A China é a maior parceira comercial do Brasil. Pode-se dizer que os patropis produzem, em larga escala, para o país da escritora Can Xue. Sabe aquele produtor rural de Rio Verde, aquele indivíduo abnegado que acredita na nação verde-amarela? Pois é: ele opera, em grande parte, para alimentar milhões de habitantes da terra do presidente Xi Jinping.

Se a China tem um peso formidável nas relações comerciais com o país de Clarice Lispector e Yêda Schmaltz, não se pode desconsiderar os Estados Unidos de Joseph Robinette Biden Jr., o Joe Biden, de 81 anos.

Os Estados Unidos da prosadora Joyce Carol Oates (maior escritora americana viva) e da poeta Amanda Gorman são o segundo maior parceiro comercial do Brasil de Lima Barreto, Carolina de Jesus, Sônia Elizabeth e Edival Lourenço.

Entretanto, do ponto de vista estritamente político, os Estados Unidos são mais importantes para Bruzundanga do que a China. Quando Jair Bolsonaro carnavalizava o golpismo, com seus passinhos de Iracema, a de José de Alencar, Joe Biden mandou um recado duro: não inventaram nada melhor do que a democracia.

Os militares, mestres titereiros, entenderam o “recado” e recolheram as “armas” e, por certo, bateram continência para o Império do Norte. Não deixa de ser curioso que a esquerda não tenha reclamado do quase, digamos, intervencionismo ianque.

Javier Milei: o economista pode ser menos doido do que parece | Foto: Reprodução

Na América do Sul, com suas veias abertas — diria Eduardo Galeano, o escritor e jornalista uruguaio —, o país mais importante, comercialmente, para o Brasil é a Argentina de Javier Gerardo Milei, um político de 53 anos que se diz anarco-capitalista (uma contradição, em termos; porque, embora faça a crítica do Estado, não há um país capitalista no qual o Estado não seja forte. O anarquismo, o de esquerda — e, claro, anticomunista —, postula a extinção do Estado.

Javier Milei parece doido, mas doido não é. Talvez tenha criado uma espécie de magia política — uma espécie de mitologia — para agarrar os eleitores pela emoção. Com suas diatribes — consta que o espírito de seu cachorro o “modera” —, o político anti-peronista conseguiu conectar-se com as pessoas. Despertou-as para outra voz — uma fala não peronista.

No romance “Os Mímicos”, o escritor S. V. Naipaul, Nobel de Literatura, assinala, na página 46: “Apenas o poder revela o político”.

É isto mesmo: Javier Milei, no poder, tendo de resolver problemas reais — perceberá que o mercado é um agregado secular do Estado —, logo se tornará um racionalista. Poderá até retomar certas idiossincrasias, para manter o público atento e aceso, mas a vida real, com seus problemas contornáveis e, às vezes, incontornáveis, cobra um preço alto — puxando o governante para o chão.

Donald Trump: se voltar ao poder será um problema para a esquerda na América Latina | Foto: Reprodução

Para não decepcionar aqueles que acreditam em soluções mágicas — que a inflação pode ceder com um decreto e que a dolarização da economia pode ser feita num piscar de olhos —, Javier Milei terá de manter, para consumo das massas, a imagem de que é meio détraqué. Aos desassisados e estólidos se perdoa (quase) tudo. O argentino é mais esperto do que seus eleitores — que se cansaram dos peronistas e de seus governos de baixa qualidade.

Em entrevistas e debates, Javier Milei, se não demonstrava total sensatez, disse que a relação com o Brasil ficaria por conta do mercado. Há certa lógica nisto, é claro. Mas os dois Estados são, queiram ou não, hermanos — e precisam de conexão política, mas não necessariamente ideológica. Noutras palavras, deve prevalecer, dados os interesses econômicos mútuos, o racionalismo político. Os ministérios das Relações Exteriores do país de Silvina Ocampo e Samanta Schweblin e do país dos ótimos poetas Jamesson Buarque (autor do excepcional “Meditações”) e Tarsilla Couto de Brito sabem pôr as anarquias no seus devidos lugares.

Comercialmente, Argentina e Brasil são irmãos siameses (e Caim e Abel no futebol, por vezes).

Mas o que têm a ver Joe Biden, Donald John Trump, de 77 anos, e Xi Jinping, de 70 anos, com o Brasil de Lula da Silva, de 78 anos? Algumas cositas.

Se Donald Trump for eleito presidente dos Estados Unidos pela segunda vez, no dia 5 de novembro de 2024 — daqui a 11 meses —, a direita, e não apenas a bolsonarista, certamente se tornará mais forte na disputa contra Lula da Silva (ou seu candidato) em 2026, daqui a dois anos e nove meses.

Uma ressalva se faz necessária: os presidentes Lula da Silva e George W. Bush, republicano como Donald Trump, se deram muito bem. Mas claro que Donald Trump criou relações pessoais com integrantes da direita patropi, como Jair Bolsonaro.

