Desconexão entre Iris Rezende e jovens pode refletir nas urnas em 2020

Reduzir o número de veículos das ruas, com incentivo ao uso do transporte público, não faz parte do repertório do prefeito, um gestor que puxa Goiânia pra trás e não pra frente

A repórter Ana Luíza Andrade, do Jornal Opção, saiu às ruas recentemente com o objetivo de ouvir jovens universitários — todos com menos de 30 anos — e publicou a reportagem “A voz das ruas — Jovens de Goiânia dão nota 4,5 e reprovam gestão do prefeito Iris Rezende”. A conclusão é a seguinte: há um descompasso entre a ação do prefeito, um conservador a-ideológico, e o ideário da juventude. Curiosamente, nenhum dos garotos apresentou discursos radicais e ideológicos-partidários.

A pauta de Iris Rezende é a mesma de sempre. Nos dois primeiros anos, afirma ter ajustado a máquina pública e, paralelamente, fez caixa para investir em 2019 e 2020. Sua tese é a mais tradicional possível: se os dois últimos anos de uma gestão forem “bons”, os eleitores esquecem, quando votam, os dois primeiros anos “ruins”.

Prefeito Iris Rezende: fisicamente, está no século 21; em termos de mentalidade, “trafega” entre os séculos 19 e a década de 1960 do século 20 | Foto: Divulgação

Mas o que é bom para Iris Rezende pode não ser bom para a maioria dos goianienses — ou pelo menos para os jovens. O prefeito preocupa-se com a construção de obras de grande visibilidade — como viaduto e trincheira. Na sua perspectiva, tais obras o consagram como administrador ou “obreiro”, quer dizer, como aquele administrador que “realiza”, que “faz”.

Os jovens discordam do prefeito e chegam a apontar que sua idade — quase 86 anos — como empecilho para entender os clamores da juventude. No Parque Vaca Brava há uma placa sugerindo que há wi-fi. A placa é bem-feita, mas a repórter, mesmo com extrema boa vontade e paciência, não conseguiu acesso livre, proporcionado pela prefeitura. Goiânia, sob Iris Rezende, está, do ponto de vista do setor público, desplugada da internet. Um auxiliar do alcaide admite: “Iris não tem muito interesse no assunto, até porque não acessa redes sociais, como Twitter e Facebook, e não se interessa por WhatsApp”. O emedebista é o que se pode denominar de um ser desconectado. Por falta de informação, o administrador municipal pode até imaginar que internet é frivolidade — mero lazer —, mas é um equívoco. Enquanto se divertem, em companhia de filhos e amigos, homens e mulheres podem pagar contas, fazer compras, se informar e até mesmo trabalhar, via internet, a partir de uma praça pública.

A Prefeitura de Aparecida de Goiânia, administrada pelo jovem Gustavo Mendanha, é o oposto da prefeitura da capital. O emedebista da cidade conurbada a Goiânia é moderno e está tornando a máquina pública do município que gere numa das mais modernas do Estado. Pode-se dizer que, enquanto Iris Rezende permanece no século 20 — pré-informática —, Gustavo Mendanha é um homem de seu tempo, o século 21. Os dois estão fisicamente no século 21, mas o gestor de Goiânia vive no passado e o gestor de Aparecida vive no presente e está de olho no futuro.

Frise-se que o problema de Iris Rezende não é a idade, e sim a mentalidade. O ex-governador Irapuan Costa Junior fará 82 anos em dezembro, mas é um homem moderno e atento aos fatos da contemporaneidade. Há pouco tempo, traduziu um alentado livro do filósofo britânico Herbert Spencer, escreve livros e publica artigos em jornais. Não só. Assumiu a Secretaria de Segurança Pública, no governo de José Eliton, e fez um trabalho considerado meritório pela Polícia Civil, pela Polícia Militar e pela sociedade. Recentemente, mudou-se para Portugal, e o objetivo é instruir-se, cada vez mais. Ele pretendia escrever um livro sobre o escritor americano Jack London, mas arquivou o projeto, por enquanto, pois pretende biografar uma grande figura da história de Portugal. A rigor, é um homem de ideias e, diferentemente de Iris Rezende, não é prisioneiro do passado.

Os 18 jovens ouvidos pela repórter notaram que Iris Rezende não tem uma política de comunicação que dialogue com a juventude. A Prefeitura de Goiânia gasta muito dinheiro com comunicação — mesmo tendo pouco o que mostrar —, mas seus formuladores parecem avaliar que não precisa abrir conversação com os jovens, talvez acreditando que os pais fazem a sua cabeça. Não fazem mais. Na verdade, mergulhados no mundo digital e com uma formação cultural multifacetada, os jovens, embora ainda recebam orientação de familiares, acolhem milhares de influências alheias ao círculo de seus lares. Eles vivem num mundo no qual Iris Rezende e os autores de sua política de comunicação não adentram. Do ponto de vista da interação comunicacional, e certamente terá influência eleitoral, é um desastre. Pode-se sugerir, portanto, que Iris Rezende não “entra” nas cabeças dos jovens — assim como os jovens não “entram” na cabeça de Iris Rezende. Não há sintonia alguma. As urnas de 2020 — se o prefeito for candidato à reeleição — dirão quem tem razão: se o alcaide ou a garotada.

