Terceira via pode saltar de mito para mico na eleição de 2022?

Rodrigo Pacheco começa a ser vendido como o novo Juscelino Kubitschek. Pode até chegar a ser, mas ainda não é. Se sobra equilíbrio, falta-lhe posicionamento

Os eleitores brasileiros não querem apoiar Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido) para presidente da República?

As pesquisas não são conclusivas, mas, além de apontar Lula da Silva e Bolsonaro em primeiro e segundo lugar, respectivamente, sugerem que, sim, há espaço para um postulante da terceira via.

A possibilidade de espaço para a terceira via, como superação da polarização direita versus esquerda, não significa, necessariamente, que um de seus candidatos tenha reais condições de derrotar tanto Lula da Silva quanto Bolsonaro. No momento, a rigor, não tem.

Lula da Silva permanece em primeiro lugar, em todas as pesquisas, com Bolsonaro em segundo. Pode-se falar em “derretimento” incontornável do presidente? Ainda não. Há mais uma torcida por seu derretimento do que um derretimento real. De fato, o gestor nacional caiu nas pesquisas, mas não para abaixo de 20%. Ele persiste bem à frente de qualquer um dos postulantes da terceira via — como Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (Podemos), José Luiz Datena (PSL), João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM), Rodrigo Pacheco (PSD) e João Amoêdo (Novo).

Uma pesquisa mostra que a terceira via já chega a 30% das intenções de voto, o que seria um bom sinal. Mas uma interpretação mais detida do eleitorado brasileiro não indica que o eleitor, digamos, de Sergio Moro é “parecido” com o eleitor de João Doria ou Ciro Gomes. É provável, inclusive, que o eleitor de Sergio Moro, se o ex-ministro da Justiça não for candidato, migre, ao menos em parte, para Bolsonaro. Parte da direita “descontente” (gente do alto PIB) pode voltar ao ninho do ocupante do Palácio do Planalto.

A terceira via só vai se viabilizar se um de seus postulantes crescer e se aproximar de Bolsonaro. Se isto acontecer, o que é provável — mas ainda não está acontecendo —, talvez se poderá verificar a ascensão do candidato, que, se superar Bolsonaro, poderá, ao poucos, se aproximar de Lula da Silva.

Por que parte dos eleitores trocarão Lula da Silva e Bolsonaro por um pretendente da terceira via? Por ser moderado? Ser moderado não significa que se ganhará, necessariamente, o aplauso e o voto do eleitor. No momento, qual é o pré-candidato que propõe o salto da mera crítica para a esperança realista? Nenhum deles.

Pelo que se percebe pelo discurso de quase todos da terceira via, o que se postula é um diagnóstico crítico tanto do governo de Bolsonaro quanto da passagem de Lula da Silva pelo poder, assim como de sua pupila Dilma Rousseff.

Não que os eleitores não queiram ouvir críticas aos desarranjos provocado por Lula da Silva e Bolsonaro na economia e na estrutura do Estado. Eles querem um diagnóstico mais amplo e objetivo. Porque, muitos deles, desaprovam as duas gestões.

Mas os eleitores não querem saber tão-somente de críticas. O que eles querem saber, efetivamente, é o que os candidatos pretendem fazer com o país no campo da geração de empregos, do social, da educação e da saúde — enfim, na melhoria da vida das pessoas. O candidato que apresentar um projeto de país inclusivo, com uma ideia articulada e exequível, poderá conquistar o voto dos eleitores. Pode, até mesmo, tomar votos de Bolsonaro e de Lula da Silva.

Ciro Gomes e Sergio Moro

Político articulado, com discurso convincente, Ciro Gomes peca numa questão: como “professor de Deus”, parece ter solução para tudo. Fica-se com a impressão, se ouvido com atenção, de que poderá reinventar tanto o país quando o próprio povo — construindo uma nação e indivíduos perfeitos.

