Polícia Militar do Brasil parece perceber em todo pobre e negro um criminoso em potencial

Empoderada pelo desejo de segurança da sociedade, a Polícia Militar do país está sem controle, matando bandidos e espancando cidadãos que não são criminosos

Há uma paranoia por segurança no Brasil, tanto que os condomínios horizontais, cercados por muros cada vez mais altos, proliferam nas cercanias das grandes e, agora, das médias cidades do país. A sociedade cobra que a Polícia Militar seja dura e, daí, “castigadora” — funcionando como polícia, Ministério Público e Justiça. Quanto mais agressivos mais louvados são os militares.

O resultado é que, de fato, a Polícia Militar, e não se está falando de nenhum Estado específico, começa “castigando” criminosos, com o apoio da sociedade, ou de parte da sociedade. Num país gigante, com cada Estado funcionando como uma nação à parte, há um clamor para que o governador “X” expulse os “bandidos” de sua região. Se a ação é enérgica, os criminosos “correm” para outros Estados, onde, se o governador “Z” supostamente for mais “leniente”, é menos complicado assaltar e traficar.

Policial militar (branco) pisa no pescoço de uma mulher (negra)| Foto: Reprodução

Empoderados pela sociedade, e não necessariamente pelas leis, há policiais militares, sobretudo no relacionamento com pessoas pobres — os negros são as primeiras vítimas —, que se tornaram deuses e avaliam que podem decidir sobre a vida e a morte dos indivíduos. Espancam e matam com extrema facilidade.

Recentemente, em São Paulo, um policial espancava um homem, que desfaleceu, mas continuou apanhando. Uma mulher — negra — mostrou coragem de cidadã e pediu para o deus das ruas parar de agredir a pessoa. Outro policial, sem nenhum motivo — a mulher não estava agredindo ninguém, nem com palavras —, começou a espancá-la. Ela caiu e fraturou a tíbia. Em seguida, o policial pisou no seu pescoço. “Quanto mais eu me debatia, mais ele apertava a botina [coturno] no meu pescoço”, relatou. A mulher, uma comerciante de 51 anos, desmaiou quatro vezes, mas a violência não cessou. Mesmo muito machucada, foi algemada.

A desfaçatez dos militares é tal que um deles disse que o grupo foi atacado com uma barra de ferro. Homens fortes como eles, que dominaram facilmente o homem e a mulher, precisavam, para tomar uma barra de ferro, torturar os dois cidadãos? Claro que não.

O governador de São Paulo, João Doria, informa que os “policiais militares que agrediram uma mulher em Parelheiros, na capital de São Paulo, já foram afastados e responderão a inquérito”. O gestor estadual omite que os PMs também agrediram um homem.

Os americanos sabem o nome do policial que matou o negro George Floyd. Trata-se do branco Derek Chauvin, possivelmente racista (até o sobrenome lembra chauvinismo). Os nomes dos policiais omissos, que se tornaram cúmplices, também foram divulgados. Mais: foram demitidos. No Brasil, se a sociedade não ficar vigilante, os agressores de São Paulo logo estarão nas ruas — agredindo outros cidadãos, provavelmente negros. João Doria e a Polícia Militar fariam um bem enorme se divulgassem os nomes dos policiais e o histórico deles. Os quartéis, onde costumam ficar detidos, são verdadeiros jardins de infância.

PMs agridem motoboy com carteira vencida

Policiais militares agridem motoboy; um deles o asfixia| Foto: Reprodução

A Polícia Militar de São Paulo é tida como uma das mais violentas do país. Fica-se com a impressão que se tornou uma espécie de James Bond da grosseria — com liberdade total para agredir e, até, matar.  Há governantes — supostamente ganham eleitores — que incentivam uma PM fora de controle, desrespeitando a lei e as regras comezinhas de educação e respeito social. Daí que a violência se torna método — não exceção.

Em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, na terça-feira, 14, dois policiais militares deram uma gravata num entregador. O motoboy advertiu: “Não consigo, não consigo respirar”. Depois, um dos policiais é visto deitado em cima do motoboy. Motivo para a agressão: a carteira de motorista do jovem estava vencida. Talvez por receio de perder a moto, seu ganha-pão, ele resistiu. Mas, para ser contido, era mesmo preciso tanta violência? Claro que não.

Ficou célebre o dito do político que resistiu ao AI-5 — um golpe dentro do golpe, radicalizando-o — de que o perigo não era o general, e sim o guarda da esquina. De fato, a ditadura acabou em 1985, com a eleição de Tancredo Neves para presidente, com José Sarney na vice. Mas uma espécie de ditadura permanece incrustava no cérebro de policiais militares — que, como se disse acima, se acham policiais, promotores de justiça e juízes. Urge “reeducar” a PM, torná-la serva da lei. Senão os cidadãos — e não apenas os “bandidos” — continuarão sofrendo e morrendo em suas mãos. Os pobres são os que mais sofrem durante as ações dos policiais-carrascos. Entre os pobres, os mais massacrados são homens e mulheres negros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.