Iris Rezende age como cupido para atrair Daniel Vilela para Ronaldo Caiado

Por que quem tem mais estrutura, o deputado federal, vai se “entregar” a quem tem menos estrutura, o senador, na disputa de 2018?

A política é um jogo, por vezes brutal, e eventualmente suave. O comportamento delicado, a fase dos salamaleques, lembra os primeiros encontros entre namorados apaixonados — quando tudo é belo e o outro é, por certo, nosso espelho. Depois, quando o espelho se quebra e começa-se a perceber o outro como é — a tendência é que se avalie as pessoas pelos extremos, e não pela média, o que é mais humano —, se registra o conflito. A crise, decorrente da percepção das diferenças — que, na verdade, são o sal da vida —, pode ser construtiva ou destrutiva.

No momento assiste-se o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB) — verdadeiro patrono da dissidência emedebista pró-Ronaldo Caiado (DEM), pois Adib Elias, de comportamento tipicamente provinciano, nada lidera —, comportando-se, com certa sutileza, como cupido político. O decano de 84 anos, cujo principal sonho é arrancar o grupo do governador de Goiás, Marconi Perillo, do poder, tenta casar, em termos políticos, o senador Ronaldo Caiado com o deputado federal Daniel Vilela (MDB).

Um casamento, por amor ou interesse, tem de contemplar as duas partes, exceto se uma, planglossianamente, aceitar ser iludida pela outra. O problema é que o dote de Daniel Vilela, embora maior, está sendo visto pelo irismo como menor do que o de Ronaldo Caiado. Portanto, a tentativa de noivá-los certamente não redundará em casamento.

A articulação do irismo é a seguinte: Ronaldo Caiado para governador e Daniel Vilela para vice-governador (ou senador). Trata-se de um casamento que agiganta o presidente do Democratas e diminui o presidente do Movimento Democrático Brasileiro. Por que quem tem o maior dote — estrutura política — tem de aceitar as regras de quem tem dote menor?

Ronaldo Caiado e Daniel Vilela são políticos respeitáveis — com históricas positivas — e inteligentes. Eles sabem que, no amor e na política, ninguém engana ninguém. Há quem se deixe iludir? Talvez sim. Mas sabe que está sendo iludido. Isto só ocorre, po­rém, quando se é, politicamente, fraco. Mas Daniel Vilela, amparado pelo ex-go­vernador Maguito Vilela e pelo e­medebismo, pode ser visto como fraco? De maneira alguma, o jovem po­lítico é deputado federal — o irismo não tem nenhum deputado federal — e é presidente do PMDB. Co­mo o sertanejo descrito por Eu­cli­des da Cunha, em “Os Sertões”, é um forte.

Se não há amor entre Ronaldo Caiado e Daniel Vilela, apesar do esforço das flechas do cupido Iris Rezende, será possível “casá-los” por interesse? Mas, afinal, quais interesses e interesses de quem?

Quem ganha com o casamento entre o democrata e o emedebista? Tal­vez só o primeiro e o cupido. O cupido? Como assim? A força de Iris Rezende advém de sua história e, no momento, de ser prefeito de Goiânia. Mas, dadas as três derrotas para o tucano Marconi Perillo, tornou-se um político municipal, da capital, e não mais um político regional.

O fato de Daniel Vilela ser presidente do MDB, e não Nailton Oliveira, demonstra a falta de vigor político de Iris Rezende. O ex-prefeito de Bom Jardim é pupilo do prefeito de Goiânia. Se tivesse sido eleito, o decano dos decanos seria hoje hegemônico no partido e, portanto, teria condições de impor a candidatura de Ronaldo Caiado a governador. Sem a necessidades de salamaleques.

Não tendo o controle do MDB, Iris Rezende precisa apresentar-se de maneira humilde para tentar seduzir Daniel Vilela. Como Ulisses, o da “Odisseia” de Home­ro, o peemedebista, que percebe Goiás como sua Ítaca, não tem sido mesmerizado pelo canto de sereia que emana do Paço Municipal.

Se não se submete ao decano dos decanos, e se lidera o PMDB, por que Daniel Vilela aproxima-se cada vez mais de Iris Rezende? Quer, afinal, “casar-se” com Ronaldo Caiado? Não, longe disso.

Político hábil, que percebe com nitidez de onde o poder deriva, Daniel Vilela cerca Iris Rezende de cuidados especiais, mostrando-se respeitoso, porque sabe que, se conseguir seu apoio, possivelmente atrairá o dos prefeitos recalcitrantes, como Adib Elias, de Catalão, e Ernesto Roller, de Formosa. O único que possivelmente resistirá um pouco mais será o de Rio Verde, Paulo do Vale — que é mais caiadista do que emedebista. Só Iris Rezende pode conter o riocorrente de parte do emedebismo em direção a Ronaldo Caiado.

Insista-se num ponto: Iris Rezende aprecia muito mais Ronaldo Caiado, o herdeiro que gostaria de deixar — porque é o político que confronta Marconi Perillo, o político que desestadualizou-o e o municipalizou-o —, do que Daniel Vilela, que, na sua visão, não representa, ao menos em termos imediatos, uma ameaça radicalizada ao marconismo.

Há iristas que chegam a sugerir, de maneira enganosa, que o vilelismo está se tornando um facção do marconismo. A realidade é outra: o vilelismo não é marconista, mas intui que, para conquistar o poder — o que o emedebismo, sob a batuta de Iris Rezende, não consegue há quase 20 anos —, pode precisar de sua energia.

É preciso reafirmar: em política, como no amor, ninguém engana ninguém. Todos estão jogando — cada um com suas armas. Maguito Vilela, mesmo quando tem um “fuzil” nas mãos, deixa a impressão de que carrega uma “flor”. Articula mais do que o filho, jogando duro nos bastidores, mas, em termos pú­blicos, é de uma suavidade que im­pressiona e galvaniza. Daniel Vilela lembra, não raro, mais Iris Rezende e, aqui e ali, o Marconi Perillo dos primórdios da década de 2000.

Retomando um fio do novelo, similar ao que orientou Teseu no labirinto do Minotauro, é de algum alvitre insistir que uma aliança entre Ronaldo Caiado e Daniel Vilela, já no primeiro turno, é extremamente benéfica a Ronaldo Caiado e, sim, a Iris Rezende. Por dois motivos.

Primeiro, se Daniel Vilela sair do páreo, aceitando a vice ou o Senado (para si ou para seu pai), torna-se, de um dia para o outro, não mais um player, e sim um subordinado político. Ficará com a imagem que perdeu a coragem ao submeter-se a Ronaldo Caiado — o que nunca ocorreu com um emedebista goiano desde quando o partido era nominado de PSD, entre as décadas de 1950 e 1960, passando pelo MDB, nas décadas de 1960 e 1980, e chegando ao PMDB (que agora retoma a sigla MDB).

Segundo, se Ronaldo Caiado for eleito governador, com o apoio de Daniel Vilela, sua primeira providência será “matar” o vilelismo e “ressuscitar” o irismo. O primeiro confronto seria interno, com a devolução do poder emedebista a Iris Rezende. O segundo confronto seria a perseguição ao marconismo na tentativa de minar um possível retorno.

O que se está sugerindo é que o “amor” de Ronaldo Caiado por Daniel Vilela, mediado pelo cupido Iris Rezende, é o mesmo que abraçar um escorpião. O que é “excelente” para o senador tende a ser “danoso” para o deputado federal.

Se tem um candidato de mentalidade renovadora, Daniel Vilela, por qual motivo parte do PMDB quer se tornar “rebanho” de Ronaldo Caia­do? O motivo básico é que parte do emedebismo é de um conservadorismo sem limites. Ou alguém pode dizer que Adib Elias e Paulo do Vale são políticos modernos e criativos? Ganham eleição para prefeito porque são patronos da política do arroz com feijão, que ainda agrada o eleitorado.

No lugar de renovar, de investir no novo — pela primeira vez nos úl­timos 20 anos —, mais uma vez, pela sexta vez, o MDB vai investir num político tradicional, que, para ficar com a aura de novo, quer Daniel Vi­le­la como vice? Por que insistir no que não deu certo com base unicamente em pesquisas de intenção de voto totalmente extemporâneas? O jornalista e escritor Ivan Lessa escreveu que, de quinze em quinze anos, o brasileiro esquece os últimos quinze anos. Mas convém lembrar um fato incômodo.

Em 1994, há quase 24 anos, Ronaldo Caiado candidatou-se a governador de Goiás e começou como líder absoluto nas pesquisas de intenção de voto. Nos primeiros levantamentos, aparecia com mais de 30%, enquanto Maguito Vilela, do PMDB, tinha apenas 3%. Apurados os votos — a única “pesquisa” 100% legítima —, o primeiro colocado, Ronaldo Caiado, caiu para terceiro lugar, atrás de Lúcia Vânia e de Maguito Vilela. Este, no segundo turno, foi eleito governador de Goiás.

O competente jornalista Welliton Carlos publicou uma entrevista de Ronaldo Caiado na edição de sexta-feira, 22, no jornal “Diário da Manhã”. Na penúltima resposta, o pré-candidato do DEM a governador diz uma frase certeira — um psicanalista freudiano diria que se trata de um ato falho? —, que, a rigor, vale um artigo à parte: “Uma eleição muda até junho do ano que vem”. Ele tem razão: não há nada definido e, por isso, Daniel Vilela não precisa se entregar ao “noivo” político, Ronaldo Caiado, arranjado por Iris Rezende. Afinal, não há, no caso, nenhum traço de amor real. Só interesse. Os Vilelas sabem, por experientes que são, que apoiar o líder do DEM é o mesmo que praticar haraquiri político. Eles são “dulces”, mas jamais tolos…

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Joab Leonardo

As matéria desse jornal são excelentes, só acompanho a política de Goiás por aqui !