O fantasma de 1998 acossa 2020 e o recado de Iris Araújo para Iris Rezende

Maguito Vilela quer ser candidato a prefeito de Goiânia. Se barrá-lo, Iris Rezende poderá cometer o mesmo erro de 1998

O filósofo George Santayana é autor de um aforismo cuja verdade é universal: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Pois, para entender o presente, voltemos ao passado — a 1998, há exatos 21 anos. Naquele ano, em plena vigência do Plano Real, Maguito Vilela (MDB), então com 49 anos, governava Goiás e era um dos gestores estaduais mais bem avaliados do país. Era candidato natural à reeleição. Era. Porque não foi.

Ministro de Estado, com presença na política nacional, Iris Rezende (MDB) queria voltar para sua Ítaca e, sobretudo governá-la pela terceira vez — sem notar os ventos da mudança, pois, pré-científico, sempre duvidou das pesquisas mais relevantes, as qualitativas, aquelas que apontam o que as quantitativas, primárias, não têm como registrar. O que homens e mulheres diziam, por trás dos números frios, é que pretendiam renovar. Só numa hipótese aceitariam “não” renovar: se o candidato fosse Maguito Vilela. Havia uma sintonia fina — algo como uma espécie de inconsciente coletivo — entre os eleitores e o governante.

Por se recusar a “ler” a realidade, as agruras e nervuras do real, Iris Rezende descuidou-se e saiu candidato. Como as pesquisas cobravam renovação, a oposição, com pesquisas quentes nas mãos, percebeu que, contra o “velho” (não tem a ver com idade), era preciso bancar o “novo”. Daí o deputado federal Roberto Balestra foi substituído por um jovem de 35 anos, o deputado federal Marconi Perillo (PSDB), que, desconhecido das massas, teve de usar uma roupa para seu marketing perfilá-lo como “o moço da camisa azul”.

Barbara W. Tuchman, historiadora americana: “A incapacidade de levar em conta a natureza da outra parte tem, com frequência, resultados desastrosos” | Foto: Reprodução

Iris Rezende perdeu a eleição para Marconi Perillo e, a rigor, se tornou um político municipal — de Goiânia. O tucano ‘desestadualizou” o decano emedebista. Observe-se que Iris Rezende fala mais da década de 1960, quando se elegeu prefeito pela primeira vez, e um psicanalista diria que se trata de um ato — mesmo se involuntário — de máxima coerência. Porque, no fim de sua carreira política, restou ao político voltar a ser prefeito. Retomou a sua infância política.

A notável historiadora americana Barbara W. Tuchman (1912-1989) escreveu um livro, “A Prática da História” (José Olympio, 231 páginas, tradução de Waltensir Dutra), que contém um ensaio “Por que os estadistas não ouvem”, de apenas seis páginas, que deveria ser lido tanto por Iris Rezende quanto por Marconi Perillo. Porque, a rigor, “fala”, indiretamente, de ambos. Depois de determinado tempo no poder, os governantes, quiçá inebriados pelas palavras aladas e doces dos áulicos, não ouvem mais. Ora, se ganhou duas ou quatro eleições para governador, por que têm de ouvir aqueles que informam que as pedras no caminho começam a agigantar-se? Marconi Perillo é filho político de Iris Rezende e suas trajetórias são relativamente parecidas. Eles não gostarão de ler isto, decerto.

Barbara Tuchman observa que “a incapacidade de levar em conta a natureza da outra parte tem, com frequência, resultados desastrosos. (…) Esse desejo de não ouvir as verdades infelizes — ‘Não me confunda com fatos’ — é apenas humano e muito comum entre os chefes de Estado”. A historiadora acrescenta que “a paixão política é uma boa coisa, mas será ainda melhor se for uma paixão informada”. Iris Rezende e Marconi Perillo certamente não leram corretamente as pesquisas qualitativas e não observaram o aumento do volume de críticas às suas gestões e às suas pessoas.

Iris Rezende, prefeito de Goiânia, e Maguito Vilela, ex-governador de Goiás: o primeiro pode evitar o erro de 1998 e bancar o segundo em 2020  | Foto: Reprodução

Mesmo tendo se tornado um político municipal, deixando escapar seu poderio estadual — não é à toa que esteja colado num político regional, o governador Ronaldo Caiado —, Iris Rezende continua incapaz de ouvir vozes sensatas. Ao seu lado, na prefeitura, não há um auxiliar que lhe diz verdades inconvenientes. Pelo contrário, a adulação é frequente. Por isso, embora possa sofrer uma derrota acachapante — tornando-se o Marconi Perillo de 2020 —, Iris Rezende, incentivado por figuras parecidas com as de 1998, mantém certa atração pela ideia de que deve disputar a reeleição.

Mais uma vez, Maguito Vilela surge no caminho, depois de ter sido prefeito bem-sucedido em Aparecida de Goiânia. Embora não seja mais um garoto — tem 70 anos —, o ex-governador é, em relação a Iris Rezende, uma renovação. Se candidato a prefeito de Goiânia, seria uma mudança dentro da ordem. Porque, embora ligado ao prefeito da capital, é mais moderno e agregador. Ao mesmo tempo, é visto como um gestor competente e criativo, que, uma vez eleito, seria tanto um avanço, de caráter modernizador, quanto o gestor racional que não faria coisas estrambóticas.

Pesquisas quantitativas, as mesmas que foram usadas para alavancar Iris Rezende em 1998, podem até mostrar certa força do prefeito. Mas as qualitativas sugerem outro caminho: a cidade, como o Estado há 21 anos, quer mudança. Mesmo respeitando o gestor, dada sua longeva história, os eleitores podem derrotá-lo.

