É um truísmo: cada eleição tem sua própria história, sua especificidade.

Porém, a rigor, nada é isolado neste mundo do bom Deus, diriam figuras ímpares como Cecília Meirelles, Adélia Prado, Pagu e Clarice Lispector. A vida é uma espécie de novelo e, por isso, a ponta visível tem ligação com a ponta invisível. São hermanas, digamos.

Então, se nenhum um homem é uma ilha, como escreveu o bardo britânico John Donne, nada, mesmo tendo uma história específica, contorna as outras odisseias. Tudo (ou quase tudo) acaba por ter conexão.

Neste texto serão tratadas as forças políticas de cinco municípios do Sudoeste de Goiás e suas conexões tanto com a eleição de 2024 quanto com a de 2026. Há várias outras cidades, mas as mencionadas são as mais representativas, por assim dizer.

1

Rio Verde

Comecemos por Rio Verde — município que merece ser mais bem estudado por jornalistas e economistas.

Quando o IBGE divulgou os dados do PIB das cidades brasileiras, um deles chamou a atenção dos jornalistas de Goiás, mas não surgiram análises aprofundadas.

Os jornais registraram, de maneira precisa, que o quarto maior PIB de Goiás é o de Rio Verde — cidade conhecida como a “capital” do Sudoeste, dado seu caráter de polo.

Faltou dizer, ao menos de maneira enfática, que Rio Verde está se tornando a China de Goiás. Como se sabe, o país de Xi Jinping, comendo pelas beiradas, superou Japão e Alemanha e, desde algum tempo, é a segunda maior economia global.

Como assim: um país comunista é o segundo mais rico do mundo e já ameaça a liderança dos Estados Unidos?

Se os demais países comunistas fracassaram, inclusive a União Soviética de Lênin, Stálin e Gorbachev, por que a China deu “certo”? Diz-se, comumente, que seu sucesso advém de, apesar de manter o controle político, o comunismo chinês ter aderido às regras do mercado capitalista.

Há certa verdade nisto: a China, no seu processo de crescimento econômico, adotou uma economia de mercado, ainda que regulada pelo Estado. Portanto, há uma economia híbrida: mezzo capitalista e mezzo comunista.

A doutora em Economia Isabella M. Weber escreveu um livro — “Como a China Escapou da Terapia de Choque” (Boitempo, 475 páginas, tradução de Diogo Fagundes) — no qual faz uma análise heterodoxa da economia do mais rico país asiático. A economista alemã postula que o sucesso da China advém muito mais do fato de não ter aderido, de maneira ampla, ao receituário liberal do Ocidente.

Frise-se que a análise de Isabella Weber foi feita antes da atual crise chinesa, que tem sido analisada, em vários artigos, pelo economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008.

Retomemos Rio Verde. A grande notícia nem é o fato de Rio Verde aparecer como quarto maior PIB de Goiás. Isto era esperado. Na verdade, o dado surpreendente é que o PIB do município — um dos maiores produtores de grãos do país, notadamente de soja — é quase igual ao do segundo colocado, Anápolis, e do terceiro colocado, Aparecida de Goiânia.

Depreende-se que, em quinze ou vinte anos — se o boom das comodities permanecer sólido, e certamente continuará, porque as pessoas (e outros animais) precisam comer —, se terá uma surpresa. Rio Verde será, decerto, o segundo colocado (com a ajuda da China e, quem sabe, da Índia), superando Anápolis e Rio Verde.

A economia de Rio Verde é mais diversificada do que parece. Pensa-se que sua força advém exclusivamente do agronegócio. Não é bem assim. O comércio, os serviços, o setor imobiliário e as indústrias estão cada vez mais fortes. É possível falar em desenvolvimento abrangente, com várias pontas.

Se a economia vai bem, em Rio Verde, a política não vai mal. O prefeito Paulo Faria do Vale, do União Brasil, é bem avaliado pela população e, ao lado dos produtores, empresários urbanos e trabalhadores, é um dos principais responsáveis pelo sucesso econômico do município, e, possível e parcialmente, da região, dados os reflexos de uma cidade noutra cidade.

