O dia em que Caiado derrotou Maguito, Iris venceu Marconi e Demóstenes superou Cidinho

Nos últimos 24 anos, em seis eleições, todos os candidatos que apareceram em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto foram derrotados

Recomenda-se, em tempo de fake news, a leitura dos quatro últimos parágrafos deste Editorial. O texto a seguir é uma contrafação, ou, quiçá, uma contra-história.

Ronaldo Caiado

1994: Maguito Vilela, Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado: o terceiro saiu na frente, com larga margem. Quem foi eleito?

Estamos em 1994, depois das eleições, quase no fim do ano. (Quem nasceu naquele ano hoje tem 24 anos, tornou-se adulto e, em alguns casos, tem filho ou filhos. Talvez tenha concluído um curso superior.) Em termos políticos-eleitorais, depois de uma campanha agressiva, com petardos disparados para todos os lados, as pesquisas de intenção de voto foram confirmadas: o deputado federal Ronaldo Caiado, do PFL, foi eleito governador de Goiás, derrotando tanto Maguito Vilela, do PMDB, quando Lúcia Vânia, do PPB.

Ronaldo Caiado começou em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e manteve a frente durante toda a campanha. Lúcia Vânia começou e terminou em segundo lugar. Maguito Vilela, que era vice de Iris Rezende, não saiu do terceiro lugar. O resultado da eleição mostra que a expectativa de poder é fundamental: quem sai em primeiro lugar ganha a eleição, não tem espaço para os demais candidatos, que podem até fazer, como fizeram Lúcia Vânia e Maguito Vilela, campanhas bem-feitas, com propostas qualitativas.

Eleito, Ronaldo Caiado assumiu o governo em 1º de janeiro de 1995 e governou Goiás por quatro anos — até o fim de dezembro de 1998.

Iris Rezende 1

1998: Iris Rezende e Marconi Perillo: o primeiro liderou desde o início. Quem mesmo foi eleito para governador?

Em 1998, na sucessão do governador Ronaldo Caiado, apresentaram-se como candidatos Iris Rezende, do PMDB, Marconi Perillo, do PSDB, Osmar Magalhães, do PT, Everaldo Pastore, do PV, e Chico Dentista, do PMN.

As pesquisas de intenção de voto eram implacáveis, apontando Iris Rezende como eleito no primeiro turno. Antes mesmo de começar a campanha, o emedebista já estava com o secretariado praticamente “nomeado”.

Na campanha, Iris Rezende fez discurso mais de governador do que de candidato. Marconi Perillo, então um jovem deputado federal, dos mais promissores, denunciou a “panelinha” (o emedebista estava disputando o governo pela terceira vez, depois de ter sido eleito em 1982 e 1990) e, conhecido como “o Moço da Camisa Azul” (era quase um nome), empolgava a juventude. Osmar Magalhães, representando a força emergente do PT de Lula da Silva e José Dirceu — o primeiro à porta da Papuda e o segundo recém-saído de uma penitenciária, ambos condenados por delinquência —, fazia um discurso sobre a necessidade de mudanças.

Mas não teve jeito. Embora forte, a história da “panelinha” não derrubou Iris Rezende, que derrotou Marconi Perillo, de maneira acachapante, no segundo turno. O emedebista assumiu e governou, sem demissões em massa, até dezembro de 2002.

Maguito Vilela 1

2002: Maguito Vilela (MDB) liderou as pesquisas, superando o tucano Marconi Perillo. O eleito foi o favoritíssimo?

Em 1998, Maguito Vilela era o candidato nato do PMDB a governador — o Datafolha o apontava como o gestor mais popular do Brasil —, mas Iris Rezende puxou-lhe o tapete, alegando que era sua vez de gerir Goiás.

