Por que Iris Rezende não terá o apoio de Ronaldo Caiado para disputar a reeleição

Se o prefeito for derrotado sairá da política, mas o desgaste ficará para o governador. E, em 2022, o emedebista deve bancar Daniel Vilela

O prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), articula para ser visto como uma “incógnita”, um político imprevisível. Mas os demais políticos já o decifraram. Portanto, quando afirma que não será candidato, todos apostam que será e acabam acertando. Em 2020, ano em que completará 87 anos — e estará a 13 de fazer 100 anos de idade —, o emedebista poderá disputar sua quinta eleição para prefeito da capital de Goiás — quatro delas no século 21. Sabe-se que a família se reuniu e concluiu que ele deverá fazer o que quiser, ou seja, aquilo de que gosta mais: política e gerir a máquina pública. Noutras palavras, o alcaide pode até não disputar, mas quer, sim, ser candidato à reeleição e tem o beneplácito familiar.

Iris Rezende (PMDB), Ronaldo Caiado (DEM) e Daniel Vilela: o primeiro deve apoiar o terceiro para governador em 2022, o que tende a impedir o apoio do segundo ao primeiro para prefeito de Goiânia | Fotos: Jornal Opção

Pesquisas sugerem que Maguito Vilela é o nome mais forte do MDB para prefeito de Goiânia. Mas o ex-governador, por uma questão de lealdade, já avisou que, se Iris Rezende for candidato, vai apoiá-lo. Se quisesse disputar, o PP de Vanderlan Cardoso lhe abriria as portas. Há um consenso, até entre aliados de mente mais arejada, que Iris Rezende, como gestor, está mal. Não cuida da cidade, que está encardida e suja, mantém na Secretaria de Saúde uma pessoa que pode até ser boa médica, mas não entende de saúde pública, há obras abandonadas e, mesmo assim, anuncia que vai construir obras de maior visibilidade — o que sugere que pretende disputar a reeleição.

O problema de Iris Rezende não é, a rigor, a idade. Mas sim o fato de que está profundamente desconectado das necessidades reais dos atuais goianienses. O prefeito caminha numa direção, como obreiro, e a sociedade está noutro passo — mais avançado e diversificado. A sociedade é pluridimensional. Iris Rezende é unidimensional. Na eleição de 2018, o irismo e o caiadismo comemoraram o esgotamento do ciclo político do ex-governador Marconi Perillo — que durou 16 anos ou, se incluído o período do ex-governador Alcides “Cidinho” Rodrigues, 20 anos. Trata-se de um longo ciclo. Mas emedebistas esquecem, propositadamente, que o ciclo de Iris Rezende será de 16 anos, em 2020, ou 20 anos — se for contabilizada a gestão de Paulo Garcia, petista que foi bancado pelo decano da política de Goiás.

Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso: o primeiro vai apoiar a reeleição de Iris Rezende, mas, se quisesse, teria o apoio de Vanderlan Cardoso para disputar a Prefeitura de Goiânia… pelo PP | Fotos: Jornal Opção

Se reeleito em 2020, Iris Rezende terá completado, em 2024, vinte anos de poder — ou 24 anos, se contado o período de Paulo Garcia. O “esgotamento” do veterano emedebista, portanto, terá a ver menos com sua idade, como se disse acima, e muito mais com a longevidade no poder, que acabou levando à inação e à acomodação. A prática do prefeito lembra as do período da República Velha. Ele busca economizar nos dois primeiros anos, abandonando a cidade ao deus-dará, e, nos dois últimos anos, começa um rush de obras. A tese é prosaica: o eleitor esquece os dois primeiros anos e só se lembra dos dois últimos. Trata-se, na verdade, de um jogo arriscado. Porque os eleitores estão mais bem informados e a internet, com sua fartura de informações, os mantém atentos e conectados aos fatos do passado e do presente. A internet permite — a um simples toque — a recuperação do passado como não se tinha antes. Talvez por não ser afeito à tecnologia moderna, o prefeito não tenha a percepção adequada do que pode lhe acontecer em 2020: o eleitor pode transformá-lo no Marconi Perillo do emedebismo. “Marconi sou eu” — poderá dizer, quem sabe, daqui a menos de dois anos.

