O Brasil precisa de crescimento econômico, mas também de tolerância em 2020

O PT foi retirado do poder mais porque o país não crescia. Mas com paz e moderação o crescimento pode ser mais consistente

Esquerda e direita são mais intolerantes quando não têm alternativa eleitoral consistente. Mas no Brasil, contrariando a regra, tanto a esquerda quanto a direita, apesar de terem viabilidade eleitoral, se tornaram intolerantes.
Mesmo no poder, com quatro mandatos consecutivos de presidente da República, o PT mostrou-se intolerante, por vezes, adotando a “tese” do “nós contra eles”. Era uma tentativa de puxar os pobres e ao menos parte da classe média para o lado do lulopetismo – uma espécie de peronismo à brasileira. Os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff chegaram a articular o controle da Imprensa e do Ministério Público. Por trás das propostas estavam egressos da esquerda guerrilheira do fim da década de 1960 e início da década de 1970 – como um jornalista que pertenceu aos quadros da TV Globo.
Entretanto, exatamente por ter alternativa eleitoral, por não precisar ser golpista, o petismo, confrontado com a resistência da sociedade, notadamente das instituições de contenção – como a Imprensa, o Legislativo, o Judiciário e o Ministério Público –, recuou. O recuo mostra a força da sociedade civil, mas também indica que o PT, se beira o autoritário, não é totalitário. Quer dizer, ante a pressão – o contrapeso – das instituições, muda de posição, concertando-se com os rumos democráticos do país.

Jair Bolsonaro e Lula da Silva: os governos do petismo foram, direta ou indiretamente, responsáveis pelo esvaziamento do centro político e pela ascensão de um líder da direita, o atual presidente da República | Fotos: Reproduções