De temperamento dúctil, Maguito Vilela saiu do páreo e disputou mandato de senador, tendo sido eleito com relativa facilidade. Em 2002, na sucessão do governador Iris Rezende, Maguito Vilela lança-se candidato. As pesquisas de intenção de voto garantiam que estava eleito — nem precisava fazer campanha. Era como se 2002 estivesse se vingando de 1998 e dando o poder, “de graça”, para o popularíssimo emedebista. Eram candidatos ao segundo lugar Mar­coni Perillo, do PSDB, Marina Sant’Anna, do PT, Alba Célia, do PGT, Geraldo Lemos, do PTB, e Javan Rodrigues, do PSTU.

Marconi Perillo fez uma campanha moderna, mas, mesmo as­sim, perdeu para Maguito Vilela, o favorito das pesquisas de in­tenção de voto. Marina Sant’An­na, política jovem e moderna, fez uma campanha avançada, mas terminou em terceiro.

Eleito governador, Maguito Vilela decidiu disputar a reeleição em 2006 — contrariando Iris Rezende, que está sempre a postos para disputar qualquer eleição, até de síndico de edifício.

Maguito Vilela 2

2006: Demóstenes Torres e Maguito Vilela eram os líderes. Alcides Rodrigues parecia não ter chance. Quem ganhou?

Em 2006, o senador Demóste­nes Torres, do PFL, e o governador Maguito Vilela aparecem como favoritos nas pesquisas de intenção de voto — sem chance para quaisquer outros nomes. Os outros candidatos são Alcides “Cidinho” Rodrigues, do PP, Barbosa Neto, do PSB, Elias Andrade, do PSOL, e Edward José Júnior, do PSDC.

Na campanha, Maguito Vilela e Demóstenes Torres polarizam os debates, deixando os demais para trás. Em seguida, Alcides Rodrigues melhora e vai para o segundo turno, mas perde para Maguito Vilela, que é reeleito governador. Demóstenes Torres, que era o favorito, fica em quarto lugar, atrás de Barbosa Neto. Alcides Rodrigues, tido como azarão, quase chega lá.

Iris Rezende 2

Iris Rezende e Marconi Perillo: o primeiro vinha com força total para a disputa. Quem acabou mesmo sendo eleito?

Em 2010, as pesquisas de intenção de voto, que “não” erram, apontavam Iris Rezende, do PMDB, como líder absoluto, com o senador Marconi Perillo, do PSDB, em segundo lugar, e com Vanderlan Cardoso, do PR, ex-prefeito de Senador Canedo, embalado em terceiro. Marta Jane, do PCB, e Washington Fraga, do PSOL, eram os outros postulantes.

As favas estavam contadas: Iris Rezende seria eleito pela quarta vez para o governo de Goiás, mais uma vez derrotando o jovem Marconi Perillo. De fato, embora tenha feito uma campanha arrojada, o jovem tucano perdeu mais uma eleição para o decano da política de Goiás. As pesquisas de intenção de voto, mais uma vez, haviam acertado. A expectativa de poder do peemedebista, como corolário, também havia sido certeira.

Iris Rezende 3

Iris Rezende e Marconi Perillo: o primeiro vinha com força total para a disputa. Quem acabou mesmo sendo eleito?

Na disputa de 2014, o governador Iris Rezende, além de estar no poder, tinha um trunfo a mais: o apoio do deputado federal, Ronaldo Caiado, do DEM, que, tendo abandonado a base de Marconi Perillo, decidira migrar para o lado do adversário histórico da família Caiado. Os dois principais candidatos são Iris Rezende, do PMDB, e Marconi Perillo, do PSDB. Disputam também Vanderlan Cardoso, do PSB, Marta Jane, do PCB, Washington Fraga, do PSOL, Antônio Gomide, do PT, Alexandre Magalhães, do PSDC, e Weslei Garcia, do PSOL.

Iris Rezende, Marconi Perillo e Vanderlan Cardoso, com campanhas arrojadas, são os favoritos. Os dois primeiros vão para o segundo turno. Iris Rezende é eleito governador pela quinta vez. As pesquisas de intenção de voto haviam sido confirmadas, aliás, desde 1994.

