A política, como a vida, é uma caixinha de surpresas, como dizem técnicos e jogadores de futebol. Veja-se um caso curioso: se Gustavo Mendanha, do Patriota (dizem que a caminho do Republicanos), tivesse sido eleito governador, em 2022, praticamente “fecharia” a política de Goiás até 2030. Porque seria candidato à reeleição em 2026. Porém, com a vitória de Ronaldo Caiado, do União Brasil, a política fica inteiramente aberta. (Antes, um alerta: em quatro anos, a política e as pessoas mudam; às vezes, muito. Então, é preciso entender que análises são especulativas).

Em 2026, Ronaldo Caiado, por ter sido reeleito em 2022, não pode disputar o governo, então será candidato a presidente da República ou a senador. Em abril de 2026, Daniel Vilela, o vice, assumirá o governo e, no dia seguinte, estará credenciado como candidato “natural” à reeleição pela base governista — numa aliança com Ronaldo Caiado.

Daniel Vilela e Ronaldo Caiado: em 2026, em novo ciclo da política, o emedebista vai precisar encorpar sua aliança política e 2024 deve ser a “preliminar” da “final” | Foto: Reprodução

Se for eleito em 2026, Daniel Vilela não vai disputar o governo em 2030 — ou seja, sua vitória também “reabre” a política de Goiás para novas personagens da política — como Alexandre Baldy, Wilder Morais, Flávia Morais, Silvye Alves, Adriana Accorsi, Gustavo Mendanha, Ana Paula Rezende, Virmondes Cruvinel, Lincoln Tejota, Renato de Castro, Diego Sorgatto, Roberto Naves, Marden Júnior, Vanderlan Cardoso, Bruno Peixoto, Gustavo Gayer, Romário Policarpo, Rogério Cruz, Pábio Mossoró, Gustavo Mendanha, Lucas do Vale, entre outros.

As bases político-eleitorais para 2026 estão consolidadas? Pode-se sugerir que algumas estão fortalecidas, mas não sedimentadas. Cada eleição, se não exige uma base nova, cobra ao menos uma reformatação das alianças; por vezes, para ampliá-las. As bases de Ronaldo Caiado em 2022 foram maiores do que as de 2018, o que lhe garantiu uma vitória relativamente tranquila no primeiro turno.

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Alexandre Baldy sugere que não vai disputar, mas está no jogo | Foto: Divulgação

Político hábil, aberto ao diálogo, Daniel Vilela terá de sedimentar a base que vai bancá-lo para governador, e não apenas em 2026. O vice-governador eleito e presidente do MDB terá de começar a feitura de sua base a partir de agora, ou melhor, a partir da campanha para prefeito dos 246 municípios de Goiás em 2024.

Daniel Vilela tem muito o que oferecer. Primeiro, seu vice, se ele for eleito, assumirá o governo em 2030 e, portanto, se tornará candidato natural da base governista. Segundo, com a expectativa de assumir o poder daqui a três anos e alguns meses, será um vice-governador forte, e nada decorativo. Será uma voz do presente e do futuro — e os políticos entendem a linguagem ou liturgia do poder. Terceiro, o ex-deputado federal poderá usar a disputa para prefeito em 2024 como sinalização de quais alianças planeja para a eleição de 2026.

Vanderlan Cardoso e Izaura Cardoso: um deles deve disputar em Goiânia | Foto: Divulgação

Observe-se o quadro de Goiânia. No momento, só há um candidato natural, o prefeito Rogério Cruz. Há quem postule que, por ter o controle de uma máquina poderosa — a capital é um micro (ou médio) Estado, em termos de arrecadação e eleitorado (tem mais de 1 milhão de eleitores) —, o líder do Republicanos vai disputar a reeleição. Há outros que acreditam que ele não será candidato, sobretudo se não conseguir “destravar” as grandes obras do município. Porém, se conclui-las, pode acabar saindo consagrado — o que o levará a disputar o pleito. O meio político comenta que Rogério Cruz é um gestor responsável, mas precisa de uma assessoria mais proativa, principalmente no que se refere à agilização das obras.

