Crise nas direitas e nas esquerdas pode levar o centro político ao poder em 2022

Direitas têm três nomes para a disputa: Bolsonaro, Witzel e Moro. Esquerdas apostam em Rui Costa e Ciro Gomes. O centro vai com João Doria

A próxima eleição para presidente da República será disputada daqui a três anos — em outubro de 2022. Entretanto, por incrível que pareça, a pré-campanha já está nas ruas ou nos jornais. Um dos motivos é que o presidente Jair Messias Bolsonaro, do PSL, comporta-se como, desde já, candidato. Aliás, tem dito que deve disputar a reeleição — o que motiva forte contencioso político em sua própria base. Estão com os nomes e blocos nas ruas os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e da Bahia, Rui Costa (PT), além do indefectível Ciro Gomes (PDT) e do apresentador de televisão Luciano Huck (este, talvez, um novo Fernando Collor). Eles concedem entrevistas e articulam como se fossem candidatos para amanhã.

Em 2018, dada a radicalização política, não houve espaço para o centro político. Daí a disputa ter ocorrido entre o PT de Fernando Haddad e o PSL de Bolsonaro. Nem mesmo Ciro Gomes, de centro-esquerda, teve qualquer chance, mesmo tendo contado com parte da esquerda que se decepcionara com o PT de Lula da Silva. A polarização atraiu os eleitores para Haddad e Bolsonaro. Os dois se exigiam e eram exigidos pelos eleitores. Quem não queria mais o PT no poder, por causa da corrupção e do desgaste do governo de Dilma Rousseff, bancou Bolsonaro — menos por ser de direita e mais por representar o anti-lulopetismo. Em 2019, quase um ano depois das eleições e com nove meses do governo de Bolsonaro, o quadro político está relativamente mudado — com novos atores no palco da política nacional.

Ciro Gomes, Rui Costa e João Doria: os dois primeiros são os nomes das esquerdas para 2022 e o terceiro representa o centro político

João Doria e o centro político

João Doria governa São Paulo, que, a rigor, é um “país” — e um dos mais ricos do mundo. Dependendo de como governar, poderá ser um exemplo para todos os brasileiros. Se for bem, com a mídia divulgando suas ações — a imprensa do país ainda é, em larga medida, tributária dos jornais de São Paulo e, eventualmente, do Rio de Janeiro —, se tornará um player nacional. Na verdade, ainda não é um player de todo o país, e sim de São Paulo, mas, insistindo, os políticos da região mais rica acabam repercutindo em todos os Estados.

O espaço ampliado para João Doria tem a ver com o fato de governar São Paulo, mas não só. O gestor da terra de Mário Covas está mais forte menos pelo que está fazendo, e mais, muito mais, porque representa o centro político. A maioria dos eleitores trocou o radicalismo da esquerda, o PT, pelo radicalismo da direita, Bolsonaro. Mas, segundo a mais recente pesquisa do Ibope, não está inteiramente satisfeita com sua escolha. Daí que ressurgiu o centro político, representado, neste momento — não se sabe em 2022 —, por João Doria.

Como não se ganha eleição sem alianças — sobretudo quando não se é representante de grupos polarizados —, João Doria está costurando possibilidades político-eleitorais com o DEM do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e com o prefeito de Salvador, ACM Neto. Rodrigo Maia poderia ser o postulante a vice-presidente, mas, apesar do “apreço” da imprensa, a Lava Jato está nos seus calcanhares. A alternativa pode ser Antônio Carlos Magalhães Neto, que, além de ser gestor eficiente, representa o Nordeste (a região, em 2018, contribuiu para a ascensão de Fernando Haddad). O objetivo do político de São Paulo é reforçar a aliança entre o centro e parte da direita — criando uma coalizão de centro-direita.

O “drummond” no meio do caminho de João Doria pode ser Luciano Huck, também de centro-direita, mas talvez mais popular.

Depois de experimentar dois radicalismos — um, o de esquerda, deu errado; e o de direita, com Bolsonaro, não vai muito bem —, os eleitores podem, mais uma vez, optar pelo caminho do “meio”, como fez ao hipotecar apoio ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em duas eleições — em 1994 e 1998.

Os eleitores, mesmo os que experimentaram extremismos nos últimos pleitos — a rigor, o PT, se é de esquerda, não é de extrema esquerda e, em alguns Estados, aproxima-se do centro —, não se interessam pelo debate ideológico, que, dizem, “não enche barriga”. Eles cobram, basicamente, seis coisas: mais consumo (estabilidade e segurança no consumo, ou seja, quer comprar e, depois, ter como pagar as dívidas), mais empregos (sobretudo diversificados), ataque frontal à corrução, combate à violência, saúde acessível e de relativa qualidade e educação que permita aos filhos chegarem à universidade. Como os extremismos erraram nas seis questões — Bolsonaro ainda tem chance de acertar porque está no governo há apenas nove meses —, o centro pode ser testado mais uma vez. Trata-se, de alguma maneira, de se reinventar o novo Fernando Henrique Cardoso.

Porém, se o centro está se reagrupando, depois de demolido pela esquerda e pela direita em 2018, as esquerdas e as direitas estão com problemas.

