de Moro e Bolsonaro, pensa diferente. O filósofo diz que o cerne do realismo — e o motivo de se resistir a ele — é a conclusão de que há defeitos dos seres humanos que são “inatos”. “Nenhuma teoria política merece crédito se partir do princípio de que os impulsos humanos são naturalmente benignos, pacíficos ou sensatos. Como reconheceu Jonathan Swift ao situar no reino dos cavalos a única Utopia que podia imaginar, a busca da harmonia pressupõe um tipo de vida que os seres humanos não são capazes de viver. (…) Nenhuma mudança nas instituições humanas é capaz de resolver as contradições das necessidades humanas. (…) Os seres humanos têm necessidades que não podem ser atendidas por meios racionais.”

John Gray sugere que é preciso “aceitar o que não tem remédio e conferir significado aos acasos da vida”. O filósofo prega que o objetivo da ação tolerante não é a verdade, mas a paz. “Quando o objetivo da tolerância é a verdade, temos uma estratégia que visa a harmonia. Seria melhor aceitar que a harmonia nunca será alcançada. Melhor ainda, abrir mão da exigência da harmonia e acolher a variedade das experiências humanas.”

No final do ensaio, John Gray diz mais ou menos o que disse Sérgio Villas Bôas, o admirável general: “No que tem de melhor, a política não é um veículo de projetos universais, mas a arte de reagir ao afluxo das circunstâncias. O que não requer nenhuma visão grandiosa do progresso humano, apenas a coragem de enfrentar os males que estão sempre aí”.

O governo Bolsonaro, se quer corrigir o homem — e se almeja “extirpar” (projeto da vertente de Olavo de Carvalho e dos bolsonaros-boys) os radicais de esquerda, inclusive da máquina pública —, o que parecem pretender Sergio Moro e Damares Alves, a segunda mais do que o primeiro, certamente, para usar uma linguagem do momento, dará com os burros n’água. A opção adequada é governar da forma mais realista, fazendo as reformas que forem possíveis — o realismo do Congresso Nacional puxa o governo para a realidade, não só para o fisiologismo, como pensam alguns — e deixar os debates ideológicos, que não têm a ver com o dia a dia dos indivíduos, para os guetos incrustados nas redes sociais.

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