O PT é de esquerda, de matiz socialdemocrata. Apesar de correntes pressionarem, cobrando radicalização, o partido sempre caminhou por outros rumos. Porque a corrente hegemônica, ligada a Lula da Silva, sempre trabalhou para “conter” a minoria que se aproxima das ideias dos comunistas ortodoxos. À direita interessa expor o PT como comunista – o que não é e nunca foi. Criado por figuras de proa da Igreja Católica e sindicalistas moderados do ABC (pareciam radicais mais por causa da ditadura civil-militar, entre 1970 e 1980), em São Paulo, o PT, desde sua raiz, não tinha como ser comunista.
Entretanto, ainda que moderado, o PT, cometeu dois pecadilhos graves. Primeiro, adotou o chamado “discurso do ódio”. Tudo o que não fosse pró-petista era ruim e, até, deveria ser destruído. Políticos moderadíssimos, como Fernando Henrique Cardoso – tão socialdemocrata quanto o PT, o de Lula da Silva –, eram apresentados como bestas feras da direita, ou, na linguagem da moda, neoliberais (quem acredita que FHC é neoliberal possivelmente também crê em mula sem cabeça e saci pererê). No mais das vezes, eram execrados. Chegava-se a dizer: o cearense Tasso Jereissati não pode ser eleito senador… e, de fato, perdeu uma eleição por causa desse combate sistemático – à beira do stalinismo (a diferença é que não matava).
O discurso do ódio promovido pelo petismo, com o objetivo de manter-se no poder e impedir a ascensão da outra correção socialdemocrata, a incrustada no PSDB (e com o apoio do DEM), acabou gerando a contradição que não esperava: o surgimento de uma direita forte e articulada.
A pressão excessiva do PT, para desqualificar os partidos que não podia ou não queria “comprar”, acabou por fortalecer a direita minoritária do país, que ousou pôr sua cara na rua e disputar espaço político. O presidente Jair Bolsonaro é, de certa maneira, filho do “ódio orgânico” espalhado pelo petismo em todo o Brasil. Sem querer, enquanto se preocupava em minar o centro político – denunciando ou corrompendo parte dele –, a esquerda contribuiu para produzir uma direita ainda mais radical do que ela.
Segundo, o PT articulou uma corrupção sistêmica, envolvendo empresários e políticos, cujo objetivo era a continuidade no poder. Não importa se antes havia corrupção, porque, de fato, o sistema do é-dando-que-se-recebe não foi criado pelo petismo. Mas o PT azeitou a corrupção, ampliando seus tentáculos. No meio do processo, provando que Norberto Bobbio estava certo quando disse que os meios corrompem os fins, os petistas, que estavam corrompendo, também se corromperam. Salvaram-se poucos. Embora o PT esteja protegendo Lula Silva – e, neste processo, pode se enterrar politicamente –, é evidente que o próprio ex-presidente se corrompeu. Seus filhos e um sobrinho, que não são nenhum Ronaldinho Fenômeno das finanças, se tornaram potentados – envolvidos com empresas que queriam tirar, e tiraram, proveito de seus contatos com os governos petistas. José Dirceu, Antônio Palocci e João Vaccari Neto, envolvidos em uma série de irregularidades, também se corromperam e acabaram presos. A sobrevivência do PT, se é possível – e é importante que o país tenha um partido de esquerda forte, como uma trava aos “excessos” do capitalismo liberal –, provavelmente depende de que uma geração substitua a outra. É provável que, com Lula e José Dirceu, o PT não tenha um futuro, e sim só um passado. O governador da Bahia, Rui Costa, talvez seja o símbolo de um novo PT. Mas petistas de proa ainda acreditam que a “salvação” advirá de Lula – que, a rigor, não terá nem tempo hábil para se postar contra a direita, pois está com os direitos políticos cassados. E trata-se de um homem de 74 anos.
A direita de Bolsonaro
Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018 por “atacar” em três frentes. Primeiro, apresentou-se como paladino da anticorrupção, ou seja, contra o sistema que havia sido ampliado pelo PT e aliados, como integrantes do MDB, PTB, PP, PL (ex-PR). Os eleitores disseram “não” à corrupção ao dizerem “sim” Bolsonaro. O presidente está comemorando um ano de governo e, como disse, “sem escândalos”. De fato, não há notícia de que o presidente esteja se corrompendo ou que esteja corrompendo líderes dos partidos políticos. Liberação de recursos do Orçamento, em decorrência de emendas de senadores e deputados, não é corrupção. Trata-se de um contrapeso do sistema político brasileiro. Os problemas do senador Flávio Bolsonaro – que parecem graves, mas carecem de investigação conclusiva – não têm a ver com o governo federal. Por enquanto, são problemas do filho de Jair Bolsonaro e não deste.
Segundo, o combate sistemático ao PT, tanto por ser de esquerda – e no Brasil ser de esquerda equivale, para parte dos eleitores, notadamente os mais conservadores, a ser comunista –, quanto por manter em seus quadros acusados e condenados por corrupção, rendeu votos a Bolsonaro. Criticar o PT, de maneira radical, significava que, uma vez no poder, se faria tudo de modo diferente. Deu certo.
Em 2003, quando assumiu a Presidência da República pela primeira vez, Lula da Silva seguiu a cartilha do governo anterior – de Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan (ex-ministro da Fazenda) –, chegou a convocar um banqueiro liberal, o goiano Henrique Meirelles, para a presidência do Banco Central. Na prática, Meirelles, dada sua maior experiência, funcionou também como uma espécie de ministro da Fazenda informal, orientando Antônio Palocci (por sinal, um ministro de qualidade; depois, se tornou corrupto, mas é outra história). Em seguida, sobretudo nos governos de Dilma Rousseff, perdeu-se o controle da máquina. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, entendia mais de teoria do que da prática de governar. O país deixou de crescer, o desemprego aumentou, o governo gastou muito e sem planejamento adequado e a sociedade começou a pressionar.
A corrupção do PT derrubou Dilma Rousseff? A corrupção talvez tenha sido a motivação, digamos, “moral”. Mas o que derrubou a petista foi mesmo a queda da taxa de crescimento econômico. Sem expectativa de que o país iria melhorar, com a dupla Dilma Rousseff e Guido Mantega praticamente inertes – como se o país estivesse no piloto automático –, a sociedade postou-se contra o governo e o PT. Se o país estivesse crescendo, a pelo menos 4% ao ano, é provável que o impeachment não teria sido possível.
Terceiro, Bolsonaro não é responsável pelo baixo crescimento da economia, até porque o crescimento econômico não começa de imediato só porque outro governante assumiu, mesmo que as medidas tomadas sejam pró-expansão. Mas nota-se que a economia está se “mexendo” e que a tendência é que o país cresça mais em 2020 – o que vai gerar mais empregos. Em 2019, mesmo contra as expectativas negativas, o país cresceu mais do que o esperado. Até Paulo Guedes, que sabe das coisas, ficou ligeiramente surpreso. Seu receituário, como o enxugamento da máquina e privatizações, leva ao crescimento. A China, por exemplo, está “puxando” o crescimento global e o Brasil, rei das commodities, também será beneficiado. Se o país não crescer, são as contradições da vida ou, então, do mercado. Mas está no caminho certo.
Se o país não crescer a taxas superiores a 3% ou 4%, mesmo que não haja escândalos, Bolsonaro terá dificuldade com a reeleição, em 2022. As pessoas, afinal, não comem denúncias, piadas ou elogios. O país vai crescer? É provável.
Tolerância

O especial de Natal do Porta dos Fundos não é lá essas coisas, como arte, mas é humor e merece respeito: vive-se numa democracia, afinal | Foto: Reprodução

