O presidente Lula da Silva, do PT, parece ter pressa. Num país como o Brasil, com tantas demandas, como as sociais, é preciso mesmo ter pressa. Porém, numa sociedade democrática, um gestor não faz só o que quer, e sim, sobretudo, aquilo que é possível. Há uma distância enorme entre intenção e ato.

Talvez por ter pressa, Lula da Silva fala muito, mas suas palavras não são traduzidas em ações. Eleito com um discurso de conciliação com as forças contrárias, com a intenção benfazeja de pacificar o país, o petista-chefe agora parece mais imbuído de estabelecer novos contenciosos.

Veja-se um caso específico, o do MST. Uma coisa é defender a reforma agrária e operar para que aconteça — outra é “aceitar” (e não condenar, por motivação ideológica e partidária) a invasão de terras produtivas.

A reforma agrária é uma medida mais capitalista do que socialista, tanto que seu fito é constituir novos proprietários rurais. Não se trata de coletivização das terras, como aconteceu na União Soviética do tirânico Ióssif Stálin.

Não se deve transformar o MST numa espécie de Lampião, ou seja, não se deve confundi-lo com banditismo. Há um problema social real. Mas seus dirigentes e membros precisam aceitar que, como quaisquer outros cidadãos, devem cumprir as leis. Não devem desafiar as decisões da Justiça. Tampouco é papel do presidente da República assumir sua defesa.

Se quer mesmo pacificar o país, Lula da Silva tem de agir como intermediário — via governo federal — para criar harmonia entre integrantes do MST e produtores rurais. Antes que aconteça alguma tragédia, como possíveis assassinatos e conturbação política generalizada e, quem sabe, incontornável.

Pacificar os conflitos não é a mesma cousa do que colocar o Estado a serviço das elites, dos produtores rurais endinheirados. É proteger todos os cidadãos e salvaguardar seus interesses, inclusive suas propriedades. O presidente da República é representante de todos, inclusive daqueles que não colaboraram para sua vitória nas eleições.

Jorge Gerdau, uma voz moderada

Lula da Silva deve colocar o Estado a serviço do social, sobretudo dada a dívida histórica que o país tem com os pobres, mas não pode ignorar aqueles que produzem. Realista, o presidente está pensando no todo, e não apenas em nichos ideológicos aliados. Tanto que fala, com frequência, sobre a reindustrialização do país. Ou seja, vai atender o empresariado patropi, e com razão.

Jorge Gerdau: um dos maiores empresários brasileiros | Foto: Reprodução

O Lula da Silva apressado, que anda falando sem refletir, deveria ler, com atenção, a entrevista que o empresário Jorge Gerdau Johannpeter concedeu aos repórteres Beatriz Bulla e Ricardo Grinbaum, do “Estadão”, na quinta-feira, 18. O título da matéria é: “Falta diálogo do presidente Lula com os empresários, diz Jorge Gerdau”.

Presidente do Movimento Brasil Competitivo, Gerdau assinala que o custo Brasil, avaliado em 1,7 trilhão de reais ao ano, contribui para travar o crescimento econômico do país. Onera todos, e não apenas os empresários.

“Quando eu tenho uma estrutura tributária, burocrática ou de energia, e eu encareço a cadeia produtiva com essa estrutura, perco minha capacidade competitiva para competir com as importações e perco a minha capacidade competitiva de exportação. O maior fator do não crescimento do setor industrial está essencialmente conjugado no tema do custo Brasil. Se você tomar o sistema tributário, tem entre 6% a 8% de custo de cumulatividade tributária em todos os produtos na cadeia produtiva. Isso atinge o resto dos setores”, afirma Gerdau. “Essa estrutura é obsoleta e não corrigida. Existe um desconhecimento político da dimensão dessa crise. Nós estamos 20, 30 anos atrasados.” Lula da Silva e seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não estariam percebendo isto, imersos em conflitos com o presidente do Banco Central e, por vezes, em guerras ideológicas?

Gerdau diz que, “no mundo inteiro, os encargos da folha de pagamento são aqueles vinculados exclusivamente à folha de pagamento. Nos EUA ou Europa, o empregado praticamente leva para casa próximo a 70%, 75% daquilo que ele custa. No Chile, o número é ainda mais favorável: leva 85% para casa aquilo que custa. No Brasil, tenho encargos que fazem com que o operário leve praticamente metade do que custa”. De novo, cabe perguntar: Lula da Silva, Fernando Haddad e Simone Tebet, a ministra do Planejamento, têm percepção — mais prática do que teórica — disso?

