Irismo quer transformar MDB em sucursal de Ronaldo Caiado

Numa contrafação histórica, Iris Rezende trabalha para retomar a hegemonia emedebista, enfraquecendo os Vilelas e fortalecendo o candidato do DEM a governador

Deputado federal Daniel Vilela e senador Ronaldo Caiado: por que a união das oposições não pode ser para bancar o primeiro, e sim apenas o segundo, para o governo de Goiás daqui a pouco mais de oito meses? | Fotos: Reprodução e André Costa/Jornal Opção

O MDB surgiu na década de 1960, como sucessor do PSD, com o objetivo de combater a ditadura, e seu partido, a Arena. No fim de 1964, o governador Mauro Borges foi derrubado por um golpe liderado por udenistas, como Emival Caiado e Ary Valadão. Integrantes da família Caiado apoiaram os 21 anos tenebrosos da ditadura civil-militar e, portanto, combateram os líderes do emedebismo — como Henrique Santillo, Lázaro Bar­bosa, Iris Rezende, Juarez Magalhães, Juarez Bernardes, Adhemar Santillo, Frederico Jayme e, entre outros, Fernando Cunha.

Dizia-se, durante anos, que PSD e UDN não se misturaram (no governo de Juscelino Kubitschek, houve certa mistura, mas não intensa). Depois, MDB e Arena, de meados da década de 1960 até 1980 — quando o bipartidarismo soçobrou —, se tornaram rivais figadais. O MDB trabalhava pelo fim da ditadura e a Arena pela permanência do regime militar. Emival Caiado, Brasílio Caiado, Leonino Caiado, Ary Valadão e Hélio de Brito irmanaram-se na luta pelo prolongamento da ditadura, criticando, não raro de maneira acerba, o emedebismo, que lutava pela redemocratização.

Corte para 2014

Há quase quatro anos, o PMDB — que voltou a ser MDB (mantendo os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá) — de Goiás uniu-se ao DEM (a velha UDN com nome de Democratas, o que não deixa de ser curioso, porque o udenismo representava o golpismo e alguns de seus líderes eram vivandeiras) e contribuiu, de maneira decisiva, para a vitória de Ronaldo Caiado a senador. Sem o apoio dos emedebistas, o líder do Democratas não teria sido eleito. Seu suplente, Luiz Carlos do Carmo — que não consegue assumir o mandato nem mesmo quando o titular está doente e não comparece ao Senado —, pertence ao MDB. Portanto, já na eleição passada, o emedebismo começava a se submeter ao caiadismo — renegando sua história de luta. Curiosamente, fica-se com a impressão de que líderes do partido foram acometidos pela Síndrome de Estocolmo.

Tanto que, para a eleição de governador, que será realizada em outubro deste ano, daqui a oito meses e alguns dias, parte do MDB, a facção liderada pelo prefeito de Goiânia, Iris Rezende — o prefeito de Catalão, Adib Elias, é inexpressivo em termos regionais, e segue o decano emedebista quase caninamente —, mais uma vez tenta submeter-se a Ronaldo Caiado. Depois de dar-lhe um mandato de senador, agora parte do MDB quer presenteá-lo com um mandato de governador. O leitor certamente perguntará: por quê? Não há nenhum segredo, mas há duas explicações.

O irismo, a vertente decadentista do MDB, perdeu energia e hoje tem de aceitar que o partido é comandado pelo deputado federal Daniel Vilela, o presidente da legenda, e por seu pai, Maguito Vilela — um líder respeitado. Sozinho, o irismo não consegue retomar o controle do emedebismo. Seus líderes, que não são mais jovens, avaliam que, para retomar o controle do partido, precisam ganhar o governo ou pelo menos bancar o candidato a governador. Por isso buscaram Ronaldo Caiado — um outsider que está tentando se apresentar como insider — e tentam emplacá-lo como candidato.

Ao mesmo tempo, o irismo sugere que o senador, se eleito, comandará uma caça às bruxas contra o governador de Goiás, Marconi Perillo, e seus aliados. A cola que une Iris Rezende e Ronaldo Caiado não é uma ideia — não é um projeto para transformar Goiás e melhorar a qualidade de vida de todos os goianos —, e sim o ódio, o desejo de vingança contra um político que derrota os dois políticos (mais o emedebista), em disputas democráticas, há vários anos.
Iris Rezende não é o tipo de político que articula publicamente, por isso suas digitais não aparecem de maneira acentuada. Seus epígonos, os prefeitos Adib Elias, Ernesto Roller, de Formosa, e Paulo do Vale, de Rio Verde (frise-se que os dois últimos pouco têm a ver com a história do MDB), aparecem e, talvez por não serem ideólogos de grande preparo intelectual — o primeiro, sobretudo, é apenas um “trator” político — e apresentam um argumento simplório que sugere mais fraqueza do que força. Segundo o trio, que repete o discurso de Ronaldo Caiado — de fato, um político que tem méritos e é articulado —, se as oposições não marcharem unidas (sintomaticamente, o irismo-caiadismo exclui o PT do deputado federal Rubens Otoni e do vereador Antônio Gomide, de Anápolis), mais uma vez perderão para o candidato do governo, agora José Eliton, do PSDB.

