Só o despertar da classe média pode gerar o anti-Lula e o anti-Bolsonaro

Pelo quadro de hoje, não há um pré-candidato capaz de romper a polarização entre os candidatos da esquerda e da direita

Mesmo quando bem votada, a terceira via nunca foi bem-sucedida em disputas eleitorais no Brasil. Em 1950, Getúlio Vargas, do PTB, foi eleito presidente com 48,73% dos votos. O segundo colocado, o brigadeiro Eduardo Gomes (“é bonito e é solteiro”, dizia-se), da UDN, ficou com 29,66%. O nome da terceira via, Cristiano Machado, do PSD, obteve 21,49%. O PSD era um partido forte, mas Machado foi “cristianizado” por muitos de seus supostos aliados. Quer dizer, foi deixado na chapada pelos próprios correligionários, que não o viam como competitivo (trata-se de um precursor de João Doria, que os maledicentes chamam de “barbie masculina”).

Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas: primeiras vias | Foto: Reprodução

Na eleição seguinte, em 1955, Juscelino Kubitschek, do PSD, venceu com 35,68% dos votos. Ele superou Juarez Távora (30,27%), da UDN, e Adhemar de Barros (25,77%), do PSP. A terceira via recebeu uma boa votação, mas nada que ameaçasse o vitorioso no pleito.

Em 1960, Jânio Quadros, do PTN, com 48,26%, derrotou o general Henrique Lott (32,94%), o candidato de Juscelino Kubitschek. A terceira via, Adhemar de Barros (18,79%), do PSP, ficou bem mais atrás do que na eleição anterior.

O país só voltou a ter eleição direta para presidente em 1989. Fernando Collor (PRN), com 53,03%, venceu Lula da Silva (PT), com 46,97% dos votos. No primeiro turno, Collor ficou com 30,47% e Lula obteve 17,18%, seguido por Leonel Brizola (PDT), com 16,51%, Mário Covas (PSDB), com 11,51%, e Paulo Maluf (PDS), com 8,85%. A terceira via, Brizola, chegou perto de superar a segunda via, Lula da Silva.

Lula da Silva e Fernando Henrique | Foto: Reprodução

Em 1994, graças ao Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi eleito no primeiro turno, com 54,24% dos votos. Lula da Silva, o segundo colocado, ficou com 27,07%. O nome da terceira via, Enéas Carneiro, do Prona, obteve 7,38%. Orestes Quércia, do MDB, e Leonel Brizola, do PDT, vieram a seguir — com, respectivamente, 4,38% e 3,19%. A terceira via nem beirou o segundo colocado, ficando aquém da expectativa, sobretudo Quércia e Brizola.

No pleito de 1998, mais uma vez Fernando Henrique Cardoso (53,06%) derrotou Lula da Silva (31,71%), no primeiro turno. Figurando como postulante da terceira via, Ciro Gomes (PPS), com 10,97%, ficou bem distante dos mais votados.

Na disputa de 2002, Lula da Silva (61,27%) ganhou, no segundo turno, de José Serra (38,73%), do PSDB. No primeiro turno, o petista ficou em primeiro, com 46,44%, e o tucano em segundo, com 23,19%. O candidato da terceira via, Anthony Garotinho (PSB), obteve 17,86% — seguido de Ciro Gomes (PPS), com 11,97.

Quatro anos depois, em 2006, Lula da Silva (60,83%) foi reeleito, no segundo turno, contra Geraldo Alckmin (39,17%), do PSDB. No primeiro turno, o postulante do PT ficou com 48,61% e o tucano conquistou 41,64%. A candidata da terceira via, Helena Helena, do PSOL, ficou com 6,85% — bem distante.

Em 2010, Dilma Rousseff (56,95%), do PT, foi eleita, no segundo turno, contra José Serra (43,95%), do PSDB. No primeiro turno, Dilma recebeu 46,91% e José Serra obteve 32,61%. A postulante da terceira via, Marina Silva, com 19,33%, não ameaçou nem a petista nem o tucano.

Na eleição de 2014, Dilma Rousseff (51,64%) derrotou Aécio Neves (48,35%), do PSDB. No primeiro turno, a petista ficou com 41,59% e Aécio Neves obteve 33,55%. Marina Silva, da terceira via, conquistou 21,32%. De novo, distante dos mais bem posicionados.

Jair Bolsonaro e Fernando Haddad: adversários em 2018 | Foto: Reprodução

No pleito eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro (55,13%), na época no PSL, foi eleito, no segundo turno. O segundo colocado, Fernando Haddad, do PT, ficou com 44,87%. No primeiro turno, Bolsonaro conquistou 46,03% e Haddad obteve 29,28%. O postulante da terceira via, Ciro Gomes (PDT), com 12,47%, não foi tão bem votado quanto seus principais adversários.

A história prova, portanto, que a terceira via nunca se deu bem no Brasil. Em 2022, daqui a seis meses, será diferente? O pleito ainda está longe, e sempre é possível uma reviravolta. Porém, a se avaliar pelo quadro atual, a situação da terceira via é tão ruim quanto em disputas anteriores.

