Só a vacina levará o Brasil a recuperar a área de serviços, a base do PIB e da geração de empregos

O país não crescerá em 2020, mas a expansão em 2021 pode chegar a 3,5%. Mailson da Nóbrega diz que o país pode não crescer no primeiro trimestre do próximo ano

Na semana passada, o assunto mais discutido foi o crescimento do PIB no terceiro trimestre — de 7,7% (sobre o do segundo trimestre). Apesar de certo pessimismo de alguns economistas, a expectativa é de o país continuar crescendo; dos 4,5% negativos de 2020, tenderá a saltar para 3,5% positivos em 2021.

Há um detalhe, ressaltado pelos economistas Alexandre Schwartsman, doutor pela Universidade da Califórnia-Berkeley, e Mailson da Nobrega, que merece exposição. Os 50 bilhões de reais repassados a certo número de brasileiros, a título de auxílio emergencial — cada beneficiado recebeu, inicialmente, 600 reais por mês —, contribuiu para o fortalecimento da economia.

No artigo “Os ecos do trovão”, publicado na “Veja”, Schwartsman admite que o crescimento de 7,7% tem de ser considerado “expressivo”. Mas aponta dois problemas, que considera sérios: “O número veio abaixo do esperado (a previsão média era de crescimento de 9% sobre o segundo trimestre); além disso, seguimos ainda longe dos níveis registrados logo antes da crise”.

Alexandre Schwartsman, economista: vacina é decisiva para a recuperação global da economia | Foto: Reprodução

Esperava-se um crescimento maior em decorrência “do desempenho expressivo de alguns indicadores, notadamente as vendas no varejo e a produção industrial”. Schwartsman frisa que “não há dúvida que o auxílio emergencial, da ordem de 50 bilhões de reais mensais, em seu início e agora na casa de 25 bilhões de reais ao mês, teve papel crucial” na recuperação parcial da economia (varejo e indústria). “Há indicações que a renda das famílias em seu sentido mais amplo, já computando transferências governamentais como previdência e os diversos programas sociais (Bolsa Família, abono salarial, Benefício de Prestação Continuada), não caiu graças aos auxílios criados durante a pandemia; pelo contrário, parece ter subido um tanto. Com isso, as famílias foram às compras, conforme capturado pelas vendas varejistas, alimentando a expansão da produção da indústria”, analisa o doutor em Economia.

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, destaca que a taxa de desemprego está crescendo. Mas ressalva que só não subiu mais, sob a pandemia do novo coronavírus, “por causa de fatores como o auxílio emergencial, que fez as pessoas ficarem em casa e desistirem temporariamente de buscar emprego” (o trecho entre aspas é uma síntese de sua interpretação, publicada no “Estadão”). “À medida que esse contingente volta à força de trabalho, há tendência de o desemprego aumentar. Mas cálculos do Bradesco, relativos à PNAD Covid de outubro, indicaram que seis em cada dez pessoas que saíram do desalento conseguiram emprego, mesmo com a economia ainda parcialmente fechada.”

Depreende-se que, mesmo errático, o governo do presidente Jair Bolsonaro acertou ao criar o auxílio emergencial. A motivação da intervenção do Estado, às vezes vista tão-somente como desenvolvimentista (o que o ministro da Economia, Paulo Guedes, não é), era social, mas também econômica, como sugerem Schwartsman e Fernando Barbosa. O investimento social contribuiu para que a crise econômica fosse menor e, ao mesmo tempo, se tornou um instrumento para a razoável expansão econômica.

Mailson da Nóbrega, economista: país pode não crescer no início de 2021 | Foto: Reprodução

O setor de serviços

Schwartsman nota que o setor de serviços é responsável por mais de 60% do PIB brasileiro e gerador de “pouco mais da metade dos empregos no país”. “Esse setor segue manietado pela crise sanitária: segundo as estimativas do IBGE, produziu no terceiro trimestre ainda 5% a menos do que no final do ano passado”. Mesmo assim, como aponta Mailson da Nóbrega, “os serviços deram sinal de vida, embora continuem a ser o setor mais negativamente atingido pela pandemia. Expandiram-se 6,3% (haviam caído 9,4% no trimestre anterior). O subsetor mais prejudicado tem sido o que depende do contato pessoal e de aglomerações, casos de alojamento [hotéis, pousadas], restaurantes, viagens e turismo, no primeiro caso, e do comparecimento a estádios, cinemas, teatros e museus, no segundo. A área de ‘outros serviços’, que incluem a administração pública, tem sofrido a queda, causada pela pandemia, na oferta de serviços associados a saúde: diminuíram as consultas, as internações e os exames laboratoriais do SUS”.

Fernando Barbosa sublinha que a recuperação dos “serviços depende fundamentalmente da reabertura da economia. E essa depende da vacina”. Schwartsman pensa de maneira semelhante: “Sem medidas de saúde pública que eliminem a causa do problema, o maior setor do PIB seguirá com dificuldade. Trata-se de um problema sério, porque também a maior parcela do emprego no Brasil está associada a ele. Não por acaso quase 75% dos empregos perdidos no país entre fevereiro e setembro vieram de lá. Em suma, sem vacina não haverá recuperação rápida dos serviços, nem do emprego, nem, portanto, do PIB. Para 2020, a queda, já encomendada, deve superar um pouco os 4,5%. Mais importante a essa altura do campeonato, a expansão de 2021 deverá ficar na casa de 3,5%”. O crescimento de 7,7% no trimestre não deve, portanto, levar o leitor a acreditar que se terá crescimento em 2020. Na verdade, a economia do país, em vez de crescer, caiu. Bolsonaro e Paulo Guedes têm culpa no cartório? Mínima. A pandemia do novo coronavírus travou uma economia que começava a crescer. E travou não apenas no Brasil. Até a China, um gigante que sempre expande mais do que os outros países, cresceu menos em 2020. Sua expansão tende a ficar abaixo de 5% (o que ainda é alto) — o que, para a China, que costuma crescer entre 8% e 10%, é um espanto.

