Rejeição pode se tornar mais barulhenta e minar favoritismo de Ronaldo Caiado

História da eleição de 2018 não está fechada. É o recado da realidade que está sendo dado mais pelos eleitores do que pelos políticos e analista

Foto: André Corrêa/Agência Senado

Pesquisas extemporâneas, que revelam tão-somente que alguns candidatos são mais conhecidos do que outros, criam expectativas de poder que, no mais das vezes, são falsas. Não se está sugerindo que tais pesquisas sejam manipuladas. Em geral, não são. O que se está afirmando é que, como não há campanha eleitoral — portanto os eleitores não estão observando os candidatos e suas propostas, que, a rigor, ainda não foram apresentadas (se não foram expostas, como os eleitores podem avaliar os candidatos; na verdade, pré-candidatos?) —, os eleitores, até por serem racionais e responsáveis, ainda não têm condições de apostarem no candidato x, no candidato y ou no candidato z. Dito de maneira direta, as pesquisas estão tentando capturar um eleitor que, na verdade, ainda não existe. O eleitor verdadeiro começa a “surgir” entre agosto e setembro — quando principia a observar o quadro político e os postulantes. Antes disso, as pesquisas assemelham-se à literatura de Gabriel García Márquez e Clarice Lispector — quer dizer, são “ficcionais”, o que, frise-se, não é sinônimo de “falsas”.

O candidato favorito de hoje pode não ser o candidato favorito (e eleito) de amanhã. O que aconteceu antes pode se repetir em 2018. Sublinhe-se que as pesquisas atuais, mesmo que insuficientes — pelo fato de que a maioria dos candidatos é pouco conhecida e não se expôs o contraditório a respeito de todos os postulantes — para traçar um quadro preciso, têm serventia. O ponto fraco é o levantamento estimulado, que favorece, logicamente, os candidatos mais conhecidos. No momento, o pré-candidato mais conhecido para governador de Goiás é o senador Ronaldo Caiado. E, exatamente por ser mais conhecido — e frise-se que sua imagem de político “ético”, não envolvido em bandalheiras, o impulsiona —, aparece em primeiro lugar. As pesquisas não estão erradas. O presidente do DEM é mesmo o líder, com frente apreciável.

Eleitor estaria mesmo indeciso?

Há aspectos das pesquisas que têm sido neglicenciados pelos comentaristas dos jornais e sites — e são, é seminal insistir, os que têm mais serventia àqueles que queiram ter uma visão mais abrangente do quadro político-eleitoral.

Primeiro, o número de eleitores “indecisos” e que não querem votar é altíssimo. Pode-se dizer, até, que tais eleitores não estão indecisos. Na verdade, estão decididos a não votar — e em nenhum dos candidatos. Trata-se de um posicionamento altamente político e, até, politizado. Há uma rejeição geral dos políticos — repita-se, de todos. Se é assim, a liderança de Ronaldo Caiado talvez possa ser vista como “inercial”, quer dizer, não é uma liderança cristalizada. É uma liderança do “mais conhecido” e daquele que tem, até agora, uma imagem ética “positiva”. Como os outros não são conhecidos não estão sendo avaliados. No momento certo, entre agosto e setembro, serão examinados com lupa pelos eleitores, cada vez mais exigentes.

Ronaldo Caiado (DEM), José Eliton (PSDB), Daniel Vilela (MDB), Kátia Maria (PT), Weslei Garcia (Psol), Edson Braz (Rede) e Paulo Beringhs (Patriota): os seis políticos ganharão pontos junto aos eleitores se entenderam que 2018 é uma obra inteiramente aberta

Levantamento espontâneo é crucial

Segundo, o levantamento espontâneo (similar ao voto na urna) sugere que Ronaldo Caiado, o postulante mais conhecido, tem menos de 20% das intenções de voto. Como é praxe examinar mais o levantamento estimulado, com a citação de nomes, este aspecto é negligenciado. Ainda que o que se vai dizer a seguir deva ser relativizado, até para não depreciar o pré-candidato do DEM — que tem seu valor e merece respeito da sociedade e dos analistas —, talvez seja possível enfatizar que, no momento, ao menos 80% dos eleitores não demonstram interesse em votar em Ronaldo Caiado. Trata-se de uma informação que merece ser levada em conta, sobretudo por aqueles que acreditam que as eleições deste ano já estão definidas e, por isso, acreditam em “favas contadas”. Nos bastidores, sabe-se, o presidente do partido Democratas tem recomendado cautela e que seus aliados falem menos e trabalhem mais. Experimentado, certamente sabe do que está falando.

