Só crescimento econômico não vai incorporar os 13,5 milhões de pobres do Brasil

Governos liberais tendem a enxugar o Estado e apostar na força do mercado. Mas não pode esquecer que pobres não serão incorporados só pelo mercado

Paulo e Celso são moradores de Goiânia. Paulo tem automóvel. Celso pede esmola. As pessoas são reais — compósitas — e os nomes, fictícios. Paulo se considera “branco”, mas admite que pode ser pardo. Celso afirma que é “moreno”, mas admite que pode ser negro. Paulo tem 36 anos. Celso, aos 28 anos, parece mais velho. Os dois adoram a capital. Contemos um pouco a história de cada um.

Paulo é casado com Dinorah, tem dois filhos (um do primeiro casamento) e mora no Jardim América. Trabalha como gerente de uma empresa de tecidos. Todos os dias deixa sua casa às 7 horas e começa a trabalhar às 8 horas. Sai para almoçar ao meio-dia, volta ao trabalho e retorna para sua morada às 18 horas. No percurso para sua residência, num percurso de cinco quilômetros, circula por várias ruas. Acostumou-se, ao parar nos semáforos, aos pedintes. São muitos e com vários “estilos”. Há uma nova modalidade. Homens, mulheres e adolescentes, verdadeiros atletas, colocam saquinhos de amendoins nos retrovisores dos veículos e, depois, passam cobrando de um a dois reais. Às vezes, quando nada ganham, pedem uns trocados “para sustentar a família”. Paulo decidiu ler o que está escrito no pedaço de papel grampeado nos saquinhos: “Estou desempregado e preciso de ajuda para manter meus filhos”, “preciso de dinheiro para pagar meus estudos”, “preciso comprar comida para minha família”. Há os que pedem dinheiro diretamente. Algumas pessoas mal falam, mas fazem o gesto com as mãos indicando que querem dinheiro para alimentar-se. Pedem “qualquer moedinha”. Há um novo grupo de pedintes. São aqueles que recolhem papel nas ruas e vendem para as empresas de reciclagem. Empurram veículos pesados, com duas rodas, e não raros com crianças e cachorros como acompanhantes. Dizem que as coisas estão difíceis e que precisam de dinheiro para comer e, por vezes, pagar aluguel. Há os que escrevem imensos cartazes, em cartolina, e pregam nos seus “carrinhos”. Os que apresentam receitas médicas, quase sempre descoradas, não desapareceram, mas diminuíram. Há também os que estão vendendo balas, por valores irrisórios, ou panos de prato. Quando não conseguem vender, pedem algum “trocado”. Paulo descobriu, ao usar o Waze para trafegar por ruas mais transitáveis, que os pedintes mudam de ponto. Já viu um homem que tosse muito em três lugares diferentes — sempre com ar cansado e olhar vago.

Mendigo, com seu cachorro, dorme numa rua de Goiânia | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Inicialmente, Paulo diz que pensava assim: “Que turma de malandros, ninguém quer trabalhar”. Percebeu, aos poucos, que alguns trabalham — como os catadores de papel e os que vendem balas e amendoim — e que muitos aparentemente não têm condições de trabalhar, embora jovens. Um rapaz negro, que diz ter levado um tiro, conversa, mas sua fala é incompreensível. Aos poucos, depois de conversar com as pessoas, Paulo começou a guardas moedas de 1 real ou notas de 2 reais para distribui-las. Conta que gasta de 10 a 20 reais por semana — dependendo do dia. Fica contente? Diz que não. Porque sabe que não resolve o problema dos pedintes. Mas, ao conversar e doar alguma coisa, sente que se torna mais “humano”. Passou a perceber o outro. Paulo sugere que a pessoa que está dentro do automóvel pelo menos ouça o pedinte. “São pessoas como nós — só que desamparadas de tudo.”

Celso, encurvado, conta que é maranhense. Afirma que trabalhou na construção civil e numa panificadora, como auxiliar de padeiro. Ficou doente, não conseguiu emprego e, morando sozinho em Goiânia — é solteiro e a família mora no Maranhão —, decidiu se tornar pedinte. Não gosta e já pensou em adotar um cachorro, por medo de ser “roubado” enquanto dorme. Não usa drogas, embora outros pedintes com os quais convive sejam usuários de crack. Celso gosta de bebida alcoólica e tem o rosto inchado. Pede dinheiro mais para homens, “porque”, afirma, “homem tem mais dinheiro”, mas sugere que as mulheres, quando decidem ajudar, são mais generosas. Dão dinheiro, pães e até chocolates. Celso é especialista em pedir dinheiro nas proximidades dos semáforos. Sente que, às vezes, assusta as pessoas, pois, quando se aproxima, elas levantam rapidamente os vidros das janelas de seus automóveis. Há quem fique com cara de pânico. Receio de assalto. Os dedos polegares para baixo — sinal de que não se tem dinheiro — são exibidos constantemente e interpretados como sinal de “má vontade”. Mas Celso não desiste e chega a recolher de 20 a 30 reais por dia.

Celso assinala que a concorrência nas ruas de Goiânia está acirrada, notadamente no Centro, “onde as pessoas andam muito a pé”. No Centro, afirma, é bom pedir esmolas porque, além de dinheiro, ganha-se comida, como sanduíches e salgados e, até, sucos e refrigerantes.

