O filósofo José Arthur Giannotti (1930-2021), um dos maiores estudiosos do marxismo e da obra de Ludwig Wittgenstein, escreveu que o jornal “Folha de S. Paulo” praticava a “ética do deslize”.

Grosso modo, é mais ou menos o seguinte: para o jornal paulista, nada presta; então, tudo deve ser denunciado como “errado” ou “deslize”.

Talvez o que se pratica hoje é a “ética do mau humor” ou a “ética da má vontade”. Com receio de parecerem róseos, não críticos, jornais colocam seus jornalistas para criticarem todos os políticos do mesmo modo, como se todos fossem iguais.

Recentemente, César Tralli e Renata Vasconcellos estiveram em Pirenópolis, cidade do Estado de Goiás, e entrevistaram numa praça pública, simulacro da Ágora grega, várias pessoas.

Os entrevistados deram seus recados, apresentaram propostas para melhorar o Brasil. Os jornalistas foram embora e, de lá, foram para outras paragens.

César Tralli e Renata Vasconcelos não visitaram o hospital Cora e o Crer. O Cora é exemplar no tratamento de câncer. O Crer é exemplar na recuperação de acidentados. São acertos relevantes de dois adversários políticos, Ronaldo Caiado e Marconi Perillo

A impressão que se tem é que a Globo está fazendo apenas algo midiático, com o objetivo de sugerir que está ouvindo os brasileiros e em todos os Estados. Talvez ajude na audiência. Mas em que mesmo leva a algum esclarecimento real sobre as coisas do Brasil profundo, que a Globo raramente cobre, exceto como folclore e assuntos policiais?

César Tralli e Renata Vasconcellos estiveram em Goiás, como se fossem jatos, e nada expuseram sobre o que se fez e se faz no Estado. Por que a economia de Goiás cresce mais do que a do país? Por que não explicar a riqueza do agronegócio? Por que focar no “futuro” e esquecer o “presente”?

Por que a segurança de Goiás é superior à de outros Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia? Ah, a polícia é dura, violenta? Por que não esmiuçar a questão? A polícia da Bahia é tida como muito violenta; porém, por que o problema da segurança lá não foi equacionado como no Estado do Centro-Oeste? Não há só dois, e sim múltiplos Brasis. É preciso “cobri-los” em sua diversidade.

Por que não especificar bem, com distinções amplas, as diferenças entre os Estados e os políticos, e sempre mostrando o que se faz, e não apenas o que não se faz?

Instituições respeitadas apontam que a educação de Goiás é uma das melhores do país. César Tralli e Renata Vasconcellos ouviram pais e alunos e visitaram alguns colégios para verificar, pessoalmente — e não baseados em “análises” meramente ideológicas, raramente factuais e documentadas — o que está acontecendo? Não fizeram nada disso.

César Tralli e Renata Vasconcelos não visitaram o hospital Cora (construído pelo ex-governador Ronaldo Caiado) e o Crer (edificado pelo ex-governador Marconi Perillo). O Cora é exemplar no tratamento de câncer. O Crer é exemplar na recuperação de acidentados. São acertos relevantes de dois adversários políticos.

Percebe-se, cada vez mais, que o jornalismo da Globo está se tornando um apêndice do “Fantástico”. Está se espetacularizando tudo. Busca-se mais o espetáculo, aquilo que vai causar, do que os fatos em si. O excesso prevalece, e não a contenção

O Cora e o Crer são modelos para o país. Por que não exibi-los? Por que não mostrar o que pensam as pessoas que usam (ou tiveram parentes que usam) as duas unidades de saúde?

(Em alguns países, repórteres acompanham grupos de indivíduos, durante meses e até anos, e depois publicam reportagens amplas. Hoje, o jornalista comparece a uma unidade como o Cora e o Crer, de excelente qualidade, e faz matérias apressadas que nada dizem — exceto o óbvio.)

O que se percebe é que, de alguma maneira, o jornalismo da Globo está se tornando um apêndice do “Fantástico”. Quer dizer: está espetacularizando tudo. Busca-se mais o espetáculo, aquilo que vai causar, do que os fatos em si.