Quem subestimar Rogério Cruz pode acabar perdendo a eleição… para Rogério Cruz. Falta ao prefeito comunicar-se — ele mesmo, sem intermediários — com as pessoas comuns. Precisa sair mais do Paço Municipal e dialogar não apenas com os segmentos organizados. Se passar uma semana num bairro, conversando com as pessoas, ouvindo-as com interesse real, poderá saber mais sobre Goiânia que ficando na sede da Prefeitura, examinando dados e escutando assessores. E a presença do gestor municipal no mundo virtual precisa ser mais ativa, empática e profissional.

Wilder Morais: o nome mais consistente do bolsonarismo | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A chave para a disputa eleitoral de 2024, ao menos em Goiânia, será o posicionamento do MDB. Primeiro, porque tem expectativa de poder em 2026. O próximo prefeito terá de governar, possivelmente, com Daniel Vilela como governador, entre 2026, 2027 e 2028. Segundo, porque o partido tem um nome forte para a disputa. Trata-se da empresária Ana Paula Rezende, filha de Iris Rezende.

Vale um alerta: Ana Paula Rezende deve ser vista como filha de Iris Rezende, pois se trata de um fato incontornável, mas, ao mesmo tempo, é uma maneira redutora de percebê-la. A jovem é inteligente, administra os negócios da família e entende de política (seu mestre foi “doutor” em política). Se candidata, terá o apoio do MDB, seu partido, e, portanto, de Daniel Vilela. Quer dizer, considerando o apoio da cúpula do partido, como o vice-governador, e somando o legado familiar — Iris Rezende é um ícone da política da capital e de Goiás —, é (será) uma “candidata” que surge com uma força poderosa.

Adriana Accorsi: a aposta do PT para a Prefeitura de Goiânia | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Há uma outra questão. O governador tem simpatia pelo prefeito Rogério Cruz, que o apoiou na disputa para o governo em 2022 — embora não tenha conseguido fazer seu partido participar da aliança de Ronaldo Caiado —, o que pode resultar em apoio. Porém, e isto é crucial, Ronaldo Caiado tem uma simpatia imensa por Ana Paula Rezende, derivada da simpatia que nutria por Iris Rezende.

Porém, a respeito de Ana Paula Rezende, fica sempre uma dúvida: planeja mesmo disputar a Prefeitura de Goiânia? A impressão que se tem é: há momentos em que quer ser candidata e há outros em que não quer. A indecisão dificulta a formação de alianças. E, sendo assim, outros vão colocando seus blocos na rua. Não para esperá-la por tempo indeterminado. Ela tem de começar a “jogar” agora.

Silvye Alves: capital eleitoral em Goiânia é dos mais altos | Foto: Facebook

Há uma opção a considerar, que, se levada em conta, poderá fortalecer a candidatura de Daniel Vilela para governador em 2026. O ex-ministro Alexandre Baldy (pP) — nascido em Goiânia há 42 anos — pode disputar a Prefeitura de Goiânia, em 2024? É possível. Se eleito, e se fizer uma administração eficiente, estará credenciado para a disputa do governo em 2030.

Com Ana Paula Rezende na vice, Alexandre Baldy se tornará um candidato altamente consistente, do ponto de vista eleitoral e “identificação” com Goiânia. E será uma chapa de jovens preparados, atentos e perspicazes.

Mas o MDB aceitaria a vice de Alexandre Baldy, tendo um nome sólido para a disputa? Não se sabe, e só o tempo dirá. O descortino do MDB, tanto de Ana Paula Rezende quanto de Daniel Vilela, poderia fortalecer seu candidato a governador em 2026. Neste sentido, 2024, por certo, já está “jogando” 2026.

