O presidente Lula da Silva é socialmente responsável e bem-intencionado. Ao contrário do que a direita postula, a preocupação da esquerda petista com o social — com a ambição de produzir mais igualdade — é mesmo genuína

Os economistas Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso, professores da Fundação Getúlio Vargas, publicaram um artigo no jornal “Valor Econômico” (quinta-feira, 16), sob o título de “Não haverá reindustrialização”, que deveria ser lido, com atenção redobrada, pelo presidente Lula da Silva e pelos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e do Planejamento, Simone Tebet.

Desde já, vale a ressalva de que não se trata de uma crítica ideológica, e sim um artigo ponderado e sensato, inclusive com sugestões inteligentes e práticas do que se pode fazer.

Ferreira e Cardoso sublinham que, num primeiro momento, a agricultura é o setor dominante da economia e, por isso, chega a ocupar 80% da mão de obra. Porém, assim que “os países ficam mais ricos e a produtividade no setor aumenta, serviços e principalmente manufaturas crescem em termos absolutos e proporcionais”.

Os serviços deslancham dos demais setores e se tornas hegemônicos. A indústria, pelo contrário, começa a refluir. “Em economias maduras, os serviços representam hoje algo em torno de 75% a 80% do produto [PIB], a agricultura apenas 1% a 3%, e a indústria o restante. Nos Estados Unidos, o emprego no setor industrial hoje não passa de 15%”, relatam Ferreira e Cardoso. (O economista Flávio Peixoto foi pioneiro no registro de que o forte da economia de Goiás eram os serviços, e não outros setores.)

Pedro Cavalcanti: “Os serviços representam em torno de 75% a 80% do PIB, a agricultura apenas 1% a 3%, e a indústria o restante” | Foto: Reprodução

O fato de que a indústria representa apenas 15% do PIB não é, de acordo com Ferreira e Cardoso, um problema. “Esse é o processo natural e inevitável de desenvolvimento setorial. Há inúmeros fatores por trás desse fenômeno, entre eles, diferentes trajetórias de produtividade e inovação setorial e o fato de que, conforme países e indivíduos ficam mais ricos, a demanda por serviços — lazer, aplicativos, consultorias etc — cresce mais rápido que a por bens duráveis, e muito mais que por bens agrícolas. Isto é, a elasticidade-renda dos serviços é mais alta”, assinalam os especialistas.

A proteção do setor público à indústria brasileira, no lugar de fortalecê-la, contribuiu para fragilizá-la, e torná-la menos competitiva. “As políticas recentes dos governos petistas, por terem sido mal concebidas e implementadas, não tiveram qualquer impacto permanente”, sustentam Ferreira e Cardoso. “Incentivos à Zona Franca de Manaus, regimes especiais de tributação e créditos subsidiados do BNDES” não criaram uma indústria sólida como a alemã, a americana, a japonesa e a chinesa.

Ao contrário daqueles que apostam na indústria, como parece ser o caso de Lula da Silva e auxiliares, Ferreira e Cardoso postulam que, “com o passar do tempo, todas as economias serão economias predominantemente de serviço”.

Ferreira e Cardoso escrevem que “não se nega a inevitável redução da importância relativa do setor [industrial] no futuro, mas sim que em nosso país o pico da indústria — seu tamanho relativo máximo — estaria se dando a níveis de renda per capita muito abaixo daquele que se observou nos países hoje desenvolvidos”.

De acordo com os dois pesquisadores, “a globalização e a competição de países como a China acabariam por reforçar a desvantagem relativa” das economias emergentes. “No caso do Brasil, fechar a economia já foi tentado [os autores não dizem, mas isto não foi invenção dos petistas, pois existe desde Getúlio Vargas, com a substituição de importações — na década de 1940, foi um acerto —, e chegando até a ditadura militar, quando se expandiu a “reserva de mercado”], e só nos prejudicou, isolando-nos das cadeias produtivas globais. Educação e treinamento da mão de obra são ótimas ideias, mas seus frutos virão no longo prazo. E os defensores da reindustrialização estão longe, como sempre estiveram, de defender seriamente políticas educacionais.” O que afiançam Ferreira e Cardoso é, em parte, injusto. Porque, ao contrário do governo de Jair Bolsonaro, as gestões petistas (e as tucanas) valorizaram a educação. Corrigiram distorções, por assim dizer, seculares.

Renato Fragelli Cardoso: aposta em inovação e serviços | Foto: Reprodução

Os mestres da FGV indicam que, ao pôr a reindustrialização no centro de suas ações, o governo do PT pode estar, de alguma maneira, colocando o Brasil fora do mundo real. “Não há ainda sinais claros de como serão essas políticas [de reindustrialização] e como se buscará reverter uma inevitável mudança setorial.”

