Governo Bolsonaro derrete a economia e eleitor pode apostar em Lula ou em político de centro

O principal adversário do presidente em 2022 será muito mais a crise econômica do que o petista, Ciro Gomes, Sergio Moro e Rodrigo Pacheco

Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil, em 2018. Porém, no poder, não se comporta como gestor. Fica-se com a impressão de que o país não tem presidente e que tudo funciona, se funciona, no piloto automático. É como se uma República Anarquista tivesse sido implantada na terra de Edgard Leuenroth (1881-1968).

Político de direita, mas sem nenhuma conexão com uma conservadora competente como a chanceler alemã Angela Merkel, Bolsonaro foi eleito com uma agenda liberal. A rigor, o mercado queria derrotar o candidato do PT — devido as bandalheiras dos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff — e, por isso, embarcou na arca de Noé do bolsonarismo. Não porque acreditasse no político que, durante quase 30 anos, circulou em Brasília como integrante do baixo clero. Era uma voz “primitiva” que, às vezes, era “ouvida”, mas logo esquecida, tal a fragilidade de suas palavras, que não chegavam a ser argumentos.

Paulo Guedes e Jair Bolsonado: a economia brasileira está derretendo e o ministro e o presidente se tornaram espécies de postos Tabajara | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O mercado acreditava, isto sim, em Paulo Guedes — que Bolsonaro tratava como “Posto Ipiranga”. O economista, um chicago-boy, era visto como uma espécie de primeiro-ministro, ou um quase-presidente. Como Bolsonaro é “ignorante” em economia, acreditava-se que o discípulo de Milton Friedman seria o verdadeiro dirigente do país. Ele daria um norte ao governo e, portanto, à economia. Espécie de “Chaves” da política, Bolsonaro poderia continuar com suas firulas e linguagem chã.

No entanto, o Posto Ipiranga, Paulo Guedes, aos poucos foi sendo desautorizado por Bolsonaro. De algum modo, foi rebaixado a Posto Tabajara — tanto que seus principais auxiliares, técnicos qualificados, deixaram o Ministério da Economia. Não querem naufragar com o “navio” Bolsonaro-Guedes.

Com Paulo Guedes fragilizado, Bolsonaro assumiu o governo de vez? Pelo contrário, se havia terceirizado a gestão econômica para o Posto Ipiranga, optou, realista, por terceirizar a gestão política para os políticos do Centrão — como Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados (hoje, quase primeiro-ministro), Ciro Nogueira, senador que se tornou ministro, e Ricardo Barros. E mais alguns adeptos do super-realismo político.

Ocorre que o Centrão, por saber que sem o controle da economia de nada vale mandar na política, passou a trabalhar para minar o poder de Paulo Guedes — que, entendendo de economia, avaliou, errado, que não precisava entender de política. O ministro parece ou parecia acreditar que a economia “determina”, de maneira absoluta, a política — o que o “aproxima” do marxismo ortodoxo e o distancia, em parte, do liberalismo (que percebe a “autonomia” da política).

Ricardo Barros, Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira e Arthur Lira: o Centrão se apropriou do campo político e agora quer controlar o Ministério da Economia | Foto: Reprodução

Aos poucos, de maneira insinuante, o Centrão começou a enfiar na cachola pouco sofisticada de Bolsonaro que, de certa maneira, as ações de Paulo Guedes, sobretudo na questão do ajuste fiscal, eram prejudicais ao país e, principalmente, ao seu projeto de reeleição. O orçamento paralelo, que criou o Tratoraço, é uma das primeiras afrontas do Centrão, com o apoio do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, ao titular da Economia. Deputados e senadores saíram distribuindo máquinas, como tratores, em todo o país — muitas vezes adquiridos com valores superfaturados. O Tratoraço — um “investimento” estimado em 3 bilhões de reais — era mesmo necessário? Não era. Mas Bolsonaro, ao atropelar Guedes, provou que havia aceitado a política de adoçar a boca e robustecer os bolsos da turma do Centrão e das rêmoras que a seguem com apetite pantagruélico.

O Centrão manda e deixa patente que Paulo Guedes não manda mais como no início do governo. Por que, se está se tornando um rei sem trono, o ministro não pede o boné? Há quem acredite que o economista teme que, se sair, o caos aumente. Como não tem nenhuma formação intelectual — ex-auxiliares, como o médico Luiz Henrique Mandetta, relatam que não tem paciência para ouvir informações técnicas sobre nenhum assunto (exceto futebol e motocicletas) —, Bolsonaro tende a ser, cada vez mais, controlado pelo Centrão. Até militares sensatos perderam parte da influência. Estão no governo como peças decorativas, mas também como uma sugestão de ameaça à democracia. É como, sem dizer, Bolsonaro estivesse dizendo: “Olha, se me amolarem, eu chamo o Pires, quer dizer, o general Braga Netto”.