Se abrir espaço para Maguito Vilela, Iris Rezende estará provando que “mudou”, que não é o mesmo de 1998. Resta saber se vai escapar do fantasma do fim da década de 1990. Se não apoiar, ouvindo os epígonos do nada — que querem manter cargos e benesses do poder —, passará à história, provavelmente, como tendo sido derrotado em Goiânia. Não é um fecho positivo para sua história que, admita-se, é, apesar das três derrotas para o governo e uma para o Senado, vitoriosa. Político esperto, de rara habilidade, talvez tenha chegado a hora de ouvir seus instintos e ler cuidadosamente as pesquisas qualitativas — talvez com a ajuda de pesquisadores sérios, como Gean Carvalho, do Instituto Fortiori, Antonio Lorenzo, do Serpes, Mário Rodrigues, do Grupom, e Luiz Felipe Gabriel, do Verus, e de marqueteiros atentos, como Renato Monteiro, Léo Pereira, Paulo de Tarso, Jorcelino Braga, Alberto Araújo e Marcus Vinicius Queiroz.

A hora de Iris Rezende é “a” da história. Resta saber como quer concluir sua longa batalha para “sobreviver” na história de Goiás e de Goiânia. Em 2020, daqui a um ano e poucos meses, o prefeito quer ficar com a história, a dos vencedores, ou contra a história, a dos perdedores? Não trair Maguito Vilela, compensando-o, de certa maneira, pelo papelão de 1998, pode ser um caminho para restaurar, ainda mais, a sua história — que, apesar dos percalços, é positiva.

George Santayana, filósofo: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo” | foto: Reprodução

Sinais de Iris Araújo para Iris Rezende

Há políticos que não sobrevivem sem a proteção de um padrinho. É o caso de Iris Araújo, que, se não fosse o marido, Iris Rezende, jamais teria sido alguma coisa na política de Goiás. Teria sido, no máximo, uma chefe de gabinete, o que, aliás, não é nenhum demérito. Com o suporte do líder emedebista, chegou a deputada federal e, como suplente, ao Senado. Foi longe, até muito longe. Agora, pontifica, como se fosse cientista política, nas redes sociais — demonstrando sua velha incapacidade de agregar. Há quem diga que não tem “voz” e que diz exatamente aquilo que Iris Rezende quer dizer, mas, como político que precisa de apoio para disputar eleição e governar, não pode falar. Nem sempre é assim. Exatamente por articular por si, o que sugere que não precisa agregar, ela é mais radical e escassamente polida com adversários e, até, aliados. Esclareça-se que se está discutindo “a” política, não exatamente “a” pessoa de Iris Araújo, que, como qualquer outro ser humano, merece respeito e ser tratada com polidez.

Na eleição de 2014, Iris Araújo candidatou-se a deputada federal. Aparecia como eleita em qualquer lista de favoritos divulgada nos jornais e redes sociais. Abertas as urnas, estava derrotada, com uma votação pífia — 66.234 votos (2,18%). Surpresa? Talvez nem tanto. Mas o irismoaraujismo, facção do irismo, concluiu que a derrota não era culpa de Iris Araújo e de seu patrono, Iris Rezende. O culpado era o prefeito Paulo Garcia, do PT, que havia, supostamente, deixado de apoiá-la. Não era a verdade, mas a verdade é dolorosa: os eleitores não queriam Iris Araújo na Câmara dos Deputados. Por causa dela, que não tem luz própria, e por causa de Iris Rezende — que há muito perdeu a capacidade de “transferir” voto.

A prova de fogo se deu em 2018, agora com Iris Rezende na Prefeitura de Goiânia. De novo, as listas de mais votados incluíam Iris Araújo entre os primeiros. Com o padrinho no poder, ela seria eleita e com uma vitória demolidora. Abertas as urnas, nova decepção.

Depois de uma campanha cara, com amplo apoio de Iris Rezende e da estrutura do Paço Municipal, Iris Araújo obteve apenas 39.976 votos (1,32%) — 26.258 votos a menos do que na disputa de 2014. Quer dizer, com Iris Rezende na prefeitura, com um poder imenso, sua mulher perdeu votos e, portanto, a eleição. O que isto significa? Quem deve ser culpado?

As duas derrotas de Iris Araújo, notadamente a de 2018, porque contou com uma estrutura gigante, são recados fortes para Iris Rezende. Alguma coisa está acontecendo e pesquisas quantitativas certamente não conseguirão explicar o fenômeno, mas qualitativas, aliadas ao bom senso, podem ajudá-lo a compreender o que está ocorrendo tanto com o prefeito-político quanto com os eleitores. Estes deram um recado menos a Iris Araújo e muito mais a Iris Rezende. Tipo: estamos “punindo” Iris Araújo para “puni-lo” — até porque sua gestão, entre 2017 e 2018, ficou aquém do esperado — e poderemos fazer o mesmo com o sr. amanhã, quer dizer, em 2020.

Pensando nos eleitores, em Maguito Vilela e na história, vale mencionar mais uma vez o pensamento de George Santayana: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

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Donizete Santos

Excelente análise; é por aí mesmo!

Amilson Lourenço

Excelente análise! Me lembro de uma passagem no final de 1997, quando Marconi me afirmou que se Maguito fosse candidato, ele não o seria. Mas tinha convicção de que o candidato seria Iris, situação em que Marconi afirmou que, nessa hipótese, ele seria candidato e VENCERIA. Confesso que não acreditei muito, mas a história mostrou que Marconi tinha razão.