Esquecer pauta do PT e adotar pauta da sociedade são saídas realistas para recuperar o país

Discutir Dilma Rousseff e “retorno” de Lula da Silva em 2018 pode dar sobrevida ao PT. Mas o país deve debater soluções pragmáticas para estancar crise e retomar o crescimento da economia

Michel Temer e Henrique Meirelles: o presidente da República e o ministro da Fazenda articularam uma pauta para recuperar a economia do país. É o que precisa ser discutido || Foto: Beto Barata/PR

Michel Temer e Henrique Meirelles: o presidente da República e o ministro da Fazenda articularam uma pauta para recuperar a economia do país. É o que precisa ser discutido | Foto: Beto Barata/PR

Vive-se, nestes tempos bicudos, uma espécie de “escolha de Sofia” — título de um belo e doloroso romance do escritor americano William Styron e de um filme com a excepcional Meryl Streep. Salva-se o Brasil — e seus 206 milhões de habitantes — ou salva-se o PT dos ex-presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não há meio-termo. É um ou outro. As viúvas do PT falam em golpe, no qual não acreditam mas precisam convencer os incautos de sempre — os que saem pregando irracionalmente pelas redes sociais, como se fossem maluquetes amestrados —, mas golpe mesmo era não salvar o país, optando por salvar o PT. O impeachment da brizolista-lulista é o caminho — o primeiro passo — para a recuperação da economia e da esperança dos indivíduos. Não se trata de sugerir que quem está no poder é “excelente”, e sim de concluir que quem saiu é, do ponto de vista administrativo, menos capaz e, sobretudo, perdeu toda e qualquer credibilidade. Com o PT, o país não avançaria. Continuaria paralisado, mas servindo aos seus integrantes.

Nos jornais, que publicam tudo, como é natural, fica-se sabendo que os petistas, com Lula da Silva na linha de frente e Dilma Rousseff na retaguarda, estão esperneando. Mas, como não são nada bobos, sabem que não há saída. O que estão fazendo, ou tentando fazer, é reduzir o estrago eleitoral e na imagem dos líderes e do PT. Petistas mais preparados intelectualmente, desses que não ficam repisando a pregação de sua intelligentsia orgânica, sabem que, pós-impeachment definitivo, Dilma Rousseff não é mais assunto para o presente e para o futuro. É tema para a História, para seu julgamento implacável, e, possivelmente, para a Justiça, se daqui pra frente forem descobertos documentos ou apresentados testemunhos qualificados que a comprometam com a Operação Lava Jato. A pós-petista não tem presente nem futuro — só passado. É uma política que está ficando para trás. É quase certo que, adiante, o PT vai descartá-la e, se possível, vai atribuir a culpa por sua debacle não aos petistas históricos, como José Dirceu e Lula da Silva, e sim à ex-presidente, tida como intransigente e de temperamento complicado nas negociações com as elites políticas.

Se até o próprio PT vai virar a página (de) Dilma Rousseff, para tentar garantir sua sobrevivência — Lula da Silva, se não for preso e condenado, é a tábua de salvação do partido, a única, mas “salvá-lo” pressupõe, ao menos a médio prazo, “enterrar” a curta história da petista mineira-gaúcha —, por que os brasileiros não devem fazer o mesmo? Para o país, com o objetivo de recuperar sua capacidade de acreditar que é possível reconstruí-lo — apesar do gigantesco estrago provocado pelos governos do PT —, é crucial, não esquecer o passado nefasto, mas apostar noutro futuro, discutir outros assuntos, outros caminhos. Grudar os olhos no passado é a maneira mais eficaz de atolar-se no pântano. Cruzar rios de infelicidade até chegar às aguas limpas do mar pressupõe evitar o luto que não é do país, e sim de um partido, o PT, e de seus líderes e integrantes. Insistamos: os brasileiros não são viúvas dos governos do PT. São, isto sim, vítimas.

A pauta do PT, a retomada do poder e a restauração de sua imagem, não é a pauta do país. Discutir se Lula da Silva, com todos os seus problemas — o tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia, apesar de simbólicos, não são os mais deletérios —, pode ser candidato a presidente da República em 2018 não é pauta dos brasileiros. É, sublinhemos, pauta do PT, com o objetivo de criar uma expectativa de poder, e até ameaça, para conter magistrados, procuradores de justiça e policiais federais. Não é um projeto para o país — nunca é demais insistir.

Entre tantas pautas, há duas que são básicas e imediatas. Primeiro, a recuperação da economia. Segundo, a recuperação (ou estabelecimento) de uma (nova) moral: a de que é possível criar um país com e para homens institucionais. Quer dizer, para indivíduos que aceitem o primado da lei sobre as aspirações de cada um. O sucesso da Operação Lava Jato advém da tese, em plena vigência, de que, ante a lei, todos são iguais. A prisão de
Marcelo Odebrecht, o príncipe dos empreiteiros, deu um “susto” nas elites patropis.