Então, se for eleito em 2024, Donald Trump poderá se tornar um problema — uma pedra no caminho — para a reeleição de Lula da Silva. Faz-se necessária uma ponderação: a batalha comercial entre os Estados Unidos e a China está se ampliando. Se eleito, o republicano vai jogar o país de Cecília Meirelles e Lêda Selma no colo de Xi Jinping? Talvez não. A ideologia, portanto, terá de se subordinar ao realismo político-econômico. O cabelo de cenoura não vai, decerto, escalar Lula da Silva no time titular de Xi Jinping.

Em termos políticos, com Javier Milei como chefão da Argentina e se Donald Trump for eleito presidente do Tio Sam, a direita poderá ir mais encorpada para a eleição de 2026 — contra Lula da Silva ou Fernando Haddad?

Antes mesmo de ser eleito, Javier Milei já mantinha contato com o clã Bolsonaro. Agora, na sua posse, Jair Bolsonaro foi convidado como se fosse presidente, e não ex-presidente. O argentino e o brasileiro já estão trocando figurinhas.

Como se sabe da torcida do Palmeiras à do Vila Nova, Jair Bolsonaro, de 68 anos, não poderá ser candidato em 2026, pois a Justiça cassou seus direitos políticos. Até 2030, ele terá de se comportar como general eleitoral.

Quem Jair Bolsonaro vai bancar para presidente em 2026? É provável que, no momento, nem ele saiba. Por isso, durante boa parte do tempo, jogará com vários nomes — Flávio Bolsonaro (senador pelo Rio de Janeiro), Michelle Bolsonaro (ex-primeira-dama), Romeu Zema (governador de Minas Gerais), Ronaldo Caiado (governador de Goiás) e Tarcísio de Freitas (governador de São Paulo).

Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, ambos do PL, talvez se tornem viáveis eleitoralmente, mas são do tipo de políticos que precisam ser “carregados” e não se sabe qual será a força de Jair Bolsonaro para carregar “mochilas” tão pesadas.

Tarcísio de Freitas, do Republicanos faz um governo eficiente em São Paulo, mas, por falta de experiência política, está sempre escorregando ante alguns problemas que, mesmo quando pequenos, se tornam grandes por “administração” deficiente. Aqui e ali, tromba com o padrinho — o que tem irritado Jair Bolsonaro. O mais provável é que fique no governo de São Paulo para enfrentar o candidato de Lula da Silva — que certamente será o vice-presidente Geraldo Alckmin, com um vice do PT.

Romeu Zema, do partido Novo, não é um gestor ineficiente, mas, em termos políticos, comete várias gafes. Não basta ser gestor para disputar a Presidência da República. É preciso ser político, sobretudo ter experiência política. Se eleito, o governante da terra de Adélia Prado — que ele não sabia que era poeta; achava que era radialista — ficaria “perdido” na “selva” das ruas largas de Brasília.

Lula da Silva e Ronaldo Caiado se enfrentaram em 1989, mas em circunstâncias bem diferentes | Foto: Reprodução

Na recente negociação das dívidas de Minas — impagáveis, como as dos demais Estados, e por isso o governo federal, que arranca tudo dos entes federativos, deveria encampá-las —, Romeu Zema parecia e parece meio perdido, aparentemente sem querer entender que era e é uma questão de Estado, e não política e ideológica.

Ao contrário de Romeu Zema, Ronaldo Caiado, do União Brasil, tem anos de experiência no Congresso, como deputado federal e senador, e, como governador, está no segundo mandato.

No governo, Ronaldo Caiado ajustou as contas do Estado, criou uma rede de proteção social ampla e melhorou a segurança pública de tal forma que ganhou o apoio da sociedade. O duro combate ao crime organizado chama a atenção do país e governadores de outros Estados já estão se inspirando nas políticas de Goiás. As melhorias na educação — e educação de qualidade é um programa social de primeira linha, porque inclui efetivamente as pessoas na sociedade — e na saúde (Goiás vai ganhar, em breve, um hospital para tratamento de câncer em crianças) são largamente mencionadas em e fora do Estado. Sua decência pessoal — comprovada — está sempre na boca do povo.

Em termos políticos, Ronaldo Caiado sabe que não tem amparo junto ao PT. Por isso, tem de se conectar com aqueles com os quais mantêm alguma afinidade ideológica. No momento, pelo menos, não há espaço para um candidato da direita a presidente fora do espectro bolsonarista.

Então, Ronaldo Caiado pode ser o candidato do bolsonarismo a presidente da República? Pode. Mas isto não quer dizer que ele seja bolsonarista — porque se trata de um político independente e crítico, com anos de estrada. E, com Javier Milei na Argentina e Donald Trump nos Estados Unidos — frise-se que os Estados Unidos de Joe Biden estão numa boa fase na economia —, as chances da direita, portanto de Ronaldo Caiado ou Tarcísio de Freitas, crescem. Com a ressalva de que Lula da Silva — que terá 81 anos em 2026 — é um páreo duríssimo. Porque é um político com grande capacidade de articulação, tanto que está tentando atrair parte da direita ou da centro-direita, não apenas para o governo, mas também para sua aliança política.