Custo Brasil e reforma tributária estão umbilicalmente ligados, de acordo com Gerdau. “No mundo, o IVA (Imposto Sobre Valor Agregado) tem praticamente um único imposto para todos, mas eventualmente duas categorias, talvez três. Pessoalmente sou favorável, porque aqueles produtos absolutamente necessários, da alimentação, etc, têm um crédito para baixar o custo ao máximo para a população de baixa renda, especialmente.”

O IVA assusta “as regiões que estão estruturadas” com base na agricultura — caso de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. “Mas, se for feito um IVA inteligente”, tais Estados e setores agrícolas “não perdem. Ao contrário. Eles hoje pagam os impostos absurdos que estão em cima de uma máquina agrícola ou em cima do adubo, eles poderiam ter o benefício de uma limpeza tributária na exportação”, sublinha Gerdau.

Os países do mundo dito desenvolvido usam o IVA. Exceto os Estados Unidos, “porque não tem imposto na estrutura industrial”, anota Gerdau. “No Brasil, no debate de interesse de áreas, querem um tipo de imposto que não tem em lugar nenhum do mundo, com a ilusão de que vão conseguir pagar menos na sua empresa. O pessoal olha no seu pedacinho. Eu digo: pare de detalhar as coisas e olhe o que o mundo faz. Se tenho os 30, 40 principais países fazendo desse jeito, eu tenho de fazer estupidamente igual.”

A reforma tributária brasileira, se sair mesmo do papel, vai contribuir para aumentar impostos. Como “o governo tem déficit e não está mexendo no custo, é pacífico que, no fim, vai sair algum aumento de imposto”. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tem alertado que o problema do país é o custo do governo, sua dívida. Não são apenas os juros do Bacen.

Gerdau insiste que “a não correção do custo Brasil é o maior fator de limitação do crescimento que o país tem”. Vale ressaltar que o empresário nem fala da taxa de juros. Deveríamos crescer 4% ou 5% ao ano para conseguir atender a demanda na perspectiva social”, sugere o empresário.

Mais grave problema está na educação

Poucos empresários falam em educação, aspecto da ideia de desenvolvimento — optando por discutir crescimento econômico, taxa de juros, impostos. Gerdau, pelo contrário, aprecia debater o tema. “O mais grave problema” do Brasil “está na educação. Enquanto o mundo está se adaptando a patamares tecnológicos, nós não conseguimos ainda uma alfabetização mínima da educação. O atraso e a não melhoria da educação básica é uma omissão comunitária e da elite brasileira que é inaceitável. E é um tema puramente de gestão, mas a palavra ‘gestão’ é proibida na educação — não por lei, mas de fato”. O economista Thiago Peixoto, quando secretário da Educação do governo de Goiás, tentou tornar a gestão mais efetiva nas escolas, mas encontrou uma resistência imensa.

A respeito do “orçamento de gastos”, Gerdau diz não saber se o governo vai “conseguir fazer os objetivos de receita”. “Existe incerteza sobre como vamos estar daqui a seis meses, nesse balanceamento de políticas orçamentárias de gasto em relação à receita. E a formação do Congresso não nos deu condições ainda de avaliar se o governo vai ter capacidade de passar com os projetos”. No momento, de fato, o governo de Lula da Silva enfrenta dificuldades no Congresso, notadamente na Câmara dos Deputados. O Centrão, ainda não devidamente conquistado, está “segurando” o governo. Tanto que o presidente praticamente avocou a articulação política para si.

Lula da Silva sempre foi visto como um político do diálogo, como um petista diferenciado. Porém, de acordo com Jorge Gerdau, “o diálogo do presidente com o meio empresarial está muito pequeno. Tínhamos alguns nomes da área econômica que definiram voto a favor do presidente Lula e, com as declarações do presidente, esse pessoal foi se afastando. No Brasil, ninguém tem condições de resolver os problemas sem mobilização de todas as frentes”.   

O presidente começou conectado, aparentemente desconectou-se, quiçá empolgado pelas luzes mesmerizantes do poder, mas, político inteligente e astuto, tende a se conectar novamente. Vai “cair na real”, para usar uma gíria antiga, que se usava por volta de 2003. O que se espera de Lula da Silva é que viva mais em 2023, como os demais 215 milhões de brasileiros. A rigor, com diplomacia e outras palavras, é o que Gerdau está dizendo.

Se fizer um bom governo, atento às necessidades reais dos brasileiros, Lula da Silva poderá temer menos uma, digamos, volta do ex-presidente Jair Bolsonaro e poderá, até, ser reeleito. Dada a falta de sintonia de Bolsonaro com o mundo, o que levou o Brasil a um certo isolacionismo, é provável que nem os empresários queiram o seu retorno, exceto em última instância.

Se a economia crescer, Bolsonaro perderá estatura eleitoral — isto, claro, se não tiver os direitos políticos cassados e se não for preso. Hipóteses plenamente possíveis, sobretudo a primeira.