O presidente Michel Temer não é Hércules, não é Deus, tampouco Zeus. Entretanto, inspirado no exemplo do presidente Itamar Franco, que soube associar-se a uma equipe qualificada, capitaneada por Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan e Edmar Bacha, para mencionar apenas três nomes, pode, sim, iniciar uma profunda recuperação da economia. Ressalve-se, por uma questão de justiça histórica, que o PMDB de Michel Temer esteve profunda e amplamente envolvido no processo de corrupção dos governos do PT. Chafurdou na lama tanto quanto o PT, o PP e o PR. Mas o caminho da recuperação do país, é o que manda dizer a realidade, a realpolitik, passa pelo PMDB com sua aliança com o PSDB. Não há, no momento, outra alternativa, exceto para mentes fantasiosas e, claro, para as viúvas do petismo.

Karl Marx, um economicista, avaliava que a infraestrutura, a economia, determina a superestrutura (a política, a religião, a educação). Por vezes, e quase sempre, é assim mesmo: a economia puxa tudo e todos. Porém, em determinados momentos, a política tem um peso enorme — assim como a religião (Max Weber percebeu a ética protestante como elemento indutor da expansão do capitalismo na Europa) — e pode levar à expansão econômica ou, por outro lado, retardá-la e até impedi-la. O governo de Dilma Rousseff, cometendo uma série de erros, denotando incompetência técnica no entendimento do funcionamento da economia, contribuiu de maneira decisiva para a debacle generalizada. A crise econômica atual não tem “determinação” exógena, e sim endógena. É filha dos equívocos e intervenções do governo do PT. Porém, da mesma forma que “enterrou” a economia, a política pode “desenterrá-la”.

Ao convocar Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda, como se fosse um primeiro-ministro — numa repetição do que ocorreu no governo de Itamar Franco, com Fernando Henrique tendo poderes amplos, quase para criar um governo paralelo e formatar o Plano Real —, dando-lhe certa autonomia, o presidente Michel Temer sugere que pensa na recuperação efetiva da economia. O ex-presidente do BankBoston e do Banco Central não está envolvido em esquemas de enriquecimento pessoal ou de grupo e trabalha com mecanismos de recuperação da economia. Suas declarações são realistas, porque não se trata de um vendedor de ilusões. A economia está em frangalhos e o Estado, gigante e inchado, é um dos responsáveis diretos e indiretos pelo fracasso de quaisquer medidas de saneamento. O Estado custa caro para a sociedade e seus “integrantes” rejeitam torná-lo menor, porque significa perder ganhos. Noutros países democráticos, o Estado “pertence” à sociedade. No Brasil, porém, o Estado pertence aos chamados grupos de pressão, como associações, sindicatos, burocratas-meeiros orgânicos e políticos-posseiros. Eles extraem quase tudo do Estado e devolvem lixo sem reciclagem à sociedade. Uma das missões de Michel Temer e seu escudeiro Henrique Meirelles é devolver o Estado à sociedade. A missão, se não é impossível, é espinhosa. Porque os próprios grupos que apoiam o governo de Michel Temer querem manter o Estado, por assim dizer, “privatizado”.

Na visita à China, ao lado do presidente Michel Temer, o ministro Henrique Meirelles dialogou com empresários do segundo país mais rico do mundo e um dos que mais investem no exterior. É um avanço em relação aos governantes do PT, que preferiam dialogar, numa diplomacia manqué, com Raúl Castro, de Cuba, país menor do que Goiás e de PIB liliputiano. O czar da economia disse aos chineses que há uma oportunidade de investimentos em infraestrutura da ordem de 269 bilhões de dólares, em quatro anos. “É uma estimativa do número de projetos que poderão ser feitos e estarão disponíveis no Brasil, em infraestrutura”, disse a atentos chineses.
O presidente Michel Temer estuda a possibilidade de repassar à iniciativa privada quatro aeroportos, duas ferrovias e um terminal portuário. É tanto uma maneira de enxugar o Estado, tornando-o mais barato para a sociedade, quanto um modo de requalificar os serviços. Henrique Meirelles informa que o governo vai articular concessões, outorgas e privatizações na área de infraestrutura (inclui óleo e gás). O investimento maciço em infraestrutura, sobretudo se tiver dinheiro da iniciativa privada, seja brasileiro ou do exterior, seria uma das formas de recuperar e expandir a economia, na percepção do governo.

Ao comentar que a economia começa a se recuperar, ainda que lentamente, Henrique Meirelles frisou: “Minha medida de confiança do mercado está expressa nos índices de confiança — seja do comércio, da indústria, de serviços e do consumidor. E esses índices estão subindo fortemente, então a confiança não está sendo erodida”.

Henrique Meirelles frisou que não há mágica e sim realismo nas ações do governo: “Exatamente porque estamos, pela primeira vez em 28 anos, fazendo a mudança estrutural das contas públicas, das despesas, o que envolve mudança na Constituição, é um processo que tem que demorar alguns meses. Não existe país que faz uma mudança constitucional dessa dimensão em poucos dias ou semanas”.

O que se está dizendo é que, finalmente, o Brasil começa a discutir a sua pauta, e não mais a pauta do PT, que só interessa aos seus integrantes. É crucial deixar o PT, com suas viúvas, para trás, para que o país possa retomar uma pauta construtiva e produtiva. O país — e o jornalismo — não pode nem deve continuar sendo pautado pelo PT. Acrescente-se que não há ingenuidade entre os que defendem que é preciso ficar discutindo se Dilma Rousseff “volta” ou não ou se Lula da Silva “retorna” em 2018. Trata-se de articulação com chefia e liderados.

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