O ataque à produtora do grupo humorístico Porta dos Fundos é ato terrorista. Os humoristas fizeram uma sátira, na qual apresentam Jesus Cristo como gay e tendo um parceiro homossexual (Orlando, na verdade, Lúcifer). Ainda que falte elaboração, e haja até certo primarismo no “filme”, trata-se de humor. Os gregos sugeriam que um indivíduo é são quando ri não apenas da comédia, mas também da tragédia. A história de Jesus é bela, não há dúvida, porque é um dos primeiros humanistas da história. Mas ninguém, nem ele, é intocável. Certamente, não era “branco”, mas é apresentado como tal – por certo, uma imagem europeia que nada tem a ver com o Oriente Médio da época – e ninguém questiona.
Com a internet, que abre canais para a multiplicidade de criações artísticas, os críticos do Porta dos Fundos perderam a oportunidade de fazer um “filme” sobre o grupo humorístico. Poderiam ter respondido à peça – pacífica – com outra peça, igualmente contundente, crítica e, sim, divertida. Pelo contrário, um grupo que se intitula integralista, decidiu jogar uma bomba que destruiu a entrada da produtora. Felizmente, não matou ninguém. A violência, com intenção de destruir e matar pessoas – ou de intimidá-las –, não é a resposta adequada. Ao humor responde-se com humor – ou não se responde. Na democracia, e os brasileiros vivem num país democrático, a discordância tem de ser expressa de maneira pacífica, ainda que as palavras possam ser até firmes e duras.
Papel Noel não existe, mas, como comércio, existe. No fundo, é sinônimo de congraçamento entre as pessoas, quer dizer, é mais do que uma questão meramente comercial. Pois, se há algo para pedir em 2020, além de crescimento econômico, é… tolerância. O Brasil precisa ser mais tolerante com a divergência. Quem pensa diferente de “Fábio” não deve ser tachado de “monstro” ou “nojento” – como está na moda dizer, principalmente nas redes sociais. “Fábio” também deve tratar “Gregório” com o devido respeito, ainda que não precise concordar com seu pensamento e tenha o direito de expor sua divergência. A civilidade que se cobra no trânsito também deve vigorar no debate de ideias. É preciso entender também que nenhum governo, até por seu tempo curto – quatro ou oito anos –, não “reinventa” e não “refaz” os indivíduos. É uma ilusão acreditar que será possível “criar” o homem perfeito. O que a sociedade democrática produz, no máximo, são cidadãos institucionais – aqueles que cumprem a lei e, daí, lutam, no dia a dia, contra a impunidade.
Há dois governos, no momento: o da fala, o de Bolsonaro, e o da ação, o de Paulo Guedes, o ministro da Economia. Não se recomenda que Bolsonaro deixe de falar, de expressar sua opinião. Mas fica-se na torcida para que seja menos agressivo e pense em todos os brasileiros – e não apenas em determinados nichos. O receituário para o Brasil crescer, estabelecido pelo Posto Ipiranga, visa beneficiar todos os brasileiros. Bolsonaro deveria seguir pela mesma trilha. Ideias fundamentalistas podem até ser defendidas por determinados grupos. Mas o presidente da República representa o país, quer dizer, todos. O que mais atinge negativamente o governo hoje é a língua ferina e excessiva de Bolsonaro. Ele deve ficar atento às pesquisas. Porque elas mostram que não está conseguindo apoio novo. A linguagem atual pode servir para manter o apoio dos “convertidos”, mas, em 2022, vai precisar de apoio também dos não-convertidos. Porque governo, por melhor que seja, tem desgastes. Sem contar que a história de Flávio Bolsonaro pode prejudicar Jair Bolsonaro eleitoralmente.
Evangélicos
Integrantes de esquerda tratam os evangélicos como agentes do passado ou necessariamente fundamentalistas, desconsiderando que têm o direito de expressar suas opiniões livremente, desde que não queiram impedir que outros indivíduos também tenham o direito de se expressar como quiserem. Mais: os evangélicos podem professar a mesma ortodoxia, mas também pensam diferentemente sobre determinados temas. Muitos, talvez a maioria absoluta, são contrários à ação contra o Porta dos Fundos, ainda que sejam críticos com o que “fizeram” com Deus, Jesus, Maria e São José. Eles podem e, se quiser, devem criticar o grupo humorístico.
Por fim, é um equívoco tratar (os) evangélicos como antidemocratas. A maioria é democrática. E a religião, ao contrário do que pensava Karl Marx, não é o ópio do povo. Pelo contrário, é um dos maiores fenômenos culturais da história. Quem não entender a “força” dos evangélicos na sociedade – optando por julgamentos peremptórios, eivados de preconceitos ideológicos – também não vai entender o que está acontecendo no Brasil atual.

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