Os sinos dobram pelos 100 mil brasileiros mortos, diriam John Donne e Hemingway

Pais ficaram sem filhos. Filhos ficaram sem pais. Mas a mortandade só é “menor” porque o sistema de saúde, apesar dos pesares, funciona. Agora, é aguardar a vacina

Há uma overdose de notícias sobre o novo coronavírus. Porque se trata de uma pandemia, quer dizer, atinge todo (o) mundo — com quase 1 milhão de mortos e milhões de contaminados. O assunto, de fato, é inescapável. No Brasil, morreram 100 mil pessoas (os sinos dobram por eles, diriam o poeta britânico John Donne e o prosador americano Ernest Hemingway). Trata-se de uma guerra. O vírus é, por enquanto, o grande vencedor. Mas há milhares de sobreviventes no país.

Pintura de Van Gogh | Foto: Reprodução

Durante todo o dia, leitores de jornais, telespectadores e os usuários de redes sociais ficam sabendo sobre novas mortes e contaminações. São desconhecidos, são parentes, são amigos de longa data, são amigos de redes sociais. No todo, são 100 mil pessoas, que, juntas, formariam, se em Goiás, uma cidade de médio porte — bem acima de municípios como Uruaçu, Porangatu, Ceres, Rialma, Alexânia. Trindade, grande cidade do Entorno de Goiânia, tem pouco mais de 127 mil habitantes.

As mortes atingem gerações. São brasileiros jovens. São brasileiros de meia idade. São brasileiros idosos. São, insistamos, 100 mil pessoas. Gente que já tinha feito alguma coisa, muita coisa ou tinha o sonho de fazer várias outras coisas.

Há famílias que foram destruídas pela guerra do coronavírus. Uma guerra quase silenciosa, que se trava nos hospitais — muito deles precários, mas com servidores públicos e particulares abnegados — e nas residências. Só não é totalmente silenciosa porque os meios de comunicação informam, durante todo o dia, o que está acontecendo. As agruras dos pacientes — também dos que tratam deles, muitos morreram — e familiares são expostas cotidianamente. As covas e as cruzes nos cemitérios, mais do que as mortes nos hospitais — uma face invisível para o público —, chocam a sociedade. A Velha Senhora — a morte — tem visitado, de maneira implacável, os lares de várias famílias brasileiras. São muitas as famílias que, enlutadas, têm histórias tristes para contar. Há, claro, aqueles que também podem relatar suas lutas, verdadeiras batalhas contra o vírus, e sobreviveram. Mas não é uma alegria completa, porque amigos e, às vezes, parentes morreram ou estão doentes.

Profissionais de saúde na luta para salvar paciente| Foto: Reprodução

A Covid-19 leva (e levará) muito mais gente aos hospitais. Lá, por causa do imenso poder de contaminação do vírus, não se pode ver parentes e amigos. Os doentes também não podem ver ninguém, exceto os que cuidam deles, como enfermeiros, fisioterapeutas e médicos. Morre-se só, ou quase só. As lembranças dos últimos dias, quando as chamas vão se apagando, não são registradas, ou raramente são registradas — impedindo, por assim dizer, o “fechamento” das histórias individuais. O que disseram? O que sentiram? Pouco, muito pouco se sabe. Há, paralela à devastação da morte, a amputação dos laços, o corte das histórias. A história coletiva das mortes parece ter substituído a história individual de homens e mulheres — que se tornaram um número espantoso, 100 mil mortos, sem contar os milhões que se contaminaram e que vão se contaminar.

A vida é quase sempre longa, e a morte não raro é “curta” ou “rápida”. Mas, nos últimos dias de uma pessoa, há, por vezes, momentos de reconciliações, histórias ganhando novas configurações. 100 mil pessoas não estão mais entre nós, exceto suas histórias e as histórias de suas famílias. Há famílias que perderam quatro de seus integrantes — figuras centrais, em certos casos, para outras pessoas, afetando a sobrevivência de muitos. Pais perderam filhos e filhos perderam pais e irmãos. Uma tragédia. Muito mais do que 100 mil morrerão, até que surjam as vacinas. Não importam se russa, se chinesa, se inglesa ou se americana. O que importa mesmo é que imunizem as pessoas e contribuam para evitar mortes. Frise-se que, mesmo quando surgir as vacinas, várias pessoas — já doentes — continuarão morrendo.

Médicos, enfermeiros e a vitória da ciência

Como se contará no futuro a história da pandemia do novo coronavírus no Brasil? Não se sabe. Porque o futuro nem a Deus pertence. Mas certamente se anotará que o governo do presidente Jair Bolsonaro não soube entender ou não quis entender o que de fato ocorreu (e, para nós, está ocorrendo). Tanto que falou em “gripezinha” e sugeriu a hidroxicloroquina como se fosse praticamente uma “vacina”. O médico Luiz Henrique Mandetta estava bem como ministro da Saúde, mas foi retirado, quem sabe por que estava se tornando uma estrela, e por isso Bolsonaro, candidato à reeleição, decidiu lhe cortar as asas. O segundo ministro da Saúde, Nelson Teich, era rei sem majestade — o que dizia não se transformava em ação. Porque prevaleceu, durante quase todo o tempo, que se tratava de uma gripezinha. Homens de Marlboro, como Bolsonaro, estariam imunes. Não estavam, claro. Tanto que o presidente se contaminou — assim como vários ministros de sua República dos Machões.

