Pedro Ludovico diria a Iris Rezende e Vanderlan Cardoso: “Modernizem-se!”

O candidato do PMDB, com seu complexo de Jânio Quadros, mantém um discurso passadista. Waldir Soares parece vender ilusões para os eleitores. O discurso do candidato do PSB é moderno, mas sua linguagem não é

Iris Rezende, candidato do PMDB, e Vanderlan Cardoso, candidato do PSB, são gestores experimentados. Mas o primeiro parece falar mais ao passado do que ao presente. O segundo precisa conectar suas ideias com uma linguagem mais moderna. O líder socialista parece mais adequado para os novos tempos da política e da gestão de Goiânia | Fotos: Fernando Leite e Renan Accioly/ Jornal Opção

Iris Rezende, candidato do PMDB, e Vanderlan Cardoso, candidato do PSB, são gestores experimentados. Mas o primeiro parece falar mais ao passado do que ao presente. O
segundo precisa conectar suas ideias com uma linguagem mais moderna. O líder socialista parece mais adequado para os novos tempos da política e da gestão de Goiânia
| Fotos: Fernando Leite e Renan Accioly/ Jornal Opção

Pedro Ludovico Teixeira, que estudou Medicina no Rio de Janeiro e, depois, em Paris, tornou-se interventor em Goiás, em 1930 — na esteira da Revolução comandada por Getúlio Vargas —, e em 1933 criou (ou iniciou a criação) de Goiânia, a nova capital do Estado. Há quem sustente a tese de que a mudança era uma maneira de reduzir a força da família Caiado, que controlava o Estado a partir da Cidade de Goiás, um município acanhado. Não deixa de ser verdadeiro. A mudança da capital provocou, por certo, um desarranjo político tão forte quanto a própria revolução que, além de desalojar o presidente Washington Luís, trocou os governadores por interventores.

Porém, reduzir a construção de uma capital do porte de Goiânia às quizílias locais — interpretação verdadeira, mas limitada — é menosprezar o projeto modernizante tanto de Getúlio Vargas quanto de Pedro Ludovico, que, com virtudes e defeitos, era um político que tinha visão de Estado. Portanto, sabia que a fundação de uma nova capital, mais ampla e moderna, era um modo de atrair o futuro para o presente o mais cedo possível. Era uma maneira de contribuir para que o moderno, que às vezes nasce sem forças, devorasse as estruturas arcaicas — econômicas, políticas, sociais e, sim, culturais — o mais rápido possível. Pode-se sugerir que sem a experiência de Goiânia, uma cidade-modelo no Cerrado, com traçado e projeto arquitetônico avançados — europeizados, em parte —, dificilmente Juscelino Kubitschek teria construído Brasília em terras goianas. O super arrojo de Brasília decorre de certo arrojo de Goiânia. Ao examinar a ética protestante, o sociólogo alemão Max Weber notou, ao contrário de Karl Marx, que a chamada superestrutura — a religião, por exemplo — pode influenciar a infraestrutura, a economia, arrancando-a do passado e dando-lhe um novo presente. A ética protestante deu lógica, coerência e justificativa ao capitalismo na Europa (não apenas na Alemanha). Abriu-lhe as portas. As cidades, se modernas no projeto, no seu arrojo, contribuem para criar perspectivas, ideários e, também, homens modernos. Goiânia, ao seu modo, modernizou Goiás e os homens de seu tempo. É possível que, ao seu término — se é que se pode falar em término no que se refere a cidades, verdadeiros organismos vivos e mutantes —, Pedro Ludovico tenha se tornado outro homem, tão moderno quanto a cidade. Não deixa de ser curioso que, na década de 1960, tenha bancado seu filho, Mauro Borges, um político mais moderno do que ele, para levar Goiás adiante. Coronel do Exército, Mauro Borges criou estatais e práticas políticas e econômicas modernizantes — o que, por vezes, teria contrariado a máquina política constituída pelo pai.

Em outubro deste ano, no mês das eleições municipais, Goiânia completa 83 anos. É uma cidade nova e à espera de um político que consiga entendê-la com mais clareza e, a partir disso, avance no projeto de modernizá-la. A impressão que se tem é que a maioria de seus políticos, sobretudo aqueles que têm chances reais de administrá-la, está aquém do que a cidade é e do que precisa para se tornar melhor para todos. E, sim, está aquém de próprio Pedro Ludovico, por que falta a ousadia — quiçá a competência técnica e a coragem — do fundador. Depreende-se, e espera que isto seja mais uma constatação do que um preconceito, que a cidade e seus cidadãos são mais modernos do que seus políticos. Por vezes, ante as ideias expostas — se ideias são, frise-se —, é possível concluir que, na falta de um gestor ousado, os eleitores poderão, quem sabe, optar por um político tresloucado, menor do que a cidade, nada contemporâneo de seus habitantes. Porque isso pode acontecer, se os eleitores optarem por um político cuja falta de equilíbrio e bom senso é notória, o que se sugere é que os cidadãos pensem no que estarão fazendo com sua cidade, onde vivem, trabalham e se divertem. Quatro anos perdidos, em decorrência de uma gestão desastrosa de um político arrivista, alpinista típico, podem levar a cidade a ficar anos tentando se recuperar.

