Governo de Ronaldo Caiado tem de trabalhar para não fazer oposição a si mesmo

No mundo hiperconectado, não há mais como governar sem transparência. Mas governo não deve atirar nos próprios pés

Se crítica e, ao mesmo tempo, responsável, a oposição também governa. Mas a oposição pela oposição, cujo objetivo é unicamente a próxima eleição, não contribui para o avanço de um município, de um Estado e de um país. A crítica, formulada de maneira qualificada, corrige rumos e contribui para avanços. O que ilumina o mundo é a verdade — goste-se ou não de seu poder corrosivo. A verdade é construtiva, ainda que, no curto prazo, possa não parecer.

Os melhores governos são aqueles que se fiscalizam, não para camuflar ou suavizar erros, e sim para apontá-los e corrigi-los. “Compliance” não pode ser apenas uma palavra bonita e up to date. Governos que se antecipam, que mostram o que estão fazendo e exibem suas falhas — se necessário, cobrando que o Ministério Público proceda a uma investigação —, são os que ganham, de imediato, o respeito da sociedade. Governos devem ser ativos, proativos, e não meramente reativos.

Ronaldo Caiado (DEM), governador de Goiás: seu objetivo é transformar os indivíduos em cidadãos | Foto: Divulgação

Entretanto, se a transparência é crucial — e, frise-se, nada mais se consegue esconder; a comunicação moderna funciona se governos e empresas escancarem tudo, exibindo a crueza da verdade —, governos não podem ser canibais de si mesmos, quer dizer, não devem fazer oposição a si mesmos.

Recentemente, o policial federal aposentado Jorge Caiado, primo do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), denunciou que o secretário de Segurança Pública, Rodney Miranda, teria desviado recursos da área e, também, instalado uma república do grampo. Jorge Caiado não é apenas primo de Ronaldo Caiado — os dois são visceralmente ligados, quase irmãos. Dizem que é tão sério quanto o governador. Mas o que há de verdade no áudio supostamente vazado?

Apurações exigem cautela e a imprensa, que nada deve esconder — quem faz isto desmoraliza-se —, tem o dever de publicar tudo, sem exceder. Quando há uma denúncia, e feita de maneira tão explosiva, a sociedade, tão cansada da corrupção sistêmica, sempre fica com dúvida e a tendência é que conclua que o “caso” é mais grave do que parece. Há indícios de que o secretário Rodney Miranda tenha participado de alguma ação ilícita? Até o momento, não. Se tiver, que se divulgue, sem contemplação. O que não se deve é devastar sua imagem sem permitir que faça sua defesa.

Rodney Miranda, secretário de Segurança Pública do governo de Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Quanto ao que se chama de “grampolândia”, a denúncia procede? Também não se sabe. O setor de Inteligência das polícias de qualquer governo faz grampos, devidamente autorizados pela Justiça, para apurar crimes em várias áreas. Tanto pode ser a respeito do crime organizado quanto do crime de corrupção (também organizado). O que não se pode é grampear sem autorização judicial, porque é ilegal e fere o direito à privacidade dos indivíduos. Sublinhe-se que no Brasil havia, e talvez ainda haja, uma grampolândia articulada por espiões privados — alguns supostamente egressos das polícias — que azeitaria, aparentemente, um “rico” mercado de informações. A tecnologia, ao alcance de quase todos, sobretudo dos que têm conhecimento e algum dinheiro, facilita grampear e invadir a comunicação privada das pessoas (invadir um e-mail, por exemplo, é tarefa tida como fácil por determinados criminosos).

O que chama a atenção na crise recente é que, de algum modo, o governo Caiado fez oposição ao governo Caiado. Não é positivo quando um governo “decide” fazer oposição a si mesmo, sem optar pela resolução interna de determinados problemas — que talvez nem sejam problemas sérios. Mas há algum aspecto positivo? Talvez. Com o fato esclarecido, se ficar provado que não houve desvio, e tudo indica que não houve, o governo pode sair com sua imagem sem arranhões substanciais.

A oposição esbaldou-se. Mas como cobrar que fosse diferente? O próprio governo deu-lhe carne para ser moída. Com o agravante de que a “denúncia” foi divulgada por uma pessoa respeitada no governo — Jorge Caiado. A consistência, não se sabe se factual, deriva mais do denunciante do que da denúncia em si. As pessoas raciocinam mais ou menos assim (e, claro, as oposições sabem disto): “Se a denúncia foi formulada pelo primo do governador, com o qual mantém forte ligação, deve ser verdadeira”. A política patropi costuma excluir a presunção de inocência. Num país conflagrado, com redes sociais suicidas, até pessoas que se fiam nos fatos às vezes seguem pelo mesmo sendeiro.

Jorge Caiado: denúncia contra a área de segurança pública | Foto: Reprodução

O que quer a oposição? Reunir o máximo de denúncias contra o governo de Ronaldo Caiado para, quando chegar 2022, dizer ao eleitor: “Veja, não é diferente dos outros governantes”. Querem igualar o gestor goiano a outros gestores. O que se sabe, até o momento, é que o administrador se mantém honesto e manda apurar quaisquer irregularidades, e sempre com presteza. Promotores e procuradores de justiça do Ministério Público de Goiás, um dos mais qualificados do país, dizem, em conversas reservadas com repórteres do Jornal Opção, que o atual governo de Goiás é mais transparente do que qualquer outro. Sobretudo, afiançam, não há nenhuma tentativa de esconder informações.

O gestor-estadista é diferente do gestor-obreiro

Há um engano a respeito do homem-chave da comunicação de um governo. Há quem pense que se trata tão-somente do profissional que faz a ponte do governo com os meios de comunicação — tradicionais ou não. Na verdade, o secretário de Comunicação precisa, além de conhecer o conjunto do governo, entender bem o perfil do governador, sua visão de mundo. O prefeito de Goiânia, Iris Rezende Machado, pode muito bem ser “vendido” como um “tocador de obras”. Porque, além de um administrador eficiente dos recursos públicos, o histórico emedebista preocupa-se basicamente com fazer obras, de preferência estruturais. A rigor, não há nenhum mal nisto. Mas o governador Ronaldo Caiado não pode ser “comercializado” da mesma forma.

Ronaldo Caiado, com perfil de estadista, pensa mais na transformação do indivíduo em cidadão — uma missão e um percurso complexos. No início da crise provocada pelo novo coronavírus — ainda nem era pandemia —, o governador percebeu rapidamente que a quarentena era a única maneira de evitar mortes em progressão geométrica. Disseram: ele decidiu pelo isolamento social porque é médico. As pessoas que concluíram assim têm razão em parte. Mas a decisão do goiano de Anápolis tem a ver com o fato de que é um estadista, quer dizer, pensa primeiro nas pessoas. O presidente Jair Messias Bolsonaro, um homem que está poder pela circunstância da debacle da esquerda, não é, a rigor, um homem de Estado. Por isso, longe de pensar nas pessoas, na sobrevivência delas, está mais interessado na disputa eleitoral de 2022. O gestor federal concluiu que, se a economia estiver muito mal, não será reeleito.

O presidente Juscelino Kubitschek administrou o Brasil entre janeiro de 1956 e janeiro de 1961 e deixou um legado — Brasília. A bela cidade, com seu perfil de museu a céu aberto, é, porém, o símbolo de uma ideia. O mineiro JK, da pequena Diamantina, sabia que, mais do que uma obra física, Brasília representa a ideia de que era e é preciso descentralizar o desenvolvimento do país. Com a capital no Centro-Oeste, longe dos poderosos São Paulo e Rio de Janeiro, o desenvolvimento desconcentrou-se, ao menos em parte.

Não é nada fácil um governador desconcentrar o desenvolvimento — no sentido de levar indústrias, que em geral pagam melhores salários e elevam a renda local, para todas as regiões do Estado. O custo logístico e a distância dos mercados consumidores têm de serem levados em consideração pelas empresas, porque, num mercado altamente competitivo, não têm como elevar custos. Sem preços competitivos, num mercado cada vez mais “chineszado”, correm o risco de quebrar. Mesmo assim, o governador Ronaldo Caiado está trabalhando para descentralizar o desenvolvimento, com o objetivo de beneficiar todas as regiões. Há ilhas desenvolvimento em Goiás — como Anápolis, Aparecida de Goiânia e Rio Verde (o Sudoeste como um todo) — e uma das missões do governante é levar crescimento e desenvolvimento para todas as cidades. Não é, claro, missão de um só governo. Mas percebe-se que Ronaldo Caiado tem um olhar atento para a questão.

Ronaldo Caiado não é de esquerda, mas é provável que professe, ainda que não explique seu ideário, uma espécie de liberalismo social, como sugeria o sociólogo e ensaísta José Guilherme Merquior. O que o governador quer é uma sociedade mais justa, que se desenvolva de maneira menos desigual — o que o distingue de liberais ortodoxos, como o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Quando cobra obras bem feitas, um asfalto duradouro, por exemplo, o que Ronaldo Caiado está sugerindo, mais do que dizendo, é o seguinte: se o asfalto durar mais, se não for preciso restaurá-lo quatro meses depois, sobrarão mais recursos para o governo aplicar em desenvolvimento, quer dizer, em saúde e educação. O governador cobra uma melhoria significativa na aprendizagem de matemática nas escolas públicas de Goiás. Há quem não entenda a motivação. O que ele quer de fato é que os filhos dos pobres e da classe média, que estudam em escolas públicas, disputem de igual para igual com os filhos dos ricos, que estudam em escolas particulares. Matemática é crucial para ser aprovado em determinados cursos da universidade. O gestor do Estado deveria procurar o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) para auxiliá-lo no seu desiderato. Alunos de escolas públicas do Rio de Janeiro começam a competir, em igualdade de condições, em concorridas olimpíadas de matemática em vários países. Uma estudante ganhou a medalha de ouro na famosa olimpíada da China. Sim, ela é da escola pública.

Sobre o governo de Caiado, há mais três questões. Primeira: a gestão precisa ser “comunicada” de maneira “singular”, inicialmente, mas, depois, é preciso mostrá-la no “conjunto”. A sociedade precisa entender que determinadas ações resultam de um projeto coletivo do governo, cujo fito é melhorar a vida de todos, e não apenas de ações isoladas de um ou outro secretário. Segunda: o governador precisa aumentar a autonomia dos secretários, cobrando que deslanchem, que não fiquem esperando serem guiados pelo chefe. Terceira: os auxiliares, todos eles, precisam se fixar no presente, com um pé na realidade, deixando o ajuste do passado para o Ministério Público e para a Justiça. Só vai para frente quem rompe os elos com o passado. “DRs” intermináveis com administrações passadas são paralisantes, mas confortáveis para auxiliares que, às vezes trabalhando pouco, precisam culpar os gestores anteriores. Homens de Estado olham para a frente. E, sim, Ronaldo Caiado é um homem de Estado.

O que poderá dar a reeleição a Ronaldo Caiado em 2022 é uma combinação de fatores, como governo eficiente, gestão preocupada de fato com as pessoas — como o olhar humano que foi percebido ao propor a quarentena —, jogo duro com a corrupção, transparência na aplicação dos recursos públicos e afirmação de uma esperança verdadeira e possível. Nenhum governante cuja imagem ficou cristalizada como “senhor dos cortes” obtém sucesso eleitoral adiante. Veja-se a questão da segurança pública. No atual governo, percebe-se que a segurança aumentou, o que resulta, além das medidas duras tomadas pelo governo contra o crime — ação firme acaba por ser preventiva —, da confiança que a sociedade tem em Caiado. Portanto, a crise da segurança precisa ser resolvida com a maior transparência possível.

Começamos o Editorial mencionando a oposição e vamos terminá-lo insistindo que é absolutamente necessária — lembrando que chega até a ser um antídoto contra aduladores e fofoqueiros (rêmoras de todos os governos). O que se cobra da oposição é mais do que jogo político, quer dizer, que perceba o governo de Ronaldo Caiado aproximadamente como a sociedade está vendo? Não é fácil, claro. Porque a oposição não quer compreender o governo do líder do partido Democratas. Quer combatê-lo agora para tentar derrotá-lo em 2022. Planeja substitui-lo. Entretanto, ou o julgamento da oposição se torna mais realista, adequando-se ao que pensa o público ou vai perder sintonia com a sociedade. Não se está sugerindo, lógico, que a oposição apoie Ronaldo Caiado, e sim que compreenda o que está criticando. Para o seu próprio bem e, claro, para o bem de Goiás.

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