Repondo a verdade

Leitor, Goiás terá eleição para governador em 7 de outubro deste ano — daqui a seis meses e 20 dias. As pesquisas de intenção de voto (mais divulgadas nos bastidores e quase nada às claras) apontam o senador Ronaldo Caiado, do DEM, como favorito. A expectativa de poder está em suas mãos — e não, no momento, com o vice-governador José Eliton e o deputado federal Daniel Vilela, pré-candidatos a governador, respectivamente, pelo PSDB e pelo MDB. Há políticos que estão tratando o quadro de hoje como se fosse o quadro de outubro e podem estar cometendo um erro crasso. Porque a campanha, com a exposição massiva dos candidatos — Daniel Vilela e José Eliton ainda são pouco conhecidos — e de seus projetos, pode mudar o quadro político-eleitoral.

O que se mostrou acima foi uma realidade alternativa, seguindo o que diziam as pesquisas de intenção de voto extemporâneas — de 1994 a 2014. Em 1994, Ronaldo Caiado apareceu em primeiro lugar e acabou ficando em terceiro lugar; o segundo turno foi disputado por Maguito Vilela e Lúcia Vânia. O emedebista foi eleito governador. Em 1998, Iris Rezende chegou a aparecer com números espantosos — acima de 70% das intenções de voto. Porém uma campanha moderna e diferente de Marconi Perillo mudou o quadro e ele foi eleito. As pesquisas de intenção de voto apresentaram números que foram modificados, de modo acachapante, pelos eleitores nas urnas. Em 2002, Maguito Vilela apareceu bem nas pesquisas, à frente do governador Marconi Perillo. Mas o eleitor decidiu manter o tucano no poder, avaliando, por certo, que seu projeto de governo era mais consistente para melhorar a vida dos indivíduos. Em 2006, primeiro as pesquisas apontaram Demóstenes Torres, que era muito bem-sucedido no Senado, como favorito; em seguida, foi superado por Maguito Vilela, que se tornou favorito. Entretanto, bancado por Marconi Perillo, Alcides Rodrigues foi eleito governador. Em 2010, armaram uma força poderosa contra Marconi Perillo, então senador. Iris Rezende era o favorito e Vanderlan Cardoso, com o apoio do governador Alcides Rodrigues, era um político emergente, com ampla estrutura. No entanto, o tucano derrotou tanto Iris Rezende quanto Vanderlan Cardo­so. Em 2014, Iris Rezende, depois de ter feito uma gestão qualitativa na Prefeitura de Goiânia — a gestão atual é uma das piores da história da capital —, aparecia muito bem nas pesquisas, porém, mais uma vez, foi derrotado por Marconi Perillo.

Moral da história, como apreciava sugerir o filósofo do humor Millôr Fernandes: não há favas contadas em política — em termos de eleições — e é preciso ter cautela e não confundir expectativa de poder na pré-campanha com a disputa real na campanha, quando o contraditório é exposto de maneira mais clara e os candidatos são de fato conhecidos. Pode-se fazer acordo com alguns políticos, até com muitos políticos, mas não se pode esquecer o fundamental — a inteligência das pessoas. Os eleitores não decidem o voto com tanta antecipação e, para votar em “A”, “B” ou “C”, antes querem conhecer o que pretendem fazer se, por acaso, forem eleitos para o governo.

O que se recomenda ao leitor-eleitor é: quando alguém insistir com o discurso de que um candidato já “está” eleito — nem precisa ser Ronaldo Caiado —, dê uma pensada sobre o que diziam as pesquisas de intenção de voto em 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. Nas seis eleições — em 24 anos —, os institutos de pesquisas, devido aos levantamentos extemporâneos, não acertaram uma só vez. Leia de novo: todos os que lideravam perderam as eleições. Em 1994, o terceiro colocado, Maguito Vilela, foi eleito. Assim como Alcides Rodri­gues, em 2006. Todo cuidado é pouco com a ditadura do “já ganhou”.

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Fabiano Oliveira

#BaldyGovernador