Os principais integrantes do Centrão sabem que Bolsonaro tem poucas chances de ser reeleito. Mas dizem ao presidente que, se gastar muito — atropelando o teto de gastos —, poderá ser reeleito. O que os políticos do Centrão querem, de verdade, é eleger aliados para governador, senador e deputado federal. E, claro, querem ganhar dinheiro. Por isso, mesmo sabendo do desgaste do presidente, não vão deixar o governo. Afinal, um ano e dois meses, o tempo que resta a Bolsonaro, são suficientes para amealhar fortunas e fortalecer as bases políticas estaduais.

Bolsonaro derrete e derruba economia

O Brasil não está crescendo, ao contrário do que Paulo Guedes previa. A expectativa é de estagflação (sem crescimento e com inflação). É como se a direita, com Bolsonaro, estivesse repetindo a ex-presidente Dilma Rousseff. No governo da integrante do PT, depois de um período de bonança (sobretudo no governo de Lula da Silva), deu-se a tempestade: com estagnação econômica. A rigor, é difícil comparar os governos petistas, com seus mais de 14 anos de poder, com os dois anos e 10 meses do governo de Bolsonaro. Ao término dos quatro anos, em 2022, se poderá comparar ao menos com o período de poder de Dilma Rousseff.

Ciro Gomes e Lula da Silva: alternativas para 2022 | Foto: Reprodução

Quando diz para Bolsonaro, nos bastidores, que o país não cresce por causa das medidas tomadas por Paulo Guedes — que estaria “contendo” o investimento público —, o Centrão faz uma interpretação “matreira” do que está realmente acontecendo. Para evitar culpar Bolsonaro — o presidente que se tornou hábil em espantar investidores, especialmente porque diz aquilo que o mundo não quer ouvir (o líder brasileiro é uma negação, por exemplo, na questão ambiental — um tema de amplo interesse na Europa e nos Estados Unidos) —, o Centrão responsabiliza o ministro da Economia.

Mas, se Bolsonaro erra, com seu discurso bobamente incorreto, Paulo Guedes também se equivoca. Ao menos em parte, o país não cresce porque o ministro não conseguiu acertar o governo (a conjuntura internacional não tem sido desfavorável, exceto pelo preço do petróleo). Acreditou ter solução para tudo, mas aparentemente não tinha e não tem. A privatização pode reduzir parte dos custos do governo federal, mas não é a solução para o crescimento da economia. A culpa da crise, portanto, é dupla: de Bolsonaro, o presidente Tabajara, e de Paulo Guedes, o ministro que se tornou Tabajara. Pode-se postular que, tendo nas mãos um país rico e sólido economicamente, a dupla não consegue entendê-lo. Está perdida.

Paulo Guedes e Bolsonaro são parecidos em suas diferenças. O primeiro é um artífice da contenção de gastos. Certo, é preciso conter gastos, que inviabilizam o governo. Mas conter sem ter uma política de investimentos, de contribuição para o fortalecimento da economia, é um contrassenso. De que adianta ter contas mais ou menos ajustadas, mas sem crescimento econômico e sem desenvolvimento? Já Bolsonaro, sob influência do Centrão, quer “começar” a gastança. Aliás, já começou, como indica o orçamento secreto e seus tratores. Descobriu-se a nova função de deputados e senadores: distribuir tratores em todo o país. O governo planeja aplicar cerca de 30 bilhões de reais no programa social Auxílio Brasil, mas furando o teto de gastos. O que fazer, de maneira racional? Cortar, por exemplo, nas emendas dos parlamentares. Conter novos tratoraços. Porque deixar de investir — sim, investir — no social é um crime contra os pobres, contra a humanidade. A rigor, são as principais vítimas de projetos malsucedidos dos governos, não apenas do de Bolsonaro.

Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro da Justiça, e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado: alternativas para 2022 | Foto: Reprodução

Se há “dois” governos, o de Bolsonaro e o de Paulo Guedes, o que se pode aferir é que ambos estão falhando.

Bolsonaro não entende o país para o qual foi eleito. Porque lhe falta estatura, formação. Quando fala parece tudo, sobretudo líder de corrutela — menos estadista de uma nação continental, com 215 milhões de habitantes e inserida entre os 12 países mais ricos do mundo. O presidente está totalmente desconectado do Brasil real — moderno, ativo e heterogêneo. O país é muito “grande” para sua pequenez. É, por assim dizer, a Dilma Rousseff da direita.

Inflação e reservas cambiais

Não resta dúvida de que Paulo Guedes tem uma formação intelectual sofisticada (mas há quem postule que “parou” no tempo — na década de 1970 — e não percebeu o avanço do discurso liberal, que não tangencia a questão social) e sabe o que está acontecendo no país. Mesmo assim, não está conseguindo agir para melhorá-lo. Ao menos no início do governo, nos dois primeiros anos, Bolsonaro deu-lhe ampla liberdade e, mesmo sem o Centrão para atazaná-lo, não fez grande coisa, exceto tentar privatizar estatais e conter a gastança. É pouco, muito pouco, para quem, aparentemente, tinha solução, na ponta da língua, para a retomada do crescimento econômico. Parecia ter solução para tudo, inclusive pra “despiorar” Bolsonaro.

