Pesquisas qualitativas sugerem que Caiado é o nome para evitar recuo histórico em Goiás

Pesquisador diz que oposição não ganha eleição, quem perde é governo. “Governo bom não perde eleição.” O governador é bem avaliado pelos eleitores

O filósofo britânico John Gray sugere que a história às vezes recua. Depois da República de Weimar, na Alemanha, se poderia imaginar que surgiria, de maneira hegemônica, o nazismo de Adolf Hitler, o cabo austríaco? A Rússia, em fevereiro de 1917, chegou a iniciar um processo democrático, no governo de Kerenski, mas acabou “cedendo” ao leninismo e, depois, ao stalinismo — quer dizer, ao totalitarismo.

O avanço tecnológico, porque é incontornável, sugere que o avanço da sociedade é global. Mas não é bem assim, como indica a prevalência do nazismo na Alemanha de Goethe e Heine por 12 anos, entre 1933 e 1945. Frise-se que o nazismo não foi derrotado por alemães, que apoiavam Hitler com fervor, e sim pelo maior poderio dos Aliados — que incluíram britânicos, poloneses, americanos, franceses, australianos, canadenses e brasileiros. O livro “Apoiando Hitler — Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista” (Record, 517 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), do ex-professor de Oxford Robert Gellately, mostra que a sociedade alemã apoiou o ditador, inclusive sua política genocida contra os judeus. É provável que o nazismo não retorne ao poder na Alemanha? Sim, é. Mas há forças neonazistas operando no país e perseguindo imigrantes e negros.

Ióssif Stálin, georgiano, e Adolf Hitler, austríaco, que chegaram a ser aliados entre 1939 e 1941: recuos históricos na Rússia e na Alemanha | Fotos: Reproduções

A União Democrática Nacional tinha como lema a frase “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Embora fosse golpista, a UDN, no caso, tinha razão: a sociedade tem de ficar vigilante na defesa da democracia — a garantia de liberdade — e a Alemanha, ao menos neste momento, é atenta à necessidade de defender sua democracia. A extrema-direita é ativa no país. A deputada Beatrix von Storch (neta de um ministro de Hitler), do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha), esteve no Brasil, recentemente, e tirou fotografia abraçada ao presidente Jair Bolsonaro (que parece não perceber o tanto que isto o deixa ainda mais como pária no contexto mundial). Mas o governo germânico mantém vigilância sobre suas ações. Hitler chegou a ser preso, em 1923, quando tentou dar um golpe de Estado. O putsch da cervejaria de Munique deu errado e o líder nazista foi preso. Na prisão, escreveu o livro “Minha Luta”, que era o receituário para o que faria se chegasse ao poder. Mesmo tendo lido o livro, parte dos políticos abriu espaço para Hitler chegar ao poder, democraticamente, em 1933. Imediatamente, começou a perseguir socialdemocratas e comunistas — aqueles que discordavam de seu projeto totalitário — e, em seguida, a matá-los, até chegar ao Holocausto, que vitimou 6 milhões de judeus. Ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová também foram assassinados nos campos de extermínio, como Auschwitz-Birkenau e Treblinka.

Goethe: o Shakespeare da Alemanha, um marco civilizatório | Imagem: Reprodução

Pode-se dizer que a Alemanha dos compositores Bach e Beethoven e dos filósofos Kant e Hegel entregou o poder de mão-beijada para Hitler. Não houve luta. O poder lhe foi concedido pela elite política alemã. O nazista era “esperado”, inevitável? Não. Tanto que, em 1923, foi preso na Baviera. Poderia ter sido contido se líderes políticos do país tivessem lido, a sério, “Minha Luta”. O inglês Winston Churchill leu com atenção e, por isso, sabia que o nazista não podia ser parado por nenhuma enganadora política de apaziguamento, como postulou o primeiro-ministro da Inglaterra, Neville Chamberlain. A única coisa que podia parar o cruel ditador era uma guerra letal. E assim foi, quando Churchill se tornou primeiro-ministro.

Debacle do PSDB e cavalo de Troia no MDB

Em Goiás, a partir de 2022, há perigo de recuo histórico? É provável que não. Antes de avançar a análise, façamos uma ressalva.

Nem tudo, durante seu reinado de 20 anos — um ciclo político de quase um quarto de século —, que o governo tucano fez foi ruim. O Hugol, um hospital de urgência, e o Crer, um centro de reabilitação e readaptação, a Universidade Estadual de Goiás (UEG), o Renda Cidadã e a Bolsa Universitária são importantes. Mas frise-se: foram 20 anos e cinco governos.

Em 2018, considerando o desgaste dos governos do chamado Tempo Novo — que havia “envelhecido” em termos de pessoas, ideias e práticas políticas e morais —, os eleitores decidiram dizer “basta!”. O PSDB, o então partido no poder, não elegeu o governador, nenhum senador, apenas um deputado federal (Célio Silveira) e uma bancada raquítica de seis deputados estaduais (hoje, rigorosamente, só pode contar com três deles — Helio de Sousa, Lêda Borges e Gustavo Sebba; Tião Caroço deixou o partido e Chiquinho Oliveira e Talles Barreto estão de partida).

