Caiado agiu com realismo ao indicar Cristiane Schmidt para a Secretaria da Fazenda

O czar da economia no futuro governo de Bolsonaro, Paulo Guedes, sabe que a recuperação da economia, com a expansão do crescimento, depende da recuperação das finanças dos governos estaduais

Ronaldo Caiado, governador eleito de Goiás, Cristiane Schmidt, próxima secretária da Fazenda de Goiás, e Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda: conexão com o governo federal deve favorecer a recuperação fiscal do governo de Goiás

Há vários tipos de gestores. Há os gastadores, como Dilma Rousseff, que não pensam nas consequências para a sociedade. Há os que cortam custos. Há os que cortam custos e, mesmo assim, investem. Os que gastam em excesso, sem a preocupação com os custos para a sociedade, acabam inviabilizando o país de maneira global. Certas crises são geradas mais pelo Estado, com sua falta de economia e gastos ineficazes, do que pelo mercado (claro que também há crises geradas pelo mercado, como a dos Estados Unidos, no governo de Barack Obama, quando o Estado foi convocado para salvar a livre iniciativa). O problema é que as empresas quebram e, muitas vezes, não conseguem dar a volta por cima. Os governos, pelo contrário, quebram e, mesmo assim, conseguem financiamentos para seguir adiante. É uma das contradições do mundo real.

Quando se faz a transição de um governo para o outro, a tendência é que o novo, se de oposição ao anterior, cristalize a imagem de terra arrasada. Goiás tem problemas, mas sua situação não se compara à do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, administrados por emedebistas, e Minas Gerais, gerido por um petista. Os três Estados são, no momento, inviáveis e estão sendo socorridos pela União. Um dos motivos é a concentração de recursos no governo federal, mas, no caso do trio, deve-se acrescentar que uma das principais causas é a má gestão. Já Goiás, graças em parte a economistas como Simão Cirineu — que, de tão duro, era chamado de “Cirinão” — e Ana Carla Abrão, o quadro é menos dramático. Contra a sanha dos gastadores, os ex-secretários da Fazenda recomendaram cautela, pressionaram e conseguiram ser ouvidos, o que prova a importância dos indivíduos na história.

A ação de Cirinão e de Madame Nao (sim, sem acento, numa referência à mulher de Mao Tsé-tung — Madame Mao, mas, de fato, queriam sugerir que, ante o pedido de gastos, estava sempre a dizer “não”), como chamavam Ana Carla Abrão nos bastidores, manteve um certo controle da máquina. Entretanto, pressões corporativas dos segmentos organizados do funcionalismo colaboraram por um certo descontrole da folha (assunto, por sinal, que ninguém quer discutir — tal a força eleitoral dos servidores). Pode-se dizer que, em parte, o governo de Goiás, como outros país afora, trabalha para, mensalmente, pagar seus funcionários. É possível sugerir que não houve um descalabro fiscal, oriundo, por vezes, de um desenvolvimentismo desembestado, da estirpe do “pensado” pela dupla Dilma Rousseff e Guido Mantega.

O governador eleito de Goiás, Ronaldo Caiado, integrante de um partido liberal, o DEM, não receberá um Estado Shangri-la. Nenhum Estado — nem o Espírito Santo, o queridinho de parte da Imprensa patropi — é Shangri-la. Não há mundo perfeito. Não há indivíduos — homens comuns, políticos e gestores — perfeitos. O mundo é sempre o mundo possível. Mas pode-se agir para melhorá-lo ou piorá-lo.

