Eleitor percebe Bolsonaro como “intervenção militar” mas sem “golpe militar”?

Mulheres criticam comportamento patriarcal de Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado. Se não forem ouvidas, darão seu recado nas urnas

Jair Bolsonaro: há indícios de que os tucanos estão subestimando a força do candidato a presidente da República porque preferem enfrentar o candidato do PT

Os eleitores de 2018 são mais decididos do que indecisos e é provável que as pesquisas não consigam captar, ao menos não de maneira precisa, sua desconfiança radical a respeito dos políticos. Desconfiança talvez nem seja o termo preciso. O mote justo é, quiçá, desprezo. Porém, como o voto é obrigatório e os eleitores sabem que bem ou mal é um modo de mudar, para pior ou para melhor, seu país, com Estados e municípios, eles protestam escolhendo candidatos radicalizados e que são menosprezados pelas elites políticas. Esbocemos, a seguir, cinco hipóteses — reluta-se em nominá-las de teses — a respeito do candidato a presidente pelo PSL, Jair Messias Bolsonaro, de 63 anos.

Bolsonaro revive McLuhan

Sem Lula da Silva no páreo, Bolsonaro lidera todas as pesquisas de intenção de voto. Por quê? É provável, como se sugeriu no primeiro parágrafo deste Editorial, que o líder do PSL, um partido ficcional — como o PRN de Fernando Collor, em 1989 —, é um meio de os eleitores protestarem contra a política tradicional. Talvez nem deem tanta importância assim ao militar reformado, mas percebem que, apoiando-o, acossam os políticos que se tornaram, ao longo dos anos, verdadeiros donos do poder. É possível sugerir que os eleitores “usam” Bolsonaro e este “usa” aqueles. Ninguém, não sendo inocente, engana ninguém. Há um pacto, quem sabe inconsciente e não necessariamente faustiano, entre o político e o eleitorado.

Ao hipotecar apoio a Bolsonaro, os eleitores estão dizendo aos políticos, todos eles, talvez ao próprio presidenciável do PSL: “Basta!” O capitão do Exército é o “meio”, diria Herbert Marshall McLuhan, por intermédio do qual os eleitores estão, ao bradar contra tudo e contra todos, enfatizando sua “mensagem”. O voto em Bolsonaro pode ser menos de “confiança” do que de “protesto”.

É provável que, apesar de ter o nome de Messias entre Jair e Bolsonaro, não esteja sendo visto como um “salvador da pátria”. Há um cansaço a respeito disto e mesmo cientistas políticos atentos não parecem perceber o fato. O brasileiro está buscando alguma coisa — alguém —, mas não necessariamente um político que vai resolver tudo, como num passe de mágica. Ele está mais cético e independente.

Intervenção militar

A hipótese a seguir é polêmica e recomenda-se que o leitor-eleitor a trate como hipótese que, se desenvolvida, é (quase) uma tese. O deputado federal Bolsonaro é capitão do Exército e, quando a ditadura acabou, em 1985, tinha 30 anos. Em recentes manifestações, como a paralisação nacional dos caminhoneiros, dezenas de indivíduos pregaram a “intervenção militar”. Há um sentimento, ainda que não generalizado, de que a ditadura não foi tão ruim assim. Na verdade, ditaduras não fazem bem a nenhum país — sejam de esquerda ou de direita. A democracia, mesmo quando imperfeita, é sempre melhor do que uma ditadura supostamente “positiva”.

Então, o voto em Bolsonaro pode ser uma defesa da intervenção militar mas sem golpe militar. Em 7 de outubro, ou no segundo turno, o capitão-deputado pode chegar ao poder por meio de eleição. Como se acredita que o país vive sob certa desordem — mais aparente do que real, porque as instituições estão funcionando —, postula-se que um militar, embora não consiga resolver todos os problemas do país (nem Shangri-la é perfeita), pode impor certa ordem. O Exército não resolveu o problema da violência no Rio de Janeiro, mas criou sensação de (mais) segurança.

Radical, com discurso firme em relação ao crime organizado, Bolsonaro é visto como aquele político que, se eleito, pode “reduzir” a violência, tratando os criminosos com o “rigor necessário”. Não se está discutindo se ele está “certo” ou “errado”, e sim apontando como é visto. Os eleitores percebem certa flacidez moral no trato dos criminosos — como se fossem cidadãos idênticos aos cidadãos de bem — e aprovam políticos que são críticos viscerais do que chamam de “bandidagem”. A onipresença de organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), é mesmo assustadora. Os indivíduos temem que se esteja constituindo no Brasil, ao lado do Estado oficial e legal, um Estado criminoso — poderoso, violento e incontrolável.

