Antonio Lavareda diz que as pesquisas não estão erradas quando mostram Lula da Silva em primeiro lugar, mas postula que Bolsonaro pode ter eleitores “ocultos” 

Por que Lula da Silva aparece com 45% (Ipespe) e 48% (Datafolha) e o presidente Jair Bolsonaro aparece bem atrás? No Datafolha, a diferença entre os pré-candidatos do PT e do PL é de 21 pontos percentuais. No levantamento da XP/Ipespe a diferença é de 11%. Noutras pesquisas, o chefe do Executivo aparece colado no petista-chefe.

Há manipulação ou não? O presidente do conselho do Ipespe, o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, sugere que “não”.

Numa entrevista à jornalista Daniela Pinheiro, do UOL, Lavareda diz que, “tanto na pesquisa do Ipespe quanto na do Datafolha, todos os resultados estão dentro da margem de erro, de uma com a outra. Menos Bolsonaro. Lula tem 45% no Ipespe e 48% no Datafolha. A margem de erro de uma é 3 e da outra é 2, e dentro de um intervalo de 5 é tudo igual. O mesmo para os outros candidatos. A única diferença está na alienação potencial. Então, minha hipótese é de que há um voto oculto em Bolsonaro que a pesquisa do Datafolha não apanhou. Porque tudo bate, menos a taxa de indecisão de alienação e o voto do Bolsonaro”.

Jair Bolsonaro, presidente da República: combate à pandemia é considerado um desastre político-eleitoral para o líder da direita no Brasil | Foto: Reprodução

Tudo indica que há um voto “envergonhado” em Bolsonaro? Por causa da pandemia — o governo federal demorou a atacá-la de frente —, da linguagem grosseira do presidente e da crise econômica, muitos eleitores até querem votar em Bolsonaro, mas relutam em revelar o voto publicamente? Lavareda diz que o voto “envergonhado” no presidente é um fato. “Ele existe e fica mais claro em pesquisas feitas pessoalmente do que por telefone. O Datafolha fala com gente na rua, é alguém abordando alguém cara a cara, pode haver um constrangimento na hora da resposta. A nossa [do Ipespe] é feita por telefone e isso tem duas vantagens: atinge mais pessoas de classe média e alta que não estão andando na rua e porque não há esse constrangimento. No telefone, fica-se à vontade para dizer: ‘Sim, isso é péssimo’. No cara a cara, essa insatisfação pode aparecer como o ‘regular’.”

Sobre a credibilidade das pesquisas (e dos institutos), Lavareda apresenta uma ideia que merece debate, até por sua pertinência: “As pesquisas eleitorais não são nada menos do que pesquisas de opinião quantitativa por amostragem. O erro — e os institutos e a imprensa têm culpa nisso — é que, durante muito tempo, vendeu-se que as pesquisas eram prognósticos de resultados eleitorais. E as pesquisas de intenção de voto apenas medem intenções. Intenções não são atitudes. E o voto em si, efetivamente, é um comportamento. A única pesquisa capaz de revelar uma atitude, um comportamento, é a boca de urna”. O cientista político sublinha que, “entre as intenções manifestadas nas pesquisas e o comportamento dos eleitores na urna, há a influência de uma série de fatores”.

“A imprensa convenceu o público de que as pesquisas eram prognósticos, como se fossem antecipações dos resultados das eleições. E os institutos ficaram calados e foram omissos em relação a isso porque era bom para a imagem de todos”, assinala Lavareda. O que o cientista político diz é grave, mas jornalistas e responsáveis pelos institutos de pesquisas não querem discutir a questão. Apresentadas quase que como resultados, as pesquisas são decisivas para impedir, por exemplo, o crescimento de um candidato da terceira via, como Ciro Gomes, do PDT, e Simone Tebet, do MDB. Há eleitores que, como não querem “perder” seus votos, escolhem aqueles que estão mais bem avaliados pelas pesquisas. Por vezes, deixam de votar em candidatos que consideram qualificados, mas que julgam que não têm chance alguma de vencer o pleito.

Eleitores, assim como jornalistas e políticos, quando conferem uma pesquisa de intenção de voto correm logo para verificar os percentuais dos candidatos. O jornalista logo faz o título: “Lula da Silva tem 46 e Bolsonaro tem 30”. A informação é correta, mas imprecisa. Lavareda, provocado por Daniela Pinheiro, ensina o que os eleitores devem fazer para entender melhor o quadro eleitoral. Ele afirma que os eleitores devem tentar “relacionar as várias informações que aparecem nas pesquisas. Que nunca olhem apenas os resultados de questões estimuladas do primeiro turno ou do segundo. Que olhem o que diz o voto espontâneo. É isso que importa. Que olhem o que a população diz serem os maiores problemas do país”.