Político de rara decência, e professando o liberalismo, Ronaldo Caiado tende a ser considerado, como Paulo Guedes, o futuro ministro da Fazenda do governo de Jair Bolsonaro, como um monetarista — um “técnico” de Chicago no Cerrado. Ocorre que, se um economista pode ser puramente monetarista, um governador, ainda que incorpore ideias monetaristas, como um Estado mais enxuto, tende a combinar ajustes na máquina com investimentos sociais. O governante “sente” mais as agruras do povão e sabe, dada a proximidade com as pessoas de carne e ossos e não apenas com estatísticas, que as gerações ditas perdidas não conseguem se manter e precisam do amparo do Estado. Não só. Há áreas em que, para criar certo equilíbrio, o Estado tem o dever de intervir. Educação e saúde, sem o dedo do Estado e se ficar subordinada unicamente ao mercado, tendem a ser áreas, em vez de inclusivas, excludentes. Mesmo um liberal, como Ronaldo Caiado, sabe que o gasto com o social — além do pesado investimento em segurança pública — é imperativo. Não dá para contorná-lo. Mas é preciso torná-lo mais produtivo. A Bolsa Universitária, com porta de entrada e de saída, é um programa social de valor. Porque é limitado, ao ter uma saída, e porque prepara seu beneficiário para a sociedade e para o mercado. Dificilmente o beneficiário da Bolsa Universitária voltará a depender do Estado.

Porém, ante o que se pode nominar de gerações perdidas, a Bolsa Família é necessária, até vital. Mas urge adaptá-la a um programa tanto de educação, para os filhos dos beneficiários, quanto de educação profissional para os pais. Difícil? Sempre é. Só não é impossível.

Para investir mais em saúde, educação e segurança pública, áreas dispendiosas mas cruciais, o governo de Ronaldo Caiado deverá fazer ajustes duros em outras áreas e precisa de uma profunda conexão com o governo federal e, inclusive, com outros Estados — notadamente os mais próximos. Brasília, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins deveriam pensar seu sistema de saúde de maneira unificada. Raros pacientes saem de Goiás para se tratar em São Paulo — exceto se tiver dinheiro para serem examinados por médicos dos hospitais Sírio-Libanês, Albert Einstein, Incor e Beneficência Portuguesa. Mas centenas trafegam entre os Estados que são próximos — em busca de tratamento de qualidade. Tais pessoas devem ser vistas como brasileiras — não meramente como “goianas”, “sul-mato-grossenses” ou “brasilienses”. Há um Sistema Único de Saúde, com defeitos e virtudes. Ronaldo Caiado parece disposto a trabalhar, de maneira conectada, tanto com a União quanto com os Estados.

O crime organizado só pode ser desorganizado se os Estados agirem em comunhão com o governo federal. Criminosos altamente preparados não podem ser combatidos por polícias estaduais mal armadas e, às vezes, despreparadas. Uma aliança entre os Estados, articulada pela União, talvez consiga acuar o crime organizado, que hoje atua em várias áreas, como o narcotráfico, o roubo de cargas e de fundos financeiros “protegidos” por empresas de segurança e vigilância. Estados que atuarem sozinhos não vão conseguir combater os militantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), entre outras facções. Os grupos criminosos estão preparados para a guerra urbana, usam táticas de guerrilhas, e estão ganhando o jogo, e exatamente porque são combatidos, de maneira esporádica, por forças dispersas que não se unem e não trocam informações. Ligar-se fortemente ao governo federal, sem deixar de conectar-se aos governos estaduais — com serviços de Inteligência e combate eficientes —, é fundamental. Estados que agirem de maneira isolada só vão conseguir desperdiçar recursos.

Ao contrário de outros governantes, Jair Bolsonaro está traçando uma política de forte ligação com os Estados. Ronaldo Caiado percebeu isto com nitidez.

Ao nomear os primeiros secretários, Ronaldo Caiado agradou alguns, os que querem uma modernização da máquina pública, e desagradou às figuras tradicionais da política. Disseram, nos bastidores, que o líder do Democratas se elegeu com um grupo e vai governar com outro. O primado dos técnicos, acima dos políticos, choca alguns. Mas a tese de Ronaldo Caiado parece correta. O que ele quer é que o dinheiro público seja mais bem usado e se torne mais produtivo para a sociedade. Técnicos sem compromissos com esquemas tradicionais, que existem em praticamente quase todos os partidos, podem desagradar setores do emedebismo e de outros grupos, mas tendem a ser mais benfazejos para a sociedade. A Saneago é um foco de problemas — antes do presidente Jalles Fontoura, que pôs ordem na casa — e o governador eleito, sabendo disso, trouxe um técnico de outro Estado. O objetivo é desmontar um tipo de máquina que opera na companhia de água de modo quase autônomo, em quaisquer governos. Um técnico de fora, que não deve satisfações às elites locais, tem condições de ser mais duro e de frear os malfeitos.

