Lições da tentativa de golpe de Trump nos Estados Unidos ao Brasil de 2022

Horas após invasão do Capitólio nos Estados Unidos incitada pelo presidente norte-americano, chefe do Executivo brasileiro repetia mentiras sobre fraude e cobrava voto impresso

Milicianos integrantes de grupos supremacistas brancos norte-americanos invadem Congresso dos Estados Unidos durante a tarde quarta-feira, 6, incitados pelo presidente Donald Trump para tentar interromper reconhecimento do resultado da eleição presidencial que deu vitória ao democrata Joe Biden em 2020 | Foto: Win McNamee/Getty Images

Que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não desceu do palanque e esqueceu de governar desde o início de seu mandato, em 1º de janeiro de 2019, deixou de ser novidade para qualquer brasileiro há muito tempo. Em março de 2020, Bolsonaro disse ter provas de que teria vencido a eleição de 2018 não apenas no segundo turno, mas já na votação de primeiro turno. Até hoje não apresentou as tais comprovações, mas voltou a repetir as declarações na quarta-feira, 6, horas depois que supremacistas brancos incitados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a impedir a certificação no Congresso de que o democrata Joe Biden foi eleito no final do ano passado.

No final da tarde de quarta-feira, integrantes de grupos conspiracionistas, racistas, neonazistas e de extrema direita ultrapassaram o frágil policiamento na parte de fora do Capitólio, em Washington (DC), e quebraram vidraças para invadir o prédio do Congresso norte-americano. Convocados por Trump em discurso minutos antes, uma multidão marchou para tentar impedir o reconhecimento do resultado das eleições presidenciais que deram a vitória ao adversário do republicano.

A apoiadores no Brasil, Bolsonaro voltou a declarar que eram muitas as denúncias de fraude nas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Esqueceu – ou não quis citar – que mais de 60 ações judiciais contra o resultado das eleições foram rejeitadas por falta de provas em diversos tribunais no Judiciário norte-americano. Também não citou que no domingo passado, 3, uma gravação de Trump em ligação para o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, foi divulgada pelo jornal The Washington Post. No áudio, a voz de Trump aparece a tentar intimidar Raffensperger e sugerir que o titular da pasta encontrasse 11.780 votos e fingisse que aquilo fazia parte de uma recontagem.

Retomada dos trabalhos

Depois de negativa de reforço da Guarda Nacional, Congresso só foi retomado com ordem do vice-presidente Mike Pence para que forças militares entrassem no Capitólio | Foto: Drew Angerer/Getty Images

Depois de retirados os invasores após negativa de reforço policial por parte da Guarda Nacional, que só obedeceu a ordem Executiva vinda do vice-presidente Mike Pence, que presidia a sessão do Senado, os trabalhos parlamentares foram retomados e a vitória de Biden foi reconhecida pelo Congresso. Trump já tinha tentado de tudo, mesmo sem apoio. Até invocar uma lei marcial para impedir a posse do presidente eleito no dia 20 de janeiro. Os quatro anos do republicano à frente da Casa Branca caminham para o fim da forma mais assustadora possível, com uma tentativa fracassada de golpe de Estado.

Ameaçado pela articulação de parlamentares para que o vice-presidente invocasse a 25ª emenda, para destituir o presidente de suas funções por incapacidade, ou de sofrer um novo processo de impeachment, Trump voltou atrás e pediu a devida punição aos invasores na tarde de quinta-feira, 7. Mas vale lembrar que, provocado por Biden a comandar a desocupação do Capitólio, o republicano apenas gravou um vídeo, depois retirado do ar pelas redes sociais Facebook, Instagram e Twitter, no qual dizia amar os supremacistas que estavam no Congresso e pediu um protesto pacífico.

Antes, ensaiou com auxiliares mais próximos a possibilidade de usar o perdão presidencial para usar para se defender contra possíveis acusações criminais por ter incitado a multidão de apoiadores e grupos milicianos extremistas contra os senadores e deputados norte-americanos que estavam no Congresso. A história é tão inacreditável que nem precedente na história dos Estados Unidos existe. Como disse o jornalista Elio Gaspari horas antes da invasão ao Capitólio, toda a trama da tentativa de golpe de Estado arquitetada por Donald Trump supera qualquer roteiro escrito para os episódios das seis temporadas da série da Netflix House of Cards.