Para a disputa de 2024, Paulo do Vale escalou um médico para tentar sucedê-lo — Wellington Carrijo, do MDB.

Há mais três pré-candidatos — Karlos Cabral, do PSB, Lissauer Vieira, do PL, e Osvaldo Fonseca Júnior, do Republicanos. Os quatro postulantes são qualificados. Mas qual será eleito? Obviamente, como a disputa se dará em outubro deste ano, daqui a oito meses, não dá para dizer que Wellington Carrijo será o próximo prefeito. Ele ou outro postulante.

Mas é possível sugerir que a estrutura de campanha de Wellington Carrijo — e não se está falando necessariamente de dinheiro — será maior do que as dos outros três. Além disso, como é bem avaliado, Paulo do Vale tem “moral” para pedir voto para o postulante emedebista.

Há, por fim, um aspecto importante, que culminou, recentemente, no afastamento da deputada federal Marussa Boldrin da presidência da comissão provisória do MDB. O motivo é simples: quem tem votos de sobra em Rio Verde é o grupo de Paulo do Vale — a parlamentar é uma voz relativamente isolada, tanto que seus amigos e aliados não circulam no MDB, e sim no Republicanos (Osvaldo Júnior) e no PL (Lissauer Vieira). Em 2026, a base governista vai precisar de cabos eleitorais em Rio Verde para eleger o governador (o candidato será Daniel Vilela) e Gracinha Caiado para senadora. Na linha de frente estarão Paulo do Vale, o deputado estadual Lucas do Vale e, eleito prefeito, Wellington Carrijo.

Em suma, a base de 2026 começou a ser montada em 2024. Quem ficar com o candidato da base governista, Daniel Vilela, vai assumir o comando do MDB em Rio Verde. O resto é choro de “crianças” que nasceram ontem e pouco entendem o jogo duro da política. Tais “meninos” não precisam ser “atropelados” politicamente. Atropelam-se sozinhos. São seus próprios adversários.

2

Jataí

O prefeito de Jataí, Humberto Machado, do MDB, é o que chamam de “fenômeno da natureza”. Dada sua natureza rígida (derivada do fato de não ser populista), de escassa polidez, comenta-se, durante a campanha, que poderá ser derrotado pelo candidato do “novo”.

Pelo visto, os eleitores de Jataí preferem requentar o “velho” a apostar no novo sem experiência. Acima de tudo, Humberto Machado é avaliado como gestor eficiente. É o gestor que, nas campanhas, acaba por “salvar” o político.

Humberto Machado é uma espécie de irmão político dos Vilelas — como Daniel e Leandro. Se reeleito em 2024, vai construir um palanque para o candidato do MDB a governador.

Jataí é uma das cidades mais desenvolvidas do Sudoeste, perdendo apenas para Rio Verde. Os dois municípios influenciam todo o Sudoeste.

A oposição — o dito Agro — está tentando formatar uma candidatura única. Dada a força do MDB, buscou um nome do partido para concorrer com Humberto Machado. Trata-se de um político decente, o vice-prefeito Geneilton Filho de Assis, de 49 anos. É visto como o “genérico” do prefeito. É bom, mas o original é apontado como mais seguro.

Entretanto, como não há favas contadas em política, há sempre o risco de uma surpresa. Geneilton Assis, Flaviane Scopel e Luciano Lima estão no jogo. Ninguém é eleito por antecipação.

3

Mineiros

Em Mineiros, o prefeito Aleomar de Oliveira Rezende (MDB), de 57 anos, é tão forte que há a possibilidade de seu principal adversário, Agenor Rezende, desistir da disputa para apoiá-lo.

Ao saber disso, o ex-deputado José Mário Schreiner e Marussa Boldrin — dois políticos de valor — “inventaram” a candidatura de Flávia Vilela, que deve disputar a prefeitura pelo PL.

Por que, sendo ambos do MDB, Schreiner e Marussa Boldrin não apoiam o prefeito Aleomar Rezende? Porque o gestor municipal vai apoiar a candidatura de Daniel Vilela para governador, em 2026, e o ex-deputado e a deputada certamente estarão em outro palanque — talvez o do senador Wilder Morais, do PL, ou o do ex-governador Marconi Perillo, do PSDB.