As políticas de reindustrialização do passado “foram caras e inúteis. Somente o governo Lula [entre 2023 e 2010] teve três políticas industriais oficiais, mas nada foi alcançado no médio prazo. No governo Dilma Rousseff, a Nova Matriz Econômica gastou bilhões, mas, além da dívida, não legou uma nova indústria maior e mais eficiente. As histórias de fracassos são muito mais comuns que as de sucessos”, apontam Ferreira e Cardoso. Os economistas esperam que, desta vez, a política de reindustrialização, se efetivada, busque caminhos mais eficazes.

Entretanto, Ferreira e Cardoso asseguram que, “mesmo que ‘desta vez seja diferente’, não vemos como mudar muito o quadro atual. O Brasil não tem ainda tecnologia nem mão de obras qualificada para competir globalmente em dimensões relevantes, já que parte grande de sua indústria sempre viveu de proteção e não de inovação. A alternativa de fechar a economia somente tornaria o país ainda menos produtivo e competitivo na escala global. Discute-se seriamente a volta da TJLP [Taxa de Juros de Longo Prazo], além de políticas de subsídios que foram boas para os industriais, mas não para a indústria ou para o país”.

A rigor, a reindustrialização é “um objetivo inalcançável”, além de caro, e por isso, garantem os professores-doutores da FGV, “não acelerará o desenvolvimento do país”.

Ferreira e Cardoso propõem outro caminho: “Políticas horizontais que beneficiassem todos os setores, mediante melhoria do ambiente de negócios e a redução de distorções alocativas, como a reforma tributária do consumo, mediante implantação do IVA [Imposto sobre Valor Agregado]. Estas seriam complementadas por políticas de inovação, tecnológicas e educacionais focadas em aumento de produtividade, que reconhecessem que inovações em serviços têm sido o motor do crescimento em economias avançadas”

Os economistas concluem que “repetir erros do passo, mesmo que utilizando uma linguagem moderna e nova, não gerará um acerto nem fará o Brasil crescer de forma sustentável”.

Pacto faustiano: uma especulação

O que se vai apresentar a seguir é uma especulação. E se a ideia de reindustrialização for uma espécie de pacto faustiano entre o governo de Lula da Silva e as elites patropis?

Este pacto faustiano se daria, como se deu em governos anteriores do PT, com a abertura dos cofres públicos — do BNDES, por exemplo — aos empresários, notadamente aos grandes (mais) e médios (menos), que quase sempre foram senhores do Estado brasileiro (numa espécie de privatização da esfera pública nada simbólica, e sim efetiva). Oxalá não se volte à tese dos “campeões nacionais”, pois, se eles frequentavam a série “A” de la dolce vita, a maioria dos brasileiros participavam — e participam — da série “C”.

Aqueles que “privatizam” o Estado, há décadas, costumam exigir que o dinheiro público lhes seja fornecido não em doses homeopáticas, e sim em grandes quantidades, com juros “subsidiados”. Depois de crescerem, e de expandirem seus negócios, devolvem dinheiro ao Erário? Por vezes, sim. Há os que quebram as empresas e “não” têm como pagar os “empréstimos” (de avô para neto). Mas ficam riquíssimos, não raro com bens em nome de terceiros, e deixam as sobras, alguns imóveis de segunda categoria e máquinas defasadas, para o governo federal.

Aqueles que exigem um Estado enxuto, que falam em “vitalidade do mercado”, têm o hábito de, sempre que possível, pendurar-se nas benesses dos bancos públicos, como BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil. Noutras palavras, Estado enxuto é para a sociedade, mas não para os privilegiados.

Mas do que, afinal, se trata o pacto faustiano? Fica-se com a impressão de que a intelligentsia do governo Lula da Silva avalia que, para pôr em ação um amplo programa social — que dê assistência e inclua de fato os pobres na sociedade —, é preciso “comprar” as elites, para que não se oponham à colocação do Estado a serviço da sociedade. É mais ou menos assim: para repassar recursos aos pobres, melhorando suas vidas em questões básicas, como alimentação e habitação, o governo tenha, antes, de ofertar milhões, quiçá bilhões, de reais aos ricos. Para que não criem caso e não atrapalhem a criação de uma sociedade menos desigual.

É o que está por trás do projeto de “reindustrialização” do país? Em parte, talvez. Mas o presidente Lula da Silva parece mesmo acreditar que o incentivo às indústrias patropis vai gerar empregos e melhorar a renda dos pobres (que, em geral desqualificados, raramente ficam com os empregos que possibilitam maiores rendas). O petista-chefe é socialmente responsável e, como tal, bem-intencionado. Ao contrário do que a direita postula, a preocupação da esquerda petista com o social — com a ambição de produzir mais igualdade — é mesmo genuína.