Ronaldo Caiado é um realista

Em 2018, na disputa para o governo, Iris Rezende liberou alguns de seus aliados, como Lívio Luciano (e até Iris Araújo, sua mulher, na “prorrogação”), para apoiar Ronaldo Caiado. Mas ele próprio subiu no palanque do candidato do MDB ao governo de Goiás, Daniel Vilela. O fato de não ter apoiado o postulante do DEM, ao menos não diretamente, permitirá que, em 2020, Ronaldo Caiado não apoie sua reeleição. Tanto que o governador está articulando o ex-senador Wilder Morais, o deputado federal e médico Zacharias Calil ou o presidente do Ipasgo, Silvio Fernandes, para a disputa. O que estiver melhor ranqueado nas pesquisas de intenção de voto será o candidato. Wilder Moraes largou na frente, mas Zacharias Calil é o político do partido mais bem avaliado em Goiânia.

Wilder Morais e Ronaldo Caiado: o ex-senador pode ser o candidato do governador na disputa pela Prefeitura de Goiânia | Foto: Reprodução

Iristas sonham que Ronaldo Caiado vai bancar um vice para Iris Rezende — possivelmente Wilder Morais (o preferido do prefeito, dizem, é Silvio Fernandes, que foi seu auxiliar). Por que o governador faria isto? Por que são amigos? De fato, são amigos e se respeitam. Mas política é um jogo que supera os laços de amizade — tanto que Iris Rezende não apoiou Ronaldo Caiado para governador. Mas a questão chave é outra.

Por que Ronaldo Caiado, um político perspicaz, apoiaria um político cujo ciclo está amplamente esgotado? O apoio seria um erro tático-estratégico. Uma derrota de Iris Rezende, em fim de carreira, seria debitada, largamente, ao governador. O desgaste do prefeito seria rapidamente esquecido e seria realçado o desgaste do governador. A derrota acabaria se tornando mais sua do que do prefeito. O governador é um político inteligente e não vai aceitar uma derrota que não é sua.

O general Golbery do Couto e Silva, principal articulador da Abertura política iniciada no governo do presidente Ernesto Geisel — o general que “matou” a ditadura —, dizia que, no “bojo de uma derrota sempre se terá outra derrota”. Portanto, se Iris Rezende for derrotado, com Ronaldo Caiado em seu palanque, a tendência é ocorrer o seguinte: o prefeito será esquecido, porque sua carreira terá sido encerrada, mas o governador terá de assimilar a perda. Noutras palavras, dali a dois anos, possivelmente disputará a reeleição, mas com o “fantasma” de Iris Rezende — quer dizer, de uma derrota — ao seu lado.

Em suma, Iris Rezende, se conquistar o apoio de Ronaldo Caiado para a disputa em 2020, estará inserindo o governador em seu ciclo político — o da decadência. Será que o principal líder do Democratas em Goiás cairá na “armadilha” do veterano emedebista? O mais certo é que não.

Ronaldo Caiado está no início de um novo ciclo e, por isso, precisa de aliados que não estejam em fim de ciclo político e não contaminem a sua história. Em 2020, quanto mais longe de Iris Rezende, mais próximo estará dos eleitores. Wilder Morais ou Zacharias Calil podem até não ganhar, mas representam um ciclo novo e apostas do DEM para o futuro.

Há outro aspecto que deve ser levado em consideração: se for reeleito, Iris Rezende possivelmente subirá, pela segunda vez, no palanque de Daniel Vilela para governador, em 2022. Ronaldo Caiado vai apoiar um político para, daqui a três anos e alguns meses, ele subir no palanque de seu adversário?

Este Editorial examinou a política do ponto de vista lógico. Mas a política, como o coração, tem razões que a própria razão desconhece. Se prevalecer a lógica, o quadro descrito acima pode-se tratar de um retrato — quem sabe preciso — da realidade.

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