Romário Policarpo, presidente da Câmara Municipal, e Rogério Cruz, prefeito de Goiânia: uma chapa para 2024? Não se pode subestimar quem controla máquina pública | Foto: Divulgação

Há outras alianças possíveis, é claro. Mas os fiéis das balanças são o governador Ronaldo Caiado, do alto de sua autoridade política por ter sido eleito e reeleito no primeiro turno e fazer um governo bem-sucedido, e Daniel Vilela, dada a expectativa futura de poder.

Não se pode, é claro, descartar a possibilidade de uma aliança eleitoral entre o União Brasil, de Ronaldo Caiado, e o MDB, de Daniel Vilela, na disputa pela Prefeitura de Goiânia. Políticos experimentados sugerem que Silvye Alves, do União Brasil, fique quatro anos na Câmara dos Deputados, entre 2023 e 2026, com o objetivo de ganhar experiência política e maturidade na articulação de alianças. O Congresso é uma notável escola de política.

Lula da Silva e Edward Madureira: eis uma alternativa do PT para a Prefeitura de Goiânia | Foto: Reprodução

Na eleição para deputado federal, Silvye Alves obteve 117.297 votos (15,69%) em Goiânia. Mas a jornalista deve atentar-se para um fato: a disputa para o Parlamento é muito diferente da disputa para cargos executivos. Os eleitores fazem uma distinção bem clara. Em 2014, Delegado Waldir Soares foi eleito deputado federal com 274.625 votos (9,06%) e, em 2016, disputou a Prefeitura de Goiânia e ficou em terceiro lugar, com apenas 10,48% dos votos. Silvye Alves conquistou, em todo o Estado, 254.653 votos (7,39%), ou seja, 20 mil a menos do que o parlamentar do União Brasil. É um dado relevante a respeito do qual a popular política de 42 anos deve refletir. Frise-se que não se está sugerindo que, ao fazer a reflexão, deva desistir de algum projeto. Afinal, ela tem capital eleitoral.

As oposições têm vários nomes para a disputa da Prefeitura em 2024 (além dos citados acima e abaixo, outros tendem a aparecer).

O PT tem dois nomes: Adriana Accorsi e Edward Madureira. A deputada federal eleita é a candidata natural. Mas há militantes do PT que avaliam que Edward Madureira deveria ser testado como candidato a prefeito de Goiânia. Ele foi reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG), com gestões bem avaliadas, e é primeiro suplente de deputado federal do partido. O doutor em Agronomia tende a participar do governo federal no Ministério da Educação ou de Ciência e Tecnologia.

Frise-se que Adriana Accorsi foi a quarta mais votada para deputada federal e Edward Madureira foi o quinto mais votado para deputado federal em Goiânia.

O PL tem dois nomes, o senador eleito Wilder Morais e sua primeira suplente, Izaura Cardoso, mulher de Vanderlan Cardoso.

O mais provável é que, se Izaura Cardoso quiser disputar — ela disse que quer a um grupo de empresários, em São Paulo, no Hotel Unique, no aniversário de uma filha de Marcelo Limírio Filho —, Wilder Morais saia do páreo.

Porém, e se Wilder quiser disputar o governo de Goiás em 2026? Izaura e Vanderlan Cardoso o apoiarão? Não se sabe. Em 2020, o governador Ronaldo Caiado apoiou a candidatura de Vanderlan Cardoso para prefeito de Goiânia e, em 2022, não foi apoiado pelo senador na disputa pelo governo do Estado.

Em 2026, o mais provável é que Vanderlan Cardoso dispute o governo de Goiás (plano a), ou então mandato de senador (plano b). Ressalve-se que o representante do bolsonarismo no Estado é Wilder Morais, e não o senador do PSD. Portanto, o senador recém-eleito poderá ser o candidato do bolsonarismo a governador.

Em suma, a eleição de 2024 está absolutamente conectada à de 2026. Aquele que entender isto vai tirar proveito político das (e nas) duas disputas.