Então, o que se faz de positivo não é visto nas telas de televisão — só o que é negativo, ou supostamente negativo.

Quando se adota a “ética do deslize” como regra, fixada pelo “manual de redação”, nada do que mulheres e homens fazem presta. Sempre há defeitos “incontornáveis”.

Mas por que se adota a “ética do deslize” como “norma”? Porque, como todo mundo é patrulhado — pelo maquinário de guerra que se tornaram as redes sociais (com suas mensagens plantadas por gabinetes do ódio regiamente pagos) —, editores e repórteres receiam que os leitores tachem o jornalismo de “acrítico”, de não “independente”, de não “imparcial”.

Ser crítico, para o jornalismo atual, é afirmar que nada presta. Esta é a moda. Então, quando um meio de comunicação de outros países, como “New York Times”, “The Economist” ou BBC, reconhece acertos dos brasileiros, no agronegócio, por exemplo, todos repercutem. À beira do ufanismo.

Não deixa de estranho que o Brasil está sempre à procura de ser redescoberto. Fica-se com a impressão de que se está à espera de um novo Pedro Álvares Cabral e seu escriba, Pero Vaz de Caminha, para dizer que alguma coisa no país vale a pena. A validação continua sendo externa. Porque persiste a cultura de metrópole versus colônia.

A Globo é o Centrão do jornalismo. Por isso, não lhe agrada nem Lula da Silva nem Flávio Bolsonaro. Como não acredita que há uma terceira via que possa derrotar o petista e o integrante do PL, adotou uma posição “crítica”, sinônimo de equidistância

Como é que não funciona um país, com todos os seus problemas, que é a décima maior economia do mundo (independente há 204 anos)? Como deu certo uma nação que tem um agronegócio poderoso, universidades de alta qualidade, uma indústria produtiva e com avanços consideráveis na área de tecnologia? Um país que tem Machado de Assis, Clarice Lispector, Yêda Schmaltz, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Angélica Freitas e Ana Maria Gonçalves deu errado? Não. Deu certíssimo.

Mas falar mal do Brasil é o “esporte” preferido dos brasileiros, que, por certo, repetem o que sai nos jornais, na televisão e nas redes sociais. Jornais e tevês deveriam explicar por quais motivos, apesar do anúncio de que está tudo “errado”, o Brasil está crescendo e até reduzindo a pobreza.

(Há uma crise econômica? Há, por certo, uma crise cíclica do capitalismo, a “velha” e sempre “nova” destruição criativa tão vulgarizada por Joseph Schumpeter. Setores do varejo estão se tornando, quem sabe, obsoletos. E isto tem praticamente nada a ver com governos.)

Entretanto, o “acerto” raramente está na ordem do dia. Só o erro é grande notícia.

Chegou o momento de perguntar, ao modo dos gregos, como Sócrates: existe mesmo jornalismo independente, imparcial?

Nunca existiu jornalismo independente e imparcial. Talvez exista no Céu, onde Deus, dizem, é o editor supremo.

Jornalismo independente é mito. Jornalistas que professam a tese mudam de ideia quando perdem o emprego, eventualmente por falta de independência do jornalismo.

De algum modo, jornalistas — e até o público ledor — enche a boca, com imenso “prazer”, ao dizerem que fazem jornalismo independente. Não fazem. Ninguém faz. Há sempre simpatias e interesses que, de cara, acabam com a imparcialidade.

O que se deve cobrar dos jornais é outra coisa: que sejam o mais objetivo possível. Que ouçam com cuidado as fontes e abram espaço para o contraditório. Dito isto, os jornais têm o direito, posicionando-se, de expor suas simpatias. Jornais dos Estados Unidos, para ficar num exemplo, escancaram seus apoios durante as eleições.

Pode-se dizer que a TV Globo, “O Globo”, o “Estadão” e a “Folha de S. Paulo” estão a serviço de um candidato? Há quem acredite que o Grupo Globo aposta em Flávio Bolsonaro e por isso critica o presidente Lula da Silva. Não é o que parece. Porque também critica o filho de Jair Bolsonaro.

