Mais que nunca, o agro precisa ser o maior defensor das políticas ambientais

O setor primário é a base do desenvolvimento de Goiás. Governo e produtores devem se unir para garantir o cumprimento da agenda da COP-26

Ninguém no Brasil seria capaz de negar a importância fundamental que Goiás tem para o agronegócio nacional e o papel chave que desempenha. Com uma agricultura de tecnologia muito desenvolvida, assim como uma pecuária de leite e de corte de alta qualidade abastecendo mercados internos e externos, o Estado se encontra hoje na vanguarda do setor primário, com empresas de grande porte investindo alto na produção.

As commodities têm sido as propulsoras do produto interno bruto (PIB) goiano, ainda que desde meados dos anos 80 o Estado tenha tomado o rumo da industrialização, com a intensificação desse processo a partir da virada do século.

O carro-chefe da economia goiana continua sendo o setor primário – e não há nada de mau nisso. O agronegócio daqui se impõe nacionalmente, de modo a influenciar até mesmo no registro da identidade local por quem vê “de fora”: não é à toa que a imagem clichê do cowboy tocando “modão” dentro da caminhonete de cabine dupla seja tão comumente associada aos goianos.

Durante a pandemia, a crise econômica brasileira só não foi mais grave porque a produção agropecuária e a extração mineral seguraram o PIB do País. E isso com a ajuda de Goiás. De acordo com estimativas do Instituto Mauro Borges (IMB), o PIB goiano cresceu cerca de 4,4% no segundo trimestre de 2021 em comparação com o ano anterior. O salto no abate de bovinos (11,6%), suínos (17,6%) e aves (29,5%) e o avanço na safra do arroz (29,6%) foram cruciais para o significativo avanço que reflete, a partir desse setor, uma possível retomada econômica do País. Uma ressalva: os cifrões das exportações, é bem verdade, foram anabolizados pela valorização do dólar – o que trouxe consequências nada agradáveis, por sua vez, para o abastecimento interno.

Não obstante, o agro brasileiro e, especialmente, o de Goiás encontram-se agora em torno de um novo desafio: conciliar a alta produtividade e os recordes de safra com um real zelo não só pela sustentabilidade, mas pela recuperação ambiental.

Isso porque o cenário posto não deixa dúvidas: a despeito do negacionismo que insiste em nos rodear – parafraseando Lulu Santos em sua clássica Tempos Modernos –, as mudanças climáticas já estão afetando todos os aspectos da vida no planeta e, obviamente, isso inclui os seres humanos e suas atividades.

Seja por suas chuvas torrenciais, em vez das antigas “invernadas”, seja pelas estiagens ainda mais longas da estação seca, a natureza não tem deixado de avisar que as coisas estão se transformando rápidas demais, e não para melhor. E, novamente recorrendo à paráfrase da mesma canção, o tempo voa e escorre pelas mãos em meio à necessidade urgente de evitar uma catástrofe maior.

Períodos de estiagem cada vez maiores podem afetar as safras: agronegócio precisa atuar agora para não sair prejudicado depois| Foto: Wikimedia Commons

O setor que hoje é dos mais prósperos e cujo faturamento faz com que uma classe social – a dos ruralistas – se sobressaia em termos financeiros e políticos é o mesmo que pode, logo ali “na frente”, ser mais uma vítima do clima: a mudança nos ciclos da chuva gera incertezas aos negócios, porque ainda não há invenção humana para substituir os rios voadores que despejam a água que vem pelos ares, da massa úmida da Amazônia.

Ora, os indicadores mostram que têm avançado os índices de desmatamento, seja na Amazônia ou por aqui, em pleno Cerrado. Menos árvores, menos chuva. A tendência natural, portanto, é de que haja menos água chegando e, tão grave quanto, a menor quantidade que chega é despejada de forma violenta sobre o solo, trazendo, muitas vezes, mais prejuízos que benesses.

Enquanto este Editorial é escrito, os grandes líderes mundiais, aqueles que decidem o destino do planeta, estão reunidos em Glasgow, na Escócia. Entre eles, participando da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-26), não está Jair Bolsonaro (sem partido), que resolveu voltar ao Brasil depois de se fazer presente na cúpula do G-20, a reunião das 20 maiores economias mundiais.