Marconi Perillo foi governador de Goiás por quatro mandatos: começou bem e terminou mal | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Por que a debacle do PSDB? Os eleitores se cansaram de mais do mesmo, é certo. Sobretudo, as denúncias de corrupção — de malversação do dinheiro público —, afetando principalmente a cúpula do partido, e o desinteresse real pela sociedade abalaram a reputação de seus líderes. A partir de certo momento, houve uma desconexão entre os tucanos e a sociedade, com esta rejeitando aqueles. A rejeição de seus próceres, como o ex-governador Marconi Perillo, sinaliza que, ao menos para o pleito de 2022, não há chance alguma de o grupo retornar ao centro do palco da política goiana.

Como aprecia pesquisas, Perillo sabe que ele e integrantes de seu grupo — como José Eliton, seu epígono no comando do PSDB — não têm chances, dado o alto índice de rejeição, numa disputa majoritária. Por isso, Perillo tentou assenhorar-se da “alma” do prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB), um jovem competente mas relativamente imaturo de apenas 38 anos.

Inicialmente, empolgado com o assédio e o canto de sereia de políticos sedutores, como Perillo e Sandro Mabel, fabricante da Pimenta Mendez, Mendanha começou a circular pelas cidades do interior como pré-candidato a governador. Descobriu, de cara, que o MDB não embarca numa campanha articulada por Perillo. Em Jataí, sequer foi recebido pelo prefeito Humberto Machado, de seu partido.

Gustavo Mendanha, prefeito de Aparecida de Goiânia: o jovem político certamente não quer ser o cavalo de Troia do tucano Marconi Perillo no MDB| Foto: Divulgação

O recado dos 27 prefeitos, que representam a média da opinião das bases do MDB no interior, é um só: não dá para aliar-se ao político, Perillo, que, durante 20 anos, agiu como algoz implacável dos emedebistas em Goiás. Eles preferem uma aliança do presidente do MDB, Daniel Vilela, com Ronaldo Caiado. “Gustavo não pode se tornar o cavalo de Troia de Marconi Perillo no MDB”, diz um emedebista do Sudoeste goiano.

Aos poucos, Mendanha parece que percebeu que estava sendo usado por Perillo e Sandro Mendez (ou Mabel) e que seus verdadeiros aliados estão no MDB de Daniel Vilela, Manuel Cearense (Rio Verde, quarto maior eleitorado de Goiás), Humberto Machado (prefeito de Jataí), Aleomar Rezende (prefeito de Mineiros), Márcio Corrêa (Anápolis, terceiro maior eleitorado do Estado. ), Márcio Luis da Silva (Porangatu, cidade-polo do Norte de Goiás) e, entre outros, Pábio Mossoró (prefeito de Valparaíso de Goiás, cidade emblemática do Entorno de Brasília).

“Se Mendanha aceitar ser usado como ‘detergente’ para tentar ‘limpar’ Marconi Perillo e sua turma, o que se deve dizer ao nosso amigo e aliado é que, neste processo, aqueles que trabalha para limpar vão acabar sujando-o”, postula um emedebista histórico do Vale do São Patrício.

Manuel Cearense, presidente do MDB de Rio Verde: 100% fechado com Daniel Vilela e quer distância de Marconi Perillo| Foto: Divulgação

O que Sandro Mendez e Perillo não dizem, para não espantar o mesmerizado Mendanha, é que, no fundo, estão apenas tentando produzir um candidato para enfrentar o governador Ronaldo Caiado (DEM) — já que os dois acreditam que não têm oportunidade alguma de sair dos 10%. Mendanha é apenas uma fachada. Sandro Mendez e Perillo não acreditam realmente que o jovem tenha condições de derrotar o líder do Democratas. Mas precisam de um político jovem que empolgue um pouco e que possibilite a eleição de deputados, principalmente federais. Porque, dependendo do adversário, Ronaldo Caiado pode ganhar com mais de 80% dos votos válidos, no primeiro turno.

Pábio Mossoró, prefeito de Valparaíso, é um dos maiores defensores da aliança entre Daniel Vilela e Ronaldo Caiado para a disputa de 2022| Foto: Divulgação

O que Sandro Mendez e Perillo querem, isto sim, não é fazer Goiás avançar, e sim levar o Estado para trás, ressuscitando o passado. O que se quer é o retorno das obras caríssimas, com aditivos impressionantes. Ronaldo Caiado desprivatizou o Estado, colocando-o a serviço dos cidadãos, da sociedade. O que se quer, usando Mendanha — “que felizmente está acordando”, assinala um emedebista —, é um recuo histórico, a reprivatização do governo. Enfim, a volta dos grandes negócios para beneficiar determinados grupos que, durante anos, ficaram milionários, com apartamentos de luxo em São Paulo (Jardins e Higienópolis), casas suntuosas nos condomínios Alphaville e Aldeia do Vale, hospedagens em hotéis de Paris a 3 mil euros por dia, vinhos de 12 mil reais, fazendas monumentais. Seria interessante pegar as declarações de renda de alguns políticos em certa época e comparar com as atuais. Claro que ainda há o problema dos “laranjas”.