Mais um sinal

Depois de incitar grupos extremistas para tentar dar golpe de Estado e continuar no poder, Donald Trump é obrigado a mudar discurso e condenar invasão ao Congresso norte-americano no dia seguinte | Foto: Shealah Craighead/Official White House Photo

No Brasil, Bolsonaro dizia aos apoiadores que sem a aprovação do voto impresso para as eleições presidenciais de 2022 sabe-se lá o que pode ocorrer aqui. O presidente brasileiro se aproveitou do fervor golpista de milicianos neonazistas e racistas norte-americanos para dar combustível a suas bases na internet e no cercadinho do Palácio da Alvorada, em Brasília. O chefe do Executivo nacional trabalha incansavelmente para manter seus apoiadores unidos em torno de uma causa pela qual lutar. Mesmo que o inimigo seja imaginário.

Lá como aqui, os inimigos escolhidos por Trump e Bolsonaro para serem combatidos são a democracia. Enquanto em solo norte-americano o presidente derrotado tenta colar a imagem de que os democratas são comunistas e querem dar um golpe no sistema eleitoral dos Estados Unidos, no Brasil a versão trumpista tupiniquim se esforça para já trabalhar o discurso de vítima do sistema – que ele representa – caso perca as eleições de 2022. Até aqui, com a desunião das esquerdas e o fisiologismo da direita distante do extremismo bolsonarista, o presidente Bolsonaro tem garantido ao menos um lugar no segundo turno.

Dois dias antes da invasão do Capitólio por extremistas apoiadores de Trump, o deputado federal e filho de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), visitou a Casa Branca na segunda-feira, 4, e se encontrou com a filha do presidente dos Estados Unidos, Ivanka Trump. De acordo com o parlamentar do PSL, a ida à sede do Executivo norte-americano ocorreu para “reforçar os laços entre os nossos países”. Mais uma vez, a família Bolsonaro dá uma prova de que o poder foi subvertido no Brasil. Não se alia a ocupantes de cargos, mas mantém-se relações institucionais com nações. Ainda bem que Eduardo não conseguiu virar embaixador brasileiro nos Estados Unidos!

Cópia do modelo

Em mais de uma hora de dez minutos de live na quinta-feira, 7, ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltaram a desinformar população com dados equivocados e falsos sobre compra de vacinas e combate à Covid-19 | Foto: Reprodução/YouTube

Os apoiadores e torcedores pela vitória que não veio de Donald Trump na tentativa de se reeleger mostram que o Brasil pode esperar algo parecido ou pior ao que ocorreu na quarta-feira em Washington, sede do poder nos Estados Unidos. Cabe a pergunta de como será a resposta das instituições em nosso País caso Jair Bolsonaro não seja reeleito e tente dar um golpe de Estado nos moldes do fracassado plano de Donald Trump na semana passada. Se lá houve certa reação, inclusive que obrigou o presidente derrotado nas urnas a gravar um vídeo em que condena a invasão um dia depois de saudar os extremistas, aqui assistimos a uma quantidade inesgotável de notas de repúdio a cada declaração de incitação ao autoritarismo do presidente da República.

Um dos autores do livro “Como As Democracias Morrem”, o professor da Universidade de Harvard, Steven Levitsky, afirma que o golpe de Estado de Trump não se consolidou porque o presidente norte-americano não conseguiu o apoio dos militares. No Brasil a história é diferente. Bolsonaro conta com o suporte do ocupantes de baixas e médias patentes nas polícias e nas Forças Armadas. Entre os generais, conta com a fidelidade daqueles que ocupam cargos em seu governo. Será que no Brasil as instituições terão a mesma força para impedir os anseios autocráticos da família Bolsonaro?

Corremos o risco de esperar para ver no que vai dar. Nos Estados Unidos, a democracia quase sucumbiu aos ímpetos golpistas de Trump, que ainda pode tumultuar a política norte-americana, dentro ou fora do Partido Republicano. E no Brasil: quem irá arriscar esperar para ver até onde as declarações com desrespeito direto à Constituição, às instituições e aos brasileiros chegarão? Até aqui já foram mais de 200 mil mortos pela Covid-19 enquanto o governo federal brinca com a vida dos brasileiros. Até quando?

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