O eleitor envergonhado

Pesquisas indicam que, sem Lula da Silva no páreo, Bolsonaro lidera, até com certa folga. Resta saber se chega ao final do pleito com o mesmo fôlego. Há um eleitor que declara voto e defende o candidato — cada vez com mais coragem. A direita expandiu-se nos últimos anos, inclusive entre jovens. Pode-se dizer que, pós-Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé, João Coutinho (português que escreve na “Folha de S. Paulo”), Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Denis Lerrer Rosenfield, a direita perdeu a vergonha e parou de se esconder. Participa dos debates públicos, posiciona-se com o máximo de clareza e não teme os ataques da esquerda, que é hábil na “arte” da desqualificação. Há uma geração de scholars liberais, como Samuel Pessoa, que tem demonstrado os equívocos da esquerda estatista. Editoras patropis criaram coragem e estão publicando obras questionadoras de autores conservadores — como os filósofos britânicos Roger Scruton e Theodore Dalrymple. Há, digamos, um suporte teórico aos “práticos” da direita. A esquerda perdeu o “controle” de parte dos jovens, mesmo nas universidades. A cantilena de que o comunismo é o paraíso celestial, ainda que ímpio, se tornou infernal, e não só para os jovens.

Mesmo assim, há um eleitor que, temendo a patrulha da esquerda e dos politicamente corretos, receia declarar publicamente que pretende votar em Bolsonaro. Se a hipótese se tornar tese, com comprovação nas urnas, se poderá constatar que o eleitorado do presidenciável “é” maior do que imagina a vã filosofia dos bem-pensantes das academias universitárias e da mídia.

Rival de Alckmin pode ser Bolsonaro

O pré-candidato do PSDB a presidente, Geraldo Alckmin, e seus aliados preveem um segundo turno entre o tucano paulista e um político do PT, possivelmente Fernando Haddad, um dos filhos do lulopetismo. Lula da Silva tem prestígio nacional, mas talvez não consiga transferir votos, na quantidade suficiente, para eleger o ex-prefeito de São Paulo. A transferência de voto funciona quando o político que está sendo apoiado não é um poste. É provável, até, que o ex-presidente conseguisse transferir mais votos para Ciro Gomes (PDT) do que para seu pupilo. Porque o ex-ministro e ex-governador do Ceará tem uma história autônoma em relação ao petista-chefe.

A leitura do que dizem os alckministas precisa capturar o que há de subliminar. Primeiro, o tucanato está, de maneira indutiva, propalando que irá para o segundo turno. De fato, dada a imensa estrutura que está arregimentando — o Centrão é isto: estrutura em todos os Estados —, a possibilidade de Alckmin chegar ao segundo turno é alta. Segundo, há um quê de “vontade”, apresentada como “análise” — o que não é —, entremeada no discurso do tucano. Porque o PT, como adversário, é previsível e, ao mesmo tempo, tem um desgaste político similar ou até maior do que o do PSDB. Um ataque petista permitirá um contra-ataque mais poderoso do tucanismo.

Bolsonaro, pelo contrário, tem menos desgaste — não há nada de grave, aparentemente, em termos de probidade — e, por isso, é um adversário muito mais imprevisível do que o petismo. Pelo quadro atual, que, claro, pode mudar, Alckmin, se for para o segundo turno, enfrentará, não Fernando Haddad, e sim Bolsonaro. Seria o centro político contra a direita.

O recado das mulheres

Os homens se entusiasmam mais com Bolsonaro do que as mulheres. Veem a si quando olham para o capitão? Entusiasmam-se com sua virilidade ostensiva, agressiva e indômita? Comumente, até por não aceitar as ponderações de assessores, o capitão-deputado responde de maneira contundente às críticas. Seu comentário sobre a deputada Maria do Rosário (PT) — não merece ser estuprada por ser “muito feia” —, por mais que tenha sido provocado, é indefensável. Mulheres não aceitam tal comportamento brutal, mas fica-se com a impressão de que parte dos homens adota uma posição de “normalização” do que foi dito.

As palavras do presidenciável têm a ver com grosseria, com falta de elegância, e nada a ver com ideologia. No caso, direita e esquerda não estão em discussão. O que prevalece, além da deselegância, é a intolerância. A democracia pressupõe que, na busca do consenso — ao qual pode-se não chegar —, não se deve excluir o conflito. Mas o respeito, produto da tolerância e da civilidade, deve ser mantido.

No Brasil, há indícios de que, em termos de civilidade, as mulheres superam os homens? Ao rejeitarem Bolsonaro e, em Goiás, Ronaldo Caiado — visto talvez como exemplar típico do machão patriarcal —, elas estão dizendo alguma (até muita) coisa. Se não quiserem escutá-las, darão seu recado… nas urnas.

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Breno o Peruibense

Racho de rir das análises publicadas aqui sobre o Bolsonaro. Se dependesse das anteriores, o deputado jamais teria se tornado líder nas pesquisas.

Roberto Terrabuio

Concordo com você Breno e pode ter certeza,muitos políticos estão apavorados e vão fazer o possível para enchovalhar seu nome para a presidência.