Observe-se, portanto, que, em Mineiros, como nos dois municípios anteriores, está se jogando a disputa de 2026 tendo a de 2024 como “mensagem” (o meio é a mensagem, filosofou McLuhan).

4

Santa Helena de Goiás

O prefeito de Santa Helena de Goiás, João Alberto Rodrigues — filho do ex-governador Alcides “Cidinho” Rodrigues —, eleito pelo Patriota, não oferece resistência ao governador Ronaldo Caiado. Porém não compartilha da mesma “hóstia” do MDB de Daniel Vilela. Tanto que terá candidato a prefeito para enfrentar o postulante do emedebismo.

O MDB tem dois nomes consistentes em Santa Helena — o vereador Rones Ferreira, de 63 anos, e Iris Martins Parreira, de 44 anos. Os dois são fortes e há um sentimento de mudança. Não que João Alberto seja um prefeito ruim, mas acomodou-se nos seus quase oito anos de mandato.

Iris Martins Parreira (ou Rones Ferreira) tem condições de vencer o candidato do prefeito? Não será fácil, dada a força da máquina. Mas pesquisas sugerem que os eleitores querem mudança.

Ante a força de Daniel Vilela — que deve assumir o governo daqui a dois anos e oito meses —, ou seja, à sua expectativa de poder, é provável que o postulante do MDB seja eleito. Os eleitores estão “entendendo” que um político do Sudoeste — de Jataí — poderá se tornar governador? Talvez sim. Talvez não.

5

Quirinópolis

O PL está forte em Quirinópolis. O deputado estadual Paulo Cezar Martins (PL), sobretudo se conquistar o apoio do ex-prefeito Gilmar Mendes, é um político consistente. Seu problema, talvez seja possível dizer assim, é que 2024 está remontando a base governista para 2026. Por isso pode ser “atropelado” pelo prefeito Anderson de Paula Silva, o Lorenção, de 44 anos, do PDT.

Paulo Cezar Martins, se eleito, subirá no palanque das oposições em 2026 — ao lado de Wilder Morais, de seu partido, ou então, para situar-se no espectro dos adversários do MDB, ao lado de Marconi Perillo. Lorenção, encantoado por Paulo Cezar Martins e Gilmar Mendes, vai, naturalmente, marchar ao lado das forças de Daniel Vilela — em 2024 e 2026.

Sem lealdades metadinhas

Então, sublinhando, vale insistir: 2024 tende a jogar — e bem — para formatar uma base forte para Daniel Vilela disputar o governo de Goiás em 2026. Pode-se até frisar que 2024 chegou junto com 2026. Ronaldo Caiado (o mais sagaz de todos), Daniel Vilela, Paulo do Vale, o deputado Lucas do Vale, Wellington Carrijo, Manuel Cearense (vice-presidente do MDB estadual), Humberto Machado, Anderson Lorenção, Iris Parreira, Rones Ferreira, Judson Lourenço e Aleomar Rezende entenderam o jogo com o máximo de clareza. Por isso os exércitos eleitorais estão sendo montados e os personagens citados estão dando as cartas… Lealdades “metadinhas” não existem em política. Quem tenta pôr o pé em duas canoas acaba “caiando” e até “afogando-se”.

Um empresário conta que, ao viajar com José Mário Schreiner, há poucos dias, escutou uma espécie de sermão do presidente da Faeg. Ele teria dito, com todas as letras, que, na articulação de Rio Verde, a atuante, competente e decente Marussa Boldrin estaria se comportando como vereadora, e não como deputada federal. Quer dizer, a picuinha local oblitera a sua percepção política…. Então, tende a dormir deputada e acordar vereadora em… 2028.

(Se, em 2022, o Entorno de Brasília foi decisivo para a vitória de Ronaldo Caiado no primeiro turno, o Sudoeste certamente será decisivo para cacifar Daniel Vilela para o governo de Goiás, daqui a dois anos e oito meses. E com a vantagem de o Entorno do Distrito Federal ainda continuar fortemente vinculado à base governista.)