Os jovens não estão, ao contrário do que parecem pensar Iris Rezende e seus epígonos, preocupados com futilidades. Querem se divertir, é claro e é justo. Por isso reclamam que a prefeitura não proporciona espaços para lazer. Observe-se que, para andar de patins, garotos usam o espaço do Centro Cultural Oscar Niemeyer e o espaço do Parque Marcos Veiga Jardim, atrás do Autódromo de Goiânia, para se divertir. Nenhum desses locais tem ligação com a Prefeitura de Goiânia. O prefeito, por certo, parece avaliar que isto não tem importância. Entretanto, ao menos para os jovens, tem.

Em São Paulo, aos domingos, a Avenida Paulista, a Meca dos bancos, é dos cidadãos. Tornou-se um espaço de convivência. Os motoristas são proibidos de circular e as pessoas tomam os espaços, cantam, dançam. Se divertem. A rua se torna, então, um grande parque — belo, colorido e diversificado. Iris Rezende faria o mesmo em Goiânia? Possivelmente, não. Porque, repetindo, não tem conexão alguma com os jovens. O prefeito se recusa a aceitar que “obra” pode ir muito além do físico e permanente.

Observe-se que na reportagem os jovens cobram mais iluminação pública nas ruas de Goiânia. Porque querem mais segurança. Mas as ruas da cidades estão escuras e, também, esburacadas.

Goiânia poderia ter VLT no Eixo Anhanguera? Com Iris Rezende como prefeito, jamais. O prefeito não tem interesse sequer num fundo para o transporte coletivo

Iris Rezende poderá dizer que segurança pública não é um problema municipal. Pode até não ser constitucionalmente, mas prefeitos comprometidos com os moradores de suas cidades precisam ter preocupação com segurança. Nos Estados Unidos, as prefeituras zelam pela segurança de seus munícipes. Em Goiás, há prefeitos de cidades muito mais pobres do que Goiânia — não dá como compará-las — e que, mesmo assim, colaboram para melhorar a segurança. Há alguns que criam até bancos de horas para fortalecer as polícias. Há outros que fornecem alimentação para presos e apoiam fortemente o delegado de polícia. Na capital, embora seja a cidade que mais tem recursos do Estado, o emedebista não move uma palha para melhorar a segurança. Guardas municipais, por exemplo, poderiam monitorar as praças públicas, mas não o fazem ou raramente o fazem. Policiais militares eventualmente aparecem para investigar alguma coisa que poderia ser resolvida pela guarda municipal.

Os jovens reclamam que a saúde pública de Goiânia é precária. A reclamação não tem a ver com as unidades do Estado — como Hugo, Hugol, HGG, HDT, Materno-Infantil (sacrificado pela deficiência dos postos de saúde) e Crer —, que são, no geral, de qualidade. O problema são os postos de saúde, que estão abandonados. No lugar de construir “apenas” viadutos e trincheiras — a obsessão do alcaide —, Iris Rezende poderia aparelhar todos os postos de saúde, comprar medicamentos e contratar médicos. Na sexta-feira, 31, Cláudio, motorista da Uber, disse ao Jornal Opção que levou seu irmão a um posto de saúde, mas não havia médicos nem medicamentos. Noutro posto, havia médico, que não conseguia atender a multidão. Com a pressão altíssima, o homem quase morreu, dada a demora no atendimento. Recentemente, duas crianças morreram devido a atendimento precário nos postos de saúde, o que acaba sobrecarregando o Hospital Materno-Infantil, que, embora eficiente, não consegue atender a demanda. Cláudio, dono de um Renault Sandero, acrescenta que Goiânia “é a rainha dos buracos”. “Não acredito que alguém tenha coragem de bancar Iris para prefeito mais uma vez”, sublinha. O motorista tem 47 anos, mora em Goiânia e tem um imóvel em Aparecida. “Aparecida, sim, é uma cidade bem administrada.”

Semáforos inteligentes? Não é a preocupação do prefeito de Goiânia, Iris Rezende

Obras para melhorar o trânsito são necessárias. Mas há uma obsessão em facilitar a vida dos motoristas de automóveis, e não em melhorar o sistema público de transporte. Quanto mais facilidades a prefeitura cria para motoristas de carros menores — nos quais circula, muitas vezes, tão-somente uma pessoa —, mais as ruas ficam congestionadas, o que gera novas demandas por obras de infraestrutura. Políticas para retirar veículos das ruas, com o consequente incentivo ao uso do transporte público, não fazem parte do repertório de Iris Rezende — um gestor que puxa Goiânia para trás e não a empurra para frente. Colocar um sistema de semáforos “inteligentes” é, aparentemente, outra ideia que não passa pela cabeça do prefeito, que merece ser chamado de alcaide — cada vez mais.

Iris Rezende encamparia a defesa para se criar um fundo do transporte para Goiânia? É provável que não. O fundo poderia, além de manter a tarifa com preços mais acessíveis, proporcionar às empresas uma frota de veículos mais novos. O transporte público da maioria dos países desenvolvidos funciona bem porque há um fundo que banca sua estrutura básica.

Antes de pensar em obras e mais obras, caríssimas — o que gera um endividamento brutal a médio e longo prazo —, o prefeito Iris Rezende deveria pensar no bem-estar dos goianienses, o que inclui saúde, educação e transporte público, sem falar da segurança, funcionando bem. Você, leitor, já ouviu Iris Rezende falando de saúde e educação com conhecimento de causa e algum interesse?

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