O trabalho coletivo — uma verdadeira guerra — para tratar paciente com a Covid-19 | Foto: Reprodução

Governantes estaduais, como Ronaldo Caiado, de Goiás, e João Doria, de São Paulo, apostaram na quarentena, no isolamento social. Estavam e estão certos. Entretanto, acabaram “vencidos” devido à luta coletiva pela sobrevivência — pelo receio de os empresários quebrarem e de os trabalhadores perderem o emprego. Mas os governadores — poucos se alinharam a Bolsonaro — perceberam, desde o início, a gravidade do problema. As universidades públicas e os institutos de pesquisa, com a ciência no pelotão de frente, estão dando forte contribuição à luta contra o coronavírus. A salvação de milhões de pessoas, com a produção da vacina, advirá de vacinas produzidas em grandes centros de pesquisas (com a participação de cientistas brasileiros, chineses, ingleses, americanos, russos, entre outros). Noutras palavras, a “salvação” decorrerá da vitória da ciência. E milhões de indivíduos estão escapando do coronavírus, mesmo sem vacina, por causa da ação científica competente, imediata e eficiente de enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, farmacêuticos e cientistas — entre outros profissionais da saúde. O trabalho consciente, bem informado, dos profissionais salvou e, neste momento, está salvando a vida de milhões ao redor do mundo.

O médico Drauzio Varella, às vezes apresentado pela televisão como oráculo, admitiu que também se equivocou. “Não só eu, muitos [especialistas] subestimaram o que estava acontecendo. E o que aconteceu é que nenhum país se preparou no Ocidente. A Itália não se preparou, a Espanha não se preparou, os Estados Unidos não se prepararam”, afirma o profissional que, de alguma forma, se tornou um showman da saúde. O fato não o diminui como médico nem como divulgador gabaritado da ciência. Seus acertos são muito maiores. Talvez seu principal equívoco tenha sido se postar de modo peremptório ante uma doença provocada por um vírus que só aos poucos vai sendo compreendido. Sublinhe-se que, ante a importância da ciência, é preciso escapar dos que se alinham aos fundamentalistas anti-ciência — inclusive na mídia, e, no caso, com leviandade — e passaram a criticá-la por erros superficiais, episódicos (a ciência erra para, adiante, acertar — a vacina é o acerto, mas, no meio caminho, equivoca-se várias vezes). O tratamento que está sendo oferecido aos pacientes — em si uma vitória contra o vírus — e a vacina, que está praticamente pronta (a Rússia diz que iniciará vacinação em massa até outubro), indicam que a ciência está vencendo, mais do que a ignorância, o fundamentalismo dos que jogam contra a mais poderosa criação humana.

O que se dirá no futuro a respeito do Sistema Único de Saúde — o SUS? Certamente se dirá que, com todas as falhas que possa ter, foi a salvação da lavoura. Na falta de um SUS, os Estados Unidos tiveram de improvisar, mas até o novo sistema funcionar, incluindo os pobres, morreram mais de 160 mil pessoas. No Brasil, sem o SUS, a tragédia teria sido muito maior. Então, aos que registram apenas o caos — talvez por causa do número de mortes —, fica a sugestão de que se examine também o que tem funcionado, e relativamente bem. O SUS é, de alguma maneira, um dos mais bem-sucedidos programas sociais do mundo. No início, por causa de viagens e contatos com estrangeiros, a Covid-19 atingiu, de maneira mais acentuada, ricos e integrantes da classe média. Aos poucos, a contaminação espraiou-se e, hoje, atinge toda a sociedade, notadamente as pessoas mais pobres. Não fosse o SUS, além das estruturas públicas gratuitas criadas por vários governadores, o Brasil estaria lamentando muito mais mortes.

Neste domingo, 9, com mais de 100 mil brasileiros mortos, em decorrência da Covid-19, resta-nos lamentar e abraçar, ainda que de maneira simbólica, os familiares. Ao mesmo tempo, agradecer todos os profissionais de saúde que estão lutando para salvar vidas, sacrificando as próprias e só eventualmente recebendo o aplauso necessário da sociedade. Um filósofo francês critica a “heroicização” de médicos e enfermeiros, enfim de todos os que lidam com a saúde, mas o trabalho (uma verdadeira luta) deles é, sim, tão profissional quanto heroico. O envolvimento deles com os pacientes é mais amplo que se pensa. Com as famílias distantes, não podendo se comunicar com os doentes que estão internados, são tais profissionais que fazem as vezes de amigos, de parentes e confidentes (se tornam, até, padres e pastores). Muitos deles terão, terminada a pandemia, muitas histórias para relatar em reportagens ou em livros de sua própria lavra.

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