Levantamento recente do Opção Pesquisas mostrou que há praticamente um empate técnico entre três pré-candidatos a prefeito de Goiânia, a capital de Goiás. A pré-candidata do PT, Adriana Accorsi, aparece em primeiro lugar, à frente de Gustavo Gayer, do PL, e do senador Vanderlan Cardoso, do PSD. Entretanto, os percentuais dos três, considerando a margem de erro, são bem parelhos — o que caracteriza empate técnico.

A rigor, a três meses e alguns dias das eleições, nenhum dos pré-candidatos favoritos “descolou”. Porque, exatamente, não se sabe. O mais provável é que os eleitores de Goiânia, às vezes apontados como o mais politizados do Estado, ainda não se definiram e, mais relevante, estão na fase de observar os pré-candidatos — suas trajetórias (trabalhos prestados à sociedade), alianças políticas.

Não se está sugerindo que os eleitores de Goiânia são indecisos. Porque não são. Mas são aqueles que observam com mais atenção os candidatos. Em 2020, votaram no gestor que também era um político experimentado — que sabia abrir os cofres de Brasília para suas gestões, tanto como governador quanto como prefeito de Aparecida de Goiânia. Fala-se de Maguito Vilela.

O senador Vanderlan Cardoso também é gestor, pois havia sido prefeito de Senador Canedo, mas não tinha o mesmo traquejo político de Maguito Vilela no plano federal. Os eleitores parecem que examinaram a questão com, brinquemos, telescópio.

Quase quatro anos depois, os eleitores sugerem que querem no Paço Municipal um anti-Rogério Cruz.

Pode-se firmar que Rogério Cruz é um prefeito ruim, sem qualificações? Na verdade, o gestor concluiu obras, iniciou outras e manteve as contas da prefeitura em dia.

Uma avaliação isenta, descolada de preconceitos, precisa admitir que, se não é excelente, a gestão de Rogério Cruz tem acertos. Faltou-lhe, porém, entender que, para se firmar, precisava fazer um ajuste de contas com a gestão de Iris Rezende. Porém, como político, o gestor municipal, talvez por ser religioso, preferiu calar-se.

Rogério Cruz herdou os problemas (como corredores de ônibus caros e inconclusos) deixados por Iris Rezende e se tornou o “dono” deles, ou seja, ao descuidar do passado, que não era seu, perdeu o seu presente. Há, claro, os problemas exclusivos de sua gestão — sobretudo na área de probidade administrativa de alguns ex-auxiliares, que acabaram afastados.

Por causa do desgaste, em decorrência de não ser o prefeito que os eleitores escolheram — Maguito Vilela — e de alguns problemas administrativos e técnicos (como a coleta deficitária do lixo), Rogério Cruz queimou-se, por assim dizer.

Os alvos dos pré-candidatos

Há uma questão que os pré-candidatos mais bem ranqueados nas pesquisas de intenção de voto parecem não levar em conta. Pensa-se, com algum acerto, que a guerra será entre eles — Adriana Accorsi, Gustavo Gayer (ou Fred Rodrigues), Sandro Mabel (União Brasil) e Vanderlan Cardoso. De fato, terão de se enfrentar, tanto nos debates quanto nas ruas e redes sociais, para mostrar aos eleitores que são diferentes e um “melhor” do que o outro.

Mas os quatro postulantes das oposições poderão deixar Rogério Cruz de lado? Não. O próximo prefeito de Goiânia tende a ser aquele que for assimilado pelos eleitores como o mais anti-Rogério Cruz.

Então, querendo ou não os marqueteiros e palpiteiros de plantão, Adriana Accorsi, Gustavo Gayer, Sandro Mabel e Vanderlan Cardoso terão de se apresentar, com firmeza, como “o” anti-Rogério Cruz. As propostas deles têm de ser apresentadas como “anti” o que se fez, o que se está fazendo e têm de enfatizar o que se está deixando de fazer.

Há quem acredite que, por causa de pré-candidatos solidamente ideológicos no jogo eleitoral — como Adriana Accorsi, da esquerda, e Gustavo Gayer, da direita —, os eleitores vão levar as ideologias em conta como foco central. Não irão, certamente.

O fato de dois candidatos ideologicamente definidos aparecerem em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto sugere alguma questão contraditória ao que se está postulando neste Editorial? Em tese, sim.

Porém, o que se está dizendo não é que as ideologias não serão levadas em consideração, até porque o confronto de Adriana Accorsi e Gustavo Gayer (ou Fred Rodrigues) versará, ao menos em parte, sobre esquerda e direita. Questões identitárias (que estão retirando mais do que dando votos à esquerda) estarão no centro do palco, com a direita no ataque e a esquerda, quem sabe, na defensiva.

