Historiadora Anne Applebaum diz que regulação das redes sociais pode reduzir extremismo político

Bolsonaro e Trump são “filhos” da radicalização global e usam o negacionismo como arma política, aproveitando-se da ignorância de muitas pessoas 

A intelectual Anne Applebaum é autora de livros excepcionais. Num deles (ganhou o Prêmio Pulitzer) descortina o Gulag soviético, explicando-o detidamente. Concluída a leitura, há de se perguntar por que o genocídio comunista não é visto de maneira tão execrável quanto o Holocausto produzido pela Alemanha de Adolf Hitler. Noutra obra, expõe, de maneira ampla, o uso que o governo do comunista Ióssif Stálin fez da fome para combater (e matar) milhões de pessoas comuns — portanto, não apenas adversários políticos — na Ucrânia. A pesquisa, ancorada em documentos e numa interpretação tão segura quanto equilibrada, é exaustiva. Há também um estudo sobre a Cortina de Ferro, os países do Leste Europeu que, depois de anos sob o comando soviético, viram seus respectivos governos comunistas ruírem da noite para o dia. Agora, a historiadora e jornalista — que estudou em Yale, na London School of Economics e em Oxford — volta às livrarias patropis com uma obra pequena, mas de grande envergadura: “O Crepúsculo da Democracia — Como o Autoritarismo Seduz e as Amizades São Desfeitas em Nome da Política” (Record, 168 páginas, tradução de Alessandra Bonrruquer).

Devido ao lançamento do livro, e certamente por causa de Anne Applebaum discutir o populismo autoritário que assola o mundo, incluso o Brasil, a revista “Veja” decidiu entrevistá-la. Vale expor o que a autora discute. Mas, antes, sugerimos, ainda que rapidamente, um debate sobre a suposta crise da democracia.

Sociedades democráticas são mesmo fragmentárias e, portanto, polarizadas. O território comum é o acatamento do que propõem as leis e o respeito às instituições. Portanto, a defesa de sociedades unitárias, com menos conflito, é tão contraditória quanto uma impossibilidade lógica. Não se está defendendo, é claro, a polarização como instrumento político, sobretudo a construída ou potencializada por grupos extremistas de direita e de esquerda. O que se está dizendo é que sociedades que se debatem, a partir de pontos de vista contrários, são as mais democráticas. É provável que, depois de um acirramento inicial e de um contencioso exacerbado, as águas da pacificação retornem ao leito natural dos rios da civilidade. O ponto comum deve ser a defesa intransigente da democracia como valor universal. Quantas às diferenças entre os grupos e indivíduos, elas vão continuar. Sempre foi assim e assim continuará.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, do Partido Democrata, vai aglutinar as partes divergentes da sociedade? Não vai. Entretanto, com seu comportamento moderado, poderá, pelo exemplo, contribuir para aumentar o nível de civilidade entre aqueles que não pensam da mesma maneira sobre política, economia e comportamento. Palavras de paz não vão eliminar a polarização, que as redes sociais — espécie de reino das selvas — potencializam, mas podem suavizar o debate. Talvez seja possível criar um “território de abertura”, de congraçamento, ainda que não totalizante, entre contrários.

Anne Applebaum: uma das principais historiadores dos Estados Unidos | Foto: Reprodução

O Jornal Opção também tem uma posição dissidente sobre a questão da chamada “crise da democracia”. Há até quem fale em “morte” da democracia. De fato, está sob ataque em alguns países. Mas, na média, vai bem, obrigado. Há de se perguntar: a crise maior não é das interpretações sobre a crise da democracia? Porque, sublinhando, a democracia vem resistindo bem — inclusive no Brasil. O deputado federal Daniel Silveira (PSL, a caminho do PTB) atacou um dos pilares da democracia brasileira, o Supremo Tribunal Federal, e acabou preso. Frise-se que o parlamentar é umbilicalmente ligado ao presidente da República, Jair Bolsonaro — um populista autoritário, que, nacionalista, enquadrou o liberal Paulo Guedes, ministro da Economia, transformado em Posto Tabajara, depois de ser vendido ao mercado como Posto Ipiranga.

Vamos agora ao que Anne Applebaum disse à “Veja”. A revista postula que, com a queda de Donald Trump, pode-se falar em refluxo do populismo e do autoritarismo no mundo. Precisamente, com a lógica do historiador, e a não a pressa do jornalista, a pesquisadora assinala: “É cedo para comemorar. (…) Apesar de sua derrota em 2020, o desapontamento com a democracia ainda está vivo nos Estados Unidos, na Europa e em muitos outros países com eleições livres, até mesmo no Brasil. As ideias autoritárias se alimentam de uma insatisfação profunda de muitas pessoas com os rumos da vida moderna e as dramáticas mudanças sociais e demográficas das últimas décadas. Esse mal-estar não sumirá com a queda de Trump”.

A invasão do Capitólio foi orquestrada, na opinião de Anne Applebaum, por “uma horda de loucos antissistema que tinham as instituições como alvo. Foi uma explosão de toda a raiva insuflada ao longo de anos de polarização nas redes sociais”. A pesquisadora tem razão em parte, mas por que tachar de “loucos” os manifestantes? Por mais que não haja uma orquestração orgânica, com certo grau de refinamento, não se pode apontar os invasores como “malucos”. Se o alvo eram as instituições, como afirma a historiadora, houve método no protesto, o que retira o caráter de “loucura”. A anarquia às vezes tem certo grau de organicidade, ainda que, ao ser exibida, não pareça.

Jair Bolsonaro e Donald Trump: negacionismo como instrumento político | Foto: Reprodução

Regulação das redes sociais

O repórter Marcelo Marthe quer saber se o debate civilizado e racional será, um dia, retomado. Anne Applebaum é cética: “Não há caminho de volta ao passado. Os países democráticos terão de reinventar o modo como se faz política. A fusão de autoritarismo e populismo — na era da brutalidade — está presente em vários países, como Estados Unidos, Brasil, Polônia e Filipinas. “Como todos esses países não comungam a mesma cultura, fica claro que o fenômeno que une a todos nas divisões radicais são as mudanças no ecossistema da informação — mais especificamente, a influência das redes sociais”, afirma a estudiosa.

Os extremismos das redes sociais podem ser contidos? Trabalhar para contê-lo é democrático? “Já chegou a hora de encarar a necessidade de uma regulação pública das redes. Não se trata de remover ou censurar conteúdos, mas de apoiar um crescente movimento pela adequação dos algoritmos das plataformas ao interesse público. Hoje, a lógica das redes é dar relevância a qualquer conteúdo que traga engajamento, e por isso viraram o paraíso das fake news e dos discursos irracionais. Os algoritmos estimulam os usuários a fazer coisas deprimentes que vemos hoje na internet. É preciso inverter a lógica, dando mais relevância àquilo que nos une e à informação confiável”. A pergunta é: há como fazer tal regulação? Por certo, há. Mas parte significativa do público, que nem percebe o quanto é usada e instrumentalizada, certamente se posicionará ao lados das bigs tecs, como Facebook, Twitter e Google, denunciando e transformando a regulação em sinônimo de censura.

Pintura de Remedios Varo

Anne Applebaum sugere que, “ao lado das redes sociais que já existem”, sejam dispostos serviços públicos esclarecedores. “Taiwan criou fóruns públicos de debate sobre problemas que galvanizam a população, e a resposta das pessoas tem sido excelente.”

A pandemia do novo coronavírus — responsável por 2,5 milhões de mortes, em um ano, o que significa uma das “guerras” mais letais da história — tem sido instrumentalizada pela política global? “Nos Estados Unidos, Trump investiu no caos e no negacionismo, e errou feio. Em outros lugares, a pandemia serviu de desculpa para ampliar as políticas autoritárias — foi o que fez Viktor Orbán na Hungria. Agora, os líderes passaram a ser cobrados por sua capacidade de responder ao clamor por vacinas. Alguns populistas, no entanto, tiram proveito do fato de que nem todas as pessoas pensam assim — e isso se aplica ao Brasil. Seria ingênuo subestimar que parte da população vibra quando Trump ou Jair Bolsonaro conclamam a se ignorar a pandemia e a se rebelar contra as máscaras. A mensagem é ‘não ouçam os médicos, é tudo bobagem’. Se você está com medo de ficar doente e perder o emprego, traz alívio ouvir que é só uma gripe e logo passará. É uma fuga da realidade”, assinala Anne Applebaum. Pois a “gripezinha” de que fala Bolsonaro já matou mais de 253 mil pessoas — algumas famílias foram praticamente dizimadas. O fato de não agir com a devida premência para aumentar o índice de vacinação e as críticas diretas ao uso de máscara sugerem que Bolsonaro não tem preocupação com a vida. Mesmo economistas ortodoxos, monetaristas, como Henrique Meirelles (engenheiro especializado em economia), têm postulado que a vacinação em massa será um dos fatores decisivos para a recuperação da economia. Mas o presidente, que não é o Cândido ou o Dr. Pangloss de Voltaire, não ouve a voz da razão, exceto a voz de sua própria razão irracional e, essencialmente, letal para os brasileiros.

Pintura de Mike Davis

O negacionismo “não é uma escolha impensada”. “O negacionismo pode ser popular. Ninguém quer ouvir que pode morrer, ou que terá de passar meses trancado em casa e cancelar a festa de casamento. Instintivamente, Trump captou o apelo disso”, anota Anne Applebaum. Porém, acrescenta, “como a maioria dos eleitores americanos pensava diferente, ele acabou derrotado na eleição. Mas os negacionistas continuam sendo uma parcela ruidosa da população. É trágico a insistência de Trump e Bolsonaro no uso da cloroquina. No meio do horror das mortes, tudo o que ofereciam às pessoas era a crendice em uma droga milagrosa. Não é à toa que o estrago do vírus tenha sido tão forte nos Estados Unidos e no Brasil”.

Trump, Bolsonaro e outros políticos são mestres das teorias conspiratórias e seus epígonos são doutores na arte de espalhar fake news. “As teorias conspiratórias e a desinformação são úteis para os populistas porque minam a fé das pessoas nas instituições, na imprensa e na sociedade civil. Elas têm especial apelo para uma parte da população que se sente esmagada pelo turbilhão de informações despejado pela internet. Vivemos numa era em que as pessoas ouvem, leem e assistem a muita coisa sem saber como separar fatos de mentiras. Elas buscam desesperadamente quem simplifique o que não lhes faz sentido, e se tornam presas das campanhas de ódio”, postula Anne Applebaum.

A historiadora sugere que os extremismos de direita e de esquerda são diferentes, mas, de alguma forma, hermanos — com um “clamando” pelo outro (não há dúvida de que Bolsonaro quer enfrentar o petismo e o petismo quer enfrentar Bolsonaro; com uma diferença: o PT é de esquerda, mas não é extremista). “Estamos diante de uma espiral de extremismos: o radicalismo da direita atiça o radicalismo na esquerda, e ambos redobram sua intolerância. Os radicais fizeram da política um terreno de debates irreconciliáveis, em vez de focar no essencial, as pautas que unam as pessoas.”

Como explicar Bolsonaro? Seria um democrata com vocação para ditador? Pode até ser. Mas, assim como deve se postar contra qualquer tentativa de golpe, a oposição tem de postular que a via correta para afastar Bolsonaro da Presidência da República é o voto, quer dizer, permitindo que os eleitores, inclusive aqueles que o elegeram em 2018, decidam o que fazer com ele em 2022. A democracia cobra tolerância de todos — não só dos nossos adversários.

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