Realismo de Caiado incomoda porque não cede ao populismo e ao marketing mesmerizante

No lugar de vender esperanças vãs, o governador de Goiás age de maneira moderna, representando todos os goianos, e não grupos de pressão

Filósofos do quilate dos britânicos Isaiah Berlin e John Gray sempre defenderam a ideia de que é possível um tipo de sociedade adequada — mais democrática e menos desigual socialmente — mas é praticamente impossível a construção de uma sociedade perfeita. Utopistas que pregaram a sociedade ideal e chegaram ao poder — gente do naipe dos totalitários Ióssip Stálin, Mao Tsé-tung e Adolf Hitler, que são hermanos até em suas diferenças — contribuíram, não para o avanço, e sim para uma regressão histórica. Gray frisa que a ideia de história progressiva-linear, sem recuos, é uma fantasia, para a “cristalização” da qual muito contribuiu o marxismo, inspirado pelo positivismo. Mas não é uma fantasia qualquer, e sim perigosa (o comunismo matou 100 milhões pessoas no século 20). O nazismo da Alemanha — que não é só de Hitler — é um retrocesso. Mas entre 1933 e 1939, anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), chegou a ser admirado mundialmente, inclusive nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Brasil (o presidente Getúlio Vargas e os generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra flertaram, abertamente, com as ideias totalitárias do italiano Benito Mussolini e do austríaco Hitler). O futuro, portanto, nem sempre será melhor do que o passado. É o recado, se é recado, de Berlin (sugere que o discurso utópico, em vez levar o mundo adiante, pode retomar a barbárie) e Gray.

Ronaldo Caiado: o governador não vende esperanças e só vai inaugurar obras que estejam concluídas e são de utilidade pública — o que prova estadismo | Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Mesmerização da esperança

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do DEM, é um liberal e tem uma formação intelectual refinada (especializou-se em ortopedia na França, a terra de Louis Pasteur, Flaubert, Proust e Charles de Gaulle). Por ser liberal, mais do que direitista, tem uma visão realista da sociedade. Sabe que é possível edificar uma sociedade melhor, mas, ante determinados problemas — que, a rigor, são históricos (como a pesada folha salarial do funcionalismo público — que inviabiliza investimentos com recursos do próprio Estado) —, é preciso cuidar da construção da sociedade possível. Uma de suas vantagens como político é que não adere ao populismo em hipótese alguma, mesmo sob pressão de aliados políticos e, até, de auxiliares. Preocupa-se mais em dizer a verdade do que em vender esperanças, que, mesmo quando não são inteiramente falsas, beiram ao ilusório.

O realismo de Ronaldo Caiado incomoda, porque o marketing político aprendeu a comercializar a “arte” da mesmerização. Quando diz que uma obra só deve ser inaugurada e comemorada quando estiver realmente pronta e sendo de utilidade pública, o que resulta tanto de uma visão de Estado quanto de política, choca inclusive aliados, que gostariam de certa pirotecnia popular, para ganhar aplausos e, mais tarde, votos. O que os adeptos do populismo — que parece incrustado na mente até dos que se dizem não populistas — não percebem é que os brasileiros, os goianos incluídos, rejeitam, cada vez mais, os autores de promessas vãs, de obras que custam caro e dão poucos resultados. Portanto, a decisão de Caiado, a de inaugurar só o que estiver funcionando, mostra que é um gestor, de fato, moderno. Mais moderno não só no papel, e sim também na prática, no dia a dia. Mostra respeito aos cidadãos e aos recursos do Erário.

Governar para todos

Há um consenso, até entre adversários, de que Ronaldo Caiado é um político decente e bem-intencionado. Mas é visto também como pertencente a um nicho da sociedade — o do agronegócio, ou melhor, o dos produtores rurais. No governo, porém, está se comportando como o político cuja gestão defende todos — a sociedade, e não grupos de interesse e pressão. Embora seja liberal, não hesitou na questão dos incentivos fiscais. Na verdade, não quer prejudicar os empresários — pelo contrário, é um dos apóstolos da iniciativa privada —, mas entende que, como representante da sociedade, precisa amealhar mais recursos para investir em benefício de todos, não apenas de grupos. Lá na frente, quando os conflitos assentarem, possivelmente será enaltecido até pelos empresários beneficiados pelos incentivos. Na questão do uso de água nas lavouras irrigadas, mais uma vez o governo decidiu pela sociedade — sugerindo economia com os recursos naturais que devem beneficiar a todos, não a grupos específicos. Em suma, Ronaldo Caiado trabalha para melhorar Goiás para o conjunto dos goianos, isto é, para a sociedade. Há, então, uma visão de Estado, de estadista e reconhecer isto é uma questão de decência pessoal.

As medidas de contenção do governo de Ronaldo Caiado não são contra nenhum indivíduo, grupo ou estrutura em si. Na verdade, sua política de contenção, de enxugamento da estrutura do Estado, visa proteger todos os goianos. No momento, a folha do funcionalismo consome cerca de 80% de toda a arrecadação do governo de Goiás, e acrescentando o pagamento da dívida (que está sendo suspensa) e o custeio da máquina, nada sobra para investimentos (daí a necessidade de empréstimos — o que contribui para a ampliação do endividamento). Os servidores somam pouco mais de 150 mil pessoas e os goianos são 6,9 milhões. Assim, é preciso inverter a lógica: os recursos amealhados pelo governo devem favorecer a maioria, e não apenas a minoria. Não se está defendendo demissão em massa, e não apenas porque o país ainda está sob recessão — e praticamente não há novos empregos —, e sim admitindo que é preciso fazer alguma coisa, em benefício de todos os goianos. Ronaldo Caiado está enxugando a máquina, dentro do possível, e em 2022, o próximo governador, qualquer que seja, receberá um Estado em melhores condições.