Sergio Moro e Ciro Gomes: centro-direita e centro-esquerda | Foto: Reprodução

Sergio Moro fala pouco, mas também parece acreditar na construção de sociedades e homens perfeitos. As utopias dos dois parecem ser restauradoras. A questão é que tais utopias, se parecem progressistas, acabam por ser conservadoras e, também, perigosas. Porque a reinvenção da sociedade e do homem parece partir de um prisma autoritário. O que se fará com aquele que não se enquadrar à utopia que poderá acabar se tornando uma distopia?

Sergio Moro (ou Ciro Gomes), se eleito presidente, passará o primeiro ano, até se tornar realista, brigando com o Congresso. O realismo absoluto de deputados e senadores — que são políticos e não candidatos a santo — vai se chocar com seu aparente irrealismo, com sua ilógica ante a lógica dominante, e parcialmente incontornável.

Há outro problema com Sergio Moro: é monotemático — só fala sobre combater a corrupção.

José Luiz Datena 

José Luiz Datena é um Bolsonaro piorado, porque tem menos experiência do que o presidente. Parece figurar no panteão, o de Ciro Gomes, dos que acreditam que se pode resolver os problemas da sociedade no grito.

José Luiz Datena: uma espécie de Bolsonaro do jornalismo | Foto: reprodução Youtube

João Amoêdo (ora é candidato, ora não é) parece acreditar que o liberalismo é uma espécie de Deus. É o típico homem da iniciativa privada que não entende que o setor público é outra esfera. Seu liberalismo era moderno, digamos assim, na década de 1950. Hoje, os verdadeiros liberais incorporaram agendas parecidas com as dos socialdemocratas. Por isso, se querem um Estado mais enxuto, não pretendem destruí-lo. Pelo contrário, querem radicalizar o Estado em defesa da sociedade. O Estado a serviço exclusivo do mercado deixou de ser moderno já nos tempos de Franklin D. Roosevelt, que governou os Estados Unidas entre as décadas de 1930 e 1940. Seu governo casou, com eficiência e racionalismo, ideias de John Maynard Keynes (e outras, de forte apelo social) com ideias liberais. Deu certo.

Mandetta, Doria e Eduardo Leite

Luiz Henrique Mandetta parece acreditar que Deus fez o mundo e Bolsonaro o estragou. É percebido pelos eleitores como um político monotemático e, mesmo crescendo nas pesquisas, não vira o disco. João Doria é compreendido como um homem “bom” para São Paulo, mas não para o país. Faz um governo positivo, com crescimento econômico de 7%, o que é importante para todos — não só para os ricos —, mas, a despeito de ser responsável por Bolsonaro ter comprado vacinas (o presidente chegou a acreditar que poderia se tornar seu principal adversário em 2022, sem perceber, de imediato, a ascensão de Lula da Silva, que, para ele, talvez seja uma bolha, uma maré mansa, e não uma onda poderosa), não melhora seus índices nas pesquisas. Pode subir, durante a campanha? Talvez sim.

João Doria e Eduardo Leite: alternativas do PSDB | Foto: Reprodução

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, tem um jeito “doce” e parece gostar mais de gente do que João Doria. O fato de ser homossexual o ajuda ou o prejudica? Não dá para saber, ainda que se considere que há um eleitorado conservador, e não apenas no meio evangélico. Mas o brasileiro sabe que a competência do gestor é mais importante do que sua orientação sexual. Bolsonaro é um caubói de Marlboro — um machão —, mas, como administrador, deixa a desejar. Tudo indica que não entende o funcionamento da máquina estatal, daí seu caráter errático. Trata-se de um soldado invernal da Guerra Fria, ou seja, é um homem do passado, não do presente, e muito menos do futuro.

Rodrigo “JK” Pacheco

Há uma incógnita na praça: o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que acaba de trocar o DEM pelo PSD para disputar a Presidência da República.