Rejeição de Caiado é cristalizada

Terceiro, há três aspectos a se discutir sobre rejeição. Primeiro, a rejeição alta de um candidato ainda desconhecido deve ser relativizada. Porque, se não é conhecido, como pode ser rejeitado em larga escala? No caso, a rejeição não é exatamente rejeição, e sim uma maneira de o eleitor indicar que o desconhece e não tem como avaliá-lo com precisão. As rejeições de José Eliton e Daniel Vilela, pré-candidatos do PSDB e MDB, possivelmente, porque não são inteiramente conhecidos, não são “fixas”. São tão inerciais quanto o favoritismo de Ronaldo Caiado.

Segundo, a rejeição do candidato conhecido é, em geral, verdadeira e, quase sempre, fixa — isto é, tende a não mudar muito durante a campanha, exceto para cima. O drummond no meio do caminho do senador democrata pode ser exatamente sua rejeição. Depois, dadas as estruturas do PSDB e do MDB, é natural que tanto José Eliton quanto Daniel Vilela melhorem seus índices no decorrer da disputa. O tucano e o emedebista devem conquistar votos dos indecisos — que, como se disse acima, são menos indecisos do que parecem; o mais provável é que não queiram aquele que está liderando e, por isso, estão esperando para observar os candidatos que ainda não conhecem — e podem atrair, inclusive, votos de eleitores que, hoje, dizem que irão votar em Ronaldo Caiado.

Mulheres rejeitam mais senador do DEM

Há um terceiro ponto, ainda não devidamente destacado pelos analistas. As mulheres rejeitam mais fortemente Ronaldo Caiado do que os homens. A explicação dos motivos merece uma análise mais ampla, mais do campo da sociologia e, quiçá, da antropologia. Mas é possível arriscar uma hipótese simples e plausível. O pré-candidato do DEM parece encarnar o “homão” do, diria o cineasta italiano Sergio Leone, “Era Uma Vez no Centro-Oeste”. Trata-se do “homem viril”, que aparece montado em cavalos e fala com voz de tenor e, se necessário, grita e bate na mesa. O “machão” — diria a feminista Judith Butler.

As mulheres, ao rejeitarem Ronaldo Caiado, parecem percebê-lo como o típico “machão arrogante” do país. Um dos representantes modelares do machismo patropi. Pode ser um estereótipo? Até pode. Mas há indícios de que o postulante democrata é visto assim. Para piorar, a chapa majoritária organizada pelo senador tem um caráter “misógino” — são quatro homens. Ronaldo Caiado é o nome indicado para governador. O deputado Lincoln Tejota (Pros) é seu vice. Wilder Morais (DEM) e Jorge Kajuru (PRP) são pré-candidatos a senador. Não há nenhuma mulher. A aliança caiadista conquistou o apoio do Partido da Mulher Brasileira. Apesar disso, o PMB não emplacou nenhuma postulante “titular” na chapa majoritária. É possível que as mulheres estão entendendo que, a partir de um gesto concreto — a não permissão de que uma mulher seja política de proa na chapa —, Ronaldo Caiado não seja um defensor das causas femininas-feministas. Porque é a prática, o fato (ou gesto), e não a teoria, o suposto propósito, que determina a opinião verdadeira de uma sociedade.

A rejeição de Ronaldo Caiado já não é silenciosa, mas pode se tornar, durante a campanha, com a exposição do contraditório, muito mais barulhenta.

Pensar é antídoto contra a paralisia da ação

Gean Carvalho, do Instituto Fortiori

O quadro eleitoral só está decidido para aqueles que se recusam a pensar, o que não é o caso de Ronaldo Caiado, José Eliton, Daniel Vilela, Katia Maria (PT), Edson Braz (Rede), Weslei Garcia (Psol) e Paulo Beringhs (Patriota) — políticos de valor, racionais e inteligentes. Eles sabem, tanto quanto pesquisadores e marqueteiros competentes e íntegros —, como Gean Carvalho, do Instituto Fortiori,

Jorcelino Braga

Antonio Lorenzo, do Serpes, Mário Rodrigues, do Groupon, e Roque Toscano, do Epom, para listar apenas quatro, e Renato Monteiro, Paulo de Tarso, Jorcelino Braga, Carlos Maranhão e Marcus Vinicius Queiroz, para arrolar apenas cinco —, que a eleição de 2018, diria o semiólogo, crítico e escritor italiano Umberto Eco, é uma obra aberta. Abertíssima.

Antonio Lorenzo, do Serpes

Roque Toscano

O objetivo deste Editorial não é persuadir o leitor-eleitor a respeito do quadro eleitoral deste ano. A intenção é outra: é incentivá-lo a pensar pela própria cabeça. Pensar é o único antídoto contra a paralisia da ação, contra a tese das favas contadas. A história da eleição de 2018 não está pronta, fechada. Está sendo construída. É o recado da realidade que está sendo dado mais pelos eleitores — com sua decisão entendida como indecisão — do que pelos políticos e analistas.

 

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