Crime organizado

Rodney Miranda, secretário de Segurança Pública: quebrando a espinha do crime organizado em Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O crime organizado se tornou um Estado paralelo e, como tal, nacionalizou-se. O Primeiro Comando da Capital (PCC) — que breve tenderá a mudar o nome para Primeiro Comando do Brasil —, o Comando Vermelho (CV) e a facção Irmãos do Norte estão se espalhando por todo o Brasil e, como Goiás não é uma ilha, instalou-se no Estado. O ex-secretário de Segurança Pública Irapuan Costa Junior iniciou um combate sistemático e planejado ao crime organizado. O secretário de Segurança, Rodney Miranda, deu continuidade e acrescentou outras ideias. Começa-se por um trabalho de Inteligência de primeira linha, com policiais civis e militares altamente especializados, que, aos poucos, estão desbaratando as células do PCC e do CV no Estado. Fontes policiais sustentam que a espinha dorsal dos grupos dominantes foi quebrada. Goiás não é o local adequado para a ação de traficantes de drogas e articuladores do roubo de cargas. No caso, não se pode postular que o problema está resolvido em definitivo, porque não está. Mas o governo de Goiás está fazendo o trabalho certo — que é tanto mapear quanto desmantelar as estruturas milionários dos criminosos, que estão se tornando empresários, ao estilo da máfia ítalo-americana. O que se está evitando, de maneira competente, é o enraizamento das várias facções em Goiânia e no interior. Mas claro que nichos vão resistir e, por isso, o combate deve ser permanente e atento. Rodney Miranda, egresso da Polícia Federal, é discreto, mas altamente eficiente.

UEG e qualidade

O governo de São Paulo patrocina a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Campinas (Unicamp), duas das melhores do país e entre as melhores do mundo. Frise-se que São Paulo, com 32,2 do PIB nacional, tem um PIB superior ao de vários países da América Latina. Se fosse um país, seria o 36º mais rico do mundo. Mesmo assim, o governo contingencia recursos para as duas universidades. A Universidade Estadual de Goiás é uma conquista dos goianos, que contou com o apoio dos governos tucanos. A UEG, em si, é um grande acerto. O advérbio “grande” não excede, apenas constata um fato. O equívoco é a expansão desmedida, sem planejamento técnico e não levando em conta as necessidades reais dos municípios e o custo para manter as unidades. O que leva à conclusão de que sua expansão resulta de decisão mais política do que educacional (sublinhe-se que a Universidade Federal de Goiás, estruturada há mais tempo, manteve campus em Catalão e Jataí). Não controlar o custo da UEG significa, a médio ou a longo prazo, inviabilizá-la. A rigor, os ajustes do governo de Caiado, apesar da grita da oposição — que, sim, está fazendo política, o que é natural —, não prejudicam a universidade; na verdade, garante a sua sustentação e credibilidade. A UEG, daqui pra frente, deve crescer mais em qualidade — e há pesquisadores respeitadíssimos em suas unidades — do que em quantidade. O que se espera é, doravante, o salto de qualidade.

Os políticos que gravitam em torno de Ronaldo Caiado temem que o fato de o líder do DEM se comportar mais como gestor do que como político atrapalhe seus planos eleitorais para 2020 e 2022. É uma visão simplista e tacanha da política. Na verdade, o governador está fazendo política por meio da administração. Quer dizer: ajustando o Estado, para possibilitar que cresça de maneira sustentada daqui para frente, o democrata está fazendo a grande política.

Enganam-se aqueles que pensam que, por se concentrar mais na administração, Ronaldo Caiado está deixando a política de lado. Não está. Tanto que está aprovando seus projetos na Assembleia Legislativa com relativa facilidade. O termo a reter é “relativa”. Porque, como democrata em ação — e não só nas palavras —, Ronaldo Caiado negocia, de maneira republicana (o máximo possível), com os deputados estaduais. Articulações democráticas, com os chamados pesos e contrapesos, são mesmo mais demoradas. Podem sugerir, à primeira vista, fraqueza; na verdade, comprova a vitalidade da democracia em Goiás. Os jogos das pressões estão nos limites da democracia, quer dizer, são inteiramente democráticos. A base de sustentação do governo de Goiás está sendo ampliada. Mas, insistamos, toda base republicana é mais complexa e precisa ser trabalhada. Ademais, Ronaldo Caiado começa a atrair novos grupos políticos para o seu lado.

É possível fazer uma ressalva: é vital “despilhar” aqueles auxiliares do governador que, de olho no retrovisor, não percebem que Ronaldo Caiado está com o pé firme no presente, com o objetivo de construir um futuro melhor para todos os goianos. Cada vez mais, olha-se menos para o passado — que deve ficar ao cuidado do Ministério Público e da Justiça, no caso de governantes anteriores terem cometido irregularidades — e o governador, político de olhar agudo, está de olho nos que realmente produzem ou usam o passado para camuflar possíveis falhas ou dificuldades de gerir a máquina.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.