Prefeitos Adib Elias, de Catalão, Ernesto Roller, de Formosa, e Paulo do Vale, de Rio Verde: os iris-boys ou olds querem devolver o controle do MDB ao irismo, por isso não apoiam o deputado Daniel Vilela para governador

Há pelo menos duas fissuras graves no “argumento” — quiçá uma falácia — do irismo-caiadismo. O que importa não é apresentar um projeto para governar Goiás, para colocá-lo em novo patamar, e sim uma uniãotão-somente com o objetivo de retirar o tucanato do poder. O irismo — a partir de 2014, aliado ao caiadismo — perdeu cinco eleições consecutivas não por falta de união (em 2014, o emedebismo e o caiadismo estavam unidos e, mesmo assim, perderam governo; não custa lembrar que o candidato derrotado foi Iris Rezende), e sim porque não apresentaram um projeto de modernização de Goiás superior ao do grupo que estava e está no poder há quase 20 anos. Iris Rezende, até mais do que Ronaldo Caiado, deixou de ser contemporâneo dos goianos atuais. Ele mantém os pés firmemente incrustados no passado — como se o passado fosse areia movediça — e não tem uma compreensão precisa do presente, que parece ser seu adversário. Sua administração como prefeito de Goiânia é bisonha. Seus aliados são escolhidos por simpatia e não pelo critério da competência. A fulana cuida da saúde de um parente e, embora nada entendendo do planejamento da área, é escolhida como gestora.

Em síntese, o emedebismo, agora acoplado ao caiadismo — que faz o discurso negativo, não propositivo —, perdeu cinco eleições porque não se renova e não apresenta projetos de qualidade. Qual o projeto que o irismo-caiadismo tem para substituir a Bolsa Universitária? Ronaldo Caiado e Iris Rezende nunca apresentaram uma ideia melhor do que a bolsa que garante espaço, nas universidades, para milhares de estudantes pobres. Pode-se dizer que a Universidade Estadual de Goiás é ruim? Evidentemente que não. Se eleito, o que o senador faria para requalificar a UEG? Não se sabe. O Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e o Hospital de Urgências Otávio Lage (Hugol), que se tornaram referências nacionais, são projetos renegados por Iris Rezende e Ronaldo Caiado? Este, médico ortopedista, certamente aprova o que seus colegas de medicina — como o notável ortopedista Sérgio Daher — fazem nas duas unidades. Admitir que há alguma coisa certa e que funciona seria, mais do que descortino, sugerir que os políticos, mesmo quando na oposição, são idôneos.

A segunda fissura tem a ver com a renovação. Por que Iris Rezende, Adib Elias, Ernesto Roller e Paulo do Vale preferem apoiar um político das antigas, como Ronaldo Caiado, de quase 70 anos, do que um jovem, Daniel Vilela, de apenas 34 anos? Pode-se argumentar: ele não tem experiência. Não é bem assim.

Daniel Vilela é formado em Direito e pós-graduado em Gestão Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi vereador em Goiânia, a maior cidade de Goiás, e deputado estadual. Ele é deputado federal e presidente do MDB em Goiás. Portanto, tem certa experiência. Ademais, é filho de Maguito Vilela, que foi vice-governador, governador, senador e prefeito de Aparecida de Goiânia. Portanto, se o MDB quer mesmo renovar, sua aposta não é Ronaldo Caiado — seria o emedebismo ressuscitando o udenismo, o que é paradoxal —, e sim Daniel Vilela.

O único critério para o irismo bancar Ronaldo Caiado parece ser pesquisa de intenção de voto, deixando de perceber que pesquisas extemporâneas podem nada significar em termos de outubro de 2018. No fundo, a questão é outra: o irismo subordina-se ao caiadismo com a finalidade de tentar enfraquecer o vilelismo e, desde modo, reconquistar o controle do MDB. Goiás e os goianos não têm, do ponto de vista desta jogada política, nenhuma importância. São meros peões.

Até uma criança de 10 anos poderia perguntar: se tem um candidato, e com espírito renovador, por que o MDB quer apoiar um candidato tradicional, e de outro partido? Por que Ronaldo Caiado cobra o apoio de Daniel Vilela, mas não quer apoiar a candidatura do emedebista? Como tem mandato de senador até 2022, nada mais factível do que apoiar o jovem emedebista.

Restar concluir que, mais uma vez, o irismo-caiadismo não tem um projeto de governo. Tem, isto sim, um projeto de poder. E um projeto de poder, no caso do irismo, que exclui seus aliados, como Daniel Vilela, para bancar um candidato de fora, Ronaldo Caiado. A impressão que se tem é que Iris Rezende, que tem uma história na política de Goiás, está se tornando um político tão provinciano quanto Adib Elias, que aprecia ser chamado de “trator”… Mas é inegável que está jogando para triturar os Vilelas, para submetê-los…

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Luciano Almeida

O “projeto” de Iris sempre foi – e será – o poder hegemônico. Nos anos tenebrosos da ditadura militar, não há registro de nenhuma palavra sua Iris contestando o arbítrio, defendendo a democracia. Sua cassação, segundo ele, “foi injusta”. Verdade. Ninguém, no MDB apoiou mais a ditadura do que Iris – que nunca foi oposição de verdade. Aliás, suas origens estão na UDN – por onde elegeu-se inicialmente. Sua “adesão” ao PSD foi mero arranjo: Na ânsia do poder abandonou eleitores e aliados sem pestanejar – e instalou-se na sombra poderosa de Pedro Ludovico. Após a cassação do mandato de… Leia mais