O principal nome da terceira via, Sergio Fernando Moro — que está tomando um baile da política, quer dizer, dos políticos profissionais —, anunciou, na semana passada, que não será candidato a presidente. O motivo é prosaico: as pesquisas de intenção de voto, assim como as pesquisas qualitativas, não mostram que têm expectativa de poder razoável. Pelo contrário, os eleitores não o avaliam positivamente, deixando-o sempre com menos de 10%.

Sergio Moro saiu do Podemos e filiou-se ao União Brasil para disputar, tudo indica, mandato de deputado federal. Em seguida, sugeriu que não havia desistido da disputa presidencial, o que levou um grupo do partido a pedir a sua exclusão. O ex-magistrado, um homem decente, está se comportando como “lambão”.

João Doria e Ciro Gomes: ocaso antes do começo?

Outro nome da terceira via, João Agripino da Costa Doria Junior, renunciou à candidatura, pelo PSDB, e, alguns minutos depois — como se fosse uma nova espécie de Jânio Quadros —, desrenunciou e disse que vai postular a Presidência da República. (O melhor nome do PSDB talvez seja Eduardo Leite, o ex-governador do Rio Grande do Sul. Ele parece mais atento ao país do que o ex-gestor de São Paulo.)

João Doria: com jeito de candidato da última via | Foto: AFP

João Doria é um político a quem não falta astúcia. Por isso sabe que os eleitores parecem ter “desistido” dele. Pior: tudo indica que os eleitores sequer o avaliam e, quem sabe, nem observam. Se o ex-governador de São Paulo estivesse sendo observado com atenção, quiçá sem preconceitos — seu jeito de “mauricinho” parece não agradar a média da sociedade (“parece que toma 45 banhos por dia”, brinca um tucano de Goiás) —, é provável que seus números seriam melhores. O que mais se pede para o país hoje? Sem dúvida, crescimento econômico. São Paulo cresce mais do que o país. Na questão da vacinação, é possível que sem a pressão de Doria, ancorado no poder econômico do Estado mais rico do país, o governo federal tivesse demorado ainda mais na imunização das pessoas. Por receio do paulista se tornar o “presidenciável da vacina”, Bolsonaro autorizou a aquisição de imunizantes.

O discurso de Ciro Ferreira Gomes é mais articulado e agressivo do que o de Doria e o de Sergio Moro, mas as pesquisas o mostram com menos de 10% das intenções de voto. Fica-se com a impressão de que, no campo da esquerda, acabou “soterrado” por Lula da Silva. O petista é a principal barreira à ascensão do político do Ceará, nascido em São Paulo, na mesma cidade de Geraldo Alckmin, Pindamonhangaba. Quanto ao discurso radicalizado, ainda que o seu seja mais articulado, não é páreo para Bolsonaro, da direita. O ex-ministro bate duro, mas às vezes guarda certos pudores. Já o presidente bate abaixo da linha de cintura e sabe falar para o povão e uma parte da classe média radicalizada à direita.

Ciro Gomes passa a impressão de que parece acreditar que é possível zerar a história e há uma “pedra” no seu caminho, Lula da Silva | Foto: Carl de Souza/AFP

Há similitudes entre Ciro Gomes e Sergio Moro. Os dois, principalmente o ex-governador do Ceará, parece ter solução para tudo. E a história ensina que políticos que pretendem “zerar” a história às vezes são perigosos inclusive para a democracia. É o caso do postulante do PDT? Talvez não. Mas políticos que querem ordenar o mundo rapidamente, acreditando na possibilidade de uma “regeneração” absoluta dos indivíduos, via políticas estatais, não parecem ter vocação realmente democrática. Já Sergio Moro parece acreditar que as leis podem criar, de repente, uma sociedade perfeita. Postas em prática, as utopias, que por certo são distopias, acabam por se tornar conservadoras, regressivas, e não progressistas. Ciro Gomes parece acreditar no “gritologismo” — a política do grito — para empurrar o país adiante.

Talvez o que os eleitores estejam dizendo, via pesquisas de intenção de voto, que querem, no poder, um político moderado e menos acelerado. Mais, digamos, “normal”, “gente como a gente”. Lula da Silva parece, a um só tempo, um político diferenciado e um cidadão comum. Bolsonaro também parece ser um cidadão comum, desses que comem pastel em feiras, escorrendo gordura pelos lábios e deixando as mãos oleosas. Mas não é diferenciado. A rigor, não parece ter uma noção ampla do que é governar uma potência econômica como o Brasil. É provável que, se não fossem os ministros Paulo Guedes, Teresa Cristina (ex-ministra) e Tarcísio de Freitas (ex-ministro), além dos militares e dos políticos do Centrão, como o ministro-senador Ciro Nogueira e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, o país estivesse bem pior. Por incrível que pareça, sem o Centrão, Bolsonaro poderia ser mais golpista. O Centrão pode ser muitas coisas, mas não é golpista — o que é positivo para o país, para a democracia.