A explicação para a ausência do decisivo encontro ambiental veio da boca do vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB): “Sabe (sic) que o presidente Bolsonaro sofre uma série de críticas. Então, ele vai chegar em um lugar em que todo mundo vai jogar pedra nele. Está uma equipe robusta lá com capacidade para, vamos dizer, levar adiante a estratégia de negociação”, disse, à imprensa, na sexta-feira, 29.

Apesar da justificativa do general e seu suplente, Bolsonaro “fugir” de um dos temas que o perseguem é algo sintomático. Até porque uma grande delegação brasileira lá está. O governo está representado pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, e sua assessoria; estão também os ministros das Comunicações, Fábio Faria, e das Minas e Energia, Bento Albuquerque; há também 13 governadores e 7 representantes de governadores, além de empresários, cientistas, ativistas e lideranças da sociedade civil nacional. Ao todo, cerca de cem integrantes. Somente a trupe dos Estados Unidos supera, em número, a do Brasil.

Para quem sabe ler além dos escritos, isso significa que o tema em muito interessa ao País – embora não tanto a seu presidente. Entre os empresários, é bom que se diga, há vários representantes do agronegócio, porque é do extremo interesse da classe discutir os rumos da política no exterior diante do foco que se tem na questão ambiental nacional, por conta da Floresta Amazônica.

Há um consenso nos debates: é preciso agir, e agir fortemente, para deter o avanço do aquecimento global, cuja escalada além do limite de 1,5º grau até o fim do século será devastadora para o planeta e, em última instância, pode determinar não só o fim de milhares de espécies, mas até mesmo a extinção humana.

Integração necessária
É por aí que se vê a necessidade de uma integração cada vez maior entre quem quer produzir e quem quer preservar. Na verdade, quem quer produzir precisa se tornar, ao mesmo tempo, aquele que se obriga a preservar e, também, a recuperar. Dessa forma, é premente que haja o compromisso de reorganizar e requalificar o manejo em toda a cadeia produtiva do setor primário – e aqui se inclui também, além de agricultura e pecuária, a extração mineral, de madeira e a exploração dos recursos naturais como um todo.

Ronaldo Caiado (DEM): com as demandas da COP-26, ele tem grande oportunidade de liderar outro processo entre os governantes, o de adequação à nova realidade climática | Foto: Divulgação

Uma das decisões da COP-26 que já devem ser levadas em consideração pelo setor em Goiás é a limitação da produção de gás metano. O Brasil está no grupo de 103 países que, em esforço liderado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, assinaram o Compromisso Global de Metano, um documento que visa reduzir em 30% as emissões do gás – de efeito estufa – até 2030. Nesse caso, a pecuária é o ramo que vai mais precisar se adequar para alcançar a meta, já que a maior parte das emissões de metano vêm do processo digestivo dos bovinos.

Da mesma forma, vai ser batido o martelo sobre outras medidas que vão envolver os demais setores da economia de base primária. Nesse sentido, torna-se fundamental que as esferas de governo, especialmente a estadual, tomem a liderança desse processo de ajustamento da produção às novas regras.

Como dito no início do texto, Goiás sempre esteve na vanguarda do agronegócio nacional. É mais do que natural que o governador Ronaldo Caiado (DEM) assuma o protagonismo dessa tarefa – é bom sempre lembrar a liderança nacional que ele conquistou diante do setor desde os tempos de direção da União Democrática Ruralista (UDR), que o levou até a uma candidatura a presidente, em 1989, e daí à vitoriosa carreira parlamentar e, agora, no Executivo.

Caiado se destacou nacionalmente no começo da pandemia, quando, por sua vivência como médico e sua experiência como político, não teve dúvidas sobre o que era necessário fazer para conter maiores danos causados à população goiana pela Covid-19, ainda que tomando medidas impopulares. Da mesma forma agora, com sua vivência como produtor rural e ator político, tem tudo para tomar a frente da atual situação de xeque em que se encontra a questão ambiental/agropecuária, diante das tarefas que os acordos da COP-26 imporão. Goiás, mais uma vez, tem tudo nas mãos para tomar a frente.

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