Mas, insistamos, os eleitores, que raramente são ideologizados, estarão mais interessados, possivelmente, nas questões administrativas. Qual será o postulante que vai devolver, por assim dizer, a prefeitura à sociedade? Hoje, de alguma maneira, o poder público está à mercê de setores privados, notadamente do setor da construção civil e do setor imobiliário. Talvez seja possível sugerir que “sequestraram” a prefeitura e, por vezes, a Câmara Municipal. Não há um projeto do Paço Municipal para os goianienses. Hoje há um “projeto” para “desenvolver” os negócios de parte do meio empresarial citado.

Adriana Accorsi, Gustavo Gayer, Sandro Mabel e Vanderlan Cardoso, ao mesmo tempo que terão de enfrentar Rogério Cruz — mesmo considerando que talvez não seja uma ameaça eleitoral precisarão se distinguir do prefeito —, terão de apresentar um projeto para Goiânia.

Os eleitores goianienses não apreciam candidatos a prefeitos radicais e pirotécnicos.

Gustavo Gayer aparece bem nas pesquisas, mas ainda não tem votos para ganhar ou mesmo para ir para o segundo turno. Porque não é visto como gestor, como um político focado em questões administrativas. O líder do PL transpira ideologia e ninguém administra uma cidade com ideologias — sejam de esquerda, de direita ou de centro. O lixo de uma cidade não é capitalista ou comunista. É lixo e, como tal, precisa ser recolhido, de maneira integral, sem debates estéreis. Os ônibus precisam circular, pelos corredores ou não, nos horários adequados aos usuários.

Curiosamente, se Gustavo Gayer se move, cada vez mais, para a direita, aproximando-se da extrema-direita — comportando-se mais como youtuber reacionário do que como político para todos —, Adriana Accorsi movimenta-se da esquerda para o centro.

Não se pode sugerir que Adriana Accorsi esteja “deixando” a esquerda por oportunismo político. Porque não está. Mover-se para o centro não significa que está abandonando a esquerda. Ao se abrir para a sociedade está tentando, isto sim, fortalecer a esquerda — a democrática.

Na verdade, Adriana Accorsi está operando com inteligência. Ao buscar o apoio de políticos e empresários de centro, o que a pré-candidata petista quer — e precisa — é atrair eleitores de centro. Não todos, é claro, porque é impossível. Mas de parte dele. Porque, além de ir passar pelo primeiro turno, precisa ter “voto novo” quando tiver de enfrentar um postulante da direita, às vezes com novos apoios, no segundo turno.

No momento, os eleitores de centro, aqueles que observam mais racionalmente o processo político, não definiram inteiramente em quem vão votar. Até porque esperam a definição das candidaturas.

A tendência, agora, é que os eleitores de centro estejam mais próximos de Vanderlan Cardoso e de Sandro Mabel. Mas, se perceberem que Adriana Accorsi, mesmo sendo petista, é moderada, praticamente de centro-esquerda, podem, ao menos em parte, apoiá-la.

Falta experiência administrativa a Adriana Accorsi? Falta. Mas, como tem experiência política e forte ligação com o presidente Lula da Silva, pode acabar sendo vista como alguém capaz de gerir Goiânia.

Vanderlan Cardoso e Sandro Mabel, dos nomes colocados, são o que mais têm experiência administrativa. Ao mesmo tempo, são políticos experimentados.

Levantamento do instituto Opção Pesquisas

Vale um registro sobre o levantamento do instituto Opção Pesquisas que mostrou Sandro Mabel com quase 10% das intenções de voto. Parece pouco? Não é.

Na verdade, para quem recém-entrou na disputa pela Prefeitura de Goiânia, é um percentual positivo — até altamente positivo. Por três motivos.

Primeiro, porque o mostra chegando aos dois dígitos — portanto, começa a criar expectativa de poder. Segundo, porque os líderes (Adriana Accorsi, Gustavo Gayer e Vanderlan Cardoso) não chegam a 25% das intenções de votos, apesar de que seus nomes estão colocados no palco da disputa há mais tempo. Terceiro, a ascensão de Mabel parece que está travando Vanderlan Cardoso.

Ou seja, e se trata de uma hipótese, e não de uma tese, Sandro Mabel — com a imensa rede de apoios ao seu dispor —, tende (frise-se: tende) a se aproximar ainda mais de Vanderlan Cardoso, com a possibilidade de superá-lo.

Se superar Vanderlan Cardoso — sublinhe-se que a diferença entre eles não é muito grande —, Sandro Mabel se aproximará de Adriana Accorsi e Gustavo Gayer.

A tendência, portanto, é uma polarização entre a esquerda, Adriana Accorsi, e a centro-direita, Sandro Mabel (ou Vanderlan Cardoso). Tendência… Porque, a rigor, o quadro está tão aberto que qualquer um pode ser eleito.