(Na campanha para prefeito de Goiânia, este ano, debateu-se a questão de se construir um distrito industrial, esquecendo-se, por vezes, que cidades como Goiânia, Aparecida de Goiânia, Trindade e Senador Canedo estão praticamente conurbadas, e por isso são praticamente uma só. Se há distritos industriais no Entorno de Goiânia, talvez não haja a necessidade de um distrito na capital, que não pode se tornar um centro de riqueza cercado de miséria. Faltou um debate amplo sobre serviços — fonte seminal da economia da principal cidade do Estado. O economista Flávio Peixoto há anos vem afirmando que o forte da economia de Goiás são serviços, além da crescente indústria. O essencial não são os componentes agrícola e pecuário, ainda que sejam importantes. O grande prefeito de Goiânia será aquele que, de alguma maneira, perceber, de maneira pragmática e objetiva, que também é responsável pelos municípios citados. Quanto mais eles tiverem seus problemas equacionados, como as questões do emprego e da saúde, menos complicado será gerir a capital. Se os problemas são comuns, as soluções também devem ser. Os prefeitos das quatro cidades deveriam ser chamados de gestores-associados.)

Mailson da Nóbrega enfatiza que o PIB do Brasil deve crescer 2% no quarto trimestre. Mas o economista percebe que, “sob o aspecto da demanda, sobressaiu a expansão da formação bruta do capital, que experimentou crescimento de 11%, em comparação com queda de 16,5% no trimestre anterior. Trata-se de um bom sinal, pois sinaliza que as empresas estão investindo na ampliação da capacidade ou na modernização dos parques produtivos de bens e serviços. A demanda das famílias subiu 7,6% (queda de 11,3% no segundo trimestre). No comércio exterior, as exportações caíram 2,1% e as importações continuaram caindo: 9,6% no terceiro trimestre (diminuição de 12,4% no segundo), devido à recessão. Esses resultados, ao lado da queda de viagens internacionais e das remessas de lucros e dividendos, contribuíram para o fortalecimento das contas externas”.

No artigo “A virada do PIB: indústria é o grande destaque da recuperação”, publicado na revista “Veja”, Mailson da Nóbrega pontua: “Não dá para descartar uma queda do PIB no primeiro trimestre de 2021”.

China, Brasil e Estados Unidos

O Jornal Opção tem uma visão heterodoxa sobre as relações entre os Estados Unidos, a China e o Brasil. A leitura dos artigos de alguns articulistas sugere que o país de Machado de Assis, Clarice Lispector, Miguel Jorge e Yêda Schmaltz ainda permanece como uma colônia. Na verdade, trata-se de uma nação que figura entre as dez mais ricas do mundo e, com ajustes em sua economia, tende a avançar, ocupando uma posição logo atrás de Estados Unidos, China, Japão e Alemanha.

Há pouco, na imprensa e nas redes sociais, houve uma certamente comemoração — quiçá como uma crítica ao governo de Bolsonaro — ao se revelar que o Brasil tende a deixar o grupo dos 10 maiores PIBs globais. Mesmo que fique em 12º lugar, especialmente para um país constituído há 198 anos — considerando a partir da Independência em 1822 —, não será nada mal. Dados o tamanho do país e de sua população, a qualidade e quantidade de sua produção, o volume excepcional de matérias-primas, o Brasil certamente se colocará entre as cinco nações mais ricas, assim como a Índia.

O governo de Joe Biden será positivo ou negativo para o Brasil? A leitura de determinados articulistas, inclusive do excelente Rubens Ricupero, sugere que o país, se não ceder ao governo de Biden, em termos ecológicos, por exemplo, poderá se dar mal. Ora, no confronto para não perder a hegemonia econômica para a China — e certamente perderá, nos próximos 20 anos —, os Estados Unidos vão precisar de aliados como o Brasil, acima de quaisquer ideologias.

O Brasil, se Bolsonaro escapar das algemas do discurso meramente ideológico, optando pelo pragmatismo da realpolitik global, pode se tornar o fiel da balança no conflito econômico e político — geopolítico — entre China e Estados Unidos. Movimentos pendulares, ora pró-Estados Unidos e ora pró-China, seguindo os ditames dos interesses patropis, só fortalecerão a nação de Siron Franco, Alexandre Liah, Portinari, Noel Rosa, Elis Regina e Darci Denófrio.

É provável que, ao contrário do que se vem comentando, o Brasil ficará mais forte com Biden na Presidência dos Estados Unidos. Como não quer que a China se torne a potência número um durante seu governo, o líder democrata terá de amparar-se na musculatura de aliados poderosos, como o Brasil, que, claro, é maior do que Bolsonaro. A China, para tentar superar os Estados Unidos o mais rápido possível, também precisa do amparo da Terra de Cecília Meirelles, Valdivino Braz, Djamila Ribeiro, Cruz e Sousa e Lima Barreto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.