Porque Ronaldo Caiado é o favorito

O Jornal Opção teve acesso a duas pesquisas qualitativas e uma quantitativa de institutos de Brasília e Minas Gerais, ambas encomendadas por empresários (“eu não queria uma possível contaminação local”, afirma um deles). As duas, feitas em ocasiões diferentes e por centros de pesquisa que não mantêm contatos entre si, sinalizam que os eleitores não nutrem, ao menos no momento, nenhum “sentimento” de mudança.

Os eleitores afiançam que não há motivo algum para trocar Ronaldo Caiado — que governa Goiás há apenas dois anos e sete meses.

Os eleitores frisam que o governo “está bem” e que só não fez mais por causa da pandemia. Curiosamente, ante um questionamento, eles disseram que Ronaldo Caiado, por ser o principal responsável pela retirada de Perillo do poder em Goiás, já “merece muito crédito”. “O governador fez a limpeza, na política do Estado, que era pedida pelos eleitores”, assinala um pesquisador.

Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e Daniel Vilela, presidente do MDB: provável união pela modernização continuada da gestão pública em Goiás | Foto: Reprodução

As pesquisas indicam que os eleitores detectaram que houve uma “mudança significativa” na área de segurança pública. Eles afirmam que há, de fato, uma política para combater os criminosos e proteger os cidadãos de bem. Há uma sensação de segurança maior do que em outros tempos.

O governo começou a recuperar as rodovias, em abril, e os eleitores registram isto ao serem ouvidos. As pesquisas assinalam que os eleitores acreditam que, quando acabar a pandemia, ou ela arrefecer, o governo vai deslanchar. “Há uma torcida, registra a pesquisa, para que o governo Caiado avance ainda mais. Mas não há nenhuma torcida para trocá-lo por outro político. Os pesquisados dizem que estão satisfeitos com Ronaldo Caiado. Afirmam que é honesto e corajoso, que enfrenta os problemas de frente. O fato de defender a vacinação e lutar para conquistar mais vacina para os goianos é muito bem avaliado. O que se diz, sempre, é que o governador se preocupa com gente, com as pessoas”, assinala um dos pesquisadores. “Para mudar o quadro, o governo precisa piorar, mas a tendência é melhorar”, acrescenta. O governo tem mais de 1 bilhão de reais para investir e, vale insistir, já está investindo. Os benefícios sociais começam a ser ampliados.

O pesquisador de Brasília sublinha, corroborando o cientista político Alberto Carlos de Almeida, que “oposição não ganha eleição — quem perde é governo. Governo bom não perde eleição. Ronaldo Caiado é bem avaliado, é visto como acima da média pelos eleitores”. O pesquisador de Minas, num relatório que fez para uma pesquisa quantitativa, escreveu: “Descobri, ao longo de 30 anos fazendo pesquisa, que o nível de tolerância do eleitor com a primeira reeleição é alto. Ainda mais quando o governador, como no caso de Ronaldo Caiado, derrubou uma hegemonia de 20 anos do PSDB. O que se ouve é basicamente o seguinte: ‘O povo de Marconi mandou tempo demais, agora é preciso deixar Ronaldo Caiado governar’”.

Falta de respeito com o MP e a Justiça

Carlos Alberto França, presidente do TJ-GO | Foto: TJ-GO

A desconexão do alto tucanato com a sociedade de Goiás pode ser vista numa questão. Quando se anuncia que o Ministério Público fez uma denúncia contra Perillo e seus aliados, como José Eliton, ou que a Justiça está julgando os atos deles, seus aliados correm às redes sociais para defendê-los e atacar políticos. Basicamente, dizem que estão sendo perseguidos politicamente.

Ora, ao dizerem isto, estão desrespeitando todos os promotores, procuradores, juízes e desembargadores de Goiás (e, alguns casos, procuradores e magistrados federais). Porque são eles que fazem denúncias (promotores e procuradores) e que julgam (juízes e desembargadores).

Aylton Vechi: procurador-geral de Justiça de Goiás | Foto: Divulgação

Então, direta ou indiretamente, os aliados de Perillo e Eliton estão dizendo que políticos mandam no Ministério Público e no Judiciário — o que é uma ofensa gravíssima às duas instituições. Em algum momento, seus representantes terão de defender as instituições.

Na verdade, o Ministério Público de Goiás, liderado pelo procurador-geral Aylton Vechi, e o Poder Judiciário, sob a presidência do desembargador Carlos Alberto Franca, são independentes e decentes. Não há nenhuma pressão mas, se houvesse, nenhum dos dois, homens honrados, a acataria. Eles são cumpridores das leis.

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