Provocado pelas palavras de Celso, que quase terminou o ensino médio, um repórter do Jornal Opção circulou por algumas ruas do Centro de Goiânia — trechos da Anhanguera, Goiás, Araguaia, 4 e Tocantins. Há sempre uma pessoa sentada ou deitada nas ruas, pedindo esmola. Um haitiano (negro alto), que vende óculos na Avenida Goiás, perto da Rua 4, observa o repórter conversando com um mendigo e assinala, com seu português trôpego: “Além de pobre, é louco. Percebeu?” O vendedor de abacaxi, que conversava com um taxista, confirma: “É, tem um parafuso solto”. Na Anhanguera, nas proximidades do mais tradicional camelódromo do Centro, ao lado de uma unidade do Fujioka, o repórter aborda um mendigo, que, irritado, pergunta: “Tem uma moeda?” O repórter diz que não tem, então o mendigo vira as costas e aborda uma passante, que levanta a bolsa e a segura com firmeza. O repórter mexe no bolso e diz que achou uma moeda de 1 real. O mendigo abre um sorrisão e realça a boca desdentada, mas com presas sólidas. “O sr. é goiano?”, inquire o jornalista. O mendigo responde, desconfiado, perguntando: “E você é policial?” Depois acrescenta: “Você tem cara de professor”. O homem relata que tem 42 anos — parece ter no mínimo 60 —, já foi casado e tem filhos no Maranhão. Ele é paraense.

O repórter constatou que há mais pedintes nas ruas. O que é comprovável pelos dados divulgados pelo IBGE, na semana passada.

13,5 milhões de pobres

Vários governantes usam o combate à pobreza tanto para conquistar votos como para buscar consagração pessoal — um lugar na história. Entretanto, o combate à pobreza — de maneira sistemática — não é tarefa de um só governo. Trata-se uma tarefa para vários governos — e vale notar que mesmo países muito ricos, como os Estado Unidos, têm pobres, até muito pobres. Ao mesmo tempo, culpar o governo “x” ou o governo “y” pelo aumento da miséria é útil para politizar o debate, mas nada esclarece. Os governos recentes — de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, a Lula da Silva, do PT — criaram programas sociais inclusivos (como o Bolsa Família). Mas ainda foram relativamente tímidos nos seus propósitos. Não se tentou, por exemplo, uma conexão profunda entre programas sociais e educação.

Na quarta-feira, 6, o IBGE divulgou os dados da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS). A informação impactante é que o Brasil tem 13,5 milhões de miseráveis — daí as ruas superlotadas de pedintes, notadamente nas cidades grandes. O “Estadão” ressaltou que “o contingente de brasileiros miseráveis supera a população de países como Portugal, Bélgica ou Grécia”. Poderia ter acrescentado Israel e Cuba.

O gerente da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, André Simões, pontua: “A pequena melhora no mercado de trabalho não está chegando a essas pessoas, que está pegando pessoas já numa faixa mais alta. A extrema pobreza cresce”. Para caracterizar pobreza extrema usa-se a classificação do Banco Mundial, que sugere que são pobres aqueles indivíduos com rendimentos interiores a US$ 1,90 por dia — o que equivale a 145 reais por mês. Leonardo Athias, técnico na Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, disse ao “Estadão”: “O principal programa de redução de pobreza no Brasil tem uma linha de corte de 89 reais. Mesmo a pessoa recebendo a Bolsa Família, ela vai estar abaixo de uma linha de pobreza global. Está bastante longe dos 145 reais (adotados pelo Banco Mundial)”.

O economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Ipea, relatou ao “Estado” que “a extrema pobreza vem crescendo nos últimos anos em função de uma deterioração do mercado de trabalho, que prejudicou especialmente trabalhadores com menor escolaridade, mas também porque o Bolsa Família está com os valores defasados” (o trecho entre aspas é a síntese da interpretação do especialista).

Marcelo Neri acrescenta: “Isso significa que os beneficiários estão recebendo menos, mas também há menos pessoas recebendo o benefício. Teve melhora na eficácia, o governo passou um pente-fino. Mas muita gente deixou de ter renda com a crise e o desemprego, e o Bolsa Família não foi uma rede de proteção eficiente para segurar todas essas pessoas que passaram à extrema pobreza”.

O economista defende que o governo federal tem de investir num Bolsa Família 2.0, criando uma “inclusão produtiva dos mais pobres”. “Porque só o crescimento econômico não vai zerar a pobreza extrema”.

Governos que tão-somente fazem ajustes, com o objetivo de adotar uma política liberal, não costumam prestar atenção à necessidade de uma agenda social. O Estado tem a obrigação de zelar por aqueles que, em decorrência de problemas imediatos (como recessão econômica) ou históricos, vivem na miséria. Fala-se que é preciso dar a vara e ensinar a pescar. Quem diz isto tem razão em parte: é mesmo preciso incorporar os pobres por intermédio do trabalho (e da educação), mas, enquanto isto não for possível, ao Estado cabe criar e tornar efetiva uma rede ampla de proteção social.

A sensibilidade do ministro da Economia, Paulo Guedes, social não é nula, mas, até por ser um liberal ortodoxo, é diferente da de um político como o presidente Jair Bolsonaro. Portanto, paralelamente à implementação do receituário liberal — pelo qual o indivíduo é o senhor si mesmo —, Bolsonaro tem de ficar de olho nos pobres de seu país. O presidente, com seu jeito durão, tem sensibilidade para o social e, como tal, deve impor sua agenda, não permitindo que Paulo Guedes subordine tudo ao mercado. Os pobres absolutos não são a preocupação do mercado, mas cabe aos governos se preocuparem com eles.

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