Rui Costa e Ciro Gomes

As esquerdas se dividiram em 2018. Por não aceitar a hegemonia do PT, que não aceita o plano secundário no estabelecimento das alianças, foram para a disputa contra Bolsonaro com dois candidatos — Fernando Haddad e Ciro Gomes. Além de perderem, se agrediram durante a campanha. Em 2022, não se sabe ainda como se comportarão, porque certamente vai depender do governo Bolsonaro. Se o governo estiver muito bem, com um candidato forte, é possível que as esquerdas se reagrupem — talvez apoiando Ciro Gomes ou Cid Gomes, com, digamos, Rui Costa, do PT, na vice. Difícil a montagem? Sim, porque, se Bolsonaro estiver enfraquecido, o PT tende a lançar candidato, com o objetivo de assegurar a hegemonia e tentando subordinar, mais uma vez, outros grupos da esquerda, como o PC do B e, quem sabe, o PSB. Se Bolsonaro estiver bem, com a possibilidade de ser reeleito, as esquerdas devem reunir-se em torno de um petista ou de um pedetista.

Sergio Moro, Wilson Witzel e Jair Bolsonaro: as três apostas das direitas para a disputa eleitoral da Presidência da República em 2022 | Foto: Reproduções

Bolsonaro e Witzel

Há uma nova questão. Se as direitas caminharam unidas em 2018, o que fez o eleitor pensar na existência de uma só direita — ainda que a maioria não leve em consideração a ideologização esquerda versus direita versus centro —, em 2022, a se avaliar pelo quadro atual, as direitas estarão divididas.

Bolsonaro não é mais unanimidade e sua base política está amplamente dividida. O governador Wilson Witzel comporta-se como candidato a presidente da República. Afirma que está moralizando o Rio de Janeiro e combatendo o crime organizado de maneira frontal, apesar dos chamados “efeitos colaterais”, como a morte da menina Ágatha Félix. Mais: mesmo governador de um Estado com vários problemas, está confrontando Bolsonaro de maneira direta, tanto que um filho do presidente está lutando para retirar os integrantes do PSL de seu governo.

Recentemente, Witzel disse que Bolsonaro não tem liderança e afirmou que a recuperação lenta da economia se deve à falta de medidas adequadas. O que o governador percebeu é que, se Bolsonaro falhar, ainda restará espaço para a direita, talvez uma direita que perca menos tempo com o debate ideológico e seja mais proativa em termos de governabilidade. Sua tese é mais ou menos a seguinte: um possível fracasso de Bolsonaro não será necessariamente da direita, e sim do próprio Bolsonaro. Daí ele tentaria capitalizar o discurso da direita, sobretudo a que aposta no combate à violência e ao crime organizado. Noutras palavras, se for candidato a presidente, poderá se apresentar como o “novo”, e não como um liderado por Bolsonaro, que seria, daqui a três anos, o “velho”.

Entretanto, com dois (ou três) candidatos a presidente, repetindo a esquerda em 2018, as direitas têm chance de manter o poder? Não dá para saber, mas é provável que, divididas, as direitas perderão espaço tanto para as esquerdas quanto para o centro.

Sergio Moro: hors concours?

Há, por fim, o ministro da Justiça, Sergio Fernando Moro. O ex-juiz de Direito pode ser o fiel da balança em 2022.

Por ser popular, pela imagem de Robespierre dos trópicos, por seu combate sistemático à corrupção (ao atacá-lo, a esquerda só perde possíveis eleitores), Sergio Moro é a figura mais popular do governo de Bolsonaro — muito acima do presidente. Tanto que, por perceber sua grandeza, em termos de popularidade, Bolsonaro às vezes tenta esvaziá-lo, ainda que não possa, por cálculo político, defenestrá-lo.

Bolsonaro é inculto, em termos de cultura letrada, mas é inteligente e perspicaz. Por isso sabe que Sergio Moro, pendendo para seu lado em 2022, como vice-presidente ou mesmo só apoiador, poderá ser decisivo. João Doria, articulador hábil, tenta se aproximar do ministro da Justiça — o que irrita Bolsonaro — exatamente porque percebe sua possível força eleitoral.

Sergio Moro, se candidato a presidente, se associar o combate à corrupção à perspectiva de dias melhores para todos — consumo na linha de frente —, pode até não ser imbatível. Mas será um candidato considerável, fortíssimo. Bolsonaro e João Doria sabem disso. Por isso, o primeiro o mantém ao lado, tentando não deixá-lo crescer ainda mais — “segurando” suas propostas de combate mais rigoroso à corrupção — e o segundo quer atrai-lo.

Para governar, embora diga o contrário, Bolsonaro aproximou-se da “velha” política. E esta tenta cercar Sergio Moro, tentando esvaziá-lo, porque teme que, se eleito presidente, se torne mais duro do que Bolsonaro. Sem as amarras que estão colocando, para evitar que caia ainda mais nas graças da sociedade, Sergio Moro hoje estaria sendo cotado para ser até “rei” do Brasil. Intelectuais e juristas — até ministro do Supremo Tribunal Federal — brada contra Sergio Moro, principalmente depois das revelações da Vaza-Jato, mas a população permanece ao lado do ministro. Pensa-se o seguinte: para combater a corrupção, que é articulada por gente muito poderosa — que está no poder há décadas, em quaisquer governos —, é preciso usar meios heterodoxos, “misturando” tanto procuradores do Ministério Público Federal, como Deltan Dallagnol, quanto magistrados, como Sergio Moro. Ademais, ao atropelar parcialmente as leis, Sergio Moro e Deltan Dallagnol não se corromperam financeiramente. Queira-se ou não, é como a sociedade entende a ação do ex-juiz e do procurador.

Sergio Moro ainda não se definiu como político — e, ao dizer que se tornou político, a esquerda, longe de prejudicá-lo, reforça sua popularidade (é o tradicional tiro pela culatra). Mas tem uma vantagem: a rigor, está mais próximo da direita, mas é visto como não sendo necessariamente da direita, quer dizer, pode agradar tanto a direita quanto o centro.

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