Lula da Silva (na foto com Geraldo Alckmin): o pré-candidato do PT tem de convencer os eleitores a votar no dia 2 de outubro | Foto: AFP

Sergio Moro aparecia nas pesquisas com 7% a 9%. “As pessoas se surpreendiam. Mas quem prestasse atenção no conjunto de informações das pesquisas ia ver o baixo desempenho lá. Em toda pesquisa aparecia que a população considerava como prioridades para o próximo governo as questões econômicas. Combate à corrupção estava lá no final. Então, Moro, que tinha isso como marca principal, era carta do baralho. Nunca foi surpresa para mim”, analisa Lavareda.

Porém há mais a dizer. Primeiro, 9% não é um número tão ruim para uma pessoa que nunca disputou uma eleição. Segundo, se o voto útil se faz presente, parte dos eleitores está “dizendo” que quer derrotar Lula da Silva e a outra parte está “declarando” quer que derrotar Bolsonaro. A polarização impede o crescimento de um nome alternativo, mesmo que o político — e, a rigor, nem político Sergio Moro é — seja respeitado. Terceiro, o ex-magistrado começou a ser bombardeado por duas militâncias nas redes sociais — a do postulante do PT e a do postulante do PL. Como não tem militância, não há quem o defenda. O mesmo aconteceu com o ex-governador de São Paulo João Doria, que é apontado como um gestor acima da média, mas acabou por ser destroçado pelos bolsonaristas, sobretudo nas redes sociais.

O voto útil, que Lavareda chama de “voto estratégico”, ainda prevalece nas eleições. “Para evitar desperdiçar o voto, o eleitor, vendo que sua primeira preferência não tem chance efetiva de vitória, vota em alguém para derrotar o candidato que mais rejeita. Isso é uma variável relevante.” Por certo, é o que impede a ascensão de Ciro Gomes, do PDT, e de Simone Tebet, do MDB. E a segunda surgiu como pré-candidata depois da consolidação de Lula da Silva e Bolsonaro.

Lavareda sustenta que existe no Brasil uma “alienação eleitoral”. “Nas últimas pesquisas do Datafolha, aparecem 11% que dizem votar ‘em nenhum, branco, nulo e não sabe’. Chamemos isso de alienação. Vamos dizer que esse que ‘não sabe’ não vai saber nunca. No Ipespe, na última pesquisa sobre isso, tivemos 5%. Então, 11 e 5. Sabe qual a chance da alienação ser 11 ou ser 5% na urnas? Nenhuma. A alienação vai ser muito maior que na eleição passada, que já foi alta: 27% no primeiro turno e 28% no segundo”. 40 milhões não votaram na eleição passada.

O que o cientista político está dizendo é sério. As pesquisas não são manipuladas, mas não estão capturando aqueles eleitores que, de uma maneira ou de outra, vão se alijar da disputa de 2022. Os questionários dos institutos não deveriam ser mais precisos e amplos a respeito da questão? Como a pesquisa é de intenção de voto, ou seja, quantitativa, é provável que seja praticamente impossível aferir com precisão o que os eleitores realmente pensam. Diríamos que a objetividade da pesquisa não consegue captar a subjetividade do eleitorado.

Para o postulante do PT, de acordo com a análise de Lavareda, há uma má notícia: “Provavelmente, Lula perderá mais eleitores para a alienação do que Bolsonaro. Daí a importância para a campanha dele fazer um esforço de convocação de seus eleitores”. A abstenção em 2022 deverá ser tão alta quanto a de 2018. Ou até superior.

Eleições críticas ou normais?

Lavareda sugere que as eleições de 2022, ao contrário da disputa de 2018, “serão ‘normais’, que é quando se tem o enfrentamento das forças tradicionais, os protagonistas estão no xadrez da política, fazem coligações, ambos com partidos fortes, com representação parlamentar, com fundo partidário, tempo na TV”. O comentário é pertinente. Mas é possível uma variante, não dita pelo cientista político: a eleição de 2022 vai ser uma guerra. O grupo de Bolsonaro vai fazer o possível para não sair do poder, então atacará, abaixo da linha de cintura, seu principal oponente. Lula da Silva, para tentar conquistar o poder, terá de responder à altura. Então, a disputa será uma carnificina verbal e espera-se que não seja também física, com embates nas ruas. Depois da eleição, no caso de vitória do petista, não se sabe o que acontecerá, mas certamente haverá algum tipo de conflagração. O bolsonarismo possivelmente não deixará o poder sem contestar o resultado das eleições. Tanto que criou um “cenário” para isto ao enfatizar que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas — o que nunca foi comprovado, mas muita gente acredita nesta fake news.

Antonio Lavareda, cientista político e diretor do Ipespe | Foto: Youtube

No Brasil, ressalta Lavareda, quem decide as eleições são as “maiorias: as mulheres, os pobres, a população do Sudeste, os maiores de 60 anos”.