Observe-se que, em áreas estratégicas, Ronaldo Caiado colocou integrantes do que já estão chamando de Legião Estrangeira. A ordem é explícita: trabalhar muito, organizar o Estado, não roubar e não deixar roubar. É possível que alguns aliados — poucos, certamente — pensem que, vitoriosos, têm de tirar proveito do Estado. Não é o que pensa Ronaldo Caiado. Quem pensar diferente dele, atenção!, caia fora antes mesmo da posse em 1º de janeiro de 2019. Governos são máquinas de produzir corruptos, mesmo quando o titular é decente. A diferença é que o gestor eleito pelo DEM não hesitará em demitir gestores, de primeiro, segundo e último escalões, que se comportarem de maneira não republicana.

Como governante, Ronaldo Caiado vai se comportar, é o que tem dito, como representante da sociedade — do povo — e não de grupos. Quem aceitar cargos, de proa ou não, deve pensar nisto. Há uma nova mentalidade em curso e, possivelmente, alguns políticos, notadamente os que mais criticam os técnicos, não acreditem na sua hegemonia.

A indicação da economista Cristiane Schmidt, de sobrenome alemão, para a Secretaria da Fazenda de Goiás sinaliza, por ela ser ligada a Paulo Guedes, que Ronaldo Caiado quer manter sincronia total com as políticas de austeridade do governo federal. A recuperação fiscal de Goiás depende, em larga escala, de um relacionamento estreito com o governo de Jair Bolsonaro. A jovem Cristiane Schmidt — que dizem ser mais “dura” do que Ana Carla Abrão, da estirpe de Maria Silvia Bastos Marques, a ex-presidente do BNDES — sabe, como poucos, como é que funciona a economia real. Gastou mais do que arrecada? Resultado: Estado falido. Quatro anos parece pouco tempo, mas são suficientes para uma política fiscal austera e eficiente. A especialista não terá apenas portas abertas em Brasília. Ela apresentará um programa factível de recuperação, tornando o governo mais produtivo para a sociedade e menos dispendioso para o país (a crise do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais afeta, na verdade, todo o país, não apenas os três Estados. A economia é mais integrada do que parece. Se um Estado vai mal, e pode ser um ente federativo de menor PIB, toda a economia é afetada).

“Ajustar as finanças não é um fim, mas um meio para dar à população melhores serviços públicos. Agir no social com responsabilidade, para poder dar perenidade aos serviços públicos depois. O governador quer fazer uma boa gestão em termos de serviços públicos. Por isso temos de arrumar as finanças agora. É urgente”, frisa, com precisão, Cristiane Schmidt. A futura titular da Sefaz acrescenta: “Os Estados estão unidos e comprometidos em ajustar as finanças com a intenção de melhorar os serviços públicos à população. Esta é a ideia, que tem o total apoio do governo federal, que entende que os Estados estão com problemas financeiros. Não há dinheiro no caixa para implementar boas políticas públicas, contudo. Este é um problema real. É fato. Por isso o ajuste fiscal é imprescindível e o governo federal entende que as finanças de Goiás não estão boas. Estamos herdando um grande problema”. Busca-se, pois, o equilíbrio fiscal.

Paulo Guedes tem razão ao perceber não há como recuperar o país, com taxas de crescimento superiores a 3% a 5%, sem recuperar as finanças dos Estados. Mas não se recupera as economias estaduais unicamente passando mais dinheiro. Daí que, ao mesmo tempo que se repassará recursos, o governo de Bolsonaro vai cobrar mais responsabilidade fiscal dos Estados. Ao nomear Cristiane Schmidt para secretária da Fazenda, Ronaldo Caiado sugere que está entendendo, até mais do que alguns de seus aliados, o recado da realidade. Organizar para crescer e distribuir, de maneira adequada, os resultados do crescimento — aquilo que se chama desenvolvimento —, eis a meta dos novos governos, o federal e o estadual.

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