Brasileira de 15 anos estuda em escola pública e é campeã em olimpíada de Matemática na China

A matematlética Adrieny Teixeira conquistou a medalha de ouro em Matemática. É uma craque, como Gabigol

O Brasil calçou chuteiras e vestiu a camisa rubro-negra no dia que, derrotando o River Plate por 2 a 1 – em dois minutos –, o Flamengo sagrou-se campeão da Copa Libertadores. O time carioca conseguiu um casamento perfeito entre o talento de alguns jogadores – os adeptos do futebol-arte – e a ação produtiva de todos. O Fla joga bonito, mas sobretudo é um time que ganha jogos e, por isso, é campeão – inclusive do Brasileirão, por antecipação. O atleta brasileiro é tido como avesso às combinações tático-estratégicas dos técnicos. Pois o português Jorge Jesus – bisneto de uma brasileira – conseguiu provar que não é bem assim. O time de Gabigol e Bruno Henrique – que jogou no Goiás – conecta, à perfeição, táticas e estratégia.

No jogo contra o River Plate, o Flamengo perdia até os 44 minutos do segundo tempo. Mas o time não desistiu, nem mostrou desespero. Continuou jogando com aplicação e determinação táticas. A mídia trata os gols de Gabigol, um atacante excepcional, como unicamente dele. Porque, sim, o artilheiro empurrou a bola para as redes dos argentinos. Mas resultaram, na verdade, de triangulações perfeitas de um time que jogava e atacava mais (só faltava finalização), demonstrando ser incansável e taticamente bem formado. Aproveitando-se do cansaço dos jogadores do River Plate – que, a rigor, já se consideravam campeões da Libertadores –, o Fla fez dois gols, em dois minutos, e provou que o planejamento tático, quando bem absorvido por todos os jogadores, funciona.

Adrieny Teixeira: a única mulher a ganhar a medalha de ouro na olimpíada de Matemática da China | Foto: Facebook do Colégio Pedro II

Os flamenguistas (e os brasileiros em geral, inclusive os torcedores do Santos e do Goiás – que fazem boa campanha) têm razão em comemorar com fervor. O Flamengo é um dos melhores times do planeta – mesmo se não ganhar o Mundial de Clubes.

Para explicar a razão de o Flamengo ter se tornado um time vencedor, o Editorial poderia se estender e discutir o fato de que o clube está sendo bem administrado administrativa e financeiramente. Mas agora é o momento de trocar de tema, ainda que, na verdade, estejam interligados. O futebol é, mais do que o Carnaval, o principal símbolo do Brasil – e de um Brasil que deu certo. Fala-se de Pelé até hoje e Neymar é uma referência esportiva transnacional.

A Gabigol da Matemática

Adrieny Teixeira, adolescente de 15 anos, estuda o 9º ano no Colégio Pedro II – uma escola pública – e mora em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Aficionada por Matemática, decidiu participar da World  Mathematics Team Championship, na China, disputando com estudantes da China, Austrália, Filipinas, Malásia e Bulgária. A adolescente é tímida, mas não se intimidou. Fez os testes rapidamente, e conquistou a medalha de ouro na olimpíada de Matemática. Os repórteres Audryn Karolyne e Diego Amorim, de “O Globo”, frisam que “foi a única mulher brasileira e da categoria avançada (para menores de 20 anos) a ganhar um ouro”. A “matematleta” disputou com concorrentes inclusive um pouco mais velhos do que ela. Deixou todos para trás.

“A prova foi de um nível muito elevado, mas eu me esforcei, me dediquei e cheguei lá. Eu consegui um bom resultado, meus amigos também, então a gente trouxe um bom resultado para o Brasil”, diz Adrieny Teixeira – sem se considerar a Gabigol da matemática mundial. A olimpíada, realizada em Pequim, consistiu de “provas individuais, de revezamento e em grupo”. Entre o inglês e o mandarim, os brasileiros optaram pelo primeiro – espécie de esperanto “que deu certo”. O professor Ivail Muniz assinala que, “além de gostarem de matemática”, os alunos “também são talentosos”. Os estudantes tinham um minuto para resolver cada questão e saíram-se muito bem.

Adrieny Teixeira e a mãe, Janaína dos Santos | Foto: Guilherme Pinto/Agência O Globo

João Victor de Andrade faturou uma medalha de prata – feito igualmente difícil. Na China, concentrado nas provas, João, um garoto, pensava também noutra questão: como assistir o jogo entre o Flamengo, seu time do coração, e o River Plate, da Argentina, pela Copa Libertadores? Não foi fácil, pois a televisão local não exibia a partida e a conexão da internet não era lá essas coisas. Mas o jovem não se deu por vencido. “Recorreu a uma amiga, que conseguiu uma transmissão através do WeChat, uma espécie de WhatsApp chinês”, conta “O Globo”. “Em 24 horas, o Flamengo ganhou dois títulos, eu visitei a Muralha da China e ainda ganhei uma medalha”, diz, contente, João.

Outros estudantes também foram premiados – provando a excelência da Matemática do Colégio Pedro II. Mérito dos alunos e, ao mesmo tempo, dos professores e da escola.

A Matemática é decisiva na modernização tecnológica de qualquer país (na Ásia, é uma obsessão), mas no Brasil os experts na disciplina têm dificuldades financeiras para participar de competições internacionais. Alunos do Colégio Pedro II foram convidados para a Olimpíada Internacional de Matemática da Ásia (Aimo), em Taiwan. Por falta de dinheiro, não puderam ir. Para a outra olimpíada, para não perdê-la, os “matematletas” foram à luta, quer dizer, atrás de verba. Foram craques até nisto.

Sem apoio oficial os meninos do colégio – público, insista-se – comercializaram palhas italianas, brigadeiros e bolos. Depois, informa “O Globo”, “criaram uma vaquinha virtual que arrecadou R$ 14.845 na web. Os estudantes também receberam como doação uma camisa assinada pelo treinador e ex-jogador de vôlei Bernardinho, com a qual fizeram uma rifa. Outra forma de conseguir dinheiro foi dar aulas particulares a colegas de classe”. Conseguiram a grana e foram para a China – preparados e esperançosos. Voltaram felizes e certos de que, com a Matemática afiada, entrarão numa boa universidade brasileira ou estrangeira (há universidades americanas, por exemplo, que procuram talentos em matemática e oferecem bolsas de estudos).

A escola pública é vista como um patinho feio. Mas, se bem gerida, com atenção redobrada ao ensino que é ministrado, como ocorre no Colégio Pedro II, é possível obter uma educação de qualidade.

Em Goiás, por exemplo, há escolas públicas bem melhores do que outras. O conteúdo é o mesmo, mas o planejamento eficaz das unidades – e inclusive a questão da disciplina e o fato de que os professores não faltam – melhora a qualidade do ensino. Quando se fala em educação pública, comenta-se logo que os salários dos professores são baixos – o que, no geral, é verdadeiro – e que os alunos, em geral pobres, eventualmente de classe média, não recebem formação adequada. O fato é que a escola pública está melhorando, e não se está dizendo isto exclusivamente por causa da vitória dos brasileiros nas olimpíadas de Matemática da China. Há uma forte consciência, cada vez mais acentuada, de que é preciso investir e melhorar a escola pública. Pode-se sugerir que aí está o maior programa social de quaisquer governos – estaduais, municipais e federal.

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