Há eleitores de Lula da Silva e de Bolsonaro que são muito parecidos, às vezes iguais. Há até o caso de “lulistas” que se tornaram “bolsonaristas” e vice-versa. Do ponto de vista partidário, ambos não são muito diferentes, ao menos num sentido. Os dois estão bem acima do PT e do PL.

Jair Bolsonaro e Lula: o eleitorado parece clamar pela polarização | Fotos: Reprodução

Pré-candidatos da direita e da esquerda, Bolsonaro e Lula da Silva são, no momento, os políticos mais observados pelos eleitores — aqueles que se dignam a verificar, com alguma atenção, o que está acontecendo. As pesquisas de intenção de voto, secundadas pelas qualis, indicam que os votantes estão interessados nos dois, daí a polarização, por enquanto, inquebrantável. Há alguém acompanhando, com interesse, os passos e discursos de Ciro Gomes, João Doria e Felipe de Ávila (do partido Novo)? Tudo indica que não.

Há, no Brasil, a tendência de o eleitor observar, em campanhas eleitorais, tão-somente dois candidatos — os que se tornam favoritos. Por que Enéas Carneiro, numa eleição anterior, gritava e esperneava tanto? Para ser ouvido e visto. Aqui e ali, Ciro Gomes, um homem instruído, faz críticas contundentes, às vezes com palavras chulas, com o objetivo de chamar atenção para si, ou seja, de criar expectativa de poder para seu projeto político-eleitoral. Não tem dado certo. Tentou-se a política do Cirinho Paz e Amor, mas também não deu certo. Porque ela só funciona quando o postulante já está bem-posicionado. Quando se está bem atrás, o “santinho” não faz boa figura, isto é, não aparece na proporção necessária.

Tão perto do povão e tão longe das classes médias

Ciro Gomes, João Doria e Felipe de Ávila disputam o povão — a maioria do eleitorado. De alguma forma, estão certos. Porém, a terceira via só terá alguma chance no Brasil se conseguir formular um discurso para as classes médias — que se sentem não-representadas ou sub-representadas pelo espectro político. Se algum dos candidatos conseguir tocar num ponto crucial, ganhando sua confiança, há alguma possibilidade de a terceira via sair das sombras. Há milhões de eleitores, nas classes médias, que não estão entusiasmados nem com Lula da Silva nem com Bolsonaro, mas não percebem alternativas viáveis. Se despertados por um discurso crível, uma formulação séria e responsável, podem mudar de opinião. Há tempo para a cristalização de um novo discurso, que Lula da Silva e Bolsonaro já não estejam fazendo? Há, é claro. Seis meses, em política, é uma eternidade. Porém, para chegar ao povão, é preciso “acordar”, antes, as classes médias, que, no momento, estão “entorpecidas” pelo desencanto com tudo e todos. Apesar do “torpor”, seus ouvidos estão “abertos”, mas quem quer e sabe falar para elas?

Enquanto os políticos da terceira via “dormem”, à espera de um milagre, Bolsonaro e Lula da Silva (este mais) trabalham a formatação de frentes políticas nos Estados. O petista luta, com tal desiderato, para tentar ganhar a eleição no primeiro turno. O líder da direita trabalha para levar o pleito para o segundo turno, que, como se sabe, às vezes se torna uma eleição bem diferente, com a possibilidade de um rearranjo das forças políticas.

4 respostas para “Só o despertar da classe média pode gerar o anti-Lula e o anti-Bolsonaro”

  1. Avatar Márcio Vicenzo disse:

    Lula contra a Classe Média.
    Quem paga as contas? Quem dá empregos nas Micro, Pequenas e Médias empresas? Então, para que ir para univesidade? Ele insiste em colocar em prática o que ele tentou no passado discretamente: rebaixar a maioria para a Pobreza, não deixar subir um degrau, e acima os Ricos. Assim é hoje Venezuela,Cuba, Nicarágua, nada menos que isso. Cuidado com ele, não comprarão mais Smartphone da Apple. Isso serve para a juventude, ansiosa para crescer e ter suas coisas.

  2. Avatar Márcio Vicenzo disse:

    Lula contra a Classe Média. Quem paga as contas? Quem dá empregos nas Micro, Pequenas e Médias empresas? Então, para que ir para universidade? Ele insiste em colocar em prática o que ele tentou no passado discretamente: rebaixar a maioria para a Pobreza, não deixar subir um degrau, e acima os Ricos. Assim é hoje Venezuela,Cuba, Nicarágua, nada menos que isso. Cuidado com ele, não comprarão mais Smartphone da Apple. Isso serve para a juventude, ansiosa para crescer e ter suas coisas.

  3. Avatar Renata disse:

    O Brasil não tem mentalidade de Cuba, nem Venezuela, muito menos Nicarágua.
    Lula pode esquecer em implantar ideias comunicstas por aqui. Continue, assim livramos mais cedo do que imaginamos desta pessoa.

  4. Avatar Celeste Gomes del Salto disse:

    Uma ótima matéria! Parabéns ao editor.

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