A escolha de Geraldo Alckmin para vice de Lula da Silva foi, na opinião de Lavareda, “ideológica”. “Desde 2012, o Brasil emite sinais de que caminha para a direita. É uma chapa [Lula da Silva-Alckmin] cheia de simbolismos. É ele quem vai estabilizar as preferências que Lula tem no espectro de centro-direita, ele pode sinalizar algo para o mercado, simboliza a união de dois grandes adversários. Na eleição de 2006, eles tiveram, juntos, quase 90% dos votos dos eleitores.”

O bolsonarismo não estava “escondido”, ao contrário do que alguns pensam. O voto conservador estava representado “desde 1989, pelos malufistas, por quem votou em [Fernando] Collor. Mesmo nas eleições de 1994, estava representado na coligação do PSDB com o PFL. Sabe qual foi a votação pela continuidade do regime do Maluf? 27%. Esse percentual sempre aparece por aí. Inclusive, foi o último percentual atribuído a Jair Bolsonaro na pesquisa Datafolha. Então essa direita sempre houve, mas foi potencializada”.

Lavareda não menciona, mas, com o bolsonarismo, a direita ganhou uma militância ativa, aguerrida e altamente participativa nas ruas e nas redes sociais. A militância era, antes do bolsonarismo, mais de esquerda, notadamente petista.

As redes sociais, na opinião de Lavareda, “são mais impactantes em momentos de ruptura do sistema político, nas eleições ‘críticas’, como a de 2018. Em 2022, o peso das redes vai ser muito menor do que em 2018 porque essas serão eleições ‘normais’”. É possível que o cientista político esteja certo. Mas ainda não dá para saber como será o comportamento do petismo, do bolsonarismo e de outras correntes políticas nas redes sociais. Pode até ser que tenham menos influência, mas tendem a ser ferozes. Pode-se perceber, neste momento, que as redes estão “esquentando” e vão “esquentar” ainda mais na campanha. Podem ser decisivas? Podem influenciar sobretudo os eleitores indecisos. Há quem, como Lavareda, postule que o tema “corrupção” não terá peso decisivo na campanha deste ano. Mas depende de que como a questão será apresentada aos eleitores. Pode ser que mexa com alguma coisa digamos “inconsciente” e acabe por influenciar a disputa.

Lavareda afirma que “quem elege presidente é a fórmula do [filósofo] Ortega y Gasset: as circunstâncias. Dificilmente alguém será eleito contra as circunstâncias. O maior adversário de Jair Bolsonaro não é Luiz Inácio Lula da Silva. São a circunstâncias que se contrapõem a ele neste momento”.

A situação do presidente é difícil. “O país” está “saindo da pandemia e seu governo desaprovado por larga margem devido à sua atuação a pandemia”, diz Lavareda. E há a fome, a inflação, a violência e o desemprego. “Bolsonaro perdeu a grande oportunidade de se reeleger, a despeito de quaisquer dificuldades econômicas do país, quando não conseguiu liderar o país no enfrentamento à Covid. Se ele tivesse feito isso, as pessoas seriam mais tolerantes com ele. Líderes de direita que enfrentaram a pandemia ao lado da população tiveram retribuição.”

Veja-se o caso do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. O líder do União Brasil é de direita (mas, liberal, não é de extrema-direita), mas, na pandemia, comportou-se como humanista, cuidando das pessoas com extremo zero. Rapidamente, montou UTIs em todo o Estado e contribuiu para salvar milhares de vidas. A partir de certo momento, alinhou-se aos cientistas e especialistas goianos — muitos deles da Universidade Federal de Goiás —, ouvindo-os cuidadosamente.

Ao se postar ao lado da ciência, Ronaldo Caiado ficou, acima de tudo, ao lado da vida. Ao contrário de Bolsonaro, o político goiano aparece em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto.

Bolsonaro debochou da ciência, propôs o uso de medicamentos irrelevantes, criticou o uso de máscara, demorou a se decidir pela aquisição imediata de vacinas — o país teve sorte de contar com o arrojo do ex-governador de São Paulo João Doria, que decidiu adquirir vacinas —, sem perceber que a vida é uma só, porque não tem estepe. Morreram mais de 669 mil pessoas — mais do que durante a Guerra Civil Americana, uma das mais cruentas do século 19 — de Covid-19 e suas complicações. É certo que, no início da pandemia, ainda sem a vacina, muitas mortes não poderiam ter sido evitadas. Mas, se a vacinação tivesse começado mais cedo, de maneira ampla, é possível que menos pessoas tivessem morrido. O presidente, em determinados momentos, parece mais amigo da “velha senhora”, a da foice, do que dos brasileiros.