É fato que a Globo apoiou Fernando Collor, em 1989, e Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, nos pleitos de 1994 e 1998. Posicionou-se contra Lula da Silva, do PT. Porém, em 2026, parece não apoiar nenhum dos candidatos — talvez porque não aprove nenhum dos postulantes que estão polarizados, ou seja, Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

A Globo é o Centrão do jornalismo. Por isso, não lhe agrada nem Lula da Silva nem Flávio Bolsonaro. Como não acredita que há uma força da terceira via que possa derrotar o petista e o integrante do PL, adotou a tal posição “crítica” — a “ética do deslize”. Crítica, no caso, seria quase sinônimo de equidistância.

“Vamos pegar no pé de todo mundo porque assim a sociedade verá que somos independentes.” Parece ser a “ética” da Globo.

O “Estadão” começou entusiasmado com Flávio Bolsonaro, por causa de sua tradição de apoiar candidatos de direita. A ligação do candidato a presidente pelo PL com Daniel Vorcaro, do Banco Master, parece ter assustado o “udenismo lacerdista” de “O Estado de S. Paulo”. A “Folha de S. Paulo”, que sempre foi entusiasmada com os tucanos, ficou órfã dado o descenso do PSDB.

A Globo tenta acuar os candidatos. Mas eles escapam e dizem o que os eleitores precisam ouvir. Questões técnicas, como a reforma tributária, precisam de um tempo quase infinito, não de um ou dois minutos. Por isso políticos falam de maneira genérica

O objetivo das entrevistas da Globo é mesmo levar informações relevantes ou, por meio de “pegadinhas”, demolir candidatos e indicar que nenhum presta?

Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Lula da Silva são candidatos a presidente. Portanto, devem explicações aos eleitores. Mas devem responder ao “figurino” — ao enquadramento — da Globo ou devem se apresentar e dizer o que já fizeram na vida, como gestores ou não?

Não se está dizendo que César Tralli e Renata Vasconcelos fizeram perguntas ruins e inadequadas ou são mal-intencionados. Nada disso. Eles são jornalistas excelentes.

O que se está dizendo é que os candidatos vão às entrevistas para se apresentarem ao país, e nem sempre a pauta deles é a da Globo. Eles são candidatos. Não são jornalistas e tampouco postulantes ao cargo de ministro da Fazenda.

Como “estagiários” do jornalismo de César Tralli e Renata Vasconcellos, foram mal. Como candidatos, foram bem. Se apresentaram, disseram o que pensam. Não agradaram jornalistas, que influenciam as pessoas, inclusive especialistas, mas deram seu recado.

Romeu Zema e Ronaldo Caiado foram bem, repitamos, como candidatos. Renan Santos parece confuso. No geral os entrevistados — este Editorial foi escrito antes das entrevistas de Lula da Silva e Flávio Bolsonaro — deram seu recado. Acrescente-se que 40 minutos na Globo, a maior rede de comunicação do país, equivale a um prêmio acumulado da Megasena.

O formato da Globo, com pauta engessada, às vezes tenta pautar e acuar os candidatos. Mas, habilmente, eles escapam e falam aquilo que os eleitores precisam ouvir. Questões altamente técnicas, como a reforma tributária, precisam de um tempo quase infinito, não de um ou dois minutos. Sabendo disso, os políticos falam de maneira mais genérica. Por quê? Porque conhecem como o eleitorado pensa e age; afinal, alguns deles disputam eleições há vários anos.

Como não conseguem “enquadrar” os candidatos, o jornalismo em geral, e não apenas o da Globo, cria uma narrativa forte de que foram mal, de que fugiram das perguntas etc.

Fica-se a pensar: o que José Arthur Giannotti, um filósofo brilhantíssimo, diria sobre o jornalismo hoje? Claro, não é possível saber. Mas talvez dissesse que a “ética do deslize” está cada vez mais “refinada” e que pouco se percebe o Brasil real.