Jovens empresários ensinam como melhorar o Brasil

Por intermédio do programa Agenda Brasil do Futuro, empresários apoiam iniciativas de governas para qualificar serviços públicos e reduzir a corrupção

Há uma profusão de diagnósticos sobre o Brasil e poucas ideias para melhorá-lo de fato. Cansados disso, do pessimismo exacerbado ou do otimismo utilitarista, um grupo de jovens empresários decidiu estudar o país e propor alguns caminhos para melhorá-lo. A história deles é contada na reportagem “Jovens, ricos e engajados”, de Leo Branco, da revista “Exame”.

Quarenta empresários, integrantes de famílias que construíram empresas sólidas, como a Votorantim, criaram, em 2015, a associação Agenda Brasil do Futuro, sem fins lucrativos. Seu objetivo é melhorar o Brasil para todos, não apenas para os empresários.

A publicitária Luiza Scripilliti, da família Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, afirma que a intenção da associação é apresentar ideias para “destravar” o desenvolvimento do país. A máquina pública ineficiente é um dos problemas mais graves.

Em 2014, por meio do curso Legado para a Juventude, formulado pela educadora Daniela de Rogatins, com o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os jovens empresários começaram a se interessar, cada vez mais, pelo país de maneira geral. As palestras são ministradas por Gustavo Franco, Pedro Malan, Marina Silva e Joel Pinheiro da Fonseca. Este, filósofo e economista, é o coordenador do curso. O curso é circunscrito a São Paulo, Belo Horizonte e Ribeirão Preto, mas deve chegar ao Centro-Oeste brevemente. A procura é intensa.

“No grupo, procuramos entender as nuances para haver um engajamento de qualidade, e não fazer como numa guerra de torcidas”, diz Joel Pinheiro da Fonseca. Durante as aulas, surgiu a ideia de criar a Agenda Brasil do Futuro, relata a administradora Marina Cançado, da rede de farmácias Drogal.

Os empresários não são orientados a se filiar a partidos políticos. Mas alguns deles, como Giuliana Torre — filha de Walter Torre, da construtora WTorre — e Ricardo Simon, sócio do fundo de investimento Eclipseon, se filiaram ao Partido Novo.

Os empresários, preocupados com a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos, decidiram estudar o problema e descobriram sua raiz: “A falta de critérios técnicos na ocupação de cargos comissionados, que normalmente acabam na mão de gente sem conhecimento adequado e indicada por padrinhos políticos. Em 2015, a pressão do grupo fez o senador José Serra (PSDB-SP) apresentar um projeto de legislação com critérios técnicos para a seleção de diretores de agências reguladoras”. Gestor do fundo de investimentos Kviv, Raphael Klein, neto do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, luta, ao lado dos colegas, para que o Senado aprove o projeto.

Em três anos de atuação, os diretores do programa Agenda Brasil do Futuro estão tentando influenciar governantes a adotar métodos eficientes de gestão, inclusive para reduzir custos e potencializar a qualidade mão de obra.

Em Rondônia, relata a “Exame”, o governo adotou “uma seleção de cargos comissionados desenhados com o apoio dos jovens. A seleção é assim: um site divulga vagas abertas e critérios para ocupá-las. Os interessados passam por teste online e entrevistas com os futuros chefes e por gente graúda de órgãos de controle do Executivo. O intuito é dar lisura a um processo que, antes, só levava em consideração o apadrinhamento do indicado. Por ora, as gerências de dez secretarias e autarquias foram preenchidas dessa forma”.

O governador de Rondônia, Daniel Pereira, do PSB, “pôs em prática um sistema eletrônico para despachos de documentos em todas as instâncias da pasta. Antigamente, a sanha por carimbos fazia com que simples ofícios internos demorassem uma semana até de fato chegar ao destinatário. Agora, a aprovação dessa burocracia toda costuma ser feita em questão de minutos num software que alerta o gestor público sobre os documentos parados em seu computador — e lhe permite assiná-los por ali mesmo. (…) A inovação eliminou o leva e traz de papelada. Foi o suficiente para uma redução de 15% no número de funcionários lotados em tarefas sem ligação direta com a prestação de serviços públicos, a chamada ‘área meio’. (…) Essa melhoria permitiu dedicar mais gente ao combate ao crime”.

Daniel Pereira afirma que, “no futuro, todos os cargos públicos, inclusive os comissionados, terão de responder a um critério técnico, não só político, para o governo ser eficiente”.

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