Vale lembrar que o presidente Juscelino Kubitschek era filiado ao PSD (que deu origem ao MDB, na década de 1960, quando da imposição do bipartidarismo). O Brasil precisa de fato de um JK ou de um Fernando Henrique Cardoso, quer dizer, de políticos moderados, tolerantes e, ao mesmo tempo, realizadores. (O sucesso do primeiro governo do ex-presidente Lula da Silva, e talvez até do segundo, deve-se à política de estabilização levada a cabo pelo ex-presidente FHC.)

Rodrigo Pacheco e a “sombra” de Juscelino Kubitschek | Foto: Reprodução

JK, o presidente bossa nova, ficou conhecido por construir Brasília — a cidade que é uma espécie de museu do belo a Céu aberto. Mas Brasília é mais do que a cidade construída por JK, Israel Pinheiro, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e milhares de candangos. A face visível às vezes esconde a invisível: descontentando cariocas e paulistas, Brasília era (talvez ainda seja) um símbolo de um novo tempo — o da desconcentração do desenvolvimento regional, portanto, da integração nacional. O objetivo do político mineiro era desenvolver as demais regiões do país a partir de seu centro geográfico, pois Rio de Janeiro e São Paulo já estavam desenvolvidos.

Rodrigo Pacheco, nascido em Rondônia, é político em Minas Gerais. No momento, os homens do PIB apostam suas fichas em seu nome. Por causa de seu aparente equilíbrio e moderação. O que não se quer é radicalização de direita (Bolsonaro tem extrapolado, sua agenda anti-ambiental, se é ideológica, não é realista, porque o mundo não a aceita) e a provável radicalização de esquerda (Lula da Silva tem falado em regular a imprensa e um deputado de seu partido apresentou uma PEC para controlar o Ministério Público). Um político de centro, na opinião dos homens do PIB, pode resultar em equilíbrio, com uma nova inserção do Brasil no mercado internacional — com a atração de capitais e investimentos. Do ponto de vista eleitoral, o que se quer forjar é um candidato capaz de derrotar Lula da Silva. As elites não acreditam mais que tal candidato seja Bolsonaro.

O problema é que não se sabe o que realmente Rodrigo Pacheco pensa. Pelo visto, não é nem Juscelino Kubitschek nem Tancredo Neves — que eram grandes homens de Estado. O senador tem cara de bebê gigante, fala pouco, é discreto e exibe capacidade de articulação. Mas é preciso que sua fala seja “decifrada”, com ele falando mais e se posicionando (tudo bem defender a “pacificação dos espíritos”, mas isto não basta). Se tiver 30% de JK e 30% de Tancredo Neves, aí, sim, terá condições de recuperar os estragos feitos pelo PT (o país ainda se ressente dos equívocos do governo de Dilma Rousseff) e por Bolsonaro. Sobretudo, se encarnar o espírito da terceira via, “tragando” os demais postulantes, tem chance de crescer e ser eleito.

Jair Bolsonaro e Lula da Silva: os mais “vivos” na disputa | Fotos: Reproduções

Os índices de Rodrigo Pacheco nas pesquisas de intenção de voto ainda são baixos. Mas só daqui para frente, com a definição de que será candidato, é que começará a ser observado pelos eleitores. Se souber vender a esperança certa, aquela matizada pelo realismo, tem chance de crescer. Sua serenidade parece agradar. Mas precisa, insista-se, ser mais posicionado. JK e Tancredo Neves eram moderados, mas firmes.

Um dos problemas de Rodrigo Pacheco, como de qualquer outro nome da terceira via, é o excesso de candidatos com a “pauta” de centro. A direita radical só tem um candidato, Bolsonaro, e a esquerda tem no máximo dois nomes consistentes — Lula da Silva e Ciro Gomes (que tenta caminhar para o centro, sem conseguir; não porque o centro o desaprove totalmente, e sim porque está congestionado).

De resto, deve-se ressaltar que Lula da Silva está muito vivo e Bolsonaro não está nada morto. Os políticos de centro, da terceira vida, ao menos no momento, são soldados da retaguarda.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.