No momento, há dois poderes na cidade — o público, representado pelo prefeito, e o privado, sustentado por construtoras, para quem o futuro “não existe”, e por isso pode ser “devorado” e “devastado” pelo presente. O mais grave é que, às vezes, o público subordina-se ao privado, gerando aberrações, como o empreendimento conhecido como Nexus (shopping, hotel, escritórios), que, não fosse a pronta interferência da sociedade civil, estaria sendo construído na confluência das avenidas D e 85 — nos bastidores, há quem aposte que será edificado, num flagrante desrespeito às leis, assim que supostamente o Ministério Público, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo e a Imprensa o “esquecerem”. Construído noutro local, no qual não piorasse o trânsito da cidade — e cumprindo-se a lei; por exemplo, sem falsificação do relatório de impacto de vizinhança —, o Nexus poderia se tornar um empreendimento de “mega” qualidade.

Não se deve pôr todos os construtores no mesmo caldeirão, pois há aqueles que cumprem as leis, num país em que, descumpri-las, é quase uma lei. Se o privado deve submeter-se ao público, porque este representa os interesses coletivos — de todos —, por que em Goiânia, uma cidade de pouco mais de 80 anos, o crescimento é desordenado e está à mercê das construtoras (nada conscientes), que não se preocupam com variados problemas, como água, trânsito e transporte coletivo? As causas são várias. Para evitar cometer injustiças, nem se falará, neste Editorial, da possibilidade de conluio entre políticos e empresários. A corrupção é um fato? É provável. Mas a falta de visão, a incompreensão de que uma cidade moderna não precisa necessariamente ter arranha-céus cada vez mais altos — o Plano Piloto, em Brasília, deixa de ser moderno porque seus edifícios são mais baixos do que os de Goiânia? —, é uma das causas basilares. Uma cidade com trânsito menos concentrado, com ruas mais largas, com calçadas decentes para pedestres, com pontos de ônibus respeitosos, com transporte coletivo adequado (menos lotado e mais frequente, com segurança para seus usuários), com praças de convivência limpas e atraentes, com cursos de água despoluídos e fartos, é muito mais moderna do que uma cidade com construções imponentes, como se fossem fachadas para esconder suas mazelas. Na construção de Brasília, incentivados por um presidente de rara largueza de visão, Juscelino Kubitschek, os arquitetos Lucio Costa, nascido na França, e Oscar Niemeyer entenderam que o moderno e o belo podem ser irmãos. Daí os amplos espaços e a construção de edifícios menores — com a percepção de que o horizonte existe para ser visto e decantado. Fica-se com a impressão, observando a beleza arquitetônica de Brasília, de que se trata de uma cidade que escapou às mãos, às vezes insanas, dos políticos (hoje, a roubalheira generalizada trabalhou Brasília numa espécie de Ratizília).

Goiânia precisa de um prefeito que a reponha nos eixos, que tenha coragem de enfrentar certos poderes, que se julgam acima das leis — diga-se que, eventualmente, até fabricam-nas. No momento, em termos eleitorais, há três candidatos eleitoralmente consistentes — Iris Rezende, do PMDB, Waldir Soares, do PR, e Vanderlan Cardoso, do PSB, além de dois postulantes de qualidade na lanterna, os deputados Adriana Accorsi (a pedra no seu caminho é o PT) e Francisco Júnior, do PSD. O deputado federal Giuseppe Vecci, do PSDB, era um dos mais consistentes, em termos técnicos e ousadia, mas não caiu nas graças do eleitorado, assim como Adriana Accorsi e Francisco Júnior. Quem tem chance mesmo são Iris Rezende, Waldir Soares e Vanderlan Cardoso.

De volta para o passado

Iris Rezende é visto como gestor experimentado e é preciso admitir que sua história, num balanço isento e geral, é positiva. Pode-se até sugerir que, como governador, foi mais atuante e modernizante do que como prefeito de Goiânia, eleito em 2004 e reeleito em 2008. No primeiro mandato, sobretudo, no lugar de fazer uma gestão criativa, preocupou-se mais em fazer asfalto. Não que pavimentação seja descartável. Não é. Mas o prefeito de uma capital não pode pensar tão-somente nisto. Fazer asfalto é tarefa mais de um gerente, com alguma experiência técnica, do que de um prefeito de capital. Com sua autoridade, em decorrência de ter sido governador duas vezes e senador uma vez, além de ministro de Estado, deveria ter promovido uma gestão ousada, exemplar (Maguito Vilela modernizou Aparecida, tornando-a mais parecida com Goiânia), na organização do trânsito e do transporte coletivo e poderia ter sido decisivo na reordenação do espaço urbano. O que se viu, porém, foi a continuidade do caos no trânsito, um transporte coletivo deficitário e o incentivo ao crescimento desordenado da cidade. Bairros inteiros estão praticamente sendo devastados e entregues às construtores para que edifiquem arranha-céus, sem que se queira perceber que o trânsito vai piorar e que o transporte coletivo não vai melhorar. Os engarrafamentos cada vez maiores, em determinadas áreas — dificultando o trânsito em geral, e retardando o transporte coletivo em particular —, são produzidos, em parte, pelas construções concentradas. Longe de coibir o desordenamento urbano, Iris Rezende contribuiu para acelerá-lo. O Nexus é tão filho de Iris Rezende quanto de Ilézio Inácio Ferreira e Júnior Friboi, os empresários que comandam o projeto. Por que isto? Falta de visão de Iris Rezende.

Na semana passada, ao desrenunciar da renúncia, emulando Jânio Quadros — aquele que via forças ocultas nas garrafas de uísque —, Iris Rezende falou em novo tempo para Goiânia e voltou a falar na possibilidade de, se eleito, reeditar os mutirões. Na redação, um repórter com menos de 30 anos disse para uma repórter de pouco mais de 20 anos: “Cutuque-me, por favor; Iris Rezende está mesmo falando em mutirão?!” No caso, tem mais peso a exclamação do que a interrogação. O jovem estava e está perplexo com o fato de que um político que quer ser prefeito de uma capital cosmopolita, longe de pensar numa “volta para o futuro”, está pensando no “retorno para o passado”. O mutirão não é mais funcional. Nem os produtores rurais — que, na verdade, são empresários moderníssimos — pensam mais no artifício do mutirão como resolução dos “problemas” de seus negócios. Se eleito, Iris Rezende deveria, isto sim, convocar a população — e as principais universidades da cidade — e sugerir que contribuísse com um mutirão de ideias para melhorar a capital. Veja-se uma ideia simples: em alguns países (como a vizinha Argentina), para preservar as árvores que podem cair e para evitar que seja necessário cortá-las, os prefeitos usam estruturas metálicas para segurá-las e protegê-las. Em Goiânia, em várias ruas, como a Avenida 136, é possível verificar várias e belas árvores, principalmente as que dão flores, caídas no período chuvoso. Primeiro, porque não têm raízes profundas. Segundo, porque não têm outras árvores a ampará-las. Terceiro, porque as estacas, de madeira, não são fortes o suficiente para protegê-las da ventania. Quarto, porque o setor público é sempre lento em cuidar do que muitos pensam que se trata de perfumaria, mas é o que faz uma cidade ser mais agradável e mais bem cuidada do que as outras. Outra ideia simples seria a construção de pontos de ônibus decentes (que protegesse realmente do sol e da chuva e informações precisas sobre trajetos). Há países em que o poder público coloca bicicletas ao lado ou nas proximidades dos pontos. Ah, aí teria que vigiá-las. Por que não?

Mas, afinal, Iris Rezende pode falar em tempo novo ou em novo tempo? Até pode, mas, na sua boca, parece, digamos, um discurso fora de forma, quer dizer, uma ideia fora do lugar, diria o sociólogo Roberto Schwarz. Fica-se com a impressão de que Iris Rezende fala para um eleitor imaginário, que tenta despertar o ser supostamente rural que habita os citadinos, ou parte deles. Uma volta ao passado, sobretudo de maneira consciente, é como a reedição do “curral eleitoral” — como a Bolsa Família nos moldes do Lulopetismo. Assim, longe de expandir as mentes dos goianienses, sua imaginação criadora, Iris Rezende estaria sugerindo uma paralisia do pensamento, da reflexão. A ideia do mutirão diz mais sobre Iris Rezende do que se pensa. É o atraso malévolo. Nada ingênuo. É o que se pode chamar, na falta de termos mais candentes, de vanguarda do atraso.

Waldir Soares, candidato do PR: o discurso monotemático, sobre segurança pública, pode ser redenção ou calvário, dependendo de como se dará o debate na campanha eleitoral | Foto: Renan Accioly

Waldir Soares, candidato do PR: o discurso monotemático, sobre segurança pública, pode ser redenção ou calvário, dependendo de como se dará o debate na campanha eleitoral | Foto: Renan Accioly

Ilusões semeiam derrotas

Se Iris Rezende não é o moderno que Goiânia precisa para avançar, de maneira mais ordenada e planejada — para todos, insista-se —, o candidato do PR, o delegado Waldir Soares, talvez seja outra volta ao passado. O uso do condicional, “talvez”, resulta do fato de que não se sabe exatamente o que, como político, o delegado é. Pode até que seja preparado, que tenha noções de administração, que tenha aprendido com a vida, que tenha lido livros de Peter Drucker e Vicente Falconi. Por isso, não deve ser examinado com as lentes do preconceito. Entretanto, com seu discurso monotemático, de que a segurança deve ser o centro da campanha — quando saúde é o tema que mais interessa à população da capital (que avalia a saúde dirigida pelo Estado como eficiente, mas percebe deficiências graves na saúde fornecida pela prefeitura; a falha mais apontada diz respeito ao atendimento básico, diário. São postos de saúde que fecham cedo, que não têm médicos e medicamentos, nem vacinas) —, Waldir Soares comporta-se mais como delegado do que como gestor e político.

O político que sugere que o prefeito de uma capital, sobretudo numa cidade brasileira, com recursos escassos, tem como resolver os graves problemas de segurança pública pode ser nominado de vendedor de ilusões. Um prefeito bem intencionado — e Waldir Soares parece ser um político bem intencionado — pode até contribuir para melhorar a segurança pública do município que administra. Uma cidade mais bem iluminada, praças públicas com guardas municipais qualificados, apoio aos policiais militares — isto poderia contribuir, não para resolver, para que a segurança pública avançasse. O tema segurança pública deve ser debatido por candidatos a prefeito, é claro. Porque interessa ao eleitorado. Mas a decência indica que os candidatos devem dizer a verdade: prefeitos não resolvem, de vez, os problemas de segurança pública de uma cidade. Primeiro, porque não têm recursos suficientes. Segundo, porque não têm um corpo técnico adequado. Terceiro, porque os problemas de segurança pública de uma cidade são, em geral, conectados com os de outras cidades, quer dizer, são do país — ainda que desaguem de maneira mais acentuada nos maiores municípios.

Digamos que Waldir Soares seja eleito e preocupe-se basicamente com a questão da segurança pública, mas não consiga melhorá-la em quatro anos. O que acontecerá com ele e com a cidade? Politicamente, sairá destroçado. A cidade, longe de ser pacificada, pode se tornar mais violenta. Mais: investimento em segurança pública, sobretudo sem planejamento, poderá levar o prefeito a deixar de investir em setores estratégicos, como saúde e educação, que tendem a piorar. Convém que Waldir Soares repense o seu projeto. Corre o risco de ser liquidado, eleitoralmente. Quem semeia ilusões políticas costumar colher derrotas eleitorais

O que define um candidato qualitativo não são propostas miraculosas, a tese de que se vai resolver os problemas com uma canetada, e sim a percepção de que, eleito, o prefeito terá condições de fazer o que propõe. Até para fazer o feijão com arroz, é preciso ser confiável e, claro, ter o mínimo de competência técnica.

A linguagem e o projeto

O que dizer de Vanderlan Cardoso? O candidato tem experiência pública, como prefeito de Senador Canedo, e privada, como empresário, em Goiás e outros Estados. É apontado como gestor equilibrado e mostra-se, nas suas campanhas, preocupado com o planejamento e com o custo da máquina pública (cada vez mais inviável). Mas precisa entender que Goiânia é muito maior do que Senador Canedo, com problemas muito mais avultados. Porém, por ter sido candidato a governador duas vezes, parece ter uma visão ampla dos problemas públicos, sobretudo a respeito das soluções. O problema do postulante do PSB é que, quando expõe suas ideias e projetos, não o faz numa linguagem moderna e com a clareza necessária. Quem o ouve, sopesando as ideias, percebe que se trata de um gestor — sim, moderno —, mas se observa apenas a linguagem, como expõe o que pensa, fica-se com a impressão de que não é moderno. Precisa ser mais convincente, mas ao menos não é um homem do passado e tampouco um vendedor de ilusões.

Se pudesse enviar um e-mail para os candidatos, o que Pedro Ludovico, um homem civilizado, diria? Talvez dissesse: “Sejam modernos tanto no discurso quanto nas ações. Sobretudo, não mintam para os eleitores e sejam mais ousados. Dei um passo adiante, com a construção da capital. Deem, pois, outro passo adiante. Não tentem voltar o (ou ao) passado. O presente está aí, vivo, e o futuro está batendo à porta. Falem menos e façam mais. Por fim, modernizem-se!”.

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