O que está ocorrendo na economia do país, neste momento, não decorre da entrada do Centrão nos poros do governo, e sim da política traçada por Paulo Guedes e sua equipe de liberais. Culpar unicamente Bolsonaro, dadas suas posições erráticas e destrambelhadas, se é fácil, não é justo.

Brasil real: pessoas, em Fortaleza, pegando comida no lixo | Fotos: Reproduções

A inflação voltou com força total e a qualidade de vida das pessoas caiu. É provável que ninguém do governo fique chocado (o senador Flávio Bolsonaro disse que seu pai, Jair Bolsonaro, riu ou riria do relatório CPI da Covid — o que é um tapa na cara, não de Renan Calheiros, de Omar Aziz e de Randolfe Rodrigues, e sim dos familiares dos 603 mil mortos em decorrência da pandemia do novo coronavírus e, aliás, de todos os brasileiros) com pessoas colocando ossos para “cozinhar” ou procurando comida no lixo de um supermercado, no Ceará. Recentemente, uma reportagem mostrou que vários brasileiros estão comprando pés de galinha e moela porque são mais baratos. A situação dos pobres e de parte da classe média está se deteriorando.

O governo Bolsonaro-Paulo Guedes tenta conter a inflação subindo os juros, o que gera outro problema, apontado pela empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza: o país caminha para uma recessão, ou seja, com menos investimentos das empresas e, por isso, menos empregos. Com o agravante de que a inflação, apesar dos juros altos, não está caindo.

Tentando conter a alta do dólar, o Banco Central fez, nas últimas semanas, leilões de dólares (cerca de 4 bilhões de dólares). Parte das reservas do país está sendo colocada no mercado. De acordo com Carlos Kawall, da Asa Investimentos, “as atuações do Banco Central são para dar liquidez. Mas o efeito é pouco ou nulo”. Sérgio Vale, da MB Associados, corrobora: “A intervenção do BC não necessariamente vai impedir que o dólar alcance 6 reais. Se o câmbio quiser levar o mercado para 6 reais, o BC não vai evitar que isso aconteça” (síntese de sua entrevista concedida ao “Estadão”).

Pés de frango: é o que dá para comprar, dizem várias pessoas| Foto: Reprodução

Sérgio Vale pontua: “Você junta dois elementos de pressão de câmbio, o político e o fiscal, com o internacional. No caso doméstico, o que temos visto depois de ontem, dia 19, é que há um grau de perplexidade que o mercado tem em relação ao Ministério da Economia e isso reflete na taxa de câmbio”.

Frise-se que a Ibovespa despencou. Vinicius Torre Freire, mestre em administração pública por Harvard, assinala, em artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, que há “uma desconfiança no crescimento futuro do país e na capacidade do governo de pagar sua dívida sem inflação. É um problema de descrédito: de falta de crédito, o que se traduz em cobrança de taxas de juros mais altas para financiar o governo e tudo mais no país, além da fuga de dinheiro (dólar mais caro). Juro em alta significa desvalorização geral dos ativos”.

Pois bem: Bolsonaro acredita que seu grande adversário em 2022 será Lula da Silva, do PT. Mas seu principal rival deve ser a economia (além de sua inação no combate à pandemia da Covid-19). Pobres, classes médias e ricos não estão na mesma vibe do presidente, que, ao falar para os 15% de bolsonaristas (muitos deles atingidos frontalmente pela crise, porém sem entender sua origem), esquece que os demais estão descontentes (e não são de esquerda — são pessoas, no geral, sem qualquer ideologia definida).

O derretimento da popularidade de Bolsonaro resulta, em larga medida, do derretimento da economia. É provável que a economia — custo de vida alto (gasolina a quase 7 reais) — o derrote e dê um mandato presidencial a Lula da Silva (a corrupção pode ser vista como um problema “menor” ante o caos do atual governo) ou a um candidato de centro, como Rodrigo Pacheco, Sergio Moro ou Ciro Gomes.

2 respostas para “Governo Bolsonaro derrete a economia e eleitor pode apostar em Lula ou em político de centro”

  1. Avatar Ramatis disse:

    Excelente análise Euler. Tomara que esteja certo no diagnóstico e errado na conclusão. O Brasil não merece Bolsonaro ou Lula. São duas moedas de mesma face: ignoram a potencial grandeza do país apenas por ambições pelo poder…

  2. Avatar Alexandre disse:

    Seja lá quem assumir essa Pemba, está lascado.
    Torço por Moro, mas não cegamente. Assim como nunca fiz com qualquer outro.
    Bolsonaro é tão burro que vendeu tudo que pôde do Brasil para não ser preso e, assim que sair da presidência, já deve sair sobre medida coercitiva.

    CUIDADO COM PESSOAS QUE NÃO EXITAM EM VENDER A PRÓPRIA ALMA PRA NÃO IR PRESO

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