Próximo prefeito de Goiânia será o político que pensar mais no indivíduo do que em obras

O pedestre é um ser invisível. Cruzamentos mal feitos e mal sinalizados facilitam atropelamentos. Não se pensa numa olimpíada de matemática com o Impa

De longe, com baixa percepção, percebe-se Brasília como uma obra física — uma ode ao cimento no coração do Cerrado, região onde o Céu parece fundir-se à Terra, com seu azulão tão longínquo quanto próximo. De perto, ampliando a percepção, entende-se que é uma ideia e, ao mesmo tempo, um símbolo. O presidente Juscelino Kubitschek, ao construir uma nova capital, utilizou-se do concreto para sugerir ao país: o governo está agindo para descentralizar o crescimento e, concomitantemente, o desenvolvimento — antes circunscrito, em larga medida, a determinados Estados, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Brasília, além da intervenção na realidade — ao puxar o desenvolvimento para o Centro-Oeste e o Norte —, caracteriza-se pelo símbolo de que finalmente tinha-se um presidente que pensava de maneira prática na integração do país. Na união de suas pontas. A nova capital era um elemento integrador. Há também o caráter estético, pois Brasília é reconhecida, internacionalmente, como uma bela cidade. Alguns de seus edifícios, sobretudo os construídos no período inicial, são locais de se trabalhar e conviver, mas também são esculturas. Quer dizer, há uma integração entre o útil e a arte. Pode-se sugerir que Brasília é uma ode à arte, com o concreto subordinando-se ao belo, à criação do indivíduo.

Goiânia é, de alguma maneira, a mãe de Brasília, pois a construção patrocinada pelo interventor-governador Pedro Ludovico Teixeira incentivou Juscelino Kubitschek a pensar na capital federal. Quando Brasília foi inaugurada, em 1960, a capital goiana tinha apenas 27 anos, e ainda nem era balzaquiana.

A capital dos goianos é uma cidade plana e bonita. As construções da Praça Cívica e algumas do Centro, como o Teatro Goiânia, podem ser admiradas pela beleza e harmonia. Durante a semana, o Centro é lotado de pessoas e veículos, dificultando a observação dos edifícios; portanto, se tiver tempo, visite-o no domingo e verá talvez o mais esplêndido bairro da cidade. Sim, a arquitetura não é tão magnífica quanto a de Brasília, que se beneficiou, por ter sido construída mais tarde, de experiências novas e criativas de determinados arquitetos — como Lucio Costa e Oscar Niemeyer —, mas não deixa de ter caráter e identidade.

Juscelino Kubitschek, que foi cassado pela ditadura civil-militar quando era senador por Goiás, não pensou tão-somente nas obras e no embelezamento. Ele pensou nos indivíduos, em melhorar sua vida, em integrar os brasileiros, de Norte a Sul. Dizia-se que o presidente tinha um olhar clínico para as pessoas, procurando ouvi-las com atenção e desdobrando aquilo que escutava em coisas práticas.

Dada a dimensão geográfica do Brasil, com vazios demográficos em determinadas regiões (o Japão, pouco maior do que Goiás, tem uma população de quase 130 milhões de habitantes e o Estado patropi tem 6,9 milhões), seus políticos avaliam que é preciso construir obras físicas, quanto mais faraônicas mais notadas, mencionadas e, claro, dispendiosas para o Erário e para o contribuinte. Veja-se a rodovia Transamazônica — um erro de dimensões amazônicas do governo do presidente Emilio Garrastazu Médici. Não se vai dizer a seguir que obras, até grandes obras, são desnecessárias. O Hugol, o Crer, maternidades e o Centro de Convenções são úteis para a sociedade.

O indivíduo e o cidadão

Daqui a um ano e 19 dias, Goiânia terá eleição para prefeito. Como o goianiense escolherá seu próximo administrador? Pode manter Iris Rezende? Se não surgir nenhum político com uma proposta que caia nas graças da maioria dos eleitores, o prefeito tem chance de ser reeleito — se é que vai disputar (comenta-se que pode bancar Maguito Vilela).

Quando o eleitor vota em Iris Rezende, político tradicional, que foi prefeito da capital pela primeira vez há mais de 50 anos, sabe que está escolhendo um político cuja paixão é construir obras, como viadutos, trincheiras e pavimentação asfáltica em bairros. É um modelo de administração, com a qual os goianienses estão acostumados, e em geral aprovam. Neste campo, o das obras, é difícil superar o veterano emedebista. Portanto, o adversário que optar por enfrentá-lo nesta seara, e mesmo criticando-o por ser obreirista, pode, não ganhar, e sim perder eleitores, votos.

Os eleitores goianienses conhecem o método de Iris Rezende: nos dois primeiros anos ajusta a máquina e faz caixa. Nos dois últimos anos, começa a fazer obras, como pavimentação e viadutos-trincheiras (e está concluindo a Casa de Vidro, um centro cultural nas proximidades do shopping Flamboyant). O Método Iris, com M maiúsculo no início da palavra método, tem funcionado. Tanto que, nos últimos 20 anos, ele foi eleito prefeito de Goiânia três vezes, e sempre bem votado. E, se for candidato pela quarta vez, em 2020, surgirá como um dos favoritos.

Se não é possível superar Iris Rezende no seu campo, o das obras — do obreirismo (palavra que, em si, contém a palavra irismo) —, há as áreas que têm sido negligenciadas ao longo do tempo. Porque não são o foco do emedebismo na capital.

O candidato que quiser se distinguir de Iris Rezende deve priorizar o indivíduo em algumas áreas, como saúde, educação, qualificação de mão de obra, trânsito (e transporte coletivo) e segurança pública.

Sesi e Senac fazem um trabalho de qualificação profissional irretocável. Como se sabe, algumas profissões estão em extinção, e formar pessoas na área é contribuir para gerar desemprego, e um desemprego qualificado. Portanto, a Prefeitura de Goiânia pode atuar nos bairros mais pobres, tendo ao lado a parceria construtiva do Sesi-Senac, com o objetivo de qualificar pessoas para o novo mercado. Há também profissões mais antigas, como de encanador e eletricista, que, se mais bem qualificadas, podem robustecer o mercado para determinado número de trabalhadores. Engenheiros podem ficar com trabalhos mais sofisticados, mas encanadores e eletricistas podem ficar com trabalhos básicos, de ampla utilidade no dia a dia. Mesmo a modernização da economia não extinguirá a profissão de encanadores e eletricistas, assim como de jardineiros que saibam distinguir diferenças entre as plantas de que está cuidando.

Hoje, coloca-se o asfalto na porta da pessoa, na periferia — o que é importante. Porque tem a ver com conforto, saúde e valorização. Mas logo, por não ter condições de se manter no bairro — até o IPTU fica mais alto —, é empurrada para um bairro mais distante ou para uma cidade próxima, que, na prática, se tornou periferia de Goiânia. Se qualificado, sua renda poderá ser mantida e ele poderá continuar morando no bairro que conquistou benfeitorias.

O próximo prefeito — ou os candidatos a prefeito — precisa ter um olhar clínico, que saiba distinguir os indivíduos das massas, para entender o que eles de fato estão precisando. Recentemente, uma reportagem do Jornal Opção mostrou que o Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia começa a receber, em grande quantidade, pessoas que moram em Goiânia. Antes, era o oposto. O que quer o goianiense que não tem plano de saúde? Quer ser atendido, medicado e voltar para casa confiante de que está bem ou vai melhorar. Hoje, o atendimento é precário, até por falta de médicos, e não há, eventualmente, medicamentos básicos. Uma política de saúde precisa ter o olhar mais atento para o indivíduo — que precisa ser tratado pela prefeitura e pelos profissionais de saúde com o respeito que merece. Não é, a rigor, a Imprensa que fala mal do setor de saúde da capital. É o indivíduo na sua casa, no seu bairro, no ônibus, no estádio e, sim, nos postos de saúde.

Aquele político que tiver um projeto para a saúde, mas um projeto crível, que as pessoas saibam que poderá ser colocado em prática, se distinguirá de Iris Rezende. Não se tornará o anti-Iris, necessariamente, e sim o pró-indivíduo.

Segurança pública, todos sabem, é responsabilidade do Estado. Legalmente, é. Mas observe, leitor, que a Prefeitura de Goiânia tem uma guarda municipal, que, se mais bem aproveitada, pode contribuir para ampliar a segurança pública da capital. Não só. Em cidades do interior, os prefeitos cooperam, de maneira ampla, com a segurança de seus cidadãos, amparando o Estado. Os “Estados criminosos”, como o Primeiro Comando da Capital (que prestes vai mudar o nome para Primeiro Comando do Brasil), PCC, e o Comando Vermelho, CV, estão atuando em Goiânia e em algumas cidades do interior. Todas as polícias, irmanadas com as guardas municipais — Goiânia e Aparecida de Goiânia têm as suas, inclusive armadas —, têm de se unir, de maneira articulada, com um serviço de Inteligência sincronizado, para combater o crime cada vez mais organizado. O próximo prefeito, queira ou não, terá de pensar na questão. Note-se que o deputado federal Delegado Waldir Soares (PSL) sustenta que o Centro de Goiânia já é controlado, à noite, pelo Comando Vermelho — rei do tráfico de drogas na região.

Os pedestres são uma espécie de fantasmas em Goiânia. Na verdade, são até vistos, mas fica-se com a impressão de que são invisíveis. Muitas faixas para pedestres estão apagadas, mal sinalizadas — não há nem as palavras “Respeite o pedestre”. Os semáforos priorizam os motoristas, alguns cruzamentos, no caso de o pedestre não ser um velocista, são complicados para ser atravessados a pé. A prefeitura precisa adotar uma política de proteção aos pedestres — que nem parecem cidadãos (na prática, são cidadãos do andar de baixo). Os velhos e as crianças são os que mais sofrem em determinadas áreas — correndo riscos de serem atropelados. Os semáforos que marcam o tempo são um avanço. Mas é preciso pensar em facilitar a vida dos pedestres, não apenas a dos motoristas.

Não se deve pensar em pirotecnia para a educação, mas é preciso modernizar as práticas educacionais. Em parceira com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), a prefeitura, aliando a escolas partidárias, poderia promover as Olimpíadas de Matemática de Goiânia. Aos poucos, se o projeto for levado a sério, Goiás começará a ter seus gênios da matemática. O mesmo poderia ser feito com a Língua Portuguesa.

Sobre a questão do asfalto, que parece um trabalho de Sísifo, vale conhecer um projeto do Departamento de Engenharia e Transportes da Universidade de São Paulo para melhorar a pavimentação rodoviária do Brasil. De concreto e aço, a pavimentação poderá durar ao menos 60 anos, e sem necessidade de manutenção. O custo sai alto no início, mas, a longo prazo, o setor público, assim como as pessoas, será beneficiado — porque a restauração asfáltica recorrente sai muito cara para o Erário. O professor José Tadeu Balbo, da USP, é um dos desenvolvedores do projeto.

Goiânia é uma cidade bela, mas será mais bela quando o gestor tiver um olho para o indivíduo — que, na prática, é o anteprojeto de cidadão. O político que deve ser eleito em 2020 certamente será aquele que conseguir convencer o indivíduo de que, na sua gestão, também se tornará cidadão. O que se precisa é de um Juscelino Kubitschek modernizado, não o da década de 1950, para